Como colonizar a galáxia, em 16 lições

1. Criação de aeronaves-foguetes com asas
2. Aumento progressivo da velocidade e altitude dessas aeronaves
3. Produção de verdadeiros foguetes, sem asas
4. Capacidade de pousar na superfície do mar
5. Alcançar a velocidade de escape (cerca de 8 km/s) e lançar o primeiro voo em órbita da Terra
6. Ampliar a duração dos voos de foguetes no espaço
7. Uso experimental de plantas para produzir uma atmosfera artificial em espaçonaves
8. Uso de trajes espaciais pressurizados para atividades no exterior de espaçonaves
9. Construção de estufas orbitais para plantas
10. Construção de grandes hábitats orbitais ao redor da Terra
11. Uso de radiação solar para produção de alimentos, aquecimento das moradias espaciais e para transporte através do Sistema Solar
12. Colonização do Cinturão de Asteroides
13. Colonização de todo o Sistema Solar
14. Conquista da perfeição individual e social
15. Após a superpopulação do Sistema Solar, colonizar a Via Láctea
16. Quando o Sol começar a morrer, as pessoas que permanecerem no Sistema Solar mudam-se para outros sois.

Pioneiro da astronáutica e da exploração espacial antes mesmo da criação de foguetes, o russo Konstantin Tsiolkovski publicou esse roteiro para a colonização do espaço em 1926. Conscientemente ou não, até agora seguimos seus conselhos. Já cumprimos, meio que toscamente, 7 dos primeiros passos — o uso de plantas como fonte de oxigênio ainda não foi alcançado. As cinco primeiras etapas foram cumpridas com grande rapidez, mas logo empacamos no passo 6, aumentar a duração das missões espaciais, que tem sido cumprido de modo excessivamente cauteloso e parece bastante atrasado.

A exploração dos asteróides, anunciada recentemente pela empresa Planetary Resources pode ser um negócio precipitado. De acordo com Tsiolkovski, esse seria o 12º. passo e deveria ser tentado apenas depois de conseguir sucesso a construção de diversas estações espaciais, de prolongadas permanências no espaço — talvez anos — e do uso da energia solar para sustentar todos os sistemas de sobrevivência fora da Terra. Nada disso foi conseguido e pode ser que o programa da Planetary Resources falhe por não seguir o roteiro de vovô Tsiolkovski.

>TrES-2b, o Planeta Negão

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Concepção artística de TrES-2b, o planeta mais rubro-negro conhecido

Tente imaginar alguma coisa mais preta (ou negra ou afro-descendente) que carvão. Agora tente imaginar um planeta inteiro dessa cor. Foi exatamente isso que o telescópio espacial Kepler descobriu na semana passada.
Distante apenas 5 milhões de quilômetros de sua estrela-mãe, TrES-2 — e a 750 anos-luz da Terra —, o gigante gasoso chamado TrES-2b arde a cerca de 980ºC. Apesar disso, aquele mundo imenso e infernal aparentemente não reflete quase nenhuma luz que recebe.
David Kipping, líder da equipe que descobriu o planeta negão confirma: “é menos refetivo que o carvão ou mesmo a mais negra tinta acrílica — de longe o planeta mais obscuro já descoberto”. Kipping, astrônomo do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, em Cambridge, Massachussets dá uma ideia da aparência do TrES-2b: “Se pudéssemos vê-lo de perto, ele pareceria uma bola de gás quase preta, com uma tênue faixa vermelha brilhante — um verdadeiro exotismo entre os exoplanetas.”

