Retratos da fé

Quem já tentou discutir com um fundamentalista, especialmente um cristão, com certeza já ouviu uma dessas:

[do hiliariantemente herético LOLgod]

Bate o sino sob o solo

Perto de Raleigh há um vale do qual se diz ter sido formado por um terremoto há várias centenas de anos. Tal convulsão natural teria engolido uma vila inteira, inclusive a igreja. Antigamente era costume das pessoas se reunir nesse vale a cada manhã do Dia de Natal para ouvir o badalar dos sinos da igreja debaixo da terra. Afirmava-se positivamente que poder-se-ia ouvi-los ao colocar a orelha sobre o solo e ouvir atentamente. Tão recentemente quanto em 1827, era comum encontrar naquela manhã velhos homens e mulheres, que pediam a seus filhos e amigos mais jovens que fossem ao vale, se abaixassem e ouvissem o alegre repicar dos sinos. Na verdade, os aldeões ouviam o soar dos sinos de uma igreja nas vizinhanças, cujo som se propagava através da superfície do solo, mas cuja causa havia sido mal formada pela ignorância e credulidade dos ouvintes.

— J. Potter Briscoe, “Stories about Bells” ["Estórias sobre os Sinos"], in William Andrews (org.), Ecclesiastical Curiosities [Curiosidades Eclesiásticas], Londres: 1899.

>Fé e Obra

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Não sabia que a Igreja Católica aceita o cumprimento de promessas “por procuração”…

Catarina de Médicis (rainha da França) fez um voto de que se algumas de suas preocupações terminassem bem-sucedidas, ela enviaria um peregrino a Jerusalém. Ele iria a pé até lá e, a cada três passos para frente, ele voltaria um passo para trás. Havia dúvidas se poderia ser encontrado um homem suficientemente forte para ir a pé e suficientemente paciente para retroceder um passo a cada três. Um cidadão de Verberie se apresentou e prometeu pagar o voto da rainha do modo mais escrupuloso possível. A rainha aceitou sua proposta e prometeu-lhe uma recompensa adequada. Diz-se que ele cumpriu sua promessa com grande exatidão e que a rainha foi constantemente informada por relatórios. — William Granger, The New Wonderful Museum, and Extraordinary Magazine [Revista do Novo Museu do Maravilhoso e Extraordinário], 1804

Católica de origem italiana, Catarina de Médicis (1519-1589) foi rainha consorte e regente da França em diversas ocasiões durante a Reforma e Contra-Reforma. Entre outras “preocupações”, ela foi responsável pelo Massacre da Noite de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572. Para alegria do Vaticano, mais de 30 mil protestantes franceses foram mortos numa única noite. Afinal, “a fé sem obras é morta”.

>Pérolas Fundamentalistas III: a Ascenção

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porco
E depois de quase dois anos, essa série volta para nos assombrar com exemplos do que a fé é capaz de gerar. Para começo de conversa, uma torrente de ignorância na polêmica sobre a presença de gays no Exército:


Homossexualidade é só sexo e luxúria… só o fato de que eles são tão promíscuos prova que NUNCA há devoção e amor por outra pessoa. Esse é o porquê tal ato é tão desagradável (fora as doenças e os danos)… não há honra ou caráter para pessoas que se engajam em tais atos e o acham “bom”. Sempre acaba em pederastia rampante, como no Afeganistão, os Gregos e os antigos Japoneses.
Nossos militares estarão num vácuo de honra e caráter em nada diferente dos Gregos e Romanos pagãos… dos Russos ateus que fizeram Patton vomitar e das tropas Nazistas homossexuais adoradoras de Odin… É tão repugnante como eles escondem os fatos verdadeiros sobre os efeitos da promoção desses atos malignos, feios contra a moralidade sempre que eles ocorrem, como na República de Weimar. A Bíblia descreve Sodoma e Gomorra e aquilo não era pior que a República de Weimar. Era notório que o Vício Nacional da Alemanha nos anos 20 era a homossexualidade crescente. Todos os oficiais de outros países eram alertados para guardar suas costas quando tinham que interagir com os alemães.
Precisamos retornar ao paradigma Cristão sob o qual ficamos por duzentos anos. Ele está alinhado com a Lei Natural e é perfeito para um povo livre e justo. [...] Se não fosse pelo Cristianismo, a Civ. Ocidental teria morrido. Nenhuma das sociedades pagãs, ateístas, islâmicas, etc, jamais poderia criar o país livre-para-todo que nós temos. Isso é impossível. — savagesusie em Free Republic
Também parece ser impossível o surgimento de democracias no caso de nações cristãs, minha jovem. Especialmente naquelas onde a separação Estado/Igreja não é muito clara. Vamos ignorar toda a besteira historiográfica — afinal ela não deve ter entendido muito bem as aulas de História —, e ir direto ao ponto: se você diz que seu país é “livre-para-todos”, qual o problema de ser livre também para os homossexuais? E se um país é de “todos”, é mais do que justo que todos tenham o direito de defendê-lo, se quiserem.

