Publicado
23 de mai de 2012
Por definição, um lago é um corpo de água que ocupa permanentemente uma depressão do relevo terrestre. Mas o Lago Merzbacher é uma exceção. Localizado numa das áreas mais inacessíveis das Montanhas Tian Shan, no leste do Quirguistão, não muito longe da fronteira com o Cazaquistão e a China, o Lago Merzbacher fica ao pé do glaciar Inylchek. É tão difícil chegar lá que o lago só foi descoberto em 1902, por Gotfrid Merzbacher (daí o nome), um alpinista-geógrafo alemão.

O isolado lago quirguiz não é lá muito grande: 4 km de extensão, 1 km de largura e até 70 metros de profundidade máxima, mas sua proximidade com a geleira é o que torna excepcional. A cada primavera, quando o lago congelado se torna líquido, suas águas cada vez mais quentes recebem pedaços da geleira vizinha. Um lago tomado por icebergs já seria por si só uma atração turística, mas isso não é tudo o que acontece por lá.
Dependendo da época em que você chega a Merzbacher — se é que você vai conseguir chegar lá —, pode não encontrar lago algum. Mas isso não significa que o seu GPS não funciona e que você esteja perdido ou que o verão local é inclemente a ponto de evaporar o lago inteiro. Também não é preciso culpar o aquecimento global, nem qualquer intervenção humana. O lago some por sua própria natureza.
O Lago Merzbacher é um tipo especial de lago, conhecido como lago proglacial. Isso significa que o lago é represado pela geleira. Há lagos proglaciais em todo o mundo e eles geralmente ou crescem com a retração do gelo ou simplesmente desaparecem junto com o glaciar. Exceção da exceção, o Merzbacher é um meio-termo: esvazia-se para se encher novamente logo depois.

Vão-se as águas, ficam os icebergs
O fenômeno pode parecer misterioso, mas provavelmente é assim: no verão o degelo continua e a água chega a subir até dois metros por dia. Depois de certo ponto, o lago enche tanto que a geleira inteira que o mantém flutua. Quando isso acontece, é como se fosse aberta a comporta de uma represa e o lago inteiro pode se esvaziar em apenas três dias, com suas águas correndo em direção ao Rio Inylchek. Depois que o lago esvazia, a geleira se reacomoda e bloqueia o vale glacial, reiniciando a cheia.

O velho dilema do copo d'água em proporções lacustres: meio cheio ou meio vazio?
Normalmente, esse ciclo de cheia e vazante costuma acontecer anualmente, mas já houve registro de ciclos semestrais ou de cheias que levaram dois anos até chegar ao ponto crítico. Dada a dificuldade de acessar o lago, ele foi pouco estudado até agora e a hipótese da represa de gelo móvel ainda não foi inteiramente confirmada.
Publicado
6 de fev de 2012
Parece mais uma idílica paisagem de wallpaper, não é mesmo? Mas esse típico pedaço do litoral sul inglês tem uma fama nem um pouco idílica. Com 162 metros de desnível em relação ao mar, Beachy Head é o maior penhasco calcário da Grã-Bretanha. Por isso mesmo, é também uma atração turística e tem um ponto de ônibus convenientemente próximo do ponto mais alto da falésia.
Ironicamente, essa combinação de grande altura, facilidade de acesso e beleza cênica tem contribuído para o lado sombrio de Beachy Head. Este é o local com o maior número de suicídios cometidos por ano em todo o Reino Unido — 20, em média.
Esse turismo de suicidas obviamente chamou a atenção das autoridades. Hoje o local conta com uma cabine telefônica especial, em linha direta com um centro de apoio psicológico. Além disso, o belo penhasco branco é constantemente patrulhado por voluntários que buscam evitar o êxito dos que querem se matar.
Publicado
16 de dez de 2011
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| (Flickr/ardenswayoflife) |
O fim está próximo — mas apenas para uma pequena cidade na Bélgica. Doel está marcada para ser completamente demolida e não passará de 2012. O motivo? Ampliar o maior porto do país. Nem os protestos dos moradores nem a incrível street art foram capazes de impedir a destruição que se aproxima.
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| (Flickr/Wolfensteijn) |
Ao longo de 700 anos, Doel foi uma pacata vizinha de Antuérpia, da qual é separada pelo Rio Schelde. No século XIX, chegou a ter mais de 2.500 habitantes. Mas ao longo do século XX, Antuépia crescia cada vez mais, o que começou a ameaçar a existência da vila vizinha. O governo vem tentando forçar a saída dos residentes de Doel com demolições agendadas desde o fim dos anos 1960. Legalmente falando, Doel já morreu: a cidade deixou de ser um município independente em 1977, quando foi incorporada ao município de Beveren.
Durante quase duas décadas, os protestos e a resistência dos “doelitas” foi mais forte. Até que, em 1999, o destino da cidadezinha foi definitivamente selado. Desde então seus habitantes vêm abandonando-a lentamente. A escola, por exemplo, foi fechada em 2003, quando havia apenas 8 alunos matriculados. Com espaços cada vez mais livres, artistas de toda a Europa passaram a cobrir os muros e paredes de Doel com seus
grafittis.
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| (Flickr/on1stsite.) |
Atualmente, restam menos de 200 habitantes, que devem partir assim que puderem. O governo deve retomar a demolição assim que área for completamente evacuada. Junto com os lares de moradores que foram forçados a sair em nome do progresso, a galeria de street art de Doel será perdida para sempre.
Publicado
11 de nov de 2011
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Situado na Polinésia Francesa, próximo ao famoso atol Mururoa, o atol Tematangi (ou Tematangui) é a antípoda
quase exata de Meca — o ponto exatamente oposto fica a uns 50km a nordeste do atol. Por isso mesmo, um lugar que é aparentemente paradisíaco deve ser um inferno para os seguidores do Islã.
Em Tematangi a qibla¹ torna-se tão sensível quanto uma bússola perto de um campo magnético. Naquele pequeno atol, e em algumas ilhas mais próximas, dois seguidores de Maomé dificilmente oram alinhados na mesma direção e — talvez de modo bastante perigoso do ponto de vista doutrinário e teológico — cada um pode escolher para que lado se voltar. Não surpreende que não haja nehuma mesquita no local, habitado por apenas 57 pessoas.
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¹ qibla [direção em árabe]: a direção em que todo muçulmano se deve voltar quando faz cada uma de suas cinco orações diárias, isto é, com a face voltada para a Caaba, em Meca.
Publicado
5 de out de 2011
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Construída em 1901, a Haskell Free Library and Opera House pode ser considerada a primeira — e única — biblioteca transnacional do mundo. A biblioteca fica situada na fronteira entre Derby Line, Vermont, Estados Unidos e Stanstead, Quebec, Canadá.
A porta de entrada fica em território americano, mas a seção de circulação e todos os livros da biblioteca estão em território canadense. É preciso cruzar uma linha pintada no piso, que representa a fronteira, para ter acesso aos livros. Quando há apresentações teatrais ou de ópera, as peças são encenadas sobre um palco canadense para uma platéia que fica em solo estadunidense.
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| Projeção da fronteira sobre um velho cartão-postal |
Isso faz da Haskell Free Library uma biblioteca realmente livre, em certo sentido. É a única biblioteca dos EUA sem livros e a única casa de ópera americana sem palco — ou, se preferir, livre de livros e livre de palco, respectivamente. Simetricamente, a Haskell é a única biblioteca do Canadá sem entrada e um palco canadense sem público — ou livre de entrada e livre de público.
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| Haskell Line: a linha preta divide a sala de leitura entre EUA e Canadá |
Graças a essa situação, pode haver implicações bastante interessantes do ponto de vista do direito internacional. A peculiaridade geográfica da Haskell Free Library and Opera House permitiria que um público americano pudesse assistir a uma peça teatral que fosse censurada em seu território sem infringir a lei e sem ter que sair do país. Afinal, todos os atores poderiam ser canadenses atuando sobre um palco situado no Canadá. Por outro lado, os leitores dos Estados Unidos que frequentam a biblioteca não poderiam ler um livro que tivesse sido censurado pelos canadenses.
Publicado
16 de set de 2011
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Você já deu uma olhada por baixo de uma ilha? E que tal visitar a casa de máquinas de uma ilha?
Por fora, a Ilha Forbes pode parecer como qualquer outra: tem areia, algumas pedras, um farol, umas palmeiras, um restaurante e um bar. Entretanto, o fundo da Ilha Forbes tem a aparência suspeitamente plana de uma barcaça. O que nos leva à pergunta: quando uma ilha não é uma ilha?
Quando é feita pelo homem, evidentemente. Em 1980, a Ilha Forbes, uma barcaça modificada para se parecer com uma ilha foi lançada na Baía de São Francisco, perto do píer dos leões-marinhos. Formada por 280 toneladas de concreto, 120t de rochas e 90t de areia, Forbes é uma massiva criação humana.
Embora esteja equipada com um motor da Segunda Guerra usado em barcaças igualmente grandes, a ilha moveu-se muito pouco desde então. Mesmo parada, tornou-se uma atração turística: pouco depois de sua criação, apareceu até no Lifestyles of the Rich and Famous.
Apesar de sua natureza artificial, a Ilha Forbes acabou se tornando um pequeno ecossistema. Uma de suas atrações é a sua fauna. Ali, é possível jantar no restaurante ao som de vozes dos leões marinhos ou tomar um coquetel debaixo das palmeiras que foram escolhidas como lar pelos melros. Além disso, os visitantes podem admirar vistas fantásticas da Baía de São Francisco, da cidade e da famosa prisão de Alcatraz — ou apenas se maravilhar com o contraste entre a vida e uma maravilha do engenho humano.
Publicado
6 de jul de 2011
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A caminho da Austrália, o capitão do navio canadense S.S. Warrimoo percebeu que teria uma oportunidade realmente única em sua viagem. À meia-noite do dia 30 de dezembro de 1899, ele parou o navio exatamente no ponto onde se encontram a Linha do Equador e a Linha Internacional da Data (ponto A no mapa abaixo).
Naquele breve momento, o navio estava ali na esquina do mundo, flutuando entre dois hemisférios, dias, meses, anos, estações e séculos diferentes — tudo ao mesmo tempo. Ao passear entre a proa e a popa, os passageiros poderiam trocar o inverno pelo verão, o Norte pelo Sul e o Século XIX pelo Século XX (ou vice-versa).
Mas espere… Isso não deveria ter sido na noite de 31 de dezembro de 1899? Não, e por um pequeno detalhe: graças à sua posição, o Warrimoo simplesmente “pulou” o último dia do século XIX. Como bônus, todo mundo a bordo acabou a viagem praticamente um dia mais jovem.
Publicado
6 de jun de 2011
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A rochosa ilhota de Märket fica no Mar Báltico, bem entre a Finlândia e a Suécia. Quando os finlandeses construíram um farol na ilha em 1885, não perceberam que o fizeram em território sueco. Isso criou um problema sério: sem ter como alterar a costa ou mover o farol, os dois países tinham que encontrar uma nova forma de dividir Märket igualmente.
O que em outros lugares teria sido motivo de guerra foi resolvido com um acordo simples e justo: a Suécia cedeu a área do farol para a Finlândia e, em troca, os finlandeses entregaram aos suecos uma porção equivalente do seu lado da pequena ilha. Embora a fronteira seja um enorme S invertido nos mapas, Märket é igualmente dividida. É a menor ilha do mundo dividida por uma fronteira internacional.
Publicado
27 de jan de 2011
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O pólo norte não é o único. Tampouco o pólo sul. O planeta Terra tem, na verdade, quatro pólos em cada hemisfério. E causa uma bagunça…
Quando se fala em Pólo Norte, a primeira coisa em