Sombra da sombra
O planeta, evidentemente, não foi descoberto por observação direta. Mesmo orbitando ao redor da Terra e sendo projetado especialmente para buscar planetas extrassolares, o observatório Kepler encontrou esse planeta rubro-negro (mais para negro) através do método de trânsito. Quando um planeta passa diante de seu astro-rei, a luz de seu sol diminui, ainda que por frações minúsculas. Ou, se preferir, é mais ou menos um microeclipse estelar. Se o fenômeno se repete periodicamente e se a estrela reagir gravitacionalmente a esse movimento orbital, pode haver um planeta lá. 
Mas, se não houve observação direta, como sabemos que esse planeta é tão escuro? Simples: um pouco antes de eclipsar seu sol, todo planeta passa por uma “fase crescente”, quando é capaz de refletir a luz que recebe. No caso desse planeta, a luminosidade refletida — chamada de albedo pelos atrônomos — era de aproximadamente de 6,5 partes por milhão (!) em relação ao brilho da estrela TrES-2. É o menor sinal fotométrico já registrado.
O Mistério Negro de TrES-2b
Parece título de ficção científica barata¹, mas é sério. Ninguém sabe ainda por que o TrES-2b é tão escuro. Os modelos de computador mais recentes indicavam que um Júpiter quente — um gigante gasoso que fica muito próximo de suas estrela — só poderia ser tão obscuro quanto Mercúrio, que reflete apenas 10% da luz que vem do Sol. Mas o TrES-2b é tão escuro que reflete apenas 1% da luz que vem de seu sol. É um albedo baixíssimo. O albedo da Terra varia de 37 a 39% (por causa das nuvens) e o de Jupiter é de 52%. Vênus é o planeta mais brilhante que conhecemos: reflete 90% da luz solar. 
Se as medidas estiverem realmente corretas, porque o planeta é tão escuro? “Alguns têm proposto” —  explica Kipping — “que essa escuridão pode ser causada por uma enorme abundância de sódio e óxido de titânio gasosos.” 
Céus de titânio podem parecer fodásticos, mas essa hipótese não empolga o descobridor: “Mas é mais provável que haja algo exótico lá, algo que nunca pensamos antes. É este mistério que eu considero tão excitante sobre essa descoberta.” Ou talvez seja apenas uma combinação de mormaço e falta de filtro solar…
Enfim, como TrES-2b é um nome um tanto sem-graça para um planeta tão interessante, já há um apelido: Erebus, o deus grego da escuridão e consorte da deusa da noite, Nyx. Mas eu acho que um nome melhor (e menos eurocêntrico) seria Kuk (ou Keku²), o deus (ou deusa, por ser andrógino/a) da escuridão primordial na mitologia egípcia (foi mal por todos esses parênteses, mas é um vício pra mim). 
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¹ Pensando bem, quase toda Ficção Científica é barata em termos literários. Mas eu adoro isso.
² Ou talvez não fosse uma ideia tão boa, já que depois de buraco negro, chamar um planeta negro de Keku só nos traria uma coisa: mais piadas infames.

>“Leve-me ao seu líder”

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Quando John Glenn, um dos primeiros astronautas norte-americanos, entrou em órbita a bordo da Friendship 7 em 1962, ninguém na NASA sabia ao certo se ele voltaria. Se ele retornasse, também não sabiam com certeza onde seria o pouso. Os lugares mais prováveis ficavam entre a Austrália e a Nova Guiné — mas a margem de erro era tão larga, que ele poderia cair até mesmo no Oceano Atlântico! Por causa disso, o resgate só chegaria 72 horas após o pouso.

Glenn não temia a missão no espaço. Ele tinha medo de passar até três dias entre aborígenes que jamais haviam visto um avião e, de repente, veriam “um homem de prata emergir de uma cápsula com um grande pára-quedas.” Precavido, o homem-de-prata-que-veio-do-céu levou consigo um pequeno discurso transcrito foneticamente em diversas línguas.
A mensagem era simples e direta: “Eu sou um estrangeiro. Eu venho em paz. Leve-me ao seu líder e haverá uma imensa recompensa para você na eternidade.” 
Felizmente, para Glenn, ele não precisou “fazer contato imediato” com nenhuma tribo primitiva. O pioneiro americano caiu no Oceano Atlântico e foi resgatado rapidamente. Embora não tenham sido usadas suas palavras tornaram-se icônicas.

>50 Anos-Lesma

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A ausência do homem no espaço é sinal de que desperdiçamos uma chance enorme de evoluir. Garantir a autodestruição é sempre mais fácil, seguro e barato do que adaptar-se aos novos tempos.
Há meio século, Yuri Gagarin foi o primeiro a chegar aonde nenhum homem jamais estivera — o Espaço Sideral. Parecia ser o início de uma nova era, há muito imaginada pelos autores de ficção científica. Essa seria a nova Era das Grandes Navegações, que agora se desenrolariam no vasto profundo Oceano Cósmico. Mas ao contrário do louvor camoniano, “se mais espaço houvera, lá não chegara.”
Pois cinquenta anos depois do primeiro homem no espaço, colônias de férias na Lua, cidades em Marte e mineradores no Cinturão de Asteróides ainda são fantasias distantes da realidade. Viagens espaciais são hoje algo tão excepcional que ainda nos lembramos do nome do primeiro viajante (compare com as viagens de trem, por exemplo. Alguém ainda se lembra do primeiro passageiro?)



