Casal é condenado após assassinato por bruxaria

Em dezembro de 2010 o adolescente franco-africano Kristy Bamu saiu de Paris acompanhado de quatro irmãs. Kristy e sua família foram para Londres para visitar sua irmã mais velha, Magali Bamu, de 29 anos, e o namorado dela, Eric Bikubi, 28. No entanto, poucos dias depois, a visita de fim de ano se tornaria um inferno.

Eric começou a acusar alguns dos irmãos de ter uma “influência maligna” sobre as crianças mais novas por estarem possuídos por espíritos. Segundo a irmã mais nova de Kristy, Kelly, as alegações de bruxaria começaram depois que o adolescente de 15 anos molhou suas calças e tentou escondê-las na cozinha.

Em vez de defender os irmãos, Magalie apoiou o parceiro e, junto com ele, tentou exorcisar os espíritos de Kristy e de duas irmãs. O trio foi forçado a cantar e orar sem parar durante dias, sem direito a comida ou sono. Eventualmente, Kristy passou a ser o foco do fervor anti-feitiçaria de Bikubi, que passou a usar violência física.

O garoto foi agredido durante dias com pedaços de pau, barras de metal, alicates e um martelo. A certa altura, Kristy chegou a pedir para morrer e acabou confessando sua suposta bruxaria. Depois disso, Bikubi o colocou numa banheira com as duas irmãs e ligou a torneira até transbordar. Fragilizado pelas agressões, o adolescente afogou-se e morreu. Mais tarde uma autópsia revelou que ele faleceu em decorrência do afogamento e das 101 feridas que trazia no corpo.

Enquanto o irmão era torturado pelo marido, Magalie ligou diversas vezes para os pais exigindo que eles viessem recolher as crianças mais novas, mas sem dar explicações. Quando pediram uma razão para ir atrás dos filhos, os pais souberam que Bikubi estava ameaçando Kristy de morte se as crianças não deixassem de ser “influenciadas” por ele. Ao perceber que o menino estava morto, ela ligou pedindo uma ambulância, dizendo que ele havia se afogado e que Bikubi estava tentando salvá-lo. Graças ao caos aéreo natalino, os pais de Kristy só conseguiram chegar em Londres quando já era tarde.

O veredito do julgamento do caso — que começou no fim de janeiro na Corte Criminal Central, em Londres — saiu no começo deste mês. Na sentença, o júri condenou Eric Bikubi a 30 anos de prisão e Magalie Bamu a 25. O promotor descreveu o crime como um “ataque prolongado de indizíveis selvageria e brutalidade.” Ao proferir a condenação, o Juiz David Paget disse  que

[a] intenção [dos acusados] era livrar Kristy Bamu de bruxaria. Para fazê-lo, vocês dois abusaram fisicamente dele e brutalizaram-no até que ele veio a falecer. Foi uma tortura prolongada. A crença na bruxaria, mesmo que seja genuína, nunca pode ser desculpa para atacar outra pessoa ou assassinar outro ser humano. Parece-me impossível não concluir que havia uma intenção de matar em você, Eric Bikubi. Talvez não no começo, mas certamente no fim da provação imposta sobre Kristy. Você, Magalie Bamu, deve ter percebido o que aconteceria.

Tanto a família Bamu quanto Bikubi têm naturalidade congolesa. Os casos de assassinato motivado por acusações de bruxaria entre africanos têm crescido na Europa nos últimos anos. Só em Londres 83 crianças já foram agredidas por esse motivo. No ano 2000, Victoria Climbie foi morta pelos seus guardiães sob a mesma suspeita. No ano seguinte, o tronco de um garoto nigeriano, mutilado a ponto de não ser identificado, foi encontrado no Tâmisa, num caso de morte por magia negra.

No entanto, ao contrário do que pode parecer, a origem da crença em bruxaria não é exclusivamente africana. Investigadores alertam para o fato de que a maioria dos negros africanos que vivem no Reino Unido são cristãos e vivem sob influência de pastores evangélicos fundamentalistas. Como bem se sabe, os evangélicos mais radicais veem bruxaria e influência demoníaca nas tradições religiosas afro. Esses pastores muitas vezes incentivam ou exigem que seus fiéis de origem africana pratiquem rituais de purificação, os quais podem incluir desde jejum até exorcismos e sacrifícios. Apesar disso, e talvez por um corporativismo cristão, nenhum pastor foi condenado até agora pela nova “caça às bruxas”.

Mais informações (e fotos da cena do crime) no Daily Mail.

Retratos da fé

Quem já tentou discutir com um fundamentalista, especialmente um cristão, com certeza já ouviu uma dessas:

[do hiliariantemente herético LOLgod]

Mais uma “sopa” criacionista

Embora tenham começado agora a tentar ameaçar a liberdade na internet, não é de hoje que políticos norte-americanos tentam impor suas crenças nas aulas de ciências. Um projeto de lei do senado de Oklahoma (SB 1742) é mais uma dentre as dezenas de leis anti-evolução que infestam os Estados Unidos. Se aprovada, a lei exigiria que o departamento estadual de educação promovesse o “pensamento crítico, a análise lógica e a discussão ampla e aberta de teorias científicas, incluindo, mas não se limitando a, evolução, a origem da vida, o aquecimento global e a clonagem humana.” A legislação também recomenda que professores “possam usar livros didáticos e materiais de ensino suplementares para ajudar os estudantes a entender, analisar, criticar e rever teorias científicas de modo objetivo.”

