Estrela é flagrada durante o jantar

Não, não estamos falando de uma estrela de cinema ou da TV. Não viramos o Ego ou o TV Fama. Mas você já deve ter ouvido falar que, um dia, daqui uns quatro meses bilhões de anos, um inchado e avermelhado Sol engolirá o nosso planeta. De certa forma, os cientistas acabam de ver isso — não no Sistema Solar, é claro.

Em trabalho recém-publicado no Astrophysical Journal Letters, uma equipe de astrônomos dos Estados Unidos, Espanha e Polônia afirmam ter descoberto que um planeta foi “engolido” enquanto estudavam a química de sua estrela-mãe. Um dos co-autores — Alex Wolszczan, da Pennsylvania State University — já é famoso no meio astronômico por ter liderado a equipe que descobriu o primeiro planeta extrassolar em 1992.

Durante as observações feitas entre 12 de janeiro de 2005 e 5 de março deste ano, no telescópio Hobby Eberly do McDonald Observatory, no Texas, os pesquisadores notaram que a estrela BD+48 740 devia ter acabado de jantar. No menu, um planeta com 1,6 massa de Júpiter. Sendo uma gigande vermelha em processo de envelhecimento, já se esperava que BD+48 740 estivesse em regime de engorda.

Concepção artístca do jantar estelar: petisco era um planeta pouco maior que Júpiter. [imagem: BBC]

O que ninguém esperava era pegá-la no flagra. Como explica Eva Villaver, da Universidad Autonoma de Madrid, em declaração à BBC, “capturar um planeta no ato de ser devorado por uma estrela é um feito quase improvável, dada a relativa rapidez do processo. Mas a ocorrência de tal colisão pode ser deduzida pela maneira como afeta a química estelar.”

Foi exatamente assim, por uma evidência química que, mesmo sem chegar a vê-lo, os cientistas descobriram que o planeta já havia sido servido (muito bem-pessado, talvez). Quando percebeu que BD+48 740 tinha uma concentração incomum de lítio — elemento que é rapidamente consumido pelas estrelas e, portanto, raro em sua composição —, a equipe passou a pensar que a estrela estava digerindo um de seus planetas. Também há outro planeta no sistema BD+48 740, situado a uns 1813 anos-luz, na direção da constelação de Perseu.

Esse sobrevivente foi tão afetado pelo cataclisma que serviu como testemunha que comprova a hipótese de uma estrela “fominha”. “De fato”, explica Andrzej Niedzielski, da Universidade Nicolaus Copernicus, em Torun, Polônia, “a órbita do planeta de BD+48 740 é a mais eliptica detectada até agora”. Essa órbita incomum não teria se formado naturalmente, mas seria consequência da desestabilização do sistema causada pelo crescimento da estrela e a consequente absorção de um planeta mais interno. Aliás, o planeta sobrevivente poderia ter sido lançado nessa nova órbita pela súbita liberação de energia causada por um “arroto” estelar. Comer um filho e arrotar diante de outro — que deselegante por parte de uma estrela-mãe!

M. Adamów et al. BD+48 740—Li Overabundant Giant Star with a Planet: A Case of Recent Engulfment? 2012 ApJ 754 L15. Artigo completo disponível em arXiv:1206.4938.

Patentes Patéticas (nº. 45)

conteiner-bala

Desastres nucleares! Erupções vulcânicas! Tsunamis! Há quem diga que tudo isso nos espera no apocalipse que se achega. Com tanto pouco tempo sobrando, dá pra se defender de tudo isso? A solução pode ser o Nuclear waste disposal system [Sistema de armazenamento de dejetos nucleares] inventado em 2002 por Larry A. Altersitz, de Cherry Hill (Nova Jersey). O sistema é simplesmente genial e usa um desastre para resolver outro através de

Um sistema para disposição de dejetos nucleares que essencialmente inclui o enchimento de contêineres com lixo nuclear e o subsequente lançamento dos contêineres no mar, na direção de um vulcão submarino que esteja derramando lava na bacia oceânica. [Assim,] os contêineres são colocados no mar e serão cobertos pela lava.

É realmente muito ingênuo, digo, engenhoso! E os contêineres ainda têm formato de bomba! Mas espere! As lavas não são tóxicas? Esconder um lixo tóxico debaixo de uma fonte de substâncias tóxicas não seria perigoso? Embora não apresente nenhum estudo ou evidência a seu favor, Mr. Altersitz jura que não. Sabe como é, lava é uma coisa natural e o que poderia haver de perigoso em algo natural?