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Yuri Gagarin: se a exploração espacial fosse
bem-sucedida, ele não deveria ser lembrado.
Onde foi que erramos? O que foi que nos faltou? Jovens ousados, cheios de espírito explorador e desafiador certamente não devem ter faltado nesses cinquenta anos. Tampouco houve falta de foguetes capazes de levá-los com segurança à Lua e, possivelmente, a Marte e trazê-los de volta. Então faltou o quê? Ousadia? Arrojo? — Amarelamos?
Faltou dinheiro. Money, grana, bufunfa, casacalho, moeda mesmo. Só isso. E esse dinheiro não faltou por que estivemos resolvendo nossas próprias bagunças — como pobreza e miséria — antes de sair de casa. Pelo contrário, o planeta está mais bagunçado do que nunca. E pra onde foi todo aquele dinheiro?
Segundo dados do Center for Defense Information, 13,1 trilhões de dólares foram gastos apenas nos Estados Unidos entre 1948 e 1991. A média anual era de US$ 298 bilhões. Parece razoável crer que os russos gastaram a mesma quantia, se não mais. Trilhões de dólares — sem contar milhares de vidas humanas — foram desperdiçados pela paranóia dos políticos e dos militares americanos e soviéticos, que controlaram este mundo durante grande parte das últimas décadas.
Para comparação, a NASA custa apenas uns 8,3 bilhões de dólares por ano. Esse é o orçamento médio desde a fundação da agência espacial americana, em 1958, o custo total somaria US$ 440 bilhões, o que representa 3,3% do total desperdiçado pelos americanos durante a Guerra Fria. Parece razoável estimar que o mesmo é válido para o programa espacial soviético/russo. Portanto, EUA e URSS gastaram até 26 trilhões de dólares para garantir a destruição mútua. Para explorar o espaço, coisa que poderia (e deveria) ser feita em cooperação internacional, a estimativa para ambos soma pouco mais de 1 trilhão.
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Montar a humanidade em bombas atômicas:
para políticos e militares, é divertido. E barato.
Era de ouro em anos de chumbo Cinquenta anos de progresso e coexistência pacífica, de erradicação da fome  e das doenças mais graves e de expedições espaciais cooperativas foram simplesmente transformados numa era sombria, cheia de medo, desconfianças, ódios e enormes dívidas. Líderes políticos e militares conseguiram uma façanha alquímica: transmutaram uma era de ouro em anos de chumbo. Após se armarem com milhares de ogivas nucleares e mísseis intercontinentais, russos e americanos perceberam que seus esforços foram tão bem-sucedidos que se tornaram inúteis. O poder de destruição criado foi tamanho que, felizmente, nenhum dos lados apertou o botão que traria a vitória e a derrota definitivas. Mas o preço foi alto.
A bomba que explode agora é outra: é a fissão incontrolável de seis — sete — bilhões de seres humanos vivendo no mesmo planeta, em condições não apenas cada vez mais desiguais, mas cada vez piores. US$ 30 bilhões por ano evitariam uma crise global de fome; mas o mundo ainda prefere desperdiçar mais de US$1 trilhão por ano com gastos militares. Se realmente houvesse inimigos externos, essa quantia seria justificável. Mas não é.
Gastos militares no mundo
Orçamento militar mundial: de volta aos níveis da Guerra Fria. Os milicos não sofreram com a crise.