Parece bastante isento, não? Não há nenhuma citação nominal do criacionismo ou de seu equivalente pseudocientífico, o design inteligente. Então, qual é o problema? Há dois problemas na verdade. Continue reading “Mais uma “sopa” criacionista” »

O matemático lunático

Sendo um dos mais famosos matemáticos franceses de sua época, era natural que Jacques Hadamard (1865-1963) recebesse várias correspondências de aspirantes a matemáticos cheias de dúvidas ou de teorias malucas. Boa parte daquelas cartas geralmente era ignorada por Hadamard, até que ele recebeu uma prova brilhante de um tal André Bloch. Hadamard ficou tão fascinado pela elegância da prova que decidiu conhecer aquele sujeito e convidá-lo para um jantar. Uma vez que eles só mantinham contato através de cartas, Hadamard escreveu de volta para o endereço do remetente: 57, Grand Rue, Saint-Maurice. Em resposta, Bloch só informou que estava impossibilitado de sair, mas convidou o grande matemático a lhe fazer uma visita.

Foi só ao chegar ao endereço que Jacques Hadamard descobriu porque o brilhante colega não poderia sair: o que ficava na 57, Grand Rue, Saint-Maurice não era uma casa, mas um hospital. Ou melhor, um hospício, o Asilo de Lunáticos de Charenton. Apesar da imensa surpresa, Hadamard foi ao encontro de Bloch e em meio a uma longa conversa sobre temas matemáticos, ele conheceu a história do matemático lunático. Continue reading “O matemático lunático” »

>Ser pobre é coisa do Demo!

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Russell Herman Conwell (1843-1925) foi um pastor e escritor norte-americano. Mais ou menos um Edir Macedo ou Waldemar Costa Neto, como se verá. Ele tornou-se conhecido por ser o fundador da Temple University. No entanto, seu livro-pregação mais famoso, Acres of Diamonds, publicado em 1916, revela muito sobre a mentalidade evangélico-americana e sobre o ofício de ser pastor:
  • Eu digo que você deve ficar rico e que é seu dever ficar rico. [Como você vai ficar rico? Te vira! Mas antes me pague o dízimo pelo amor de Deus!]
  • Fazer dinheiro honestamente é pregar o evangelho. [Mas pregar o evangelho é a maneira mais desonesta de fazer dinheiro!]
  • O homem que faz dinheiro honestamente pode ser o mais honesto que se encontra na comunidade. [Pode ser, mas nem sempre é]
  • Um homem não é um homem de verdade até que tenha sua própria casa e aqueles que têm suas casas são mais honoráveis e honestos e puros, mais verdadeiros e econômicos e cuidadosos, por possuir a casa. [Um sem-teto, então, não deve passar de um animal selvagem]
  • Não há uma pessoa pobre nos Estados Unidos que não tenha se tornado pobre por suas próprias limitações ou pelas limitações de outros. De qualquer modo, é completamente errado ser pobre. [E ela deve continuar pobre! Enquanto isso, Wall Street dá graças a Deus e vai dormir tranquila.]
  • Amor é a maior coisa de Deus na Terra, mas mais bem-aventurado é o amado que tem montes de dinheiro. [Afinal, você pode precisar subornar algum pastor para conseguir sua vaga no céu]

Ao ser questionado se não simpatiza com os pobres do mundo, Russell Conwell responde dizendo que claro que sim, que ele simpatiza com alguns, mas  que “simpatizar com um homem a quem Deus puniu por seus pecados, ajudando-o quando Deus está apenas fazendo uma justa punição é cair no erro”. Ou seja, ajudar um pobre é ir contra a vontade divina, pois o pobre-coitado é um pecador, uma vítima do carma da justiça divina. O destino do pé-rapado é ser infernizado na Terra. Essa é praticamente a essência do cristianismo… #NOT!
Além de ser um pastor bem pouco cristão, Mr. Conwell foi um dos pioneiros dessa praga literária chamada literatura de auto-ajuda (e cristã, é claro). Eis alguns títulos: Health, Healing and Faith [Saúde, Cura e Fé], Increasing Personal Efficiency [Aumentando a Eficiência Pessoal], Praying For Money [Orando por Dinheiro] e What You Can Do with Your Will Power [O que você pode fazer com sua força de vontade].

>Pérolas Fundamentalistas IV: ‘Se a Terra fosse um globo…’

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Excertos de One Hundred Proofs that the Earth is not a Globe [Uma centena de provas de que a Terra não é um globo], um panfleto em defesa da Terra Plana escrito e distribuído por William Carpenter (1830-1896) em 1885:

Se a Terra fosse um globo, então um pequeno modelo do globo seria a melhor coisa — por ser a mais verdadeira — para o navegador que se orienta no mar. Mas não se conhece tal coisa. Com tal brinquedo como guia, o marinheiro bateria seu navio e, com toda a certeza!, esta é uma prova de que a Terra não é um globo. 

Navegadores (e mesmo aeronautas!) usam projeções planas em lugar de globos terrestres por dois motivos. (1) é geometricamente simples: é muito mais fácil traçar e manter uma linha reta que permite a menor distância em um mapa plano do que em um globo; (2) Carpenter está parcialmente correto: um globo terrestre pode ser um brinquedinho tão divertido que pode distrair os mais bravos navegadores!