Há outro problema — e esse é que pode nos levar aos tsunamis. Como todos os vulcões, os submarinos são imprevisíveis e incontroláveis (ainda mais em um cenário apocaliptico). Mesmo que encontremos facilmente um vulcão que esteja derramando lava prontinha para esconder lixo nuclear, pode ser que a erupção não seja suficiente e o derramamento de lava não esconda os contêineres atômicos — ainda mais se o responsável pelos lançamentos dos contêineres tiver uma mira ruim. Nesse caso, como proceder? Sem titubear, o próprio Mr. Altersitz responde no fim da patente nº. 6.846.967, emitida em 25 de janeiro de 2005:

Se o fluxo de lava for considerado inadequado, pode-se usar grandes explosivos para incrementar o fluxo de lava através do rompimento das paredes do vulcão.

Ufa, estamos salvos! Sim, porque esses “grandes explosivos” podem muito bem ser armas nucleares e elas não trazem nenhum risco adicional — exceto, talvez, uma grande marolinha atômico-vulcânica.

Blogagem coletiva Fim do Mundo

>A-π-calipse

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Ao longo do século XIX, vários autores anunciaram, cheios de confiança, que haviam encontrado um valor certo e exato de piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii pi. Infelizmente, houve bastante divergência, pois cada um deu a sua resposta. Buscando resolver de uma vez por todas o problema de π, DUDLEY (1977), matemático da DePauw University, resolveu procurar um consenso através da análise de uma seleção de 50 valores de π ordenados pelo ano do anúncio:
É mais ou menos por aí: 3,04862 < π < 3,200000

Surpreendentemente, Underwood Dudley descobriu uma tendência preocupante: o valor de π está diminuindo. Para encontrar o valor de pi para cada ano, Dudley usou a fórmula πt = 4,59183 – 0,000773t, onde t é o ano do cálculo do valor exato de pi. Fazendo as continhas, verifica-se que 1876 foi o ano com o pico do pi, co’ pi mais exato: 3,145926535. Desde então — admitindo-se um ritmo constante, é claro — o valor de π vem declinando. 
Para ser bem claro, isso pode ter consequências estrogonoficamente catastróficas:
Quando πt for igual a 1, [alerta Dudley] a circunferência de um círculo será igual ao seu diâmetro. Assim, todos os círculos vão entrar em colapso. O mesmo ocorrerá com as esferas (uma vez que elas têm secções circulares), entre elas a Terra e o Sol. Será, de fato, o fim do mundo, que vai acontecer em 9 de agosto de 4646, exatos 3 minutos em 27 segundos antes das 9 da manhã.

Entretanto, há uma boa notícia (pelo menos para os seus netos): “Será particularmente fácil calcular circunferências de círculos em 2059, quando πt= 3”. A cotação de π para 2011 é π 2011= 3,032737.
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Bibliografia
  • DUDLEY, Underwood. “πt”, artigo publicado em Journal of Recreational Mathematics 9:3, março de 1977, p. 178 

>Mundo Multipolar

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O pólo norte não é o único. Tampouco o pólo sul. O planeta Terra tem, na verdade, quatro pólos em cada hemisfério. E causa uma bagunça…

