Em uma palavra [147]
acrasia (a.cra.sia)
s.f. 1. falta de vontade-própria; falta de autocontrole; desregramento; inconstância; incontinência. 2. ação de uma pessoa que contraria seu melhor juízo, e.g., o marido que trai mas sabe que está errado. Acrásico, adj. [do grego akrasia = ausência de comando]
Sócrates já conhecia o conceito, mas perguntava-se como a acrasia seria possível. Ele considerava paradoxal o ato de julgar que A é a melhor coisa a fazer seguido do ato de fazer não-A (ou anti-A). Uma solução simples e comum para este impasse é que, simultaneamente, há diferentes motivações em cada pessoa: razão e emoção (ou ponderação e impulsividade). Também pode haver alguma pressão social nesse tipo de atitude (mesmo a contragosto, o marido pode trair porque esse é o papel que se espera dele).
Muitos tomam a acrasia como sinônimo de fraqueza de vontade, mas isso nem sempre é verdade. O fumante que num momento pensa em parar de fumar porque faz mal, mas no seguinte conclui que é melhor manter o vício pelo prazer tem vontade fraca, mas não é acrático. Ele muda de ideia, mas não se sente culpado. Uma definição mais clara de acrasia talvez seja a insistência em fazer algo que se considera errado, ainda que com alguma dose de remorso ou arrependimento.
A poça sem fundo de Lewis Carroll
Lewis Carroll analisa a tensão superficial em um experimento mental. É um exemplo perfeito de lógica escorregadia:
Suponha um sólido mantido sobre a superfície de um líquido e parcialmente imerso: uma porção do líquido é deslocada enquanto o nível sobe. Mas, evidentemente, com essa elevação do nível, um pouquinho a mais do sólido acaba imerso. Assim, temos um segundo deslocamento do líquido e um consequente aumento do nível. Novamente, essa segunda elevação do nível causa ainda outra imersão e porseguinte outro deslocamento e mais outra elevação do nível do líquido. É auto-evidente que esse processo deve continuar até que o sólido seja inteiramente imerso e que o líquido passará a imergir o que quer que tenha mantido o sólido ou que esteja em contato com ele ou que possa ser temporariamente considerado parte dele. Se você mantém um galho de seis pés em contato com a superfície de uma poça d’água e esperar o bastante, eventualmente vai acabar sendo imerso. A questão da fonte de onde a água vem — que pertence a um alto ramo da matemática e está além de nosso presente escopo — não se aplica ao mar. Vamos, portanto, considerar o caso familiar de um homem parado à beira-mar, durante a maré-vazante, com um sólido em sua mão, o qual ele imerge parcialmente. Nesse caso, ele [o homem] mantém-se firme e imóvel, embora saibamos que ele deveria acabar afogado.
As multidões daqueles que perecem diariamente dessa maneira para atestar uma verdade filosófica — cujos corpos as ondas rabugentas lançam indiferentemente em nossas praias ingratas — merecem ser chamados de mártires da ciência mais do que um Galileu ou um Kepler.
Filosofia da porra
Ok, esse título não é muito sutil. Mas foi o que me ocorreu quando me deparei com esse trecho de Montaigne:
O físico Arquelau (ou Archelau), de quem Sócrates foi discípulo e favorito, segundo Aristóxeno, pensava que os homens e os animais eram engedrados por um barro leitoso produzido pela ação do fogo interno da terra; Pitágoras pensa que o sêmen, de que provimos, é a espuma do que há de melhor em nosso sangue; Platão diz que se trata de um corrimento da coluna vertebral e dá como prova o sentir-se nesse ponto a fadiga da tarefa fecundadora; Alcméon acha que é uma parte da substância de que se constitui o cérebro, e o comprova pelo enfraquecimento da vista nos que abusam da cópula; Demócrito considera que seja uma substância extraída de tudo o que entra na composição do corpo; Epicuro, que essa substância se extrai da alma e do corpo; Aristóteles, que é uma secreção proveniente do sangue e a última a expandir-se pelos membros; outros veem nessa secreção sangue cozido e justificam sua opinião com o fato de por vezes aparecerem gotas de sangue no pênis quando há por demais esforço em suas funções, e é a hipótese mais plausível, se é que algo pode ser plausível nessa infinidade confusa de opiniões. (Ensaios, trecho da “Apologia de Sebonde”)
Não foi a primeira vez que o pai do ensaísmo (ou, se preferir, blogueiro quinhentista) voltou sua atenção para um fluido corporal. Já vimos como ele considerou asqueroso o hábito de assoar o nariz com um lenço.
Complexo de Édipo 2.0
Ao passear com seu cachorro por uma floresta Jocasta Jones descobre um congelador que contém um homem. Ela o reaquece, ele acorda e se apresenta como Dum. Depois, ele mostra a Jocasta um livro com instruções para construir uma máquina do tempo e um congelador.
