Contos Traduzidos — “Os Artefatos de Issahar”

Não deve ser difícil escrever uma história sobre um astronauta solitário e perdido ou criar um mistério arqueológico. Mas juntar os dois enredos banais em um conto com densidade psicológica é algo mais complicado. Um autor obscuro, Jesse Bone,  conseguiu o feito e o resultado é Os Artefatos de Issahar. Publicado originalmente em 1960 na Amazing Science Fiction Stories, esse conto é o que sobrou do diário de um biólogo-espaçonauta que acaba naufragando em um planeta desconhecido, porém surpreendentemente acolhedor e aparentemente sem vida.

Mas como era de se esperar em um planeta onde um ser humano pode sobreviver, a ausência de vida está apenas nas aparências. Ou será que o suposto ser vivo ameaçador não seria uma criação da mente de alguém “incomensuravelmente perdido”? O que quer que seja, aquilo que foi escrito na tentativa desesperada de aliviar uma paranoia crescente acaba se transformando na maior relíquia arqueológica para os seres daquele planeta misterioso. Sem saber, nosso anônimo astronauta acaba se tornando um deus.

>Contos Traduzidos: “As duas faces de Hargraves”

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Todo mundo sabe que um ator pode ser alguém que tem duas caras ou até mesmo dois escrúpulos. A princípio, essa é a situação do desconhecido ator Henry Hopkings Hargraves diante de seus colegas de pensão em Washington. Quem mais desconfia dele, porém, é o Major Pendleton Talbot, a figura mais exótica da pensão de Ms. Vardeman. No entanto, Mr. Hargraves adora aquele velho senhor do Alabama, cheio de Anedotas e Reminiscências. Tanto que, no momento em que Talbot mais precisa de ajuda — embora seu orgulho sulista não o admita — é Hargraves quem lhe estende a mão. Nem que, para isso, ele tenha que mostrar sua outra face.
As duas faces de Hargraves é o retrato do confronto ente duas éticas conflitantes: a do jovem artista urbano e a do velho escravocrata rural. Este conto de O. Henry é o protótipo do estilo do autor. Trata-se de uma observação aguda da sociedade americana de sua época, com muita ironia, muito wit e, acima de tudo, cheia de reviravoltas. 
Esta tradução, enriquecida com notas e perfis biográficos do autor e deste tradutor, está disponível para leitura e download no Google Docs.

>Mini-Holmes

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Com apenas 503 palavras (em inglês e 469 nesta tradução que eu fiz), o conto a seguir é a mais curta história de Sherlock Holmes escrita por Arthur Conan Doyle (1859-1930). O miniconto foi feito para ser publicado em um minilivro de 1,5 polegada [3,81 cm] de altura e que seria parte da biblioteca de uma casa de bonecas da Rainha Mary (1867-1953), esposa de George V (1865-1936, regnabat 1910-1936):

Como Watson aprendeu o truque
Watson estava observando intensamente seu companheiro desde que ele havia se sentado à mesa do café-da-manhã. Casualmente, Holmes levantou seus olhos e viu-o:
— Bem, Watson, você está pensando no quê?
— Em você.
— Em mim?
— Sim, Holmes. Pensava em quão superficiais são esses seus truques e como é incrível que o público continue a mostrar interesse neles.
— Eu concordo deveras. De fato, me lembro de uma vez em que fiz uma observação similar.
— Seus métodos  disse Watson secamente  se adquirem com muita facilidade.
— Sem dúvida 
 Holmes respondeu com um sorriso . Talvez você mesmo queira dar um exemplo desse método de raciocínio.
— Com prazer. Eu sou capaz de dizer que você estava bastante preocupado quando acordou hoje cedo.
— Excelente!  exclamou Holmes  E como pôde saber disso?
— Porque você geralmente é um homem muito organizado, mas até agora se esqueceu de fazer a barba.
— Meu caro! Quanta sagacidade! Eu não tinha ideia, Watson, de que você seria tão bom aluno. Seus olhos de águia detectaram algo mais?
— Sim, Holmes. Você tem um cliente chamado Barlow e não tem sido bem-sucedido nesse caso.
— Meu caro, como você percebeu isso?
— Eu vi o nome fora do envelope. Quando você o abriu, soltou um gemido e guardou-o no bolso com o cenho franzido.
— Admirável! Você é mesmo um bom observador. Tem mais algum ponto?
— Eu receio, Holmes, que você esteja envolvido em alguma especulação financeira.
— Como pode afirmar isso, Watson?
— Você abriu o jornal, pulou para a página de finanças e soltou uma exclamação de interesse em voz alta.
— Bem, isso é muito sagaz de sua parte, Watson. Algo mais?
— Sim, Holmes. Você vestiu seu casaco preto e não o seu robe, o que significa que você está esperando alguma visita importante.
— Nada mais?
— Eu não tenho dúvida de que poderia apresentar outros pontos, Holmes. Mas só lhe dou esses poucos para mostrar-lhe que há outras pessoas no mundo que são tão espertas quanto você.
— E algumas nem tanto. Eu admito que são poucas, mas receio, meu caro Watson, que eu não devo contar você entre elas.
— O que quer dizer, Holmes?
— Bem, meu caro colega, receio que suas deduções não sejam tão felizes quanto eu gostaria.
— Quer dizer que estou enganado?
— É mais ou menos isso, eu acho. Vamos por as coisas em ordem: eu não fiz a barba porque mandei a lâmina para ser afiada; vesti meu casaco em lugar do robe porque, por azar, tenho um encontro matutino com o dentista. O nome dele é Barlow e a carta veio para confirmar o compromisso. A página de críquete fica bem ao lado da financeira e eu procurava saber se Surrey ainda está à frente de Kent. Mas vá em frente, Watson, vá em frente! É um truque bastante superficial e sem dúvida você irá adquiri-lo logo.