De ambos os lados da antiga Cortina de Ferro, a exploração de recursos naturais (e até mesmo as tentativas de controle do clima) foi abusiva a ponto de desequilibrar um sistema planetário inteiro. Em grande parte, a responsável por tudo isso foi justamente aquela geração que sonhava em mudar o mundo com paz e amor. Esteve mais para sexo, drogas e rock’n’roll do que para verdadeira contestação e mudanças. As gerações atuais — inclusive a deste autor —, com seu consumismo quase autista, também não são muito melhores. Em vez de colônias de férias na Lua, nos trancamos em condomínios fechados ou subimos o morro (mas ainda nos perguntamos sobre nossos carros voadores).
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Estação Espacial Internacional: nem estação, nem espacial nem internacional.
A passo de lesma É por tudo isso que não temos razões para comemorar o primeiro jubileu da Era Espacial. A exploração da Terra vai bem, mas estamos a passo de lesma em termos de exploração extraterrestre. Nesse momento os homens mais distantes do planeta Terra estão a apenas 340km acima do solo, numa estação orbital (não espacial e bem pouco internacional). A missão mais longa, em 2006-2007 durou 215 dias, ainda menos que um ano. Com pouca gente passando tão pouco tempo “fora” e em algo tão próximo da Terra, é difícil acreditar que algum dia nos adaptaremos ao ambiente espacial.
Porém, nosso maior empecilho para mandar uma dúzia de pessoas, de diversas nações, para Marte (ou mesmo para a Lua) continua meramente econômico. Todos os recursos econômicos e humanos que poderiam ser usados para manter astronautas por todo o Sistema Solar foram desperdiçados na criação, construção e manutenção de meios para nos autodestruir. O desperdício foi tamanho que é impossível recuperá-lo. Afinal, não podemos vender ogivas, mísseis e submarinos nucleares para fabricar naves espaciais. Pelo visto, não se pode nem desmontá-los e aproveitá-los como propulsão atômica.
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Dave ficaria abismado. Por não existir.
Estamos abismados Chegamos à beira do precipício da autodestruição. Perdemos muita coisa, mas parece que relutamos em dar meia-volta e seguir um caminho mais seguro e promissor. Em vez de começar a navegar em direção às estrelas, continuamos a correr em volta das mesmas estradas de terra batida. Nossas divergências políticas, econômicas, étnicas, sociais, culturais, religiosas e até mesmo sexuais nos parecem mais importantes que tirar bilhões de pessoas da miséria e, ao mesmo tempo, modificar profundamente nosso modelo de civilização a fim de nos salvar. Já nos salvamos uma vez e podemos fazê-lo novamente.
Ainda evitamos todos os desafios mais sérios como evitamos a imponderabilidade do espaço. É realmente mais barato e mais seguro enviar emissários robóticos a Marte. Mas fazer isso ao longo de quarenta anos é tão barato e tão seguro quanto fabricar uma dúzia de robôs em vez de educar, alimentar, dar abrigo, transporte e saúde a uma centena de operários (ou seriam desempregados?) e suas famílias pelo mesmo período.
Nossa ausência no espaço é apenas um reflexo de nossa ausência dentro da sociedade. O mais irônico de tudo isso é notar como fomos generosos em financiar a criação de meios para nos autodestruir, para aprofundar nossas diferenças. Agora temos que ser austeros e cortar os “gastos” dos quais pode depender a nossa própria sobrevivência. Podemos cometer verdadeiros genocídios sociais, mas se (ao menos no papel) os orçamentos estiverem bem, não há qualquer problema nisso. Como as estrelas, somos apenas números mesmo.