Jocasta e Dum acabam se apaixonando e têm um filho, Dee. Após crescer, o menino descobre aquele manual de instruções. Dee, então, constroi uma máquina do tempo e entra dentro dela, acompanhado do pai e levando o livro. Por motivos imprevistos, a jornada para o passado leva um longo tempo e, na falta de provisões, o jovem Dee é forçado a matar seu pai para comê-lo e sobreviver.
Tomado pela culpa, Dee chega ao seu destino e destroi a máquina do tempo. Ele muda seu nome para Dum, constroi um congelador e, com o livro, se mete lá dentro até ser encontrado por Jocasta.
Parece o mito edipiano em forma de ficção científica, mas é um artigo de filosofia publicado na revista Analysis em 1979. Nele, o então professor de filosofia Jonathan Harrison, da Universidade de Nottingham, pergunta: “É logicamente possível que Jocasta cometa um crime?”
Do ponto de vista dela, Dum entra em sua vida, eles têm um filho e depois de alguns anos tanto o marido quanto o filho desaparecem. Mas, para Dee, Jocasta se casa com seu próprio filho e dá à luz uma criança — que é o próprio Dee. Isso seria incesto? Freud explica?
Harrison, J. “Jocasta’s crime” ["O crime de Jocasta"], Analysis (1979) 39 (2): 65-66. doi: 10.1093/analys/39.2.65. (Disponível apenas para assinantes, mas há um pdf com o conto-artigo original no site do prof. Harrison)
Em uma palavra [96]
morósofo (mo.ró.so.fo)
s.m. 1. um sábio idiota: alguém de educação pobre com eventuais iluminações filosóficas. 2. pejorativamente é um pseudo-filósofo, um filósofo pedante. Morosofia, s.f. espécie de loucura tranquila e lúcida. Morosofada, s.f. neolog. o “insight” filosófico de um morosofo; cf. filosofada. [do grego moros = tolo, néscio, louco + sophos = sábio, prudente]
BÔNUS: O insulto inglês moron – estúpido, retardado – vem da mesma raiz grega e originalmente era um termo técnico que significava “retardo mental brando” em psicologia.
OBSERVAÇÃO: Não estou certo quanto à pronúncia. Não sei se é /morósofo/ (como filósofo) ou /morôsofo/ (como moroso, palavra com a qual não há nenhum parentesco etimológico).
UPDATE (23/03): Como bem lembrou o Roberto nos comentários, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) registra a forma Morósofo. O post foi corrigido para incluir o acento.
Em uma palavra [87]
nesciência (nes.ciên.cia)
s.f. 1. estado de néscio: nesciedade. 2. ausência de conhecimento ou consciência; ignorância. 3. Filos. doutrina que afirma que nada é verdadeiramente cognoscível. (ou conhecível); agnosticismo. [derivado do latim nescientia = ignorância]
>A Medida Estética de Birkhoff
>
Esse tipo de uso da fórmula leva diretamente a certas máximas estéticas bem conhecidas:
1. Unifique tanto quanto possível, sem perda de variedade (isto é, diminua a complexidade C sem decrescer a ordem O).
2. Alcance variedade tanto quanto possível, sem perda de unidade (isto é, aumento de O sem crescimento de C).
3. Essa “unidade na variedade” deve ser encontrada em diversas partes bem como no todo (isto é, a ordem e a complexidade das partes entram na ordem e complexidade do todo).
>Em uma palavra [77]
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ipsedixitismo (ip.se.di.xi.tis.mo [ksi])s.m. Retór. argumento dogmático ou arbitrário, normalmente baseado em algum argumento de autoridade. Ip.se.di.xi.tis.ta, adj. aquele que recorre ao ipsedixitismo; pessoa muito dogmática. [do latim ipse dixit, ele-mesmo disse]
>Profundidade Superficial (ou Superficialidade Profunda)
>
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| Esfera de Ouro (e urna funerária) de Nikola Tesla |
>Filosofia Unicórnia
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Quando eu penso em um unicórnio, o que eu estou pensando não é certamente [em] nada. Se nada fosse, então quando eu penso em um grifo, eu também estaria pensando em nada e não haveria diferença entre pensar em um grifo e em um unicórnio. Mas certamente há uma diferença. E qual pode ser essa diferença exceto que em um caso o que eu estou pensando é em um unicórnio e em outro, um grifo? E se estou pensando em um unicórnio, então certamente deve haver um unicórnio, apesar do fato de que os unicórnios são irreais. Em outras palavras, embora em um sentido certamente não existam unicórnios — isto é, quando se afirma que haveria equivalente para afirmar que unicórnios são reais —, em outro pode ser que tais coisas existam. Pois, se não existissem, não poderíamos pensar neles. — G.E. Moore, Philosophical Studies [Estudos Filosóficos], 1922.





É um punhado de material cósmico, composto principalmente de carbono e hidrogênio, um animal, cordado, mamífero, primata, hominídeo pensante (cof,cof...) que não tem a mínima ideia do que está fazendo no mundo (ou do que é o mundo) e de quem é.