Quando se fala em Pólo Norte, a primeira coisa em que você pensa é no lugar onde, segundo a tradição, mora o Papai Noel. Felizmente, para ele, e infelizmente para nós, não existe apenas um único lugar, um único ponto da Terra que possa ser chamado de Pólo Norte.
Pólo #01 — Dos diversos pólos nortes, o mais conhecido (e o único que aparecia nos livros de geografia em que você estudou quando era um pirralho) é o Pólo Norte Geográfico, que é o ponto para onde convergem todas as linhas imaginárias de longitude (e onde as divisas de fuso-horário fazem seu happy-hour). Aparentado com o Pólo Geográfico, há a sua extensão na esfera celeste, o Pólo Celeste, que parece ser um ponto fixo do céu, ao redor do qual giraria toda a abóbada celeste.
Pólo #02 — Um patamar abaixo em termos de popularidade (e um degrau acima em termos de temores apocalípticos) estão os Pólos Magnéticos. O Pólo Norte Magnético (PNM), por exemplo, fica no norte do Canadá. Pelo menos por enquanto. Acontece que o PNM não tem localização física fixa. Sujeito às complexidades do campo magnético terrestre e da rotação da Terra, o PNM simplesmente não pára quieto. Normalmente ele se move menos de 15km por ano – mas desde a da década de 1990, o PNM passou a correr. Atualmente ele se move a até 55km/ano e está indo para a Sibéria. Nesse pique, o PNM deve ter um encontro com o Pólo Geográfico ainda durante esta década.
A reversão dos Pólos Magnéticos é um fenômeno  lento, gradual, natural e seguro. Mas muita gente acredita que pode haver resultados apocalípticos (pra variar, em 2012).
Na verdade, porém, uma reversão dos Pólos Magnéticos apenas facilitaria as coisas para nós. Por que, fisicamente falando, o Pólo Norte Magnético (para onde os arcos magnéticos convergem, voltando para dentro da Terra em direção ao núcleo-dínamo) age como se fosse o Pólo Sul de um grande dipolo. Igualmente, o Pólo Sul Magnético age como se fosse um Pólo Norte em um ímã: é o lugar a partir do qual os arcos magnéticos divergem, afastando-se da Terra espaço a fora.

Mapa Magnético. Note que as linhas de força entram no Norte e saem do Sul
Pólo #03 — Mais na verdade ainda, o ponto exato onde as linhas de campo do Campo Magnético são exatamente verticais é outro tipo de polo: o Pólo Geomagnético, que também pode ser definido como o ponto de origem das auroras (boreais no norte e austrais no sul). Se você estiver no PGM Sul (que fica no litoral da Groenlândia), além de ter a melhor visão de uma aurora, sua agulha vai apontar para baixo, junto com as linhas descendentes. Se você fosse visitar o PGM Norte (que fica no sul), sua bússola apontaria para cima, acompanhando as linhas ascendentes.

Uma reversão nos Pólos Magnéticos faria com que estes se alinhassem com os Geomagnéticos. Evidentemente, mesmo ao ritmo apressadinho do PMN, uma reversão levaria séculos2. Nesse meio tempo (e se a rota de inversão começar mesmo pela Sibéria), teríamos o PNM em lugares bizarros tipo a Índia.

Pólo #04 — Por fim, há o que pode ser chamado de Pólo Humano, que é a cidade mais próxima do Pólo Geográfico. O Pólo Norte Humano é a capital das Ilhas Svalbard, Longyearbyen. Mas também há uma cidade no Alasca que, embora esteja distante de qualquer dos outros pólos aqui citados, foi cinicamente batizada de North Pole1 e, por isso mesmo, recebe milhares de cartinhas endereçadas ao Papai Noel — evidentemente, escritas por crianças que não sabem que o endereço correto é o da Finlândia, mas enfim…
No mapa acima, A é o Polo Norte Magnético da Terra; B é o Pólo Norte Geomagnético; C é o Pólo Norte Humano e D é a cínica North Pole, Alasca. (Eu tentei incluir também o Polo Geográfico, mas aparentemente, o Google Maps não sabe localizar as coordenadas 90.0 N, 0 W dentro do mapa. #FAIL)
___________
 2 Ao ritmo de 55km/ano seriam necessários 231 anos para o Pólo Norte Magnético chegar ao Pólo Sul. Evidentemente, o processo pode levar mais ou menos tempo, pois não se sabe ao certo que tipo de interação causa o fenômeno, nem onde exatamente o Pólo vai estacionar. E, sim, por uma pequena confusão, a nota 2 vem antes da 1.
1 Há ainda outras duas localidades chamada North Pole. Cada uma é mais cínica que a do Alasca: a primeira também é uma cidade e fica no interior do estado de Nova York, na latitude 44º. N.; a segunda situa-se em pleno Hemisfério Sul, mais precisamente na região de Marble Bay, na Austrália Ocidental. Para evitar maiores confusões, esses “Pólos” não entram em nossas contas polares.



OBS: Note-se abaixo que a dimensão textual política também foi escolhida por uma incessante busca do duplo sentido (Pegou? política = estudo dos polos).