>2010? No meu tempo…

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Para muitas pessoas, a primeira década do século XXI, apesar de todos os seus avanços tecnológicos, não teve a menor graça, por que foi uma sombra do que esperavam que fosse:
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 Mas mesmo assim, nós conseguimos superpoderes incríveis.

>Nem tão solitário planeta

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Atendendo a pedidos do ilustre Kentaro Mori, autor dos blogs 100 nexos, Ceticismo Aberto e  da coluna Dúvida Razoável, traduzi integralmente o ensaio “Not-So-Lonely Planet”, publicado pelo Oliver Morton, editor-chefe da revista Nature na edição de 24 de dezembro último do New York Times. O ensaio baseia-se na famosa foto do “nascer da Terra” sobre a Lua, feita em 1968 pelo astronauta Bill Ander, durante a missão Apollo 8. Eis a minha versão para o português:  

 “O Nascer da Terra”

Nem tão solitário planeta

Oliver Morton

Eles foram à Lua e, durante as primeiras três órbitas em torno dela, foi para a Lua que a sua atenção esteve voltada. Somente na quarta volta eles levantaram seus olhos para ver seu lar planetário, levantando-se silenciosamente sobre as planícies desérticas da Lua, em maravilhosos tons de azul e branco. Quando, mais tarde, na véspera do Natal de 1968 eles leram as primeiras linhas do Gênesis ao vivo na televisão, eles deram sentido aos céus e à Terra, à forma e ao vazio, com aquela maravilha que eles tinham visto nascer sobre o céu negro da Lua.
A fotografia do “Nascer da Terra” feita pelo astronauta Bill Anders é parte do legado duradouro do Programa Apolo – que eclipsa, em muitas memórias, quaisquer novas descobertas sobre a Lua ou um sentido renovado de orgulho nacionalista. Esta e outras fotografias que retratam a Terra trouxeram uma nova perspectiva a tudo aquilo que os humanos compartilham. Como Robert Poole apontou em “Earthrise: How Man First Saw the Earth” (“Nascer da Terra: Como a humanidade viu a Terra pela primeira vez”), essa perspectiva tem profundos efeitos culturais, notáveis na ressonância emocional adquirida através do nascente movimento ambientalista. Vista da Lua, a Terra parecia tão minúscula, tão isolada, terrivelmente frágil.
A imagem não perde beleza nem poder se nos lembrarmos, porém, que era o fotógrafo, muito mais que o planeta, quem estava isolado e que a fragilidade é uma ilusão. O planeta Terra é excepcionalmente robusto e sua força provém de suas antigas e íntimas conexões com o Cosmos ao fundo. Ver a foto dessa maneira não destrói a sua relevância ambiental – antes reforça-a.
É inegável que a Terra seja pequena. Se o sistema solar interno fosse do tamanho dos Estados Unidos, a Terra teria o tamanho de um campo de futebol; se a distância até o centro da galáxia fosse de uma milha, a Terra seria menor que um átomo. Mas se a foto do Nascer da Terra tivesse capturado a Terra na dimensão do tempo em vez do espaço, as coisas seriam diferentes. Em sua duração, ao contrário de seu diâmetro, a Terra precisa ser medida em uma escala cósmica. Em mais de quatro bilhões de anos, ela se estende por um terço da história do universo, ocupa um terço do caminho de volta ao próprio Big Bang. Muitas das estrelas que você pode ver numa noite clara de inverno são mais jovens que o planeta debaixo dos seus pés.
Mera persistência não é, por si só, um grande feito. As rochas estéreis da Lua têm persistido por quase tanto tempo quanto as da Terra. Mas a Terra não tem sido apenas duradoura; tem sido viva. Por quase 90 por cento de sua história, o planeta tem sido habitado e moldado pela vida. Os mecanismos biológicos que operaram na aurora da vida animam as criaturas da Terra até hoje, formando uma corrente contínua durante pelo menos 3,8 bilhões de anos.