J.M. Barrie (1860-1937; autor de Peter Pan), Thomas Hardy (1840-1928; “o último dos grandes vitorianos”), Rudyard Kipling (1865-1936; Nobel de Literatura em 1907) e Somerset Maugham (1874-1965) também contribuíram com minivolumes para a minibiblioteca real, que ainda está em exposição no Castelo de Windsor. Socialista e irlandês, George Bernard Shaw (1856-1950) recusou o convite para participar dessa brincadeira lítero-real.

>O Otimismo de Dickens

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Em certa ocasião, Charles Dickens discutia sua teoria de que quaisquer que fossem as provas e as dificuldades da estrada da vida, sempre haveria algo pelo qual um homem deveria ser grato. “Permita-me prová-lo com uma história”, pediu Dickens, acrescentando que “Dois homens estavam para ser enforcados em Newgate após serem condenados por assassinato. A manhã chegara; a hora final se aproximava: o sino [da Igreja] do Santo Sepulcro começou a dobrar, os condenados foram enfileirados, a procissão se formou e avançava para o momento fatal. As cordas foram enlaçadas nos pescoços dos pobres homens. Havia milhares de assistentes de ambos os sexos, de todas as idades; homens, mulheres e crianças diante do patíbulo. Então, de súbito, um touro que estava sendo conduzido a Smithfield partiu sua corda, e, balançando seus chifres para lá e para cá, jogava as pessoas por todos os lados. Diante disso, um dos condendados, voltando-se para seu companheiro igualmente desafortunado, observou: ‘Viu, Jack, que bom que não estamos na multidão!’” — J. B. Mc Clure, Entertaining Anecdotes from Every Source Avaiable [Anedotas Divertidas, de todas as fontes disponíveis], 1880

>Um emplastro

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A estória sobre o Dr. Abernethy e uma paciente é clássica. Ele era um homem de poucas palavras e a moça sabia disso. Ao entrar no consultório, ela mostrou-lhe o braço nu e disse, simplesmente, “Queima”.

“Um emplastro.”, disse o doutror.

No dia seguinte, ela apareceu novamente, mostrou-lhe o braço e disse: “Melhorou.”
“Continue com o emplastro.”
Alguns dias se passaram antes que Dr. Abernathy a visse novamente. Então, ela disse: “Bem, quanto devo?”
“Nada”, disse o médico, numa explosão de loquacidade incomum. “Você é a mulher mais sensível que eu já encontrei em toda a minha vida!”
– William Shepard Walsh, Handy-Book of Literary Curiosities [Manual de Curiosidades Literárias], 1892

Esse causo é um oferecimento de:
“Um remédio para remediar o vício em remédios”.
À venda nas melhores pharmacias d’além e d’aquém-túmulo.

