Publicado
22 de dez de 2011

Perto de Raleigh há um vale do qual se diz ter sido formado por um terremoto há várias centenas de anos. Tal convulsão natural teria engolido uma vila inteira, inclusive a igreja. Antigamente era costume das pessoas se reunir nesse vale a cada manhã do Dia de Natal para ouvir o badalar dos sinos da igreja debaixo da terra. Afirmava-se positivamente que poder-se-ia ouvi-los ao colocar a orelha sobre o solo e ouvir atentamente. Tão recentemente quanto em 1827, era comum encontrar naquela manhã velhos homens e mulheres, que pediam a seus filhos e amigos mais jovens que fossem ao vale, se abaixassem e ouvissem o alegre repicar dos sinos. Na verdade, os aldeões ouviam o soar dos sinos de uma igreja nas vizinhanças, cujo som se propagava através da superfície do solo, mas cuja causa havia sido mal formada pela ignorância e credulidade dos ouvintes.
— J. Potter Briscoe, “Stories about Bells” ["Estórias sobre os Sinos"], in William Andrews (org.), Ecclesiastical Curiosities [Curiosidades Eclesiásticas], Londres: 1899.
Publicado
29 de out de 2011
>
O halloween está chegando e com ele, as abóboras esculpidas e iluminadas. Mas pra que desperdiçar comida para fazer um jack-o’-lantern quando pode haver uma alternativa mais limpa e tecnológica? Ou você nunca ouviu falar de abóboras de plástico?
Talvez inspirado pelas árvores-de-natal artificiais, Jeffrey A. Chapman (de Phoenix, Arizona) criou e patenteou essa alternativa em 14 de março de 1995. A linguagem do resumo da patente é tão pateticamente artificial quanto a invenção que descreve:
A invenção está no campo dos itens de cavidade tridimensional e sua manufatura. Particularmente, itens como abóboras artificiais que o consumidor deseja esculpir ou alterar após a compra. Aqui se expõe uma novidade em termos de artigos moldáveis, como uma abóbora de Hallo-ween artificial, composta de uma casca de poliuretano cercando substancialmente (sic) um volume interior e com uma tênue cobertura elastomérica, como um acrílico, na superfície externa da casca. O artigo escavável pode ser formado por um processo inventivo no qual a espuma de material poliuretano, sendo uma matéria com uma densidade nominal de cerca de 2,5-3,0 libras por pés cúbicos, é borrifada de um bico rotativo a partir do interior de um molde. Após a separação do artigo de espuma poliuretana e o molde, o produto é coberto com uma cobertura elastomérica, como um material acrílico que é aplicado como líquido. Assim, os inventivos artigos, incluindo aqueles feitos de acordo com o processo inventivo, pode ser usado como um um item oco tridimensional inovador em várias formas. Adicionalmente, o artigo inventado, como as abóboras de Halloween (sic) são moldáveis, reutilizáveis e podem ser usadas com uma fonte de luz.
Entre as justificativas registradas na patente nº.
5.397.609, Mr. Chapman afirmou que, “embora sejam úteis para exposição” as lanternas de Halloween artificiais da concorrência são “tipicamente feitas de papel, cerâmica, plástico fino e macio”. Por isso mesmo, “não são adequadas à modelagem ou seguras para o uso com lâmpadas.” Um de seus objetivos é justamente esse de “honrar a festiva tradição de moldar abóboras”.
No entanto, o tradicionalismo do inventor do Arizona para por aí. Segundo ele, o problema com as abóboras que se compram na quitanda é que elas são “percíveis e, portanto, apodrecem após um tempo.” Mr. Chapman também considera o mau-cheiro e a bagunça criadas pelo uso da alternativa natural. Talvez ele simplesmente não goste de abóboras e, no fundo, nem do Halloween que tanto afirma defender.
