>Os Biscoitos de Douglas Adams

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O conto a seguir, escrito por Douglas Adams, não chega a ser propriamente um conto. É mais um causo do autor. No entanto, Adams conta uma experiência ao mesmo tempo banal e surreal que teve numa estação de trem — um lugar tipicamente britânico — do mesmo modo mochilesco que narra as (des)venturas de Arthur Dent em sua obra máxima, O Guia do Mochileiro das Galáxias.  

The Salmon of Doubt, a obra de onde foi extraído o já famoso conto/causo, é um livro póstumo que reúne relatos pessoais — como Biscoitos, que inspirou um episódio semelhante em Até Mais e Obrigado Pelos Peixes —, ensaios sobre tecnologia e rascunhos para a continuação de The Long Dark Tea-Time of the Soul [lit., A Longa e Escura Hora do Chá da Alma]. Como muitos fãs, Adams também não se sentia confortável com Praticamente Inofensiva, o quinto e último livro da série Hitchhiker’s Guide. Ele achava que a continuação de Dark Tea-Time poderia ser transformada em um sexto e definitivo final para o Guia. Infelizmente, Douglas Adams morreu de ataque cardíaco em 2001, deixando essa história toda com um final totalmente sem graça.
 

Biscoitos

Isso realmente aconteceu com uma pessoa de verdade e a pessoa de verdade era eu. Eu havia saído para pegar um trem. Era abril de 1976, em Cambridge, Reino Unido. Eu estava um pouco adiantado para o trem. Eu havia conseguido o horário errado do trem.

Então, eu fui arranjar um jornal para eu fazer as palavras-cruzadas, e uma xícara de café e um pacote de biscoitos. Eu fui e me sentei numa mesa.

Eu quero que você pinte a cena. É muito importante que você tenha isso bem claro em sua mente.

Aqui está a mesa, o jornal, o café, o pacote de biscoitos. Tem um cara sentado do lado oposto, um cara de aparência perfeitamente normal, vestindo um terno executivo e carregando uma pasta.

Não parecia que ele fosse fazer alguma coisa estranha. O que ele fez foi isto: subitamente, ele esticou-se, pegou o pacote de biscoitos, abriu-o, tirou um biscoito e comeu-o.

Agora, devo dizer, esse é o tipo de coisa com a qual os Britânicos não lidam muito bem. Não há nada em nossa tradição, nosso hábito ou nossa educação que diga como você deve tratar alguém que, em plena luz do dia, acaba de roubar seus biscoitos.

Você sabe o que teria acontecido se fosse em South Central Los Angeles. Rapidamente, haveria uma troca de tiros, os helicópteros viriam, a CNN, você sabe… Mas no fim, eu fiz o que qualquer Britânico com brios faria: eu o ignorei. E voltei os olhos para o jornal, tomei um gole de café, tentei completar uma palavra, não consegui fazer nada e pensei, o que vou fazer?

Enfim, pensei, não foi nada, vou deixar passar. Tentei com bastante dificuldade deixar de notar o fato de que o pacote já estava misteriosamente aberto. Eu peguei um biscoito para mim. Estamos quites, pensei. Mas não estávamos, por que instantes depois ele fez de novo. Ele pegou outro biscoito.

Sem ter dito nada na primeira vez, me parecia ainda mais difícil levantar o assunto na segunda. “Perdoe-me, não pude deixar de notar…” É claro que isso não funcionaria mesmo.

Nós atravessamos o pacote inteiro desse jeito. Quando digo o pacote inteiro, quero dizer que havia apenas uns oito biscoitos, mas pareceu durar uma vida. Ele pegava um, eu pegava um, ele pegava um, eu pegava um. Por fim, quando acabamos, ele levantou-se e foi embora.

Bem, na verdade nós trocamos olhares de suspeita. Depois que ele foi embora eu soltei um suspiro de alívio e recostei-me. Um ou dois minutos depois, o trem chegaria, então eu engoli o resto do meu café, levantei-me, agarrei o jornal, e, debaixo do jornal, achei meus biscoitos.

O que me faz gostar particularmente dessa história é a sensação de que, vagando em algum lugar da Inglaterra há um sujeito perfeitamente normal, que tem guardado exatamente a mesma história durante vinte e cinco anos. Só que o final dele não tem graça.