Esta vida infalível e ininterrupta demonstra que o planeta está muito longe da fragilidade. A Terra viva é imbatível em escalas difíceis de acreditar. A vida assistiu aos continentes que se chocaram e se despedaçaram, céus brilhando feito carvão em brasa, mares tropicais congelados e imobilizados: ela sobreviveu. Atingida pela radiação de uma supernova próxima, por asteróides, ela pode ter balançado, mas nunca caiu.  Nossa civilização pode estar – ou está – fora de equilíbrio com seu ambiente, os modos de vida humanos atuais podem ser assustadoramente precários. Mas aplicar a fragilidade de nosso modo de vida à própria vida é tolice.
Humanos podem extinguir espécies e diminuir ecossistemas. Tal vandalismo traz riscos reais aos seus perpetradores, uma vez que a civilização humana depende dos serviços prestados por alguns desses ecossistemas. Mas quando se leva em conta a escala planetária da vida, nossa situação é trivial. Humanos não trazem nenhum risco existencial à vida na Terra e nada a ameaçará por centenas de milhões de anos. Rica, variada, sempre mudando – a Terra é tudo isso. Frágil é que não é.
Por que tão robusta? A razão está no segundo grande erro conceitual: que a Terra é isolada. Isso apenas é verdade se o seu sentido de contato depende de matéria física passando de um lugar para outro. A poeira e as rochas que caem do céu vindas do espaço são como pedrinhas lançadas num oceano, ainda que algumas rochas maiores causem um pequeno desconforto ao matar dinossauros. Os traços de gás varridos da alta atmosfera são verdadeiramente desprezíveis. A matéria é depositada a conta-gotas e é levada por um suspiro. Mas a matéria não é tudo.
Uma enxurrada de pura energia luminosa sai do Sol em todas as direções. Oito minutos depois, numa viagem à velocidade da luz, parte desse extraordinário fluxo de energia cai sobre a Terra, inundando-a com uma torrente de 170 mil trilhões de watts. Parte disso é refletida de volta ao espaço; o “Nascer da Terra” do Major Anders capturou aquela luz refletida pelo branco das nuvens e do gelo polar. A maior parte, porém, é absorvida; esta é a energia que move os ventos, faz as ondas e as correntes marinhas fluírem, esquenta as rochas e aquece o céu. O fluxo de energia solar flui para o sistema terrestre e reflui para fora, para o espaço frio e escuro como uma onda de radiação infravermelha.
Uma minúscula fração dessa energia é captada, não pelas rochas, pelos ventos ou pelas águas, mas pela vida. Aquela fração de um por cento da energia capturada pelas plantas e por outros organismos fotossintéticos é distribuída através das cadeias alimentares do mundo. É esta luz solar, infinitamente fresca, que faz a grama crescer, o pássaro cantar – e você, viver. A energia do Sol flui, através do seu cereal matinal no seu café da manhã, para as suas veias e para seu cérebro. Ela te anima como tem animado quase toda a vida da Terra durante bilhões de anos. 
A ciência da termodinâmica nos diz que um sistema fechado tende ao equilíbrio, à indiferença, ao aumento da entropia. Se a Terra fosse um sistema isolado como parece, a tendência inevitável seria a perda, o fim da vida. Mas a Terra é tão aberta quanto o céu. Energia de toda a parte passa por ela, criando infindáveis chances para a complexidade e a improbabilidade, levando a entropia do mundo de volta ao espaço. O fluxo de energia que une quase todos os seres vivos do planeta é o mesmo que liga nosso ambiente ao universo lá fora.
Para que esse fluxo funcione de forma adequada, a energia deve sair da mesma forma que entra. Se o Major Anders estivesse equipado com uma câmera de infravermelho, a energia que sai teria nos mostrado um brilho aquecido no lado noturno do planeta. Quarenta anos depois, aquele brilho pareceria um pouco enfraquecido por que menos energia está saindo daqui. Ao cobrirmos os céus com dióxido de carbono, nós estamos bloqueando esse fluxo energético, aumentando o calor aqui na superfície da Terra. Este aquecimento global por efeito estufa é “café pequeno” em qualquer sentido cósmico. Ele não traz nenhuma ameaça à continuidade da vida na Terra, mas é uma ameaça a dezenas de milhões de pessoas e continuará a ser por gerações.
Felizmente, ver o problema do aquecimento global em termos de fluxo de energia é enxergar sua solução. Ao colocar um pouco da energia cósmica em uso – ao desenvolvermos a energia eólica em verdadeiras fazendas energéticas, a hidroeletricidade, e, a mais promissora de todas, a energia solar – nós poderíamos acabar com a necessidade daquele gás carbônico que está sobrando nos céus. Outros fluxos de energia poderiam ajudar também. Fluxos de calor das profundezas da Terra ou da radiação que herdamos com o urânio das estrelas mortas. Mas é a energia solar que, direta ou indiretamente, irá dominar esse panorama, simplesmente por que é abundante. O Sol entrega mais energia à Terra em uma hora do que a humanidade consome em um ano.
Substituir os combustíveis fósseis, despoluir o nosso planeta e ainda evitar a nossa ruína – o pior de dois mundos – é um desafio épico. Mas a mensagem que emoldura todas as mensagens do “Nascer da Terra” é que nós somos capazes de desafios épicos. Veja só onde a foto foi tirada. Mas “Se nós colocamos um homem na Lua então por que não acabar com a pobreza?…” Isso pode nos mostrar as falhas da sociedade em alcançar metas que eram muito mais simples. Mas lembre-se: nós colocamos um homem na Lua e isso não foi pouca coisa. Esforços numa escala similar no sentido de colher esse fluxo de energia que passa por nós seriam inteiramente apropriados e tornariam as coisas mais fáceis.  Nós não poderemos resolver todos os problemas; algumas mudanças climáticas serão inevitáveis. Mas não a catástrofe.
O “Nascer da Terra” nos mostrou onde estamos, o que podemos fazer e o que temos em comum. Mostrou-nos quem somos nós, em conjunto: o povo de um mundo forte, durável, tocado pela luz da criação contínua.
Oliver Morton é autor de “Mapping Mars: Science, Imagination and the Birth of a World”(“Mapeando Marte: Ciência, Imaginação e o Nascimento de um Mundo”) e, mais recentemente, escreveu “Eating the Sun: How Plants Power the Planet” (“Comendo o Sol: Como as Plantas Alimentam o Planeta”); é editor-chefe da revista Nature.

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Veja também:
Pálido ponto azul, em vídeo, pelo grande Carl Sagan

Salvem o planeta, em vídeo, pelo impagável e inesquecível George Carlin
Not-so-lonely planet, versão original no site do New York Times

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