Patentes Patéticas (nº. 54)
Há invenções (e invetores) ganham fama por serem tão geniais que parecem à frente de seu tempo. Também há casos que, apesar do avanço e da genialidade, continuam largamente ignorados. Jack Jensen, por exemplo. Quem já ouviu falar de seu Airplane Hijacking Injector [ou Injetor de Sequestrador de Avião]? Não se engane pela denominação ambígua. Trata-se de um engenhoso Continue reading “Patentes Patéticas (nº. 54)” »
Casal é condenado após assassinato por bruxaria
Em dezembro de 2010 o adolescente franco-africano Kristy Bamu saiu de Paris acompanhado de quatro irmãs. Kristy e sua família foram para Londres para visitar sua irmã mais velha, Magali Bamu, de 29 anos, e o namorado dela, Eric Bikubi, 28. No entanto, poucos dias depois, a visita de fim de ano se tornaria um inferno.
Eric começou a acusar alguns dos irmãos de ter uma “influência maligna” sobre as crianças mais novas por estarem possuídos por espíritos. Segundo a irmã mais nova de Kristy, Kelly, as alegações de bruxaria começaram depois que o adolescente de 15 anos molhou suas calças e tentou escondê-las na cozinha.
Em vez de defender os irmãos, Magalie apoiou o parceiro e, junto com ele, tentou exorcisar os espíritos de Kristy e de duas irmãs. O trio foi forçado a cantar e orar sem parar durante dias, sem direito a comida ou sono. Eventualmente, Kristy passou a ser o foco do fervor anti-feitiçaria de Bikubi, que passou a usar violência física.
O garoto foi agredido durante dias com pedaços de pau, barras de metal, alicates e um martelo. A certa altura, Kristy chegou a pedir para morrer e acabou confessando sua suposta bruxaria. Depois disso, Bikubi o colocou numa banheira com as duas irmãs e ligou a torneira até transbordar. Fragilizado pelas agressões, o adolescente afogou-se e morreu. Mais tarde uma autópsia revelou que ele faleceu em decorrência do afogamento e das 101 feridas que trazia no corpo.
Enquanto o irmão era torturado pelo marido, Magalie ligou diversas vezes para os pais exigindo que eles viessem recolher as crianças mais novas, mas sem dar explicações. Quando pediram uma razão para ir atrás dos filhos, os pais souberam que Bikubi estava ameaçando Kristy de morte se as crianças não deixassem de ser “influenciadas” por ele. Ao perceber que o menino estava morto, ela ligou pedindo uma ambulância, dizendo que ele havia se afogado e que Bikubi estava tentando salvá-lo. Graças ao caos aéreo natalino, os pais de Kristy só conseguiram chegar em Londres quando já era tarde.
O veredito do julgamento do caso — que começou no fim de janeiro na Corte Criminal Central, em Londres — saiu no começo deste mês. Na sentença, o júri condenou Eric Bikubi a 30 anos de prisão e Magalie Bamu a 25. O promotor descreveu o crime como um “ataque prolongado de indizíveis selvageria e brutalidade.” Ao proferir a condenação, o Juiz David Paget disse que
[a] intenção [dos acusados] era livrar Kristy Bamu de bruxaria. Para fazê-lo, vocês dois abusaram fisicamente dele e brutalizaram-no até que ele veio a falecer. Foi uma tortura prolongada. A crença na bruxaria, mesmo que seja genuína, nunca pode ser desculpa para atacar outra pessoa ou assassinar outro ser humano. Parece-me impossível não concluir que havia uma intenção de matar em você, Eric Bikubi. Talvez não no começo, mas certamente no fim da provação imposta sobre Kristy. Você, Magalie Bamu, deve ter percebido o que aconteceria.
Tanto a família Bamu quanto Bikubi têm naturalidade congolesa. Os casos de assassinato motivado por acusações de bruxaria entre africanos têm crescido na Europa nos últimos anos. Só em Londres 83 crianças já foram agredidas por esse motivo. No ano 2000, Victoria Climbie foi morta pelos seus guardiães sob a mesma suspeita. No ano seguinte, o tronco de um garoto nigeriano, mutilado a ponto de não ser identificado, foi encontrado no Tâmisa, num caso de morte por magia negra.
No entanto, ao contrário do que pode parecer, a origem da crença em bruxaria não é exclusivamente africana. Investigadores alertam para o fato de que a maioria dos negros africanos que vivem no Reino Unido são cristãos e vivem sob influência de pastores evangélicos fundamentalistas. Como bem se sabe, os evangélicos mais radicais veem bruxaria e influência demoníaca nas tradições religiosas afro. Esses pastores muitas vezes incentivam ou exigem que seus fiéis de origem africana pratiquem rituais de purificação, os quais podem incluir desde jejum até exorcismos e sacrifícios. Apesar disso, e talvez por um corporativismo cristão, nenhum pastor foi condenado até agora pela nova “caça às bruxas”.
Mais informações (e fotos da cena do crime) no Daily Mail.