— Douglas Adams, The Salmon of Doubt: Hitchhiking the Galaxy One Last Time [O Salmão da Dúvida: Mochilando pela Galáxia pela Última Vez]

>O último dia de Saramago

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Saramago
José Saramago foi o único autor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.
Saramago no documentário “Língua – Vidas em Português” (2004)
 
José Saramago deixou de viver hoje, aos 87 anos de idade em sua casa, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Não é apenas a literatura portuguesa que perde um grande nome — o maior de nossa era. O mundo também perde um grande homem, um dos mais lúcidos pensadores dos séculos XX e XXI. Saramago não temia a morte; sabia que não há diferença substancial entre o nascimento e o falecimento. Antes do nascimento e depois da morte simplesmente não se existe. Certamente, ele não desejaria luto nem discursos como esse em seu funeral. Mas é impossível deixar passar a passagem de um homem tão importante, que teve uma obra que revela a humanidade em seu estado mais profundo e mais verdadeiro.
Saramago passa. Mas seus pensamentos vão ficar para sempre:

Sobre a língua:
“Não há uma língua portuguesa. Há línguas em português.”
Sobre a política:
“Os únicos interessados em mudar o mundo são os pessimistas, porque os otimistas estão encantados com o que há.”
Sobre religião:
“Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.”

“À igreja não importa nada as almas.”
Sobre a vida:
Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
‘Não há mais o que ver’, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

…é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-los, para congratular-nos, ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade que tanto se fala….
E sobre a morte:
Não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo; são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisto. Transportas todo o tempo de um lado para outro uma escuridão, e isso não te assusta…

>Sulzbach, o artilheiro

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Um episódio ocorrido nas trincheiras alemãs em agosto de 1915 foi recordado pelo artilheiro Herbert Sulzbach vinte anos depois em suas memórias, With the German Guns: Four Years on the Western Front 1914-1918 [Com as Armas Alemãs: Quatro Anos no Front Ocidental]:
Numa das noites de verão seguintes, de céu estrelado, um chapa Landwehr [gíria para Guarda Austríaco], decente, subiu de repente e disse ao 2º. Ten[ente]. Reinhardt: “Sir, é só aquele francezinho que está lá, cantando de novo, maravilhosamente.” Nós nos colocamos para fora de nossa esburacada trincheira e, incrivelmente, havia uma maravilhosa voz de tenor cantando noite afora uma ária do Rigoletto. A companhia inteira estava parada na trincheira, ouvindo o “inimigo”. Quando ele acabou, aplaudimos tão alto que o bom francês deve certamente ter ouvido e tenho certeza de que ele deve ter sido tocado da mesma maneira que nós fomos por sua maravilhosa canção.
Não se sabe quem era o francês que cantava o Rigoletto em plena trincheira nem qual fim ele teve.

Herbert Sulzbach nasceu em Frankfurt, na Alemanha, em 1894. Serviu no exército alemão durante toda a Primeira Guerra Mundial. Incrivelmente, nunca se feriu e foi condecorado com duas “Cruz de Ferro“. Apesar de sua bravura e do sucesso de seu livro de memórias, foi obrigado a fugir da Alemanha em 1937, após ter sua cidadania cassada por ser judeu. 

Herbert passou a viver na Inglaterra. Após escapar ileso aos bombardeios de Londres, alistou-se no Exército Britânico e foi responsável por reeducar prisioneiros de guerra alemães. Foi trambém condecorado com medalhas pelos ingleses. Após a Guerra, Sulzbach naturalizou-se inglês em 1947. Em 1952, sua cidadania original foi restituída e ele voltou a ser cidadão alemão, mas continuou a viver em Londres, onde trabalhou como intérprete na Embaixada Alemã. Herbert Sulzabach morreu aos 91 anos de idade em 1985.

>Uma Nova Criação?