Se a Terra fosse um globo, rolando impetuosamente através do “espaço” a uma taxa de “cem milhas em cinco segundos”, as águas dos mares e oceanos não poderiam, segundo qualquer lei conhecida, ser mantidas em sua superfície. A afirmação de que elas poderiam ser retidas sob essas circunstâncias é uma ofensa ao entendimento e à credulidade humana.

Claro que é uma tremenda ofensa a qualquer inteligência. Além dessa tal gravidade, conceitos como inércia, atrito e pressão do ar são tão etéreos e contra-intuitivos!

Há rios que fluem por centenas de milhas até o nível do mar sem declinar mais que uns poucos pés — o mais notável é o Nilo, que, em mil milhas (sic) não cai mais do que um pé. Um desnível dessa extensão é bastante incompatível com a ideia de convexidade da Terra. É, portanto, uma prova razoável de que a Terra não é um globo.

Mas se há rios que correm por tão longas distâncias sem mudar de nível, porque temos tantas cachoeiras, cascatas ou desníveis tão grandes que nos permitem construir usinas hidrelétricas como a Represa de Assuã, que fica no próprio Nilo? E, por falar em Nilo, esse grande rio africando tem umas quatro mil milhas.

Os astrônomos nos dizem que, em consequência da “esfericidade” da Terra, as paredes perpendiculares dos edifícios não são, nenhures, paralelas e que mesmo as paredes de casas do lado oposto da rua não são! Mas, uma vez que todas as observações falham ao encontrar qualquer evidência dessa ausência de paralelismo que a teoria exige, devemos renunciar à ideia por ser absurda e estar em oposição a todos os fatos bem-conhecidos.

WTF, Mr. Carpenter? Paredes perpendiculares não poderiam ser paralelas nem mesmo em um mundo plano! Tu não sabe escrever ou não sabe consultar um dicionário?? E a distância entre duas casas é pequena demais para que a divergência de duas paredes ou muros seja observável — mas ela existe.

Se nós examinarmos uma verdadeira imagem do horizonte distante, ou a própria coisa, nós veremos que ele coincide exatamente com uma linha perfeitamente reta e nivelada.

Pode até ser verdade, mas apenas em terrenos perfeitamente planos. E embora seja a prova mais clássica da Terra-Plana, isso não prova nada.  Mesmo tendo emigrado de navio de Greenwich, Inglaterra, para Baltimore, nos EUA, Carpenter negava as evidências que ele mesmo pôde observar. Ele achava que o “desaparecimento” de navios na linha do horizonte fosse apenas uma ilusão de ótica, e, por isso mesmo, não provaria a convexidade terrestre.

A teoria Newtoniana de astronomia afirma que a Lua “empresta” sua luz do Sol. Agora, uma vez que os raios do Sol são quentes e que a Lua emite uma luz que não é asolutamente quente, segue-se que o Sol e a Lua são “duas grandes luzes” como lemos algures [e] que a teoria Newtoniana é um equívoco.

Essa é tão singela que chega a ser hilária. Parece a explicação de uma criança (com todo respeito aos pequenos, que também têm seus momentos de genialidade). Se isso fosse verdade, então a luz de uma fogueira ou tocha refletida por um espelho plano deveria ser capaz de nos aquecer, mesmo que estivéssemos bem longe do fogo. E esse “algures” que fala de “duas grandes luzes” é nada menos que a Bíblia!

Se um projétil for disparado de um corpo, que se move rapidamente, na direção oposta  à qual o corpo se dirige, ela cairia a uma distância menor do que alcançaria se fosse disparada na direção do movimento. Agora, uma vez que diz-se que a Terra move-se a cerca de dezenove milhas por segundo, “de oeste para leste”, isso faria toda a diferença imaginável se uma arma fosse disparada na direção oposta [à do movimento terrestre]. Mas… independente do que se faça, não há a menor diferença.

Incrivelmente, essa quase chegou à relatividade do tempo e do espaço. Se Carpenter tivesse pensado na luz viajando no espaço e não em balas na Terra, talvez desenvolvesse uma Teoria da Relatividade. Mas ele preferiu ficar com a cabeça bem firme no chão. De uma Terra Plana, naturalmente.

Quem quiser, pode continuar a se divertir com as pérolas de Mr. Carpenter. Todas as suas 100 “provas” estão disponíveis aqui (em inglês).

>10 Dimensões: Apocalipses FAIL!

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Hoje o mundo acabou. Mais uma vez. Não foi a primeira e provavelmente não será a última — ainda falta 21 de dezembro de 2012. Por enquanto, pois ao longo dos séculos diversas foram as previsões. Evidentemente, todas falharam. A razão por trás disso é que a humanidade teima em projetar no planeta seu próprio ciclo de vida e de morte — até mesmo cientificamente, conforme a Hipótese Gaia. Somos tão antropocêntricos que não admitimos ser extintos sem levar o planeta inteiro junto (isso também explica o atual cenário ambiental). Mesmo que toda a vida desapareça de uma vez, a Terra vai continuar firme e forte. Mas como nada é eterno ela vai acabar sendo engolida por um Sol vermelho, inchado e moribundo dentro de sete bilhões de anos. Ou não.