>Trollagem Oitocentista

>Ah, o tempo passa, os nomes mudam, mas algumas coisas continuam sempre iguais. Como a fé, o medo do fim-do-mundo e a facécia (a.k.a trollagem):

Um terror pânico do fim do mundo assaltou o bom povo de Leeds e das vizinhanças no ano de 1806, após as seguintes circunstâncias. Uma galinha, em uma vila próxima, botou ovos nos quais estavam inscritas as palavras “Cristo está vindo.” Muitos foram os que visitaram o local e, ao examinar esses ovos maravilhosos, se convenceram de que o dia do julgamento estava ao alcance das mãos. Como marinheiros numa tempestade, à espera do naufrágio, os crentes subitamente tornaram-se religiosos, oravam violentamente, e confessavam-se arrependidos de suas maldades. Mas um mexerico jogou um balde de água fria naquela religiosidade toda. Alguns gentlemen, ao ouvirem a história, saíram numa bela manhã e pegaram a pobre galinha pondo um de seus ovos milagrosos. Eles logo perceberam que, sem sombra de dúvida, os ovos haviam sido inscritos com tinta corrosiva e cruelmente forçados de volta para dentro do corpo da galinha. Com essa explicação, aqueles que oravam agora riam e o mundo continuou balançando tão alegremente quanto nos dias de antanho.
– Edmund Fillingham King, Ten Thousand Wonderful Things [Dez mil maravilhas], 1860
UPDATE (07/02): Após mais uma dose de ceticismo e mais algumas investigações, descobri a identidade do autor dessa trollagem. Bem, na verdade é uma autora — e uma bruxa

>A última coisa que você vai ver

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morri
Não olhe agora, mas… atrás de você! Isso mesmo é… é só uma parede. Ou pior: seu chefe.

>Uma Nova Criação?

>

Durante essa semana, todo mundo sobreviveu e nem percebeu. Não, não se trata da sobrevivência pura e simples, aquela da luta diária. Foi uma sobrevivência especial, extraordinária e da qual poucas pessoas se deram conta, apesar das notícias.
Na terça-feira, 30 de março de 2010, nós fizemos uma (ainda pequena) réplica do Big-Bang no Grande Colisor de Hádrons (LHC), a maior máquina do mundo. Às vésperas da páscoa, o renascimento para judeus e cristãos, nós acabamos de sobreviver à criação de um (ou até mais de um) míni-universo-paralelo.
Ou não.
DO FIM DO MUNDO PARA O COMEÇO
Durante os últimos dois anos, o LHC esteve em evidência na mídia. Para variar, sempre se destacavam seus aspectos negativos — como os altíssimos custos de construção e manutenção — ou até mesmo catastróficos — as experiências feitas lá acabariam com o planeta (ou, pelo menos, com a vida). Infelizmente, pouco esforço foi feito para explicar o que estava acontecendo e o que iria ser feito no LHC, tanto por parte dos cientistas como por parte da imprensa (especializada ou não).
Nas duas vezes em que não funcionou por motivos técnicos, a “máquina do fim-do-mundo”, como muitos a chamavam, rapidamente passou a ser motivo de chacota e críticas. Passou a haver tanto descrença e quanto reforço da crença no poder apocalíptico do LHC.
Quem acreditava numa desgraça de proporções cósmicas dizia que a máquina não funcionava por intervenção divina; deus não permitiria que nós fizéssemos uma coisa dessas: descobrir como o Universo começou. É claro que deus só estava tentando defender o pouco que lhe resta do papel de criador todo-poderoso. Ou, então, a máquina funcionaria e o apocalipse viria inevitavelmente — mas só em 2012.
Então, durante os meses de preparação para um novo recomeço no LHC o mundo continua como dantes: bebês nasceram; pessoas morreram ou se mataram de todas as formas possíveis; casais se juntaram e se separaram; terremotos, enchentes e nevascas catastróficos; padres comedores de criancinhas; escândalos políticos; atentados terroristas com motivações religiosas seguidos de mais discórdia entre judeus e palestinos, etc.
Nesse turbilhão todo que se chama Planeta Terra, foi fácil todo mundo se esquecer do LHC — exceto talvez a comunidade científica e os poucos que a acompanham. As pessoas continuam a acreditar no fim do mundo, de um jeito ou de outro, mas uma hora seria através de terremotos, outra hora nós seríamos sufocados pelo aquecimento global, ou então morreríamos nos matando mutuamente em atentados que se estenderiam indefinidamente em réplicas, tréplicas e n-réplicas.
“NOVOS CÉUS E UMA NOVA TERRA”?
Então, o LHC finalmente funciona e, subitamente… nenhum buraco negro incontrolavelmente voraz aparece. Nenhuma matéria estranha capaz de aniquilar a tudo e a todos. Nada. Simplesmente nada. Mais um fim-do-mundo passou em branco. A não ser que a possível “criação” de um míni-big-bang — ou “Novos Céus e uma Nova Terra” — não seja nada.
E talvez não seja. Uma vez terminada a sub-atômica explosão (e bota sub nisso), mesmo que um universozinho tenha realmente sido criado, nós já não teríamos contato com ele. Não seria mais parte do nosso universo, e portanto estaria inacessível. Tudo, enfim, não passa de uma possibilidade. Mesmo que algo tenha sido criado, levaremos anos até saber, se é que poderemos saber.
O que quer que venha a ser esse universozinho (se é que ele existe) nós nunca saberemos, até por que ele talvez leve outros bilhões de anos para evoluir. E mesmo que evolua, pode ser que vá numa direção que não permitiria a existência de vida. Para o bem ou para o mal, não teríamos responsabilidade alguma. Os cientistas do CERN não seriam — como nunca foram — deuses. Mas há algo mais por aqui: e se o nosso universo começou do mesmo jeito, com uma experiência similar? Eram os deuses físicos nucleares?
Certamente que não. Mesmo que fossem, eles igualmente não teriam qualquer influência sobre o nosso universo, pelo mesmo motivo que não temos sobre o nosso universozinho recém-explodido. E, no fim das contas, quem os teria criado? Outros deuses em uma “máquina do fim do mundo”? E esses outros deuses? Outros outros deuses? E os outros outros deuses? Outros outros outros deuses, ad infinitum? A única forma de escapar dessa armadilha de recursividades é admitir que deuses não existem, mesmo quando mais parece.
Mesmo com medo, o mundo não parou. Nem sequer prendeu a respiração. De uma hora para outra, o LHC deixou de ser visto como uma ameaça apocalíptica para virar um “grande salto para a humanidade”. Não surpreende. O que surpreende mesmo é que um experimento tão profundo não tenha provocado qualquer tipo de mudança ou de reflexão. 
Mas que besteira! Se “Novos Céus” não surgiram, por que é que haveria de aparecer uma “Nova Terra”? E mesmo que surgissem, talvez o mundo não iria parar; continuaria como dantes: bebês nasceram; pessoas morreram ou se mataram de todas as formas possíveis; casais se juntaram e se separaram…