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Durante essa semana, todo mundo sobreviveu e nem percebeu. Não, não se trata da sobrevivência pura e simples, aquela da luta diária. Foi uma sobrevivência especial, extraordinária e da qual poucas pessoas se deram conta, apesar das notícias.
Na terça-feira, 30 de março de 2010, nós fizemos uma (ainda pequena) réplica do Big-Bang no Grande Colisor de Hádrons (LHC), a maior máquina do mundo. Às vésperas da páscoa, o renascimento para judeus e cristãos, nós acabamos de sobreviver à criação de um (ou até mais de um) míni-universo-paralelo.
Ou não.
DO FIM DO MUNDO PARA O COMEÇO
Durante os últimos dois anos, o LHC esteve em evidência na mídia. Para variar, sempre se destacavam seus aspectos negativos — como os altíssimos custos de construção e manutenção — ou até mesmo catastróficos — as experiências feitas lá acabariam com o planeta (ou, pelo menos, com a vida). Infelizmente, pouco esforço foi feito para explicar o que estava acontecendo e o que iria ser feito no LHC, tanto por parte dos cientistas como por parte da imprensa (especializada ou não).
Nas duas vezes em que não funcionou por motivos técnicos, a “máquina do fim-do-mundo”, como muitos a chamavam, rapidamente passou a ser motivo de chacota e críticas. Passou a haver tanto descrença e quanto reforço da crença no poder apocalíptico do LHC.
Quem acreditava numa desgraça de proporções cósmicas dizia que a máquina não funcionava por intervenção divina; deus não permitiria que nós fizéssemos uma coisa dessas: descobrir como o Universo começou. É claro que deus só estava tentando defender o pouco que lhe resta do papel de criador todo-poderoso. Ou, então, a máquina funcionaria e o apocalipse viria inevitavelmente — mas só em 2012.
Então, durante os meses de preparação para um novo recomeço no LHC o mundo continua como dantes: bebês nasceram; pessoas morreram ou se mataram de todas as formas possíveis; casais se juntaram e se separaram; terremotos, enchentes e nevascas catastróficos; padres comedores de criancinhas; escândalos políticos; atentados terroristas com motivações religiosas seguidos de mais discórdia entre judeus e palestinos, etc.
Nesse turbilhão todo que se chama Planeta Terra, foi fácil todo mundo se esquecer do LHC — exceto talvez a comunidade científica e os poucos que a acompanham. As pessoas continuam a acreditar no fim do mundo, de um jeito ou de outro, mas uma hora seria através de terremotos, outra hora nós seríamos sufocados pelo aquecimento global, ou então morreríamos nos matando mutuamente em atentados que se estenderiam indefinidamente em réplicas, tréplicas e n-réplicas.
“NOVOS CÉUS E UMA NOVA TERRA”?
Então, o LHC finalmente funciona e, subitamente… nenhum buraco negro incontrolavelmente voraz aparece. Nenhuma matéria estranha capaz de aniquilar a tudo e a todos. Nada. Simplesmente nada. Mais um fim-do-mundo passou em branco. A não ser que a possível “criação” de um míni-big-bang — ou “Novos Céus e uma Nova Terra” — não seja nada.
E talvez não seja. Uma vez terminada a sub-atômica explosão (e bota sub nisso), mesmo que um universozinho tenha realmente sido criado, nós já não teríamos contato com ele. Não seria mais parte do nosso universo, e portanto estaria inacessível. Tudo, enfim, não passa de uma possibilidade. Mesmo que algo tenha sido criado, levaremos anos até saber, se é que poderemos saber.
O que quer que venha a ser esse universozinho (se é que ele existe) nós nunca saberemos, até por que ele talvez leve outros bilhões de anos para evoluir. E mesmo que evolua, pode ser que vá numa direção que não permitiria a existência de vida. Para o bem ou para o mal, não teríamos responsabilidade alguma. Os cientistas do CERN não seriam — como nunca foram — deuses. Mas há algo mais por aqui: e se o nosso universo começou do mesmo jeito, com uma experiência similar? Eram os deuses físicos nucleares?
Certamente que não. Mesmo que fossem, eles igualmente não teriam qualquer influência sobre o nosso universo, pelo mesmo motivo que não temos sobre o nosso universozinho recém-explodido. E, no fim das contas, quem os teria criado? Outros deuses em uma “máquina do fim do mundo”? E esses outros deuses? Outros outros deuses? E os outros outros deuses? Outros outros outros deuses, ad infinitum? A única forma de escapar dessa armadilha de recursividades é admitir que deuses não existem, mesmo quando mais parece.
Mesmo com medo, o mundo não parou. Nem sequer prendeu a respiração. De uma hora para outra, o LHC deixou de ser visto como uma ameaça apocalíptica para virar um “grande salto para a humanidade”. Não surpreende. O que surpreende mesmo é que um experimento tão profundo não tenha provocado qualquer tipo de mudança ou de reflexão. 
Mas que besteira! Se “Novos Céus” não surgiram, por que é que haveria de aparecer uma “Nova Terra”? E mesmo que surgissem, talvez o mundo não iria parar; continuaria como dantes: bebês nasceram; pessoas morreram ou se mataram de todas as formas possíveis; casais se juntaram e se separaram…

>Os ateus e o natal

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Afinal, os ateus participam do natal? Comemoram? O que é o natal para um ateu?