[10-D] 634 AEC
Apesar de existirem dias-do-juízo-final para judeus e muçulmanos, as previsões apocalípticas são uma característica tipicamente cristã. Mas antes mesmo de Cristo nascer, o mundo já estava condenado. Segundo uma antiga lenda romana, 12 águias teriam dito ao fundador de Roma, Rômulo, que sua grande civilização existiria por apenas 120 anos. 634 anos antes da Era Comum, o 120º. aniversário de Roma chegou e os romanos foram tomados pelo pânico. Nada aconteceu e hoje, ironicamente, Roma é conhecida como Cidade Eterna.
[9-D] 79

Esse é o primeiro apocalipse baseado em um escrito antigo. Ou melhor, nem tão antigo assim. Quando Pompéia foi destruída pelo Vesúvio no ano 79, alguns romanos consideraram o desastre como o começo do fim dos tempos. Isso por que o filósofo Sêneca, que havia morrido uns 15 anos antes, havia predito que a Terra acabaria em fumaça: “Tudo o que vemos e admiramos hoje será queimado em um fogo universal que abrirá um mundo nove, feliz e justo.” Qualquer semelhança com o lago de fogo do Apocalipse de S. João — escrito vinte anos depois de Pompéia — não é mera coincidência.

[8-D] 1000
Ah, os números redondos. Não importa qual a crença, eles parecem ser mágicos para todo mundo. Enquanto o mundo árabe alcançava seu auge no findar do século IX, a Europa se encolhia de medo e rezava fervorosamente. Cercados por fome, pragas e exércitos infiéis, parecia mesmo o fim para os europeus, que se ainda se assustavam com eclipses e cometas. 
[7-D] 1284
Como 666 e 1000 passaram sem qualquer perigo — exceto talvez por alguns bárbaros ou infiéis —, os cristãos precisaram procurar uma outra maneira de usar o número da besta em suas profecias. Considerando os infiéis muçulmanos seguidores do demônio, o Papa Inocêncio III profetizou que o mundo acabaria em 1284, 666 anos depois da ascenção do Islã. Felizmente para o Vaticano, Inocêncio III morreu em 1216 e nunca teve que se explicar quando seu deadline apocalíptico falhou.
[6-D] 1º. de fevereiro de 1524
Depois do FAILipse do ano 1000, os cristãos europeus deixaram o fim-do-mundo de lado. Mas em 1523, diversos astrólogos de Londres alertaram que a capital da Inglaterra seria afogada em um dilúvio (mais um) marcado para 1º. de fevereiro do ano seguinte. Em meio à crescente divisão da Igreja na Europa, a previsão não parecia tão absurda (embora fosse extremamente limitada). Assim, mais de 20.000 londrinos acreditaram na profecia e correram para armazenar suprimentos e fugir da cidade. Mas o dia do dilúvio londrino passou apenas em brancas nuvens: nenhuma gota caiu do céu.
[5-D] 1666
Obviamente, depois que a água não veio, os londrinos passaram a acreditar em um fim infernal. Juntando 1000 anos do reino messiânico e demoníaco 666, muitos cristãos temiam 1666. Na Inglaterra então, a ameaça parecia ainda mais real: o país sofreu uma grande guerra civil entre 1649 e 1661, que foi interpretada por alguns como o “período de tribulação” que antecederia o dia final. Os temores pareceram se concretizar quando uma praga matou muitos londrinos em 1665 e o Grande Incêndio quase riscou a cidade do mapa no ano seguinte. Foi o fim para muita gente — inclusive, talvez, por infarto —, mas o mundo continuou girando. E maçãs continuaram caindo.
[4-D] 1697, 1716, 1717, 1736
Talvez nada seja mais desagradável para um líder religioso do que admitir que sua palavra não é infalível. Cotton Mather — um influente ministro puritano que teve um papel decisivo no julgamento das bruxas de Salém — proclamou em 1691 que o mundo acabaria dentro de seis anos, em 1697. Como muitos depois dele, o pastor Mather baseou sua data no cumprimento de profecias bíblicas. Após um fim-do-mundo relativamente tranquilo, ele mudou sua previsão. Dessa vez com base na doutrina do “viva cada dia como se fosse o último, um dia você acerta”, Mather atirou pra todo lado: primeiro seria em 1736, depois adiantado para 1716 e após alguns ajustes, 1717. Ele morreu em 1728, sem arriscar qualquer nova previsão, mas ainda acreditando e pregando que o fim estava muito próximo. 

[3-D] 21 de dezembro de 1954

No começo dos anos 1950, Dorothy Martin, uma rica dona de casa da Califórnia com uma queda por fenômenos psíquicos, fundou um culto conhecido como Seekers após receber uma psicografia de Chico Xavier extraterrestres do planeta Clarion. Na mensagem, os ETs alertavam que uma enchente cataclísmica destruiria o mundo a partir de 21 de dezembro de 1954. Naquele dia, os Seekers se reuniram na porta da casa de sua líder, de onde seriam resgatados por um disco voador antes do dilúvio final. Como nem nuvens de chuva torrenciais e nem discos voadores apareceram na porta de sua casa, Miss Martin logo assegurou seus seguidores de que a fé dos Seekers foi tamanha que os extraterrestres conseguiram convencer o “Deus da Terra” a salvar o mundo. A desculpa não colou e o culto acabou se dissolvendo. Mas sem saber, Miss Martin deu uma grande contribuição à psicologia. Alguns psicólogos conseguiram se infiltrar no grupo para conduzir um estudo sobre crenças apocalípticas. O resultado foi o livro When Prophecy Fails [Quando a Profecia Falha].