Agora vamos para uma discussão fundamentalista sobre a pena para o estupro:

“‘Olho por olho e dente por dente?’ Não é olho por dedo ou dente por unha. Eu acho que é castração, talvez.”
Ele não extraiu o útero dela.
Ele fez sexo com ela.
A punição dele poderia ser ela fazer sexo com ele.

— anônimo, em The World according to Bob

Depende, meu caro. Esse sexo retributivo seria pela frente ou por trás? Ou será que isso também dependeria do estupro? Enfim, temos mais um estuprador em potencial (isso explica o anonimato). Mas não se preocupem, ele é um bom cristão.

Falando em almas bondosas, uma pergunta: Índios também são filhos de deus? Não para esse cara, que mais parece uma reencarnação de Torquemada:
TODOS os injuns [forma depreciativa de se referir aos índios] devem reconhecer os crimes dos índios do passado e reconhecer que NADA acontece na terra exceto com a APROVAÇÃO de Deus. Também precisam entender POR QUE Deus pensou que os Injun, como povo, teriam suas terras tomadas e suas tribos DESTRUÍDAS.
“Sabe com certeza que a tua descendência será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos; […] Na quarta geração, porém, voltarão para cá; porque a medida da iniqüidade dos amorreus não está ainda cheia.” [Gênesis, 15: 13,16, grifo original]
Tal como os Amorreus, Deus viu a degradação dos Injun e removeu-os e deu a Terra a uma nação que ELE escolheu.
— specter, em Minutemen Message Board
Crimes? Que crimes, cara pálida? Tu tá confundindo as tribos cananéias com os nativos da América, rapá!
Além disso, eu sempre pensei que deus tinha escolhido um pedacinho minúsculo de terra desértica fincado no Oriente Médio como terra prometida (e o povo ainda achou isso muito promissor…). Mas parece que, após alguns cansativos séculos de caça às bruxas na Europa, nada melhor que a “América” para acomodar o Divino Ego.
Falando em terra prometida, verifique se ela está bem firme em seu pedestal no centro do Universo:

A Terra não era apenas o primeiro planeta em existência, foi o primeiro objeto do universo que teve massa.
A terra (sic) veio primeiro, depois o universo foi criado à volta dela.
— AV1611VET, em Christian Forums