O Caso do Cão Vivissecado
Indignado, o secretário da Sociedade Nacional Anti-Vivissecção, Stephen Coleridge processou o fisiologista por maus-tratos. Em discursos inflamados e detalhados, Coleridge acusava o cientista não apenas de usar o terrier em uma operação sem anestesia, mas também de usar o mesmo animal em três operações diferentes (a lei de maus-tratos de 1876 permitia o uso de animais em apenas um experimento). Após um julgamento de grande repercursão, que teve até mesmo uma reconstituição, Bayliss acabou absolvido. Mesmo assim ele ainda processaria Coleridge por danos morais, pois considerava que sua vida profissional havia sido desonrada. Novamente, ele venceu.
Para não deixar o caso cair no esquecimento, os opositores do Dr. Bayliss se uniram para levantar uma estátua em memória do cão:
Em Memória do Cão Terrier Brown [Castanho], levado à Morte pelos Laboratórios da University College em Fevereiro de 1903, após passar por Vivissecção por mais de dois meses, tendo passado pelas mãos de um Vivissector após outro até que a Morte veio Libertá-lo. Também em Memória dos 232 cães viviseccionados no mesmo local durante o ano de 1902. Homens e Mulheres da Inglaterra, até quando isso continuará?
Patentes Patéticas (nº. 49)
Ladrões de carro fugindo da polícia em alta velocidade são a base de jogos como Need for Speed: Most Wanted e GTA e de filmes como Bullitt e 60 segundos. Embora seja perigoso na vida real, o roubo de carros pelo método hit and run [bater e correr] é praticamente um patrimônio cultural norte-americano (ou, pelo menos, californiano). Mas isso não significa que todos os americanos adoram perseguições na vida real.
Por isso mesmo, diversas invenções foram criadas ao longo das últimas décadas para tentar frear os fugitivos à força (e atrapalhar a audiência dos plantões televisivos a la Datena). No entanto, nenhuma dessas estratégias patenteadas conseguiu superar a redundância digna de comédia policial do “Método para parar um carro roubado sem uma caçada em alta velocidade, utilizando um código de barras”, o qual seria Continue reading “Patentes Patéticas (nº. 49)” »
O lado sombrio do penhasco branco
Parece mais uma idílica paisagem de wallpaper, não é mesmo? Mas esse típico pedaço do litoral sul inglês tem uma fama nem um pouco idílica. Com 162 metros de desnível em relação ao mar, Beachy Head é o maior penhasco calcário da Grã-Bretanha. Por isso mesmo, é também uma atração turística e tem um ponto de ônibus convenientemente próximo do ponto mais alto da falésia.
Ironicamente, essa combinação de grande altura, facilidade de acesso e beleza cênica tem contribuído para o lado sombrio de Beachy Head. Este é o local com o maior número de suicídios cometidos por ano em todo o Reino Unido — 20, em média.
Esse turismo de suicidas obviamente chamou a atenção das autoridades. Hoje o local conta com uma cabine telefônica especial, em linha direta com um centro de apoio psicológico. Além disso, o belo penhasco branco é constantemente patrulhado por voluntários que buscam evitar o êxito dos que querem se matar.
Patentes patéticas (nº. 41)
Diz o bom-senso que reagir a um assalto nem sempre é uma boa ideia. No entanto, isso não impede que as pessoas continuem a comprar armas “para garantir a própria segurança”. Ainda mais quando essas pessoas são norte-americanas, que parecem não acreditar na possibilidade de uma população desarmada.
A facilidade de acesso a armas de fogo sempre foi um problema que os americanos não veem. No começo dos anos 1930, o crime estava em alta nas áreas urbanas dos Estados Unidos, em parte pelo tráfico de álcool que se formou após a proibição dessa droga e em parte como consequência da recém-iniciada Grande Depressão. Nada disso impediu que Frederick G. Palla, de Nova York, apresentasse uma “Arma de fogo auto-defensiva” como a solução para o crime: Continue reading “Patentes patéticas (nº. 41)” »
A outra caixa de Skinner
Após o nascimento de sua segunda filha, Deborah, em 1944, o psicólogo behaviorista B.F. Skinner (1904-1990) teve o que para uns foi sua ideia mais brilhante e para outros, a mais infame. Para aliviar a barra de sua esposa, Yvonne, Skinner desenvolveu um inovador dispositivo para cuidadados infantis (isso cheira a patente patética, mas não é).