>21 de maio de 2011

>

É mais uma data marcada para o fim do mundo. Desta vez, porém, a data teria sido agendada pelo deus cristão através de um código numerológico escondido na bíblia. Pelo menos é o que diz o novo profeta do apocalipse, o pastor Harold Camping, de 88 anos. O sr. Camping declara ser um engenheiro profissional que estuda a bíblia há mais de 70 anos. Segundo ele, cada palavra, cada número da escritura tem um “significado espiritual”.
O pastor-engenheiro diz que tem escrutinado a bíblia à procura da data final nos últimos 15 anos. Ao ser questionado por um repórter do San Francisco Chronicle, sobre 2012, a data (supostamente) apontada pelas profecias maias, o sr. Camping explicou: “essa data não tem nenhuma de autoridade bíblica pois é apenas um conto de fadas”. Camping está nesse negócio de datas para o fim do mundo já há muito tempo (embora não tanto quanto os maias).

Mais um apocalipse

O pastor Camping: profecias maias
são contos de fadas, mas a numerologia
bíblica nunca falha. OH, WAIT…

Aliás, não é a primeira vez que o pastor Camping anuncia a data agendada para o fim dos tempos segundo a bíblia. O apocalipse anterior estava marcado para 6 de setembro de 1994. Naquele dia, um domingo, Cristo tomaria um elevador e desceria até o andar térreo. Mais exatamente, num lugar chamado Veterans Memorial Building, em Alameda, Califórnia. O fato de que ele  Ele voltaria a aparecer num monumento secular (o Veterans Memorial é dedicado aos veteranos de guerra dos Estados Unidos), não impediu que Camping e algumas dezenas de seguidores vestissem suas melhores roupas domingueiras e fossem recepcionar Cristo com suas bíblias abertas para o céu. Infelizmente, Cristo não veio pelo elevador, nem usou as escadas. Mais uma vez, ele deixou seus fiéis a ver brancas nuvens (se é que houve nuvens naquele dia).

