Publicado
20 de mar de 2012
morósofo (mo.ró.so.fo)
s.m. 1. um sábio idiota: alguém de educação pobre com eventuais iluminações filosóficas. 2. pejorativamente é um pseudo-filósofo, um filósofo pedante. Morosofia, s.f. espécie de loucura tranquila e lúcida. Morosofada, s.f. neolog. o “insight” filosófico de um morosofo; cf. filosofada. [do grego moros = tolo, néscio, louco + sophos = sábio, prudente]
BÔNUS: O insulto inglês moron – estúpido, retardado – vem da mesma raiz grega e originalmente era um termo técnico que significava “retardo mental brando” em psicologia.
OBSERVAÇÃO: Não estou certo quanto à pronúncia. Não sei se é /morósofo/ (como filósofo) ou /morôsofo/ (como moroso, palavra com a qual não há nenhum parentesco etimológico).
UPDATE (23/03): Como bem lembrou o Roberto nos comentários, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) registra a forma Morósofo. O post foi corrigido para incluir o acento.
Publicado
17 de jan de 2012
nesciência (nes.ciên.cia)
s.f. 1. estado de néscio: nesciedade. 2. ausência de conhecimento ou consciência; ignorância. 3. Filos. doutrina que afirma que nada é verdadeiramente cognoscível. (ou conhecível); agnosticismo. [derivado do latim nescientia = ignorância]
Publicado
11 de dez de 2011
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Em 1933, o matemático de Harvard George David Birkhoff (1884-1944) chegou à conclusão de que é possível quantificar essa coisa subjetiva chamada beleza. A ideia básica, afirmava ele, é que M = O/C, onde M é a “medida estética”, O é a ordem e C, a complexidade.
Elaborando esse princípio em fórmulas específicas, Birkhoff definiu o quadrado como o polígono mais agradável e a tríade maior como o mais deleitoso acorde diatônico. Dos oito vasos que ele considerou, uma peça Ming obteve a melhor nota, com M = 0,80. Em matéria de poesia, a abertura de
Kubla Khan, de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), seria belíssima, pois tem o valor de M igual a 0,83. Os mesmos princípios, segundo Birkhoff, podem ser aplicados à pintura, à escultura e à arquitetura. Segundo o matemático,
Esse tipo de uso da fórmula leva diretamente a certas máximas estéticas bem conhecidas:
1. Unifique tanto quanto possível, sem perda de variedade (isto é, diminua a complexidade C sem decrescer a ordem O).
2. Alcance variedade tanto quanto possível, sem perda de unidade (isto é, aumento de O sem crescimento de C).
3. Essa “unidade na variedade” deve ser encontrada em diversas partes bem como no todo (isto é, a ordem e a complexidade das partes entram na ordem e complexidade do todo).
“Agora parece-me que”, concluiu ele, “a postulação do gênio em qualquer sentido místico é desnecessária. A fase analítica aparece como parte inevitável da experiência estética. Quanto mais extensiva essa experiência for, mais definida se torna a análise.”
No entanto, a Equação (ou Medida) de Birkhoff não deixa de ser mais uma tentativa inútil de quantificar com precisão matemática o que é belo. Afinal, tanto a “medida estética” quanto a ordem e a complexidade podem ser conceitos extremamente subjetivos e, portanto, difíceis de definir objetivamente e mesmo de quantificar. É muito provável que o que Birkhoff calculou como belo — seja o quadrado ou o vaso Ming —, fosse, na prática, apenas um reflexo de suas preferências pessoais.
Publicado
8 de nov de 2011
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ipsedixitismo (ip.se.di.xi.tis.mo [ksi])
s.m. Retór. argumento dogmático ou arbitrário, normalmente baseado em algum argumento de autoridade. Ip.se.di.xi.tis.ta, adj. aquele que recorre ao ipsedixitismo; pessoa muito dogmática. [do latim ipse dixit, ele-mesmo disse]
Segundo Cícero (De Rerum Natura, I, 5) , o uso da frase remonta aos pitagóricos, para os quais a autoridade de Pitágoras era “ainda maior que a razão”. Durante a Idade Média, o uso do ipse dixit também foi comum, mas a referência passou a ser Aristóteles.
Publicado
24 de out de 2011
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| Esfera de Ouro (e urna funerária) de Nikola Tesla |
Quando você toca uma bola de ouro, toca a superfície de uma esfera e toca ouro. Parece razoável concluir que a superfície é feita de ouro. Mas o cientista da computação Antony Galton, da Universidade de Exeter, lembra que uma superfície é bidimensional e, não tendo espessura ou profundidade, não pode conter qualquer quantidade de ouro (ou qualquer outra coisa).
Então, o que acontece quando você põe o dedo em uma bola dourada? Não se pode dizer que você toca a camada mais exterior dos átomos de ouro, pois isso nos deixaria com duas superfícies (a da esfera e a da matéria que a forma). Por outro lado, não se pode afirmar que a superfície da esfera é uma coisa abstrata, sem existência física — muito menos quando se pode vê-la e pegá-la. Então, o que é uma superfície?
Como se esses questionamentos não fossem bastante superficialmente profundos (e idealmente esféricos), o filósofo e linguísta britânico J. L. Austin (1911-1960) ainda se perguntou: “Onde e o quê é exatamente a superfície de um gato?” Agora tente pensar na superfície de um gato arrepiado…
Publicado
30 de jun de 2011
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Quando eu penso em um unicórnio, o que eu estou pensando não é certamente [em] nada. Se nada fosse, então quando eu penso em um grifo, eu também estaria pensando em nada e não haveria diferença entre pensar em um grifo e em um unicórnio. Mas certamente há uma diferença. E qual pode ser essa diferença exceto que em um caso o que eu estou pensando é em um unicórnio e em outro, um grifo? E se estou pensando em um unicórnio, então certamente deve haver um unicórnio, apesar do fato de que os unicórnios são irreais. Em outras palavras, embora em um sentido certamente não existam unicórnios — isto é, quando se afirma que haveria equivalente para afirmar que unicórnios são reais —, em outro pode ser que tais coisas existam. Pois, se não existissem, não poderíamos pensar neles. — G.E. Moore, Philosophical Studies [Estudos Filosóficos], 1922.