OBS: Antes de responder, porém, quero deixar claro aos não-ateus que as respostas apresentadas aqui são pessoais, pois, para quem não sabe, não há uma doutrina ateísta, com respostas padronizadas para tudo.  Tampouco há uma autoridade ateísta, cujas palavras viram lei. Aliás, essas são coisas que os ateus detestam.

O mês de dezembro chega, as lojas se enfeitam, cantigas — algumas nem tão antigas, tipo Simone — são repetidas à exaustão, todo mundo vai às compras, troca presentes com amigos (ou até inimigos) secretos e, eventualmente, participa de uma ceia. Sem falar nas comemorações religiosas, nos filmes cristãos que as TVs insistem em reprisar (como se a velha mitologia cristã não fosse conhecida) ou em especiais de fim-de-ano que se esforçam para mostrar um espírito natalino.
E se você não acredita em deus, em nenhum deles, muito menos num suposto filho de uma virgem, o que é o natal pra você? Evidentemente, não dá pra negar que é uma boa desculpa para tirar uma folga, nem que seja por alguns dias, no fim do ano. Hoje, talvez, não haja mais um grande conflito entre a cultura ateísta (se é que há uma) e o natal. Afinal, para desespero dos líderes religiosos, notadamante os mais ortodoxos, o natal tornou-se exatamente o que sempre foi pros ateus: apenas um feriadão familiar com fortes influência comercial.
Mas, então, o que os ateus comememoram? Há muitas coisas que um ateu pode, ainda que silenciosamente, comemorar nesta época. Talavez a mais comum seja comemorar a Humanidade, afinal, os ateus — ou pelo menos a maioria deles — são humanistas inveterados. Não importa a crença ou a ausência dela, uma coisa que se torna comum nessa época é a generosidade, a solidariedade e o voluntariado, mesmo que seja só por uma semana.
Não me surpreenderia nem um pouco se um ateu, mesmo achando que essa história de papai-noel é ridícula, vá até uma agência dos Correios e adote uma ou mais cartas. [Eu só não fiz isso por que entrei de férias hoje, e já é um pouco tarde...]. Enfim, o que um ateu faz nessa época é quase tudo o que todo mundo faz: compra presentes em lojas ou shoppings lotados, participa de amigos secretos na firma ou na escola, visita os amigos, reúne a família, faz uma ceia (ainda que sem orações) e talvez até assista ao especial do Roberto Carlos.

“São muitas emoções…”

Eu acho que fazer tudo isso é justificável para um ateu. Talvez a desculpa mais bem-humorada seja a de que nós comemoramos o “Newtal”, o nascimento de Isaac Newton (aquele que descobriu a gravidade debaixo de uma macieira). Pode haver, ainda, uma justificativa mais, digamos, precisa.
[clique para ampliar]

Nós comemoramos o nascimento, não de um menino-deus (que, apesar de sua condição divina acabaria morto, ainda que ele fosse um pouco teimoso com relação à morte). Comemoramos, isso sim, o nascimento da Humanidade, o surgimento da família humana, humana e imperfeita como é. De acordo com o calendário cósmico — um resumo de toda a história do universo num ano de 365 dias —, a espécie humana surgiu apenas há poucos minutos, nos últimos minutos da noite de 31 de dezembro. Diante disso, parece bastante razoável adiantar um pouquinho as festas e já começar a comemorar no dia 25, como todo mundo faz (ainda que seja por outros motivos).

E quanto ao ano-novo, não há problema algum, visto que é uma tradição literalmente secular. E nós também comemoramos, muitos cheios de esperança e otimismo, mesmo sabendo que nada vai mudar de uma hora pra outra  e que um ano nada mais é do que apenas uma volta da Terra em torno do Sol a partir de uma data arbitrária (afinal, antigamente o ano novo começava em abril, mas isso já é outra história).

