Em uma palavra [153]

brulote (bru.lo.te)
s.m. 1. Náut.
navio ou barco não-tripulado, carregado de material inflamável ou explosivos, e que era incendiado antes de ser lançado contra embarcações inimigas; navio-fogo, navio-bomba. 2. por extensão, indivíduo notório por suas opiniões incendiárias; pessoa bombástica. [do francês brûlot]

Em uma palavra [139]

malaxar (ma.la.xar)
v. t.
amassar uma substância para fazer emplastro; amassar para homogeneizar; dar ou fazer massagem em; fatigar. Mesma conjugação de relaxar. [do francês malaxer, deriv. do lat. malāxare; cp. com o gr. malássein = debilitar, abrandar, suavizar; e malakós = mole]

Em uma palavra [139]

sage (sa.ge)
adj. 2g. (em desuso)
aquele que sabe muito, sábio, sapiente; aquele que vive sem as ambições e as inquietações que perturbam a existência do homem comum; filósofo, mentor, mestre; prudente; virtuoso. sagez ou sageza, s.f. qualidade do caráter sage. [do francês sage = prudente ou razoável; compare com o inglês wise]

Ao contrário do que possa parecer, não há relação com sagaz, que vem do latim sagax, sagacis e é sinônimo de “astúcia” ou “perspicácia”. O termo francês sage, por sua vez, tem parentesco com o  latim vulgar *sapius, que nos deu “sábio”.

Em uma palavra [138]

loquete (lo.quê.te)
s.m.
cadeado, ferrolho, trava. [do francês loquet, deriv. do antigo francês loc e este do germânico loc. Cp. com o inglês lock]

O rei do riso (e dos parênteses) francês

Não tem jeito: vez por outra alguém que lida com arte sofre com a falta de inspiração. Não deve haver escritor que não tenha escrito algo sobre a falta do que escrever. Mas em termos de falta de inspiração, ninguém supera Alphone Allais (1854-1905). Ele fez desse tema a sua obra.

Na falta de talento, Messier Allais foi um prolífico autor sobre o nada. Sua obra-prima, porém, é uma composição musical: a Marcha Fúnebre para as Exéquias de um Grande Homem Surdo (1897). Ouça:

Se você não ouviu nada, não se desespere: não foi por falha do Youtube nem do seu equipamento (eletrônico e/ou auricular). Como se trata de uma marcha fúnebre para surdos, o objetivo é justamente esse: ter dois minutos de silêncio.

Allais também atuou como pintor e participou das exposições de “Arte Incoerente” (dedicadas às obras de “gente que não sabe como desenhar”) organizadas por Jules Lévy (1838-1903). Ironicamente, Lévy também não sabia desenhar: ele era um grande cornetista e, apesar do nome, era britânico e não francês.

Uma das obras de Allais era um simples retângulo branco intitulado Primeira Comunhão de Mocinhas Anêmicas em uma Tempestade de Neve. Também expôs a Colheita de Tomates por Cardeais Apopléticos às Margens do Mar Vermelho (que nada mais era do que um retângulo inteiramente vermelho).

Allais também esculpiu. Uma de suas esculturas tinha o trocadilhesco título de Terre cuite (Pomme de). O trocadilho só faz sentido em francês: Terre cuite é terracota, mas ao lado do que está entre parênteses passa a significar algo como “Batata assada”. A escultura, evidentemente, parecia uma batata feita de terracota.

Mais humorista do que escritor, Allais foi considerado o cara mais engraçado da França no fin-de-siècle (ou, se preferir, uma espécie de Millôr da belle-époque). Como deu pra perceber, Allais também foi um precursor do surrealismo (e se auto-proclamou recordista mundial de abertura de parêntesis (ah, ele também pode ser considerado pioneiro do nadismo), lançando um desafio a quem tentasse quebrá-lo  (estamos nos esforçando (deu pra perceber?) para quebrar tal recorde)).

Em uma palavra [107]

reprochar (re.pro.char)
v. t. 1. fig. esfregar algo na cara de alguém. 2. vituperar com o intuito de envergonhar ou intimidar; exprobar, objurgar, humilhar. reproche, s.m. ato de reprochar. reprochador, s.m. aquele que pratica o reproche. reprochado, s.m. aquele que é vítima de reproche. [do francês reprocher, algo como “jogar na cara de”]

Embora eu não me oponha a estrangeirismos, creio que reprochar e seus derivados seriam bons substitutos para o tão falado (quiçá banalizado) bullying. A origem também é estrangeira mas, por ser de uma língua latina, parece-me que a assimilação seria mais fácil.