O mesmo vale para duendes, fadas, elfos, hobbits, sacis e mulas-sem-cabeça, discos voadores, santos e deuses — todos existem, mas apenas dentro da cabeça de seus criadores. “O Homo sapiens”, declarou a autora e editora americana Joyce Carol Oates, “é a única espécie que inventa símbolos que passa a revestir de paixão e autoridade. E depois esquece que símbolos são invenções.”
Publicado
12 de mar de 2011
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Embora se diga muitas vezes que Matrix é apenas uma releitura high-tech de um antigo pensamento de Platão — o mito da caverna —, a inspiração pode ter sido bem mais recente. Nos anos 70 do século passado, o filósofo libertário Robert Nozick (1938-2002) propôs uma “máquina de experiências”:
Suponha que houvesse uma máquina de experiências que lhe daria qualquer experiência que você desejasse. Superduper neuropsicólogos poderiam estimular seu cérebro de tal forma que você pensaria e se sentiria escrevendo um grande romance, ou fazendo amigos ou lendo um livro interessante. Durante todo aquele tempo, você estaria flutuando em um tanque, com eletrodos ligados ao seu cérebro. Você deveria se plugar nessa máquina pelo resto da vida, reprogramando constantemente suas experiências? Se você teme perder experiências igualmente desejáveis, nós supomos que as empresas desse ramo pesquisaram exaustivamente a vida de muitos indivíduos [antes de fazer suas ofertas]. Você pode apontar e escolher diante de uma ampla biblioteca ou bufê de tais experiências, selecionando suas experiências para, digamos, seus próximos dois anos de vida. Depois de dois anos você terá de dez minutos a dez horas fora do tanque, para selecionar as experiências para os dois anos seguintes. É claro que, enquanto você está dentro do tanque, você não sabe que está lá. Você vai pensar que está realmente acontecendo. [...] Você se plugaria?
— Robert Nozick, Anarchy, State and Utopia [Anarquia, Estado e Utopia], 1974
É incrivelmente semelhante ao filme e talvez até mais assustador, já que sugere, implicitamente, que você pagaria para entrar na máquina e ter suas experiências. Quando Matrix chegou às telonas, surgiram questionamentos bastante fortes contra a recém-criada “realidade virtual”. Havia temores de controle mental do tipo sugerido por Nozick e de que isso arruinaria completamente nossa liberdade, anulando nosso poder de escolha.
Mas me parece que esse tipo de máquina de experiências não precisa ser necessariamente uma tecnologia super-avançada. Na verdade, talvez não precise ser nem uma máquina. A própria vida é bastante parecida: você vive fazendo escolhas e depois passa a se questionar se não está perdendo outras experiências ou oportunidades igualmente interessantes. Então você sempre acaba caindo sob controle de suas relações sociais (primeiro são os seus pais e os seus parentes; depois vêm os seus amigos e os seus amores), as quais te convencem de que você deve fazer algo por que outros já o fazem ou fizeram. Em última instância, você não escolhe nada sozinho, embora goste de acreditar nisso.
Publicado
10 de mar de 2011
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Tal como a
modéstia, a lealdade pode ser um comportamento paradoxal.
Você tem lealdade por alguém quando está ligado a essa pessoa por algum laço: de família, de amor, de amizade, de trabalho, ou de propósito. Lealdade é um ideal e, idealisticamente, você sente que tem um dever com essa pessoa. Mas ao apoiá-la incondicionalmente, você se submete ao bem-estar de outro indivíduo — e isso é o oposto do idealismo, é um anti-ideal.
“À primeira vista, apresentamos o agente leal como alguém louvável de um ponto de vista imparcial.”, escreve o filósofo cientista político irlandês Philip Pettit. “Um olhar mais apurado pode ver motivo para preocupação. [...] Ser leal é ser dedicado ao bem-estar de um indivíduo em particular e isso parece conflitar com a noção de que o leal é um idealista.”
Pettit não deixa de estar certo, mas só até certo ponto. Ser leal não significa, necessariamente, perder inteiramente a própria liberdade, tornando-se submisso. Como há várias camadas de lealdade, você pode, por exemplo, se considerar leal ao seu país, mas não ao seu governo. É esse tipo de lealdade que geralmente move revolucionários — como a juventude árabe dos dias atuais.
Publicado
22 de fev de 2011
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Agnoilogia
subst. fem. o estudo filosófico da ignorância. A.gnoi.lo.gia [do Grego agnoia, ignorância. Cp. com agnosticismo]
Eis um campo de estudos vastamente subestimado, dado que matéria para reflexão não falta.
Publicado
20 de fev de 2011
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Ver uma maçã vermelha deveria aumentar sua confiança na ideia de que todos os corvos são negros.
Por quê? Porque a afirmação “Todos os corvos são negros” é logicamente equivalente a “Todas as coisas não-negras são não-corvos”. E ver uma maçã vermelha ou grama verde ou neve branca (ou o Corinthians perdendo a Libertadores) reforça essa crença.
Mesmo sendo contraintuitivo, isso é logicamente inescapável. É o paradoxo de Hempel.