>Geração Noé

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A atual geração de jovens, formada principalmente pelos nascidos nas décadas de 1980 e 1990 vai ter um papel fundamental e importantíssimo no futuro e na História da Humanidade. Alguém poderia dizer que toda geração jovem pensa em mudar o mundo. Mas, no caso da atual geração, se isso não acontecer, a Humanidade como um todo correrá sérios riscos. Eis por que ela devia ser chamada de Geração Noé.
Não é apenas pela mudança climática. A Humanidade passa por um período crítico que vem se acumulando já há alguns séculos, desde o surgimento da industrialização e do pensamento racionalista-materialista. Ocorre que passamos milênios seguindo basicamente um modelo de sociedade patriarcal, agrário, nacionalista, provinciano, religioso e moralista.

A partir do século XX, em todo o mundo, esses velhos valores passaram a ser profundamente modificados e questionados. Até agora, porém, ainda não encontramos um modelo social que seja benéfico a todos e ao próprio planeta. Para piorar, diante de tamanha crise de identidade da sociedade humana, nosso crescimento demográfico aumentou ainda mais rapidamente quando deveria diminuir ou se estabilizar.
A importância da atual geração de jovens está no fato de que é ela quem vai definir os novos valores da nova civilização humana global que está emergindo agora, após um processo de globalização que começou com as Grandes Navegações dos séculos XV e XVI. Há justiças e injustiças nessa responsabilidade que enfrentamos.
Nunca houve tantos jovens no planeta Terra; a população nunca teve uma maioria tão grande de jovens. Embora pareça uma geração alienada políticamente – muitos jovens, de fato, o são – o que ocorre é que esta geração não busca o poder apenas pelo poder. Nossa geração tem consciência de que o poder corrompe por que, em todo o mundo, crescemos vendo escândalos políticos e/ou econõmicos causados, acima de tudo, por uma luta feroz – e um tanto primitiva – pelo poder.
Nos últimos séculos, as diversas sociedades humanas abraçaram o materialismo com certa facilidade. Em muitos casos, o mote materialista (“O Homem é o Senhor da natureza”; uma versão semelhante da frase já estava presente no Gênesis. A ideia, portanto, não é tão nova assim.) foi levado longe demais e perdeu-se a noção de que fazemos parte de um todo muito maior e mais poderoso. Deixamos de ser uma humilde espécie animal dotada de alguma racionalidade e fomos inundados por um orgulho ufanista que nos levou à exploração desenfreada de recursos naturais e até humanos.
— “OH, E AGORA, QUEM PODERÁ NOS DEFENDER?”
O lado racionalista da filosofia moderna foi quase esquecido. As pessoas comuns se aproveitam dos bens produzidos pela tecnologia, mas parecem ter preguiça de pensar e de aprender. Quantas pessoas têm um carro ou um computador e não sabem como eles funcionam? Você sabe? Se não sabe, procura saber? Se você não procura aprender, por que não se importa? A ignorância não é uma bênção, como muitos pensam.
O pensamento livre e crítico, base da filosofia moderna, foi duramente reprimido em sociedades autoritárias e mesmo desestimulado em sociedades democráticas. Por que, em qualquer situação, o simples questionamento pode demolir o status quo tão caro aos poderosos de plantão. Felizmente, a atual geração de jovens conta com a liberdade da internet e dos meios de comunicação convergentes para se encontrar, se conhecer e se reconhecer, se organizar e trabalhar em conjunto.
Por outro lado, porém, não deixa de ser injusto que nós tenhamos que corrigir erros que jamais cometemos. Não fomos responsáveis pelas explorações colonialistas e imperialistas; não fomos nós que colocamos mulheres e negros em cativeiro; não fomos nós que inventamos deuses e depois passamos a guerrear por causa deles ou de nossas nações; não fomos nós que exploramos inconsequentemente este planeta acreditando na infinitude de seus recursos ou na milagrosa intervenção divina. Muitos dentre nós não se sentem responsáveis por causa disso tudo.
Entretanto, cabe a esta geração corrigir ou, ao menos, aliviar as sociedades injustas decorrentes das explorações sociais, econômicas e ambientais. Cabe a nós libertar as mulheres e os trabalhadores que ainda estão escravizados e cabe a nós inseri-los na sociedade humana moderna. Cabe a nós tirar países inteiros da miséria e da fome sem deixar de esquecer que nem todos podem ter um padrão de vida tão luxuoso quanto o do “primeiro mundo”. Cabe a nós evitar o desaparecimento catastrófico de ecossistemas inteiros cujo valor pode ser inestimável. Cabe a nós deixar de adorar deuses, nações ou líderes carismáticos e passar a ter uma humilde reverência pela Terra, um profundo respeito pela vida e uma imensa gratidão pelo Universo que nos cerca em todas as direções.
Nossa tarefa será longa e árdua, mas ainda será mais fácil que o mítico trabalho de Noé. Em lugar dele, nós temos um planeta inteiro para dividir com todos os animais e plantas e para formar uma família humana muito mais diversa e promissora. A Terra tem espaço bastante, desde que saibamos administrar sua finitude ao longo deste primeiro século do Terceiro Milênio da Civilização Humana. Estamos saindo da adolescência histórica, mas nunca fomos tão jovens.