[2-D] 2000
“Se ano 1000 passou, agora vai!” Muitos cristãos — e ainda mais místicos — acreditaram que o mundo acabaria junto com o segundo milênio. Além do intenso debate sobre se o século e o milênio começariam em 2000 ou 2001, a mídia foi tomada por pseudoprofetas num fin-de-siècle típico do século XX. Como não houvesse nenhuma grande guerra ou pandemia para sinalizar o apocalipse, foi mais fácil (e cientificamente correto) usar o chamado bug do milênio, que faria todos os computadores enlouquecer. Como os sistemas usavam apenas dois dígitos para identificar os anos, temia-se que 1º. de janeiro de 2000 seria interpretado como 1º. de janeiro de 1900. Os sistemas tiveram que passar por uma correção bem simples. Quem ficou louco da vida foram milhões que se desiludiram.

[Primeiro Plano] 1914, 1915, 1918, 1920, 1925, 1941, 1975 e 1994

Uau! Parece que alguém não aprendeu a lição do pastor Mather. Mesmo assim, esses caras insistem em te acordar todo domingo de manhã para lhe distribuir revistinhas cristãs e tentar te convencer de que mesmo sendo todo-poderoso, deus precisa de testemunhas. Sim, senhores, os recordistas de profecias apocalípticas são as Testemunhas de Jeová. Em 1879, Charles Taze Russell começou a pregar dizendo que Jesus já havia retornado silenciosamente em 1874 e reuniria seus 144.000 santos até 1914. Por coincidência, 1914 parecia ser o começo de uma grande tribulação na Europa que ameaçava se espalhar pelo mundo. Apesar disso, ninguém subiu aos céus naquele ano (exceto os primeiros pilotos de caça). Assim, a data de fundação do Reino Milenar de Cristo na Terra foi sendo religiosamente postergada: 1915, 1918, 1920, 1925, 1941, 1975 e 1994. Taze Russell não acertou nem a data do seu próprio fim: ele morreu em 1916.

>Sex and the Vatican

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Denúncia de pedofilia: você está fazendo isso errado

O papa pode não ser mais italiano há um bom tempo, mas mesmo assim, parece que o Vaticano acha que suas fronteiras vão além dos muros que o separam de Roma. Em meio aos escândalos político-sexuais de seu primeiro-ministro fanfarrão, a Itália está calada. Vergonhosamente, também está calada com o lançamento do livro Sex and the Vatican, do jornalista Carmelo Abbate. Não que se esperassem louvores à obra que devassa a vida dupla que padres, freiras, monges e bispos italianos levam. Surpreendentemente, também não houve críticas generalizadas. Nem um escândalo sequer.

Entre outras coisas, o livro apresenta a vida de mulheres que, mesmo na clandestinidade, se casaram com padres e ou tiveram filhos ou fizeram aquilo que a igreja mais condena — aborto. Freiras denunciam estupros que sofreram nas mãos de padres. A conclusão, porém, não é surpreendente: tais comportamentos só ocorrem por que a Igreja impõe a castidade e o celibato, fardos pesados demais na vida de quem deseja ser clérigo.
Na França — onde boa parte da população é católica —, o livro tornou-se um best-seller instantâneo. A primeira edição se esgotou em uma semana. Sex and the Vatican foi o 12º. livro de não-ficção mais vendido pela Amazon francesa. Carmelo Abbate tem aparecido em diversos programas de entrevistas na TV francesa. Diversos artigos e resenhas têm sido escritos em diversos diários franceses nas últimas semana. Há até mesmo um documentário para a televisão sendo preparado sobre o tema.
Mas se você atravessar os Alpes e entrar na primeira banca que encontrar na Itália, não vai ver nada sobre Abbate ou sobre seu livro. Também não vai adiantar muito zapear pela TV italiana. Exceto por uma pequena nota publicada pela Ansa, a agência de notícias italiana, tudo o que saiu sobre o livro na Itália se resume a uma breve resenha em um pequeno jornal econômico de Milão, Finanza e Mercati, e uma matéria na revista Panorama, onde o próprio Carmelo Abbate trabalha. 
Falar sobre as relações entre sexo e Vaticano continua sendo um enorme tabu na bota mediterrânea. É como se o livro — e tudo o que ele revela — tivesse sido escondido debaixo do tapete, ou melhor, da batina. Há alguns que consideram Abbate apenas como um jornalista sensacionalista. Mas nem mesmo os deméritos do livro estão sendo discutidos aberta e extensivamente na mídia italiana.
Um dos motivos para isso está fuora i muri do pequeno Estado teocrático governado por Bento XVI. Além de ser o primeiro-fanfarrão do país, Silvio Berlusconi é dono de um império midiático: o Canale 5, o Italia 1 e a Rete 4. Esses são três dos cinco grandes canais de TV aberta na Itália. A RAI, maior emissora de TV do país, é pública e tem diversos canais — mas tal como no Brasil, a TV pública na Itália nunca foi muito autônoma. Não é surpresa, portanto, saber que a TV italiana calou sobre um assunto tão polêmico. O capo de tutti capi já tá bastante ferrado publicamente. Se suas empresas pudessem criticar o Vaticano, ele cairia feito um anjinho de asas quebradas.