Publicado
22 de ago de 2011
>
Embora hoje seja o dia do folclore apenas no Brasil, apresentamos a seguir algumas supertições americanas, coletadas pela folclorista Fanny D. Bergen em 1896 e publicadas no mesmo ano no livro Current Superstitions, Collected from the Oral Tradition of English Speaking Folk [Supertições Correntes, Coletadas da Tradição Oral de Pessoas que falam Inglês]:
- Se você espirrar de boca cheia durante uma refeição, um conhecido morrerá logo. (Virginia)
- Se o seu sapato se desamarrar, seu amor estará falando de você. (Alabama)
- Sonhar com pão é sinal de boa sorte. (Boston)
- Se derrubar o pano de prato, terá companhia. (Pensilvânia)
- Se passar um bebê por uma janela, ele nunca vai crescer. (Carolina do Sul)
- Covinhas no rosto, demônio no corpo. (Maryland)
- Se você for dama de honra por três vezes, nunca vai ser noiva. (Nova York)
E direto de Portland, no Maine, uma quadrinha (devidamente traduzida a seguir):
Beware of that man,
Be he friend or brother,
Whose hair is one color
And moustache another.
Tome cuidado com o homem
Seja ele amigo ou irmão
Cujo cabelo é de uma cor
E o bigode de cor não.
Para os interessados, o livro de Miss Bergen já está em domínio público e pode ser baixado no
Projeto Gutenberg.
Publicado
15 de jul de 2011
>
Segundo Sabine Baring-Gould, em seu Book of Werewolfes [Livro dos Licantropos] (1865), os versos que seguem são, segundo o folclore russo, uma invocação de lobisomens:
Aquele que deseja se tornar um oboroten, deve procurar na floresta uma árvore cortada. Deve apunhalá-la com uma pequena faca de cobre e andar ao redor da árvore, repetindo o seguinte encantamento:
No mar, no oceano, na ilha, em Bujan,
No pasto vazio cintila a lua, sobre um rebanho
que repousa em um verde bosque, em um obscuro vale
Em direção ao rebanho desvia-se um lobo desgrenhado
Os cornos do gado procuram suas brancas e afiadas presas
Mas o lobo não se volta para a floresta
Nem desce ao sobrio vale
Lua, lua, lua de chifres de ouro
Cega o voo das balas, parte as facas dos caçadores
Quebra a clava do pastor
Lança um medo pânico sobre todo o gado
Sobre os homens, todas as coisas mais aterrorizantes
Que eles não possam capturar o lobo cinza,
Que eles não possam rasgar sua pele quente!
Minha palavra é irresistível, mais irresistível que o sono,
Mais comprometedora que a promessa de um herói!
Então ele pula três vezes sobre a árvore e corre para a floresta, transformado em um lobo.
Pensando bem, isso mais parece uma oração, não é mesmo? Pagã, talvez, mas ainda tem uma estrutura muito similar à uma oração: começa com um relato, aparece um problema e clama-se a uma divindade (nesse caso, a “lua de chifres de ouro”) uma proteção invencível e uma transformação mágica em troca de uma fidelidade igualmente invencível (“mais comprometedora que a promessa de um herói”). Amém.
Publicado
20 de jun de 2011
>
Em todo o mundo, muitos foram os que buscaram a Fonte da Juventude. Mas em Gubbio, uma pequena cidade medieval da Itália, não é difícil encontrar a Fonte da Loucura. Construída no século XVI, a Fontana de Bargello logo passou a ser chamada pelo povo de Fontana dei Matti [Fonte dos Malucos].
 |
| Até a fotografia enlouquece perto da Fontana dei Matti! (crédito: lucamoglia.it) |
Situada na região da Úmbria, Gubbio sempre teve fama de ser um lugar de gente excêntrica. A Fonte dos Loucos fica no centro velho da cidade e ainda é um ponto de encontro para moradores além de ter se tornado uma atração turística.
De acordo com a tradição local, é possível conseguir uma licença de “matto di Gubbio” [louco de Gubbio] após dar três voltas em redor da fonte e ser batizado com suas águas — mas o batismo só vale se for feito por um cidadão nativo. Com uma grana dá até para conseguir um título de cidadão honorário e, como bônus, um certificado de maluquice legítima.