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PS: Dedico esse texto ao Mola e à Giu. A ideia e a expressão “Geração Noé” me surgiram durante um bom papo pré-balada com eles.

>O mais triste filme d’O Gordo e o Magro

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O vídeo a seguir, feito em 1956, mostra as últimas imagens de Stan Laurel, o "Magro" e Oliver Hardy, o "Gordo" – a famosa dupla que fazia os personagens dos clássicos esquetes cômicos.


Mesmo se tratando de um filme caseiro, eu ainda pensei que seria cômico. Mas a idade chegou para os dois – e as cores também. Parece-me que quem fez comédias mudas e em preto-e-branco perde toda a graça em filmes coloridos e com som.

É preciso ter em mente que o que vemos aqui não são “O Gordo e o Magro" e sim os melhores amigos em momentos agradáveis – os homens simples por trás dos personagens geniais.

Ver o "Gordo" assim tão magro e aparentemente saudável numa época em que não havia tanta preocupação com a saúde e também não existiam nem dietas milagrosas vendidas pela TV nem lipoaspiração é bastante irônico. Mais irônico ainda é saber que mesmo assim ele morreu de derrame um ano depois. Outra ironia é que o "Magro", embora tenha vivido mais, morreu de infarto, coisa mais comum entre os gordos.

O mais imperdoável para mim é que, apesar da fama e do sucesso, eles jamais foram devidamente recompensados em vida – eles não se tornaram milionários pois, curiosamente, não detinham os direitos sobre os curtas que fizeram.

Se bem que, pelo visto, eles foram capazes de manter-se felizes e unidos até o fim, mesmo sem as glórias e as riquezas de Hollywood. Uma verdadeira lição nestes tempos de hoje, em que todos querem ser celebridades sem muito esforço e esbanjar riquezas que se evaporam rapidamente.

Vi vídeo no Saber é bom demais, que o achou no Metamorfose Digital.

>Digressões

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Atenção!

O texto a seguir é gentilmente dedicado aos leitores, não apenas àqueles que leem este blog, mas a todos  os que fizeram da leitura mais que um hábito e acabaram viciados. Nos momentos de fissura ou tédio (ou em nossos tronos particulares), nós procuramos alívio, informação  e diversão em dicionários e enciclopédias; livros, jornais e revistas; HQs e animes; rótulos de alimentos, cosméticos e shampoos; bulas de remédio e manuais de instrução; sites e blogs ou qualquer outra coisa que contenha letras que formam sílabas, as quais formam palavras, que juntas se tornam parágrafos, que, em sequência, viram texto e por aí vai. Talvez o texto que começa logo a seguir seja divertido ou maçante, ofensivo ou elogioso, nonsense ou genial. Tudo dependerá do leitor que vai ler. Obrigado a todos e boa leitura!