>Os Biscoitos de Douglas Adams

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O conto a seguir, escrito por Douglas Adams, não chega a ser propriamente um conto. É mais um causo do autor. No entanto, Adams conta uma experiência ao mesmo tempo banal e surreal que teve numa estação de trem — um lugar tipicamente britânico — do mesmo modo mochilesco que narra as (des)venturas de Arthur Dent em sua obra máxima, O Guia do Mochileiro das Galáxias.  

The Salmon of Doubt, a obra de onde foi extraído o já famoso conto/causo, é um livro póstumo que reúne relatos pessoais — como Biscoitos, que inspirou um episódio semelhante em Até Mais e Obrigado Pelos Peixes —, ensaios sobre tecnologia e rascunhos para a continuação de The Long Dark Tea-Time of the Soul [lit., A Longa e Escura Hora do Chá da Alma]. Como muitos fãs, Adams também não se sentia confortável com Praticamente Inofensiva, o quinto e último livro da série Hitchhiker’s Guide. Ele achava que a continuação de Dark Tea-Time poderia ser transformada em um sexto e definitivo final para o Guia. Infelizmente, Douglas Adams morreu de ataque cardíaco em 2001, deixando essa história toda com um final totalmente sem graça.
 

Biscoitos

Isso realmente aconteceu com uma pessoa de verdade e a pessoa de verdade era eu. Eu havia saído para pegar um trem. Era abril de 1976, em Cambridge, Reino Unido. Eu estava um pouco adiantado para o trem. Eu havia conseguido o horário errado do trem.

Então, eu fui arranjar um jornal para eu fazer as palavras-cruzadas, e uma xícara de café e um pacote de biscoitos. Eu fui e me sentei numa mesa.

Eu quero que você pinte a cena. É muito importante que você tenha isso bem claro em sua mente.

Aqui está a mesa, o jornal, o café, o pacote de biscoitos. Tem um cara sentado do lado oposto, um cara de aparência perfeitamente normal, vestindo um terno executivo e carregando uma pasta.

Não parecia que ele fosse fazer alguma coisa estranha. O que ele fez foi isto: subitamente, ele esticou-se, pegou o pacote de biscoitos, abriu-o, tirou um biscoito e comeu-o.

Agora, devo dizer, esse é o tipo de coisa com a qual os Britânicos não lidam muito bem. Não há nada em nossa tradição, nosso hábito ou nossa educação que diga como você deve tratar alguém que, em plena luz do dia, acaba de roubar seus biscoitos.

Você sabe o que teria acontecido se fosse em South Central Los Angeles. Rapidamente, haveria uma troca de tiros, os helicópteros viriam, a CNN, você sabe… Mas no fim, eu fiz o que qualquer Britânico com brios faria: eu o ignorei. E voltei os olhos para o jornal, tomei um gole de café, tentei completar uma palavra, não consegui fazer nada e pensei, o que vou fazer?

Enfim, pensei, não foi nada, vou deixar passar. Tentei com bastante dificuldade deixar de notar o fato de que o pacote já estava misteriosamente aberto. Eu peguei um biscoito para mim. Estamos quites, pensei. Mas não estávamos, por que instantes depois ele fez de novo. Ele pegou outro biscoito.

Sem ter dito nada na primeira vez, me parecia ainda mais difícil levantar o assunto na segunda. “Perdoe-me, não pude deixar de notar…” É claro que isso não funcionaria mesmo.

Nós atravessamos o pacote inteiro desse jeito. Quando digo o pacote inteiro, quero dizer que havia apenas uns oito biscoitos, mas pareceu durar uma vida. Ele pegava um, eu pegava um, ele pegava um, eu pegava um. Por fim, quando acabamos, ele levantou-se e foi embora.

Bem, na verdade nós trocamos olhares de suspeita. Depois que ele foi embora eu soltei um suspiro de alívio e recostei-me. Um ou dois minutos depois, o trem chegaria, então eu engoli o resto do meu café, levantei-me, agarrei o jornal, e, debaixo do jornal, achei meus biscoitos.

O que me faz gostar particularmente dessa história é a sensação de que, vagando em algum lugar da Inglaterra há um sujeito perfeitamente normal, que tem guardado exatamente a mesma história durante vinte e cinco anos. Só que o final dele não tem graça.