Os outros verbos apresentados como sinônimos (vituperar, exprobar, objurgar) também são ótimos substitutos —  e alguns são até mesmo mais sonoros —, o que prova a inutilidade do anglicismo.

>A Torre de Eben-Ezer

>

Apesar de seu nome bíblico, a Torre de Eben-Ezer é um pequeno castelo construído no isolado vale Jaker, na Bélgica durante os anos 1960. Trata-se da obra de um homem só, Robert Garcet, que era fascinado pela Bíblia e por numerologia e civilizações antigas. 
A Vida
Robert Garcet (1912-2001): uma figura!
Segundo relatos de quem o conheceu, Robert Garcet deve ter sido uma figura. Ele foi um historiador, antropólogo e paleontologista amador, além de escritor e escultor. Ele começou a construir o castelo em 1962 como uma manifestação de suas filosofias pessoais, suas crenças e sua “anti-conformidade”. Apesar de sua inspiração bíblica, Messier Garcet era anti-clerical e anti-militarista — diz-se que ele nunca permitiu que alguém de uniforme entrasse em Eben-Ezer (nem mesmo padres, afinal a batina é um uniforme). 
A Obra

Com sete andares, a torre de 30 metros de altura é feita de sílex e, de acordo com M. Garcet, foi projetada com auxílio de antigas medidas místicas. O interior da obra está repleto das coleções bíblica, arqueológica, paleontológica e geológica de M. Garcet. Estátuas de quatro enormes animais bíblicos  fazem a vigilância no topo do castelo.

Na entrada da propriedade, uma pequena placa de madeira deixa bem claro quem é bem-vindo:

Sejam Bem-vindos
Os Pacifistas, Mundialistas, Esperantistas, An-arquistas (sic), Resistentes à Guerra,
Todos os que lutam pela paz,
Todos os que engedram a Fraternidade
Na arcada da porta principal, há inscrições com os direitos e obrigações da humanidade. À direita estão os direitos do homem, que são os mesmos proclamados pela Revolução Francesa: Liberté – Egalité – Fraternité [Liberdade, Igualdade, Fraternidade].

Por outro lado, à esquerda, há as obrigações da humanidade que, segundo Garcet são: Aimer – Penser – Créer [Amar, Pensar, Criar].

Ironicamente, a torre, embora pareça antiga, está situada sobre uma rede de túneis verdadeiramente antigos. Garcet dizia ter descoberto mais de uma centena de “novas” criaturas fossilizadas e até uma (suposta) vila de 70 milhões de anos perdida no labirinto de túneis no subsolo de sua torre. Infelizmente — ou talvez intencionalmente —, a vila pré-histórica foi destruída por uma explosão durante trabalhos de mineração antes de ser estudada.

Tobert Garcet faleceu em 2001, aos 89 anos. Atualmente a Torre de Eben-Ezer é administrada pelo Musée du Silex, que organiza visitas turísticas e excursões escolares.

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[via: Atlas Obscura e crazy chris here and there]

>Em uma palavra [16]

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Vespertilionizar
[de vespertilio, morcego em latim] v. transformar-se em um morcego; amorcegar-se. “Bruce Wayne vespertilioniza-se toda vez que o Batman é chamado.” Vespertilionizado, adj.
Curiosamente, a palavra morcego também tem origem latina. Vem de mus caecus, literalmente rato cego (e não rato que voa, embora essa comparação seja mais adequada).
Nenhuma das línguas neolatinas formou derivados a partir de vespertilio. Em espanhol, é murciélago, com a mesma origem do português; em francês, é chauve-souris; em italiano, é pipistrello. Em occitano — antiga língua falada no sul da França, relacionada com o provençal — é uma pérola: ratapenada (embora não seja rato e nem tenha penas). Se vespertilio tivesse evoluído em português, talvez tivéssemos algo como *vespertílio, ou *vespertilho ou quem sabe até *vespertilhão.
Apenas as línguas artificiais criadas a partir do século XIX tomaram o vocábulo latino como modelo:  vesperto (esperanto), vespertilio (ido) e vespertilion (interlingua).

>Fica a Dica (6) — Como abrir uma garrafa de vinho com um sapato

>Un vidéo tutoriel en français. Pourquoi est tellement plus chic!

Tire-bouchon est pour les mauviettes!

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