Cara(o) Leitor(a),

O texto que estou começando a escrever, que, aliás, já comecei a escrever; este texto vai apresentar digressões, como o próprio título já indica. Agora o leitor já deve estar impaciente pelo meu suspense ou talvez sinta que sua inteligência foi ferida pela obviedade do primeiro período. Acalmem-se, leitores. Acomodem-se, por favor. Sintam-se à vontade, pois o texto já começou a progredir, ou melhor, digredir (pelo menos é o que me parece). A leitura de textos digressivos não é tarefa fácil e exige tanto do leitor que deveria ser considerada um esporte radical, tamanhos são os saltos e as mudanças bruscas de assunto. Leitores sedentários, não se desanimem, pois não exigirei uma leitura dinâmica. Mas o leitor que tiver medo de entrar nessa montanha-russa textual pode se retirar. Os cardíacos e psicóticos também, pois não quero ser responsabilizado por eventuais danos físicos ou psicológicos que este texto pode causar aos mais frágeis ou a terceiros. Embora seja contra o uso de drogas, estendo meu convite aos leitores bêbados, noiados ou que estejam numa trip alucinógena. Faço isso não apenas em consideração a esses leitores marginalizados, mas acho que talvez apenas eles venham a entender esse texto. Ou talvez nem eles, sei lá. Afinal, não posso fazer ideia de quem é ou de quem são os meus leitores. Pode até mesmo haver leitores com múltiplas personalidades e aí a coisa fica mais imprevisível ainda. Os leitores mais conservadores ou pudicos (eu acho que deveríamos dizer “púdicos” em vez de “pudícos”; a pronúncia correta é muito ridícula) ou aqueles que temem encontrar leitores estranhos ou potencialmente perigosos neste texto podem interromper a leitura agora. Antes disso, porém, eu gostaria de recomendar a este grupo de leitores que se dirijam rapidamente – corram, se quiserem ser mais ágeis – à caixa de comentários lá embaixo para me detratar e me criticar antes mesmo de conhecer minha obra. Eu os desprezarei por isso. E, por favor, sejam maduros. Nada de “first!” ou “primeiro!” nos comentários. Os leitores mais atentos já devem ter notado que me alonguei demais nesse parágrafo e alguns certamente estão sem fôlego a esta altura. Desculpem-me, não consegui conter minha empolgação.

Respirem agora, se ainda estão aí. Como podem ver, esta verborragia toda do parágrafo anterior é uma característica dos textos digressivos. Opa, acho que fui muito didático no período anterior. Afinal, isso aqui não é uma aula de gramática ou redação. Eis por que os leitores mais cultos já vêm me acusar de falta de criatividade, dizendo que eu começo um texto à moda de Clarice Lispector para criar, em seguida, um diálogo com o leitor típico de Machado de Assis. Entendam, porém, que este texto não tem tamanha pretensão literária. Afinal, ele nasceu num sobressalto que tirou o Autor da cama durante uma noite vaga e incerta de inverno e está publicado no blog obscuro do desconhecido Autor. Não, senhoras e senhores, meninas e meninos, gurias e guris, moças e rapazes, minas e manos, não, eu não quero a fama instantânea e artificial de um Dan Brown, de uma J.K. Rowling, de uma Stephenie Meyer ou de um Paulo Coelho. Talvez meu discurso tenha sido um tanto político, o que deve ter afastado alguns leitores. Outros já devem estar cansados novamente com outro parágrafo longo. Senhores leitores, tenham a gentileza de me acompanhar no próximo parágrafo.

Pronto, aqui estamos nós em um novo parágrafo. Foi só pular uma linha. Mas o problema de vocês, leitores, é que se cansam muito rápido e me obrigam a cortar meu raciocínio só para criar outro parágrafo. Talvez vocês já estejam muito (mal-)acostumados com aqueles míseros 140 caracteres do Twitter ou com as poucas palavras de uma mensagem de texto de telefone celular. Enganam-se, porém, se acham que esse negócio de escrever com poucas palavras é mais uma moda moderna (juro que a aliteração foi acidental). É que vocês nunca receberam um telegrama e jamais tentaram mandar um. Ah, é, vocês sequer sabem o que é um telégrafo, não é mesmo? Se quiserem saber o que são essas coisas antigas e desconhecidas, podem ir pesquisar no Google ou na Wikipédia. Eu só não vou usar links neste texto por que não quero perder leitores num clique. Abram uma nova aba e pesquisem, mas voltem para cá, por favor. Ainda tenho mais a dizer escrever.