O folclore por trás (ou em em torno) da fonte pode não ser tão maluco (ou turístico) quanto parece à primeira vista. Estudos geológicos da área de Gubbio mostraram que o solo da cidadezinha italiana é rico em irídio, metal altamente tóxico — o que poderia explicar a secular fama de loucura de seus habitantes.
Publicado
8 de jun de 2011
>
Em 1929, um homem bem-vestido procurou os irmãos Tony e Nick Fortunato, proprietários da New York’s Fortunato Fruit Company, uma pequena quitanda da Big Apple. O homem se apresentou como T. Remington Grenfell e disse ser vice-presidente da Grand Station Holding Corporation, a empresa que administrava a Grand Central Station.
Falando estritamente de negócios, Grenfell disse aos irmãos quitandeiros que a Grand Station havia decidido fechar seu posto de informações. Se eles estivessem interessados, só precisariam pagar um ano de aluguel adiantado, no valor de 100.000 dólares para converter o espaço em uma quitanda situada no meio da maior estação ferroviária de NY.
Entusiasmados, Nick e Tony arranjaram os cem mil dólares e foram até a sede da G.S.H. Corp. Lá, eles foram recebidos pelo próprio presidente da companhia, Wilson A. Blodgett. Blodgett aceitou o dinheiro e firmou um contrato que cedia o ponto para fins comerciais a partir de 1º. de abril. Os irmãos Fortunato levaram esse pequeno detalhe a sério. Mas era tudo bom demais para ser verdade.
Quando eles chegaram à estação para tomar posse do ponto no dia marcado no contrato e começar a reformá-lo, descobriram que o posto de informações continuava funcionando normalmente. Irados, os Fortunato começaram a discutir com os funcionários do posto, mas não por muito tempo: eles acabaram expulsos a pontapés pelos seguranças da Grand Station. Quando voltaram à sede da tal corporação, deram de cara com um escritório vazio.
Como não tinham nenhum
Padrinho, os desafortunados irmãos Fortunato nunca conseguiram recuperar seu investimento. Quem quer que tenham sido, Grenfell e Blodgett nunca foram presos ou sequer localizados. Mas durante vários anos seguintes, Nick e Tony Fortunato visitaram a Grand Central apenas para se vingar, castigando os empregados da estação — e acabaram se tornando uma pequena atração turística.
Publicado
1 de jun de 2011
>
Na Nova Caledônia, as crianças recebem seus nomes de objetos naturais. Mas se a criança morre, os parentes não podem mais chamar aquele objeto por seu antigo nome. Uma nova denominação deve ser inventada para uso daquela família. O costume resulta em notável variedade do dialeto neocaledôneo e é um desafio para os pais que perdem seus filhos. — J. B. Mc Clure, Entertaining Anecdotes from Every Source Avaiable [Anedotas Divertidas, de todas as fontes disponíveis], 1880
Publicado
22 de jan de 2011
>
Os Zuñi (ou Zuni) são uma dentre as diversas tribos de nativos norte-americanos; são nativos do Novo México e são parte dos chamados pueblos. Atualmente, existem 12 mil índios zuni e eles são notáveis por sua mitologia. De acordo com suas antigas lendas,
“os primeiros humanos vieram de quatro cavernas situadas no submundo, um lugar conhecido como Regiões Baixas. Naquele tempo, a superfície da Terra era um lugar assustador: estava coberta de água, era abalada por grandes terremotos e repleta de bestas predadoras.
Os Filhos do Sol, com pena dos humanos, secaram e solidificaram a Terra com suas flechas de luz. Ao tocar os animais, essas flechas os encolhiam e transformavam-nos em pedras. Os animais que conseguiram escapar são os ancestrais dos animais de hoje.”