Cristo pode não ter vindo, mas a mídia veio. E com ela, o público. Hoje, o pastor Camping lidera um programa de rádio transmido por uma emissora AM de San Francisco e dezenas de outras do interior americano. Ele diz até que suas mensagens chegam aos chineses, através de uma rádio AM que, segundo ele, “jamais foi bloqueada [pelo governo chinês]. Isso não pode ser possível sem a vontade de Deus”. Talvez ele tenha se esquecido que, possivelmente, sua rádio cristã na China só pode ser pirata.
Concorrência
O pastor Camping não é o único a achar que a verdade bíblica está escondida em números. Isso foi uma verdadeira moda nos Estados Unidos dos anos 90 — o que também não surpreende, se lembrarmos de todo aquele papo ora mágico, ora apocalíptico sobre o ano 2000. Um dos rivais mais bem-sucedidos do pastor-engenheiro é um ex-jornalista do Washington Post, Michael Drosnin. Também aspirante a profeta do fim, Drosnin teria descoberto que um meteoro vai chocar-se contra a Terra em 2012. Como já naquela época se falava em profecia maia (pelo menos nos meios pseudo-acadêmicos), muitos estudiosos bíblicos saudaram a profecia de Drosnin como verdadeira. Outros tantos, mais sérios, consideravam tudo como fraude. E Drosnin conseguiu ganhar o Prêmio Ig-Nobel de Literatura em 1997.
Mas nem o sr. Camping nem seus fiéis parecem se abalar, seja com o passado seja com o futuro. Rick LaCase, presente no culto do fim do mundo de 1994 em Alameda diz que os 15 anos que se passaram só aumentaram sua fé. “Evidentemente, ele estava errado. Mas dessa vez vai acontecer. Pode ter havido dúvidas na última vez, mas não tínhamos prova alguma [Camping não havia divulgado os cálculos que apontavam para 1994]. Dessa vez temos.”

Os números escolhidos
Para o pastor Camping (bem como para os místicos cristãos), a Bíblia, além de ter sido ditada por deus — o que, com o perdão do trocadilho, faz de deus o ditador da bíblia — traz em cada letra e cada número  um significado espiritual. Alguns exemplos da numerologia segundo Camping: 5 é o número da penitência, 10 é plenitude e 17 é o número do céu.

O pastor-engenheiro explica seus cálculos: “Cristo foi crucificado em 1º. de abril de 33 d.C. Agora, em 1º. de abril de 2011 passaram-se 1978 anos.” Note-se que ele afirma conhecer com exatidão a data da execução de Jesus e, ao mesmo tempo, escolhe 2011 do nada. Continuemos com a explicação, Camping disse ao San Francisco Chronicle que multiplicou 1978 por 365,2422 dias, que é a duração do ano solar. Fazendo essa continha, verificamos que o resultado é apenas o número de dias que há em 1978 anos: 722.449,0716 — um valor sem qualquer importância.

Depois, Camping afirmou que teve uma ideia e viu que era boa: há 51 dias entre o dia da mentira, digo, 1º. de abril e 21 de maio. Adicionando esses 51 dias àquele valor, temos 722.500, o que é apenas um valor confortavelmente redondo. Mas é o número da revelação, segundo o pastor Camping. Esse valor total, 722.500 também pode ser expresso como (5x10x17)², ou, segundo a numerologia de Camping: Penitência vezes Plenitude vezes Céu ao quadrado.

Como se vê, não há nenhuma explicação sobre o intervalo de 1978 anos desde a crucificação. A numerologia de Camping não tem qualquer evidência bíblica, muito menos matemática. Aliás, no que é de se estranhar num pastor cristão fanático, Camping não fez nenhuma citação literal das escrituras. Mas ele insiste em dizer que sua profecia é superior à dos maias por que teria embasamento bíblico…

É evidente que todos esses números foram escolhidos pelo próprio pastor-engenheiro para que formassem um cálculo matematicamente perfeito. Ou quase. O pastor-engenheiro, que deveria prezar pela exatidão, desprezou aquela fração de 0,716 no meio dos cálculos só para conseguir o valor redondo que se encaixa na numerologia que ele inventou.

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