Notaram como, apesar de parecer um pouco rabugento, eu fiquei menos formal no último parágrafo, trocando “senhores leitores” por um simples “vocês”? Eu achei que os leitores que o alcançaram e tiveram paciência de terminar de lê-lo já me eram íntimos só por dedicarem tamanha atenção e interesse ao meu texto, ocupando um bom tempo de suas vidas lendo isto. Talvez apenas os jovens mais audazes, os leitores mais curiosos e insaciáveis tenham se atrevido a chegar até aqui. Eu os agradeço profundamente e os parabenizo. Sei que certamente querem continuar, e, assim, vou ser gentil e descer mais um parágrafo só pra vocês.

Já devem ter percebido que eu falei muito de leitores até agora. É melhor me voltar um pouco para o texto, antes que ele fique repetitivo demais. Mas eis que, num sobressalto, surge um leitor japonês só para me lembrar que aquele negócio de escrever com poucas palavras é anterior ao próprio telégrafo. E ele tem razão mesmo, pois muito antes do telégrafo os japoneses já faziam poesias curtíssimas chamadas hai-kais. Os leitores-pesquisadores que foram atrás do telégrafo no Google e acabam de voltar poderiam – se quiserem, é claro – fazer outra pesquisa agora mesmo sobre os hai-kais e a cultura japonesa. Leitura é para isso mesmo, para ampliar nossos conhecimentos e nossa bagagem cultural. Agora eu acho que posso tentar começar a falar do texto, mas acho melhor fazer isso em outro parágrafo. Como vocês viram, este foi subitamente invadido por um ninja que acabou sequestrando todo o parágrafo, apesar de todos os meus esforços para ser mais sucinto.

Pois bem, agora vamos, finalmente, falar, ou, de certo modo, ler sobre este texto. Meu deus, que feio! Quantas pausas e vírgulas num só período. Foi sem querer. Mas como eu já disse, esse texto não tem qualquer pretensão literária a não ser demonstrar – de forma tanto prática quanto lúdica – o estilo digressivo de escrever. Os seguidores do modernismo vão dizer que este texto não passa de um fluxo de pensamentos. Para os psicanalistas, é uma livre associação de ideias. Mas há um consenso entre os bibliófilos, os filólogos, os gramáticos, os professores de letras, os de redação e os de literatura: todos eles dizem que este é apenas um texto metalinguístico. Os alunos e leitores com inclinação para a área de humanidades concordam. Os que gostam de exatas já pararam de ler há muito tempo para continuar com seus cálculos. Os que apresentam uma forte queda para as ciências biológicas já devem ter saído e foram organizar um protesto para salvar as baleias. O cara fodão fortão que senta lá no fundão já deve ter dormido antes mesmo do fim do primeiro parágrafo. Após levar todas essas “pauladas” dos mais diversos leitores – embora algumas tenham sido pertinentes – eu me limito a citar aquele velho e conhecido ditado: “Em todos esses anos nesta indústria vital, essa é a primeira vez que se aproveitam da minha nobreza”. Talvez essa resposta tenha sido cômica ou até mesmo cínica. Não era a minha intenção. Sério. Desculpem-me novamente.

Já devem ter reparado que pedi desculpas reiteradamente. Acontece que este texto ainda não me parece suficientemente bom e, para mim, não passa de uma tentativa amadora de digredir um pouco. Caro leitor, me entenda: eu sou um pobre Autor que aspira os aromas ásperos dos jornais velhos e os doces odores das revistas com folhas amareladas pelo tempo… Acho que agora eu me desviei completamente de meu rumo e quase comecei uma prosa poética com aquela breve sinestesia do período anterior. Nossa, eu não consigo mais parar de digredir! Será um novo vício? Ah, é que eu tropecei e caí na polissemia do verbo “aspirar” e acabei digredindo de novo quando já começava a encerrar este texto. O que eu queria dizer é que eu sou um pobre Autor que aspira a ser cronista. O Capitão Nascimento já perdeu a paciência pois acha que eu sou um “aspira de merda” e já me pediu pra sair. Vou tentar ser o mais breve possível, Capitão. Juro. Aliás, acho até que já me alonguei demais para uma crônica. Será que isso já não é um conto, caro leitor? Mas já não há nenhum outro personagem. Somos só nós dois nos comunicando silenciosamente. Não há nada de especial ou fantástico nisso. Por isso mesmo – e também por que a madrugada avança e me cansa – eu vou acabar este texto por aqui mesmo. Ponto Final. Ou melhor:.

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