Claro, claro. Afinal se o universo não fosse geocêntrico, como Jesus faria para salvar todas as formas de vida fora da Terra? Ele teria que morrer em cada planeta habitado. Coitadinho, ele não tem poder (nem sangue) suficiente para isso…
Dizem que Jesus veio para redimir os pecados de Adão. Um desses pecados pode muito bem ter sido o incesto, não é mesmo?
[Resposta à alguém que apontou o incesto implícito nos relatos criacionistas dos primórdios da Humanidade]
Parece que você quer transformar esse “incesto” em algo ruim. Você pensa que o fato de ser incesto deveria ser destacado no artigo. Eu nunca discordei com a menção dessa ocorrência, mas discordo colocá-lo de forma a sugerir que havia algo de errado nisso. Mesmo o uso da palavra “incesto”, embora tecnicamente correto, é problemático por causa da conotação do termo.
— Philip J. Rayment, na Conservapedia
Uma objeção educada, é verdade, mas que ainda não responde a uma dúvida fundamental:
logic-test-1
Ou será que há um milagre apócrifo em Gênesis, alguma gravidez homossexual entre irmãos, algo totalmente aceitável e natural?
Para quem não sabe, Rush Limbaugh é um radialista linha-dura, um ícone da direita americana. Mas graças a ele, nossa próxima pérola  vem não de um fórum religioso, mas de um site sobre Rock (\m/):
Um radialista de direita disse a uma audiência de milhões que os trágicos eventos no Arizona no fim de semana, ondo seis pessoas foram mortas e 14 feridas durante a tentativa de assassinato da congressista Gabrielle Giffords, não têm nada a ver com armas e tudo a ver com metal music.
A banda texana Drowning Pool foi forçada a defender sua música Bodies após ser revelado que o suspeito do crime, Jared Loughner, gostava dela. Eles ressaltaram que a faixa era sobre “a irmandade do mosh” e o assunto era “respeito, não violência”.
Mas [Rush] Limbaugh afirma que a posição pró-armas da direita não teve nenhuma influência no ataque, enquanto a música teve.
Ele diz: “O cara ouvia heavy metal, e alguma daquelas coisas anarquistas. Nós estamos lidando com um indivíduo insano. São os liberais, não nós conservadores, que glorificam o comportamento criminoso e a apologia da violência. Eles chamam isso de arte.”
Aparentemente, Limbaugh jamais (a) entendeu arte como uma “válvula de escape” e (b) leu o Velho Testamento. Ou, embora seja radialista, ele ainda não conhece as bandas de metal cristãs. Sim, isso ecsiste!
Por fim, antes que me digam que eu não prestigio a produção nacional, seguem algumas amostras de fundamentalismo made in Brazil:
Para começar, a polêmica (e confusa) relação do Papa com a camisinha, ou melhor, sobre o uso da camisinha (grifos nossos):
Usar a camisinha é uma forma errada de salvaguardar a própria integridade; mas a intenção de se proteger, a consciência de que existem riscos associados ao uso desenfreado do sexo, é o que existe de positivo (embora, repita-se, os meios empregados estejam equivocados) no exemplo dado pelo Papa.
— Jorge Ferraz, em Deus lo volut
Estranho, não é mesmo. Embora a intenção de se proteger de DSTs seja “o que existe de positivo”, usar camisinha ainda é “uma forma errada de salvaguardar a própria integridade”. Então, camisinha tá certo ou errado para os católicos? Sexo seguro, comofas??/ Com criancinhas??
A confusão com a camisinha já é velha dentro da ICAR. Mas eu ainda não conhecia a birra com jogos eletrônicos de sucesso, como o Assassin’s Creed:
o jogo é como um imã [sic] para o erro no que diz respeito a tragar as almas para o antropocentrísmo [sic] mais escandaloso de tal sorte que por isso mesmo a pessoa seja arrastada ao mais crú [sic, esse cara não tem corretor ortográfico??] materialismo ou em uma hipótese menos drástica a um agnosticísmo [sic, pqp!] hedonista.
— de um post anônimo no Index Bonorvm
O texto todo é uma pérola, por que em nenhum momento o jogo é criticado tecnicamente. O que se critica é a suposta intenção do jogo: criar assassinos. A crítica inicia-se pelas origens históricas do termo assassino (de etimologia árabe, o que causa desconfiança no tal anônimo), fala da “seita dos ‘Assassinos’” e explica algo da trama do jogo, que envolve as cruzadas do ponto de vista árabe, isto é, herético e não-cristão. Mas o importante é o final, onde se apresenta total indignação apenas por que o jogo tem a ousadia de mostrar a sagrada ICAR como a vilã que realmente foi.
Mas não são apenas os católicos brasileiros que andam soltando pérolas na internets antes de passar os textos pelos corretores ortográficos:
Nos países não-cristãos se ploriferam as crenças mais ridículas e absurdas. Uma das mais difundidas hoje é o budismo, que conta com algumas variações, o Zen-Budismo, o Brahmanismo e o Hinduísmo.
O budismo é um candomblé oriental [sic], o sincretismo é bem semelhante: fazem danças venerando os deuses, encorporam entidades, fazem trabalhos de amarração e evocam espíritos.
[…] Assim como o [sic] umbanda, veneram vários deuses antropozoomorficos [sic, de novo! muda-se a fé, mas a ingorância é idêntica], ou seja, que possuem forma de homens e animais. Este tipo de adoração descende da era da pedra lascada, quando a raça humana ainda não tinha sido iluminada por mensageiros de Deus judeus, como Moisés, Jesus e o profeta Ezequiel.
— pastor Silas Adoniran Fonseca, no Igreja Internacional
Parece que o pastor Silas não é assim tão internacional. Ele parece incapaz de diferenciar budismo de hinduísmo. Na prática, ele fala de budismo, mas acerta no hinduísmo. É um Galvão Bueno da teologia. Mas em compensação, ele tem um perfil que por si só já é uma pérola: “Palestrante, cantor gospel, instrumentista, ex-álcoolatra, ex-assaltante e curado de um câncer no fígado. Sou assembleiano por convicção, apesar de já ter ministrado cultos na IURD, Deus é Amor, Igreja de Cristo, Sara Nossa Terra, Videira e Renascer.” Pois é, parece que a convicção dele — como o “amor à camisa” de muito jogador de futebol — sempre vai para a Igreja que paga mais. Talvez seja pela falta de materialismo que os budistas (ou seriam os hindus?) irritam tanto esse pastor.
Este post já está longo demais. Mas encontrei tanto bullshit fundamentalista por aí que, graças a deus (literalmente), essa série não vai morrer tão cedo.