— Douglas Adams, The Salmon of Doubt: Hitchhiking the Galaxy One Last Time [O Salmão da Dúvida: Mochilando pela Galáxia pela Última Vez]

>Dois palitos

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Pintura de Márcio Camargo

Se você precisa parar de fumar ou de fazer queimadas, é melhor ler essa história. Uma bituca de cigarro ou fósforo pode fazer toda a diferença, mesmo que mentalmente:
Um dia, um mercador estava nas florestas da Califórnia, na estação seca, quando o Comércio estava em alta. Ele havia percorrido um longo caminho, estava cansado e faminto, e desmontou do seu cavalo para fumar um cachimbo. Mas quando ele procurou em seu bolso, encontrou nada além de dois fósforos. Ele riscou o primeiro, mas não acendeu.
“Que belo estado de coisas temos aqui!”, disse o mercador. “Morrendo de vontade de fumar, só me resta um fósforo e ele certamente não vai pegar fogo! Poderia haver uma criatura tão desafortunada? E mesmo assim”, pensou o viajante, “suponha que eu risque esse fósforo, acenda meu cachimbo e jogue o palito aqui na grama — a grama poderia pegar fogo feito um pavio. E enquanto eu controlo as chamas em frente, elas poderiam evadir-se e correr por trás, até tomar aquele arbusto de carvalho-veneno. Antes que eu o alcançasse, ele estaria em queimado. Além do arbusto, vejo um pinheiro cheio de musgos e aquilo também se incendiaria instantaneamente até o mais alto galho. E a chama daquela enorme tocha — como o vento alísio a tomaria e a brandaria através da floresta inflamável! Eu ouço o troar dessa corredeira junto com as vozes do vento e do fogo, e vejo-me a galopar pela minha alma. E a conflagração, voando, persegue-me e ultrapassa-me através das colinas. Eu vejo esta pobre floresta a queimar por dias, o gado torrado, e as nascentes ressecadas; os fazendeiros arruinados e seus filhos abandonados pelo mundo. Que mundo está em suspense nesse momento!”
Então, ele riscou o fósforo, que não se acendeu.
“Graças a Deus!”, disse o mercador e guardou o cachimbo em seu bolso.
— Robert Louis Stevenson, Fables [Fábulas], Longman’s Magazine (Agosto de 1895)
Moral da história: não existem queimadas controladas nem cacimbos da paz. É melhor parar de fumar já, por que o mundo já está mais quente do que no tempo do Stevenson.

>Contos Traduzidos — Ou o seu dinheiro de volta

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Jason Howley e sua caixa-talismã em ação (ou não)
Todo mundo que já fez uma “fezinha” na Mega Sena tem algum tipo de ritual ou talismã — um número favorito, um gesto sempre repetido ou até mesmo as infames cuecas da sorte. Mas e se os talismãs usados por jogadores em cassinos não apenas funcionassem, mas também fossem  gadgets industrializados? Eles deveriam ser proibidos? Ou será que talismãs nunca funcionam realmente e tudo não passaria de um efeito placebo? 
São essas as situações exploradas por David Gordon (1927-1987) no conto “Ou o seu dinheiro de volta”, uma mistura interessante de ficção científica e história de tribunal. Tão interessante que chega a surpreender como Hollywood ainda não descobriu esse conto e levou-o às telonas, o que é uma pena. Ou não, já que muitas adaptações cinematográficas de FC são bastante grosseiras.
A seguir, a íntegra do texto de “Ou o seu dinheiro de volta”, traduzido e comentado por este que vos escreve.

>Contos Traduzidos — "O Dólar de John Jones"

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Já faz um bom tempo que eu falei por aqui sobre um estranho escritor chamado Harry Stephen Keeler. Na ocasião, eu havia prometido traduzir e publicar um dos contos dele. Pois bem, como o conto já estava traduzido há um bom tempo, agora é hora de publicá-lo.
Um dos primeiros trabalhos de Keeler, O dólar de John Jones foi publicado originalmente na Amazing Stories em abril de 1927, o que também o torna um dos mais antigos contos de Ficção Científica moderna. O conto começa com um simples depósito de um dólar em uma conta poupança — mas as consequências desse modesto investimento acabam mudando completamente o rumo da história humana. A seguir, o texto completo do conto, enriquecido com notas de tradução.

O Dólar de John Jones

Curiosamente, hoje uma moeda de 1 dólar da década de 1920 vale mais de US$ 80,00 entre os colecionadores. Isso já é bem mais do que Keeler havia calculado para a poupança de John Jones em 2021.
Em breve devo publicar mais contos que já traduzi.

>Conto de fadas — A princesa e o sapo

>Em dois atos:
conto de fadas

E a princesa morreu, feliz para sempre…

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