É interessante notar como esse mito parece razoavelmente correto ao falar que a Terra primitiva era um lugar cheio de água (os oceanos eram maiores), com grandes terremotos e com grandes feras indomáveis (não necessariamente dinossauros; os primeiros homens deviam pensar o mesmo de todos os animais até que aprenderam a domesticar alguns). Além disso, diz o conto que os primeiros homens viveram em cavernas “no subsolo”.
Cabe perguntar se esses animais transformados em pedra não seriam fósseis descobertos por acaso. Se sim, aí é até provável que os dinossauros fossem aquelas “bestas predadoras”.
Mas o conto cai no erro de afirmar que o homem já existia antes dos animais modernos, no tempo de seus ancestrais.
Publicado
17 de nov de 2010
>
Na Praça do Mercado em Devizes, Wiltshire, Inglaterra, há a seguinte um monumento com a seguinte inscrição:
Na terça-feira, 25 de janeiro de 1753
RUTH PEARCE
de Potterne, neste Condado,
Fez um acordo com três outras mulheres para comprar um Saco de Trigo
no Mercado, cada qual pagando sua devida proporção
pelo mesmo.
Uma dessas Mulheres, ao coletar as várias quotas
de Dinheiro, descobriu uma deficiência e exigiu de
RUTH PEARCE a soma que faltava para
completar o Montante.
RUTH PEARCE protestou que ela já pagara sua Parte,
e disse que gostaria de cair morta se não o
tivesse feito. — Ela imprudentemente repetiu esse terrível desejo; — quando, para a consternação e o terror da multidão
que a cercava, ela caiu instantaneamente e expirou,
com o dinheiro em questão em suas mãos.
Na época, John Clare, encarregado de investigar a morte de Ruth Pearce, acreditou na história e concluiu que ela “caiu morta pela vingança de Deus”. Não seria surpresa se, com a aproximação entre Católicos e Anglicanos, Ruth Pearce virasse a santa padroeira dos mão-de-vaca. Falando sério, Pearce pode ser apenas uma personagem folclórica, coisa que toda cidadezinha tem para atrair turistas.
Devizes é uma tradicional cidade-mercado e os mercadores sempre tiveram grande influência por lá. Assim, a história pode ter sido inventada para assustar os inadimplentes numa época em que não existiam serviços de proteção ao crédito (aka Serasa).
Mesmo que Ruth Pearce tenha sido uma personagem real, a morte dela não tem nada de sobrenatural. Ela simplesmente pode ter tido um enfarte ou uma morte súbita.
Publicado
7 de nov de 2010
>
Fica em Portland, no Oregon:
 |
| Mill Ends Park: mais uma criação de um jornalista entediado… Ô raça! |
Com apenas 0,61 cm de diâmetro e 0,29 metro quadrado de área, o Mill Ends Park é 60 milhões de vezes menor que seu vizinho, o Forest Park. O miniparque surgiu no dia de São Patrício de 1948, quando o jornalista Dick Fagan, do Oregon Journal, notou um buraco perto de seu escritório, no meio da South West Front Street.
Fagan dizia que o parque começou depois que ele olhou pela janela de seu escritório e viu um leprechaun cavando um buraco. Ele correu até lá e pegou o leprechaun, o que lhe fez ganhar um pedido. O jornalista disse que queria um parque só para ele. Mas como não disse de que tamanho seria o parque, acabou ganhando o buraco do leprechaun, que se chamava Patrick O’Toole. Dick decidiu plantar flores no buraco e passou a escrever uma coluna semanal sobre o parquinho, que ele descrevia como a “única colônia de leprechauns a oeste da Irlanda.”
Depois da morte de Fagan, em 1969, a população adotou o jardinzinho. Em 1971, o Guiness Book o reconheceu como o menor parque do mundo e a prefeitura oficializou-o como parque municipal em 1976. Desde então, além de ser o lar dos leprechauns, o Mill Ends Park já teve uma piscina para borboletas, uma réplica do prédio do jornal e hoje sedia a corrida anual de caramujos.