>Uma prova de fé no tribunal

>

Em 1980, o canadense Morris Davie foi acusado de incendiar florestas e acabou detido pela Royal Canadian Mounted Police e submetido a um detector de mentiras.
Ele foi deixado sozinho em uma sala, e uma câmera escondida gravou o que ele fez: deixou-se cair de joelhos e disse “Oh, Deus, me tira dessa só mais uma vez.” A polícia apresentou a gravação, e essa frase em particular, como prova não apenas da culpa de Davie, mas de sua responsabilidade em outros crimes ambientais.
No julgamento, seu advogado (o de Davie, não o seu, se é que você tem um) protestou contra essa prova. O defensor argumentou que a prova apresentada violava a lei canadense, que proibia a interceptação de comunicações privadas “feitas sob circunstâncias na qual é razoável para o originador esperar que ela não será interceptada por qualquer pessoa além daquela intencionada pelo originador para recebê-la.”

Como sempre, não importa muito o que o advogado disse literalmente. O que importa é que, durante o julgamento, levantou-se a seguinte questão: Deus é uma pessoa?
Embora a divindade não tenha comparecido ao tribunal nem tenha se manifestado de qualquer forma, o juiz responsável pelo julgamento pensava que sim. E considerando o videotape como prova inadmissível, absolveu Davie. Evidentemente, a Corte de Apelações da Colúmbia Britânica discordou e decidiu que uma comunicação privada requer um “um receptor humano intencional”.
“Em minha opinião”, segundo a opinião do Magistrado J. A. Hutcheon, “a palavra ‘pessoa’ é usada nos estatutos do Canadá para descrever alguém a quem são garantidos direitos e são impostas obrigações. Não há autoridade terrestre que possa dar direitos ou impor deveres a Deus. Eu não vejo razão para pensar que o Parlamento do Canadá tenha tentado fazer isso ao aprovar as seções do Código Criminal que dizem respeito à proteção de privacidade.” Ele (o magistrado, não Deus) pediu um novo julgamento.
E em minha opinião, todo mundo se distraiu com essa divina questão existencialista e ninguém levou em conta o fato de que a lei canadense está muito mal redigida. Por que nenhum  emissor criminoso espera que sua ligação criminosa seja interceptada por alguém além de um receptor criminoso. Portanto, até mesmo uma comunicação criminosa, desde que seja privada,  é protegida pela lei canadense.
OBS: não sei no que deu o segundo julgamento. Talvez Davie finalmente tenha sido condenado, o que não é lá muito surpreendente. Também não sei se, em vez de buscar ouvir Deus sobre esse caso, alguém pensou em procurar as Testemunhas de Jeová.