Originalmente batizada de aircrib ou air-crib (lit. aeroberço), a invenção de Skinner era uma caixa com controles de temperatura e umidade e um painel de vidro na qual o bebê — sem qualquer fralda ou lençol — poderia ser posto por algumas horas para dormir. Em suma, era um chiqueirinho (ou cercadinho) high-tech e com ar-condicionado. O objetivo era permitir grande liberdade de movimento para o bebê e encorajar-lhe a independência literalmente desde o berço. O colchão havia sido especialmente projetado para ser facilmente removível e lavável. Como era de se esperar, D. Yvonne ficou interessada e acabou atuando como co-inventora. Durante boa parte de seus primeiros anos, Deborah Skinner passaria a maior parte de suas horas de sono no aeroberço. Mas ao contrário de relatos posteriores, ela não foi “criada numa caixa”. Continue reading “A outra caixa de Skinner” »
Mutirão às avessas
LONDRES — Mrs. Kathleen Cameron, 19, ficou impressionada com a rapidez e eficiência com que os carpinteiros trabalhavam para desmontar a casa pré-fabricada ao lado da sua em 10, Jardin Street. “Eu não suspeitei dos quatro homens até que eles pularam a pausa para o chá para continuar a trabalhar.”, disse ela. Os carpinteiros, com certeza, eram ladrões que afanaram a casa de cinco cômodos integralmente. Quando a polícia chegou, eles já haviam partido. – Lubbock Avalanche-Journal, 12 de setembro de 1971
O matemático lunático
Sendo um dos mais famosos matemáticos franceses de sua época, era natural que Jacques Hadamard (1865-1963) recebesse várias correspondências de aspirantes a matemáticos cheias de dúvidas ou de teorias malucas. Boa parte daquelas cartas geralmente era ignorada por Hadamard, até que ele recebeu uma prova brilhante de um tal André Bloch. Hadamard ficou tão fascinado pela elegância da prova que decidiu conhecer aquele sujeito e convidá-lo para um jantar. Uma vez que eles só mantinham contato através de cartas, Hadamard escreveu de volta para o endereço do remetente: 57, Grand Rue, Saint-Maurice. Em resposta, Bloch só informou que estava impossibilitado de sair, mas convidou o grande matemático a lhe fazer uma visita.
Foi só ao chegar ao endereço que Jacques Hadamard descobriu porque o brilhante colega não poderia sair: o que ficava na 57, Grand Rue, Saint-Maurice não era uma casa, mas um hospital. Ou melhor, um hospício, o Asilo de Lunáticos de Charenton. Apesar da imensa surpresa, Hadamard foi ao encontro de Bloch e em meio a uma longa conversa sobre temas matemáticos, ele conheceu a história do matemático lunático. Continue reading “O matemático lunático” »
Há um signo do crime?
Em Chatham-Kent, Ontário, Canadá, a polícia divulgou uma estatística no mínimo curiosa ao encerrar 2011: das 1986 pessoas detidas ao longo do ano, 203 eram arianas. Essa foi a primeira vez (quiçá a primeira vez no mundo) que a autoridade policial local fez uma lista com base nos signos do zodíaco.
Em segundo lugar, vieram os librianos com 189 criminosos. Virginianos vêm em terceiro, com 183 detidos. A seguir, pela ordem, vêm Leão (177), Peixes (169), Escorpião (166), Capricórnio (166), Gêmeos (159), Câncer (147), Touro (146) e Aquário (142). Sagitário teve o menor índice de criminalidade, com 139 presos. A polícia de Chatham-Kent informou também que não perguntou aos detidos sobre seus signos. Tudo foi classificado de acordo com uma planilha no Excel.
O responsável pela pesquisa é Michael Pearce. Ele também é o porta-voz da polícia e pelo visto não deve trabalhar muito — Chatham-Kent é apenas a 34ª. cidade mais violenta do Canadá segundo uma pesquisa recente. Segundo o National Post, Mr. Pearce diz que “não está extraindo qualquer conclusão disso”. Ou seja, não é um estudo sério. E nem deveria ser, dados os critérios vagos e o pequeno universo “pesquisado”.
Apesar disso, a astróloga do jornal canadense, Georgia Nicols, vê algum sentido nos números apresentados. Ela diz que “áries é o signo do guerreiro” e que “domina os militares. Arianos pulam de cabeça e adoram aventuras.” Arianos seriam agressivos, impulsivos e egoístas segundo a tradição astrológica.
Por outro lado, os sagitarianos (que tradicionalmente são considerados grosseiros, atirados e irresponsáveis) teriam apenas sorte: “eles não são pegos, eles são lisos”, segundo a astróloga. Mrs. Nicols não explica, porém, porque a quantidade de escorpianos (23/10-21/11) e capricornianos (22/12-21/01) presos é idêntica. Talvez porque isso solape a noção astrológica de que pessoas nascidas em épocas diferentes são diferentes.
Obviamente, a lista não convence do ponto de vista científico. Como ressaltou o professor de criminologia Anthony Dobb, da Universidade de Toronto, não faz sentido que pessoas nascidas em certa época do ano sejam mais criminosas (ou mais detidas) do que outras. O próprio Pearce reconheceu que “ano que vem a lista será completamente diferente, a não ser que as mesmas pessoas sejam presas”.







É um punhado de material cósmico, composto principalmente de carbono e hidrogênio, um animal, cordado, mamífero, primata, hominídio pensante (cof,cof...) que não tem a mínima ideia do que está fazendo no mundo (ou do que é o mundo) e de quem é.