B-16 e Berlusconi têm muita coisa em comum: são chefes de Estado e líderes de gangues sexuais.

A mídia impressa também parece impor uma autocensura muito forte quando o assunto é sexo na Igreja. Aparentemente, os jornalistas italianos consideram mais importante o respeito a uma instituição decadente do que a revelação da verdade, seja ela qual for. Aliás, esse tipo de pseudojornalismo é o sonho do lulo-petismo (que mostrou-se muito católico ao condenar o aborto na última campanha eleitoral).
Entretanto, o que pode estar acontecendo na Itália é uma intervenção direta do clero para impor a lei do silêncio no país. Não é a primeira vez que isso ocorre. Em 2006, líderes católicos tentaram censurar a versão cinematográfica d’O Código da Vinci antes mesmo da estreia nos cinemas — não apenas na Itália, mas em diversos países. Onde não conseguiram, promoveu-se uma discreta porém verdadeira queima de livros de Dan Brown. Agora a estratégia é um pouco diferente: ignorar, orgullhosamente ignorar. Diferente, mas não muito. Essa tem sido a mesma estratégia católica diante das denúncias de abusos sexuais cometidos por padres e monges contra crianças e adolescentes. Em vez de enfrentar e reconhecer o problema, o Vaticano tem procurado abafar os casos, como se eles não existissem, como se eles fossem historinhas inventadas por criancinhas malvadas. 
Padres pedófilos não são punidos, denunciados nem mesmo excomungados: são transferidos para outra diocese e fica-se nisso até que cometam novos abusos e sejam transferidos ad nauseam. Em vez de jogar fora os frutos estragados, o clero prefere desacreditar os acusadores e proteger a reputação da fazenda onde esses frutos são produzidos. Nem que para isso seja necessário por em risco o Estado de Direito dando um verdadeiro golpe branco em um país soberano e independente do Vaticano. Ou que pelo menos deveria ser.

>O exorcismo de Amora Carson

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Uma jovem de vinte anos, moradora de Lake Cherokee, Texas, foi condenada a prisão perpétua por sua participação em um crime que chocou o Estado, famoso por seu fervor cristão: o assassinato de sua própria filha de treze meses de idade. Jesseca Carson foi condenada por unanimidade pelo júri que a julgou pelo assassinato de Amora Carson. O companheiro de Jesseca, Blaine Milam também já foi condenado à pena capital por espancar Amora com um martelo até matá-la. Embora Blaine tenha perpetrado os golpes de martelo, Jesseca foi condenada como mentora intelectual do assassinato da filha. O casal afirmava que aquilo era um “exorcismo”.

Em uma apresentação chocante diante do juri, a promotora Lisa Tenner descreveu Carson como “a mulher que sacrificou sua filha para um monstro.” Membros do júri chegaram a passar mal quando as fotos do corpo esmagado de Amora foram apresentadas como provas. Alguns até comentaram que podem ter sido traumatizados pela apresentação. A defesa procurou atenuar a participação de Jesseca, apresentando-a como alguém que foi dominada pelo namorado violento, que a teria convencido de que a filha estava possuída por um demônio. Por algum motivo ainda não esclarecido, Carson e Milam decidiram que Amora estava possessa e precisava do “exorcismo”.
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Apenas alguém cego pelo fanatismo
veria algo diabólico nessa garotinha
Em dezembro de 2008, a menina de treze meses foi brutalmente agredida com um martelo e outras ferramentas. Além disso, havia diversas marcas de mordidas pelo corpo de Amora. Segundo a investigação, as mordidas foram feitas enquanto Milam “gritava o nome de Jesus” para expulsar os demônios. Quando a filha morreu, Carson e Milam deixaram o corpo no chão do quarto e foram a uma loja de penhores, onde tentariam obter dinheiro para pagar um exorcista profissional (possivelmente para incriminá-lo). A polícia foi chamada e encontrou o corpo de Amora tão irreconhecível que, segundo um policial, “não podíamos dizer quantos golpes ela havia recebido. E havia mais de 20 mordidas pelo corpo dela.” Durante a investigação, Milam e Carson mudaram frequentemente seus depoimentos. Vencida pelo cansaço dos interrogatórios, Jesseca acabou confessando a verdade, mas insistiu na necessidade do ritual.
Blaine Milam já havia sido condenado por atentado violento ao pudor de uma menina de 14 anos, mas acabaou liberado. Sua condicional o proibia de ter qualquer contato com crianças fora de sua família. Por diversas vezes, a polícia teria sido chamada pelos vizinhos após denúncias de violência doméstica. Amigos de Jesseca Carson afirmaram que ela se tornou bastante reclusa durante os meses anteriores ao crime.

fonte: The Houston Chronicle (chron.com)

>Pérolas Fundamentalistas III: a Ascenção

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E depois de quase dois anos, essa série volta para nos assombrar com exemplos do que a fé é capaz de gerar. Para começo de conversa, uma torrente de ignorância na polêmica sobre a presença de gays no Exército:


Homossexualidade é só sexo e luxúria… só o fato de que eles são tão promíscuos prova que NUNCA há devoção e amor por outra pessoa. Esse é o porquê tal ato é tão desagradável (fora as doenças e os danos)… não há honra ou caráter para pessoas que se engajam em tais atos e o acham “bom”. Sempre acaba em pederastia rampante, como no Afeganistão, os Gregos e os antigos Japoneses.
Nossos militares estarão num vácuo de honra e caráter em nada diferente dos Gregos e Romanos pagãos… dos Russos ateus que fizeram Patton vomitar e das tropas Nazistas homossexuais adoradoras de Odin… É tão repugnante como eles escondem os fatos verdadeiros sobre os efeitos da promoção desses atos malignos, feios contra a moralidade sempre que eles ocorrem, como na República de Weimar. A Bíblia descreve Sodoma e Gomorra e aquilo não era pior que a República de Weimar. Era notório que o Vício Nacional da Alemanha nos anos 20 era a homossexualidade crescente. Todos os oficiais de outros países eram alertados para guardar suas costas quando tinham que interagir com os alemães.
Precisamos retornar ao paradigma Cristão sob o qual ficamos por duzentos anos. Ele está alinhado com a Lei Natural e é perfeito para um povo livre e justo. [...] Se não fosse pelo Cristianismo, a Civ. Ocidental teria morrido. Nenhuma das sociedades pagãs, ateístas, islâmicas, etc, jamais poderia criar o país livre-para-todo que nós temos. Isso é impossível. — savagesusie em Free Republic
Também parece ser impossível o surgimento de democracias no caso de nações cristãs, minha jovem. Especialmente naquelas onde a separação Estado/Igreja não é muito clara. Vamos ignorar toda a besteira historiográfica — afinal ela não deve ter entendido muito bem as aulas de História —, e ir direto ao ponto: se você diz que seu país é “livre-para-todos”, qual o problema de ser livre também para os homossexuais? E se um país é de “todos”, é mais do que justo que todos tenham o direito de defendê-lo, se quiserem.

Agora vamos para uma discussão fundamentalista sobre a pena para o estupro:

“‘Olho por olho e dente por dente?’ Não é olho por dedo ou dente por unha. Eu acho que é castração, talvez.”
Ele não extraiu o útero dela.
Ele fez sexo com ela.
A punição dele poderia ser ela fazer sexo com ele.

— anônimo, em The World according to Bob

Depende, meu caro. Esse sexo retributivo seria pela frente ou por trás? Ou será que isso também dependeria do estupro? Enfim, temos mais um estuprador em potencial (isso explica o anonimato). Mas não se preocupem, ele é um bom cristão.

Falando em almas bondosas, uma pergunta: Índios também são filhos de deus? Não para esse cara, que mais parece uma reencarnação de Torquemada:
TODOS os injuns [forma depreciativa de se referir aos índios] devem reconhecer os crimes dos índios do passado e reconhecer que NADA acontece na terra exceto com a APROVAÇÃO de Deus. Também precisam entender POR QUE Deus pensou que os Injun, como povo, teriam suas terras tomadas e suas tribos DESTRUÍDAS.
“Sabe com certeza que a tua descendência será peregrina em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos; […] Na quarta geração, porém, voltarão para cá; porque a medida da iniqüidade dos amorreus não está ainda cheia.” [Gênesis, 15: 13,16, grifo original]
Tal como os Amorreus, Deus viu a degradação dos Injun e removeu-os e deu a Terra a uma nação que ELE escolheu.
— specter, em Minutemen Message Board
Crimes? Que crimes, cara pálida? Tu tá confundindo as tribos cananéias com os nativos da América, rapá!
Além disso, eu sempre pensei que deus tinha escolhido um pedacinho minúsculo de terra desértica fincado no Oriente Médio como terra prometida (e o povo ainda achou isso muito promissor…). Mas parece que, após alguns cansativos séculos de caça às bruxas na Europa, nada melhor que a “América” para acomodar o Divino Ego.
Falando em terra prometida, verifique se ela está bem firme em seu pedestal no centro do Universo:

A Terra não era apenas o primeiro planeta em existência, foi o primeiro objeto do universo que teve massa.
A terra (sic) veio primeiro, depois o universo foi criado à volta dela.
— AV1611VET, em Christian Forums

Claro, claro. Afinal se o universo não fosse geocêntrico, como Jesus faria para salvar todas as formas de vida fora da Terra? Ele teria que morrer em cada planeta habitado. Coitadinho, ele não tem poder (nem sangue) suficiente para isso…
Dizem que Jesus veio para redimir os pecados de Adão. Um desses pecados pode muito bem ter sido o incesto, não é mesmo?
[Resposta à alguém que apontou o incesto implícito nos relatos criacionistas dos primórdios da Humanidade]
Parece que você quer transformar esse “incesto” em algo ruim. Você pensa que o fato de ser incesto deveria ser destacado no artigo. Eu nunca discordei com a menção dessa ocorrência, mas discordo colocá-lo de forma a sugerir que havia algo de errado nisso. Mesmo o uso da palavra “incesto”, embora tecnicamente correto, é problemático por causa da conotação do termo.
— Philip J. Rayment, na Conservapedia
Uma objeção educada, é verdade, mas que ainda não responde a uma dúvida fundamental:
logic-test-1
Ou será que há um milagre apócrifo em Gênesis, alguma gravidez homossexual entre irmãos, algo totalmente aceitável e natural?
Para quem não sabe, Rush Limbaugh é um radialista linha-dura, um ícone da direita americana. Mas graças a ele, nossa próxima pérola  vem não de um fórum religioso, mas de um site sobre Rock (\m/):
Um radialista de direita disse a uma audiência de milhões que os trágicos eventos no Arizona no fim de semana, ondo seis pessoas foram mortas e 14 feridas durante a tentativa de assassinato da congressista Gabrielle Giffords, não têm nada a ver com armas e tudo a ver com metal music.
A banda texana Drowning Pool foi forçada a defender sua música Bodies após ser revelado que o suspeito do crime, Jared Loughner, gostava dela. Eles ressaltaram que a faixa era sobre “a irmandade do mosh” e o assunto era “respeito, não violência”.
Mas [Rush] Limbaugh afirma que a posição pró-armas da direita não teve nenhuma influência no ataque, enquanto a música teve.
Ele diz: “O cara ouvia heavy metal, e alguma daquelas coisas anarquistas. Nós estamos lidando com um indivíduo insano. São os liberais, não nós conservadores, que glorificam o comportamento criminoso e a apologia da violência. Eles chamam isso de arte.”
Aparentemente, Limbaugh jamais (a) entendeu arte como uma “válvula de escape” e (b) leu o Velho Testamento. Ou, embora seja radialista, ele ainda não conhece as bandas de metal cristãs. Sim, isso ecsiste!
Por fim, antes que me digam que eu não prestigio a produção nacional, seguem algumas amostras de fundamentalismo made in Brazil:
Para começar, a polêmica (e confusa) relação do Papa com a camisinha, ou melhor, sobre o uso da camisinha (grifos nossos):
Usar a camisinha é uma forma errada de salvaguardar a própria integridade; mas a intenção de se proteger, a consciência de que existem riscos associados ao uso desenfreado do sexo, é o que existe de positivo (embora, repita-se, os meios empregados estejam equivocados) no exemplo dado pelo Papa.
— Jorge Ferraz, em Deus lo volut
Estranho, não é mesmo. Embora a intenção de se proteger de DSTs seja “o que existe de positivo”, usar camisinha ainda é “uma forma errada de salvaguardar a própria integridade”. Então, camisinha tá certo ou errado para os católicos? Sexo seguro, comofas??/ Com criancinhas??
A confusão com a camisinha já é velha dentro da ICAR. Mas eu ainda não conhecia a birra com jogos eletrônicos de sucesso, como o Assassin’s Creed:
o jogo é como um imã [sic] para o erro no que diz respeito a tragar as almas para o antropocentrísmo [sic] mais escandaloso de tal sorte que por isso mesmo a pessoa seja arrastada ao mais crú [sic, esse cara não tem corretor ortográfico??] materialismo ou em uma hipótese menos drástica a um agnosticísmo [sic, pqp!] hedonista.
— de um post anônimo no Index Bonorvm
O texto todo é uma pérola, por que em nenhum momento o jogo é criticado tecnicamente. O que se critica é a suposta intenção do jogo: criar assassinos. A crítica inicia-se pelas origens históricas do termo assassino (de etimologia árabe, o que causa desconfiança no tal anônimo), fala da “seita dos ‘Assassinos’” e explica algo da trama do jogo, que envolve as cruzadas do ponto de vista árabe, isto é, herético e não-cristão. Mas o importante é o final, onde se apresenta total indignação apenas por que o jogo tem a ousadia de mostrar a sagrada ICAR como a vilã que realmente foi.
Mas não são apenas os católicos brasileiros que andam soltando pérolas na internets antes de passar os textos pelos corretores ortográficos:
Nos países não-cristãos se ploriferam as crenças mais ridículas e absurdas. Uma das mais difundidas hoje é o budismo, que conta com algumas variações, o Zen-Budismo, o Brahmanismo e o Hinduísmo.
O budismo é um candomblé oriental [sic], o sincretismo é bem semelhante: fazem danças venerando os deuses, encorporam entidades, fazem trabalhos de amarração e evocam espíritos.
[…] Assim como o [sic] umbanda, veneram vários deuses antropozoomorficos [sic, de novo! muda-se a fé, mas a ingorância é idêntica], ou seja, que possuem forma de homens e animais. Este tipo de adoração descende da era da pedra lascada, quando a raça humana ainda não tinha sido iluminada por mensageiros de Deus judeus, como Moisés, Jesus e o profeta Ezequiel.
— pastor Silas Adoniran Fonseca, no Igreja Internacional
Parece que o pastor Silas não é assim tão internacional. Ele parece incapaz de diferenciar budismo de hinduísmo. Na prática, ele fala de budismo, mas acerta no hinduísmo. É um Galvão Bueno da teologia. Mas em compensação, ele tem um perfil que por si só já é uma pérola: “Palestrante, cantor gospel, instrumentista, ex-álcoolatra, ex-assaltante e curado de um câncer no fígado. Sou assembleiano por convicção, apesar de já ter ministrado cultos na IURD, Deus é Amor, Igreja de Cristo, Sara Nossa Terra, Videira e Renascer.” Pois é, parece que a convicção dele — como o “amor à camisa” de muito jogador de futebol — sempre vai para a Igreja que paga mais. Talvez seja pela falta de materialismo que os budistas (ou seriam os hindus?) irritam tanto esse pastor.
Este post já está longo demais. Mas encontrei tanto bullshit fundamentalista por aí que, graças a deus (literalmente), essa série não vai morrer tão cedo.

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