>Trollagem Oitocentista

>Ah, o tempo passa, os nomes mudam, mas algumas coisas continuam sempre iguais. Como a fé, o medo do fim-do-mundo e a facécia (a.k.a trollagem):

Um terror pânico do fim do mundo assaltou o bom povo de Leeds e das vizinhanças no ano de 1806, após as seguintes circunstâncias. Uma galinha, em uma vila próxima, botou ovos nos quais estavam inscritas as palavras “Cristo está vindo.” Muitos foram os que visitaram o local e, ao examinar esses ovos maravilhosos, se convenceram de que o dia do julgamento estava ao alcance das mãos. Como marinheiros numa tempestade, à espera do naufrágio, os crentes subitamente tornaram-se religiosos, oravam violentamente, e confessavam-se arrependidos de suas maldades. Mas um mexerico jogou um balde de água fria naquela religiosidade toda. Alguns gentlemen, ao ouvirem a história, saíram numa bela manhã e pegaram a pobre galinha pondo um de seus ovos milagrosos. Eles logo perceberam que, sem sombra de dúvida, os ovos haviam sido inscritos com tinta corrosiva e cruelmente forçados de volta para dentro do corpo da galinha. Com essa explicação, aqueles que oravam agora riam e o mundo continuou balançando tão alegremente quanto nos dias de antanho.
– Edmund Fillingham King, Ten Thousand Wonderful Things [Dez mil maravilhas], 1860
UPDATE (07/02): Após mais uma dose de ceticismo e mais algumas investigações, descobri a identidade do autor dessa trollagem. Bem, na verdade é uma autora — e uma bruxa

>É dando que se recebe!

>

Um Católico Romano tinha uma ficha tão longa que decidiu se confessar com o padre para obter uma absolvição. Ele entrou no apartamento do padre e disse: “Padre, eu tenho pecado.”

O padre fê-lo ajoelhar-se diante da cadeira de penitências. O penitente estava olhando à sua volta quando viu o relógio de ouro do padre sobre a mesa, bem a seu alcance. Ele pegou-o e colocou-o no seu paletó. O padre aproximou-se dele e pediu-lhe para contar os crimes que cometera.


“Padre,”, disse o meliante, “eu roubei. O que devo fazer?” “Devolva”, disse o padre, “a coisa que você pegou a seu legítimo dono”. “Fique com ela”, disse o penitente. “Não, eu não vou pegá-la”, disse o padre, “Você deve deixá-la com o dono.” “Mas ele se recusa a recebê-la.” “Se esse é o caso, você pode ficar com ela.”

O padre deu ao homem total absolvição. O penitente levantou-se, beijou-lhe a mão, ouviu sua bênção, fez o sinal da cruz e partiu, com a consciência tranquila e um valioso relógio de ouro no bolso.
 
— Walter Baxendale, Dictionary of Anecdote, Incident, Illustrative Fact [Dicionário de Anedotas, Incidentes e Fatos Ilustrativos], 1888
Se o ladrão arrependido não tivesse , ele provavelmente não cometeria um novo roubo tão cedo. Já se o padre não levasse uma vida tão materialmente confortável (ou tivesse um mínimo de ceticismo), ele jamais seria assaltado.

>Blasfêmias?

>

Convenção do PCC e Concílio Católico (abaixo):
semelhanças vão além dos cerimoniais…
…Ambas as instituições se consideram
poderosas, mas adoram se vitimizar ao menor sinal de oposição.

Esta semana foi marcada por assim chamadas “blasfêmias” cometidas pela Comissão do Prêmio Nobel. Na segunda, a Igreja Católica — que tanto diz defender a vida — protestou contra a indicação de Robert Edwards, criador do método de fertilização in-vitro para o Nobel de Medicina/Fisiologia. Em seguida, foi o governo chinês, outra organização obscura, retrógrada (e revelando seu lado religioso) protestou — dessa vez contra a premiação do dissidente pró-democracia, Liu Xiaobo com o Nobel da Paz.

A reação de Roma não foi surpresa, dado o conservadorismo de Bento XVI.  A de Pequim  também já era esperada, mas surpreendeu pela ironia dos termos: dar o Nobel da Paz a um “condenado por atividades subversivas” é uma “blasfêmia” contra a República Popular Democrática da China. Com mais de 1 bilhão de habitantes, a China pode até ser uma República “Popular”, mas está longe de ser “Democrática”.
O antiquíssimo Reino do Meio expôs claramente a contradição de termos de um regime comunista: a religião é claramente condenada como um “ópio do povo”. Mas ao contrário do que muitos pensam, não se impõe o ateísmo. Impõe-se a adoração do Estado e de seus onipresentes líderes — no caso chinês, Mao Tsé-Tung. — que são alçados à condição de salvadores messiânicos ou mártires tombados na luta contra a “exploração capitalista”. Mas o discurso marxista do regime chinês não impede a abertura econômica em condições francamente capitalistas. Só que, interna e externamente, Pequim jamais admitiu que só foi capaz de tirar centenas de milhões da miséria apenas quando passou a adotar políticas econômicas claramente anti-comunistas.
E quando Liu Xiaobo, um mero professor de literatura chinês — um homem frágil, de óculos enormes — começa a pensar por si e a criticar o absolutismo político dos “camaradas” do “Partidão”, o que acontece? O regime todo treme de medo. Sim, o regime que se impôs pela subversão agora persegue e prende quem lhe parece subversivo. Revolução permanente? Que nada! Nada mais conservador do que um revolucionário no poder (Não é, José Dirceu?).
Liu Xiaobo: preso pelo crime de
“subverter o poder do Estado”.
Ou seja: por dizer o que pensa e
pensar diferente

Quando Liu ganha um prêmio notoriamente neutro, sem conotações políticas, concedido por uma academia de um país neutro — a Noruega —, Pequim corre para que a notícia não chegue aos milhões de outros potenciais Lius por que tem medo de seu próprio povo. De fato, a única liberdade que os jornais – oficiais, é claro – tiveram foi para criticar a premiação, tachando-a de “tentativa de irritar a China”, mas dizendo que “não vão conseguir [nos irritar].” Com a prisão de quem tivesse comemorado o Nobel de Xiaobo, a já esperada censura dos termos “Nobel da Paz” e “Liu Xiaobo” em sistemas de busca na internet e até de mensagens de SMS endereçadas a qualquer Liu, vê-se que os suposto objetivos da concessão do prêmio foram atingidos. Os chefões de PCC (Partido Comunista Chinês) estão se mordendo de irritação, essa é que é a verdade.

Liberdade de imprensa é blasfêmia. Respeito aos direitos humanos é blasfêmia. Autonomia para minorias étnicas, como tibetanos budista e uigures muçulmanos, é blasfêmia. Mas abrir a economia ao capital estrangeiro para criar fábricas onde se explora a mão-de-obra mais barata do mundo, formada por mulheres e crianças não é nada para Pequim.
Do outro lado da Eurásia, em Roma, as coisas não são muito diferentes. Embora se considere defensora da vida, a Igreja Católica protesta contra um homem que criou um método para permitir milhões de novas vidas, que seriam impossíveis de acordo com os “sábios preceitos da Natureza”, os quais por milênios condenaram casais à esterilidade e à frustração.
Professor Edwards: embora não esteja preso,
é condenado pelos Católicos.
Seu crime: criar 4 milhões de vidas.

Quando surge uma oportunidade de efetivamente consolar esses casais, o Vaticano se opõe baseado num potencialismo embrionário que se preocupa mais com um pequeno monte de células — que muitas vezes nem se desenvolve — do que com a vida já cheia de dores e preocupações de um casal que só quer tentar ter um filho da única maneira que lhe resta: a inseminação artificial. E condena, desde o início, o trabalho de Robert Edwards, um homem que acha a que “a coisa mais importante do mundo é ter filhos”.

Que tipo de consolo e compaixão cristãos Roma oferece aos que sofrem de infertilidade? Nenhum. Muito menos uma solução prática. Tudo que a Igreja faz é o que poder fazer: condenar pessoas que querem ser pais e a seus médicos,  gente que muitas vezes é (e infelizmente continua a ser) cristãos devotos. Em vez de louvar um novo meio para ganhar fiéis num momento de declínio — muitos bebês de proveta também são criados como católicos —, a Igreja Católica cospe no prato em que come.
Fertilização in-vitro é blasfêmia. Camisinha é blasfêmia. Homossexualismo é blasfêmia. Mas pedofilia e abuso sexual (talvez até contra os agora jovens de proveta) cometidos por sacerdotes que deveriam ser celibatários e escândalos financeiros com dinheiro do dízimo de milhões de fiéis não é nada para o Vaticano.
Nos dois casos, temos regimes idênticos: ultrapassados, absolutistas, incapazes de admitir os próprios erros e de se adequar aos novos tempos. Que em vez de se reformar, buscam fazer algo muito mais fácil: o papel de vítima, acusando qualquer oposição de perseguição ou até conspiração maligna. Sim, agora, de repente, tanto comunistas quanto católicos fazem coro ao dizer que estão sendo perseguidos e ameaçados por uma perigosa comissão de cientistas e pensadores malvados, que querem dominar o mundo. Coitadinhos. Pensam que mostram sua força ao protestar, mas só revelam suas fraquezas.

>Falando em oração…

>

Se RIR = INFERNO, então deus também vai abraçar o capeta?

>Alá é para lá

>

Decreto fez muçulmanos rezarem virados para lado errado na Indonésia
Ulemás mandaram fiéis rezarem virados para a África por engano. Clérigo afirmou que, apesar do erro geográfico, Alá ouviu orações.
A principal entidade islâmica da Indonésia, o Conselho dos Ulemás, anunciou nesta semana que cometeu um erro em março afirmando que a cidade sagrada de Meca estava a oeste do país.
Isso levou os fieis da maior nação islâmica do país [sic] a orar durante meses virados para o lado errado -olhando em direção à África, não a Meca.
O conselho pediu aos fiéis que mudem de direção em suas preces diárias.
Outro clérigo importante disse que os indonésios não precisam ficar preocupados, pois o erro de cálculo não afeta a habilidade de Alá de ouvir as orações.
Notem que nenhum ulemá reconheceu sua condição humana, admitiu o erro e pediu desculpas. Implicitamente, porém, eles deixaram claro uma heresia na qual todo “infiel” ocidental crê: não faz diferença para onde você ora. Não surpreende que um erro tão grande tenha acontecido. Afinal, líderes religiosos são sempre as pessoas mais desorientadas da sociedade.
Garoto issshperto!

Quando é importante voltar-se para certa direção geográfica, eles não sabem ao certo onde fica e, em vez de admitir isso humildemente, de estudar e encontrar respostas (ou de simplesmente usar o Google), eles apontam uma direção qualquer — e o rebanho vira-se para lá cegamente, certo  de que o líder é infalível (e de que suas cinco orações diárias serão ouvidas). Se eles mal sabem se orientar no sentido físico e concreto da palavra, como podem orientar a vida das pessoas? Que autoridade os ulemás têm, por exemplo, para declarar as mulheres como seres de segunda categoria ou a poligamia como algo aceitável (mas apenas para homens)?
Outras perguntas que todo muçulmano capaz de pensar deveria se fazer depois dessa lição de fé: Se é assim mesmo, se não fez muita diferença orar para o lado errado durante alguns meses, por que não se pode orar para qualquer lado sempre? Por que é que agora os clérigos muçulmanos pedem que seus fiéis mudem de direção na hora de rezar? Se Alá pode ouvir orações de qualquer lugar, por que raios os muçulmanos têm sempre que se voltar para Meca como se a cidade sagrada do mundo islâmico fosse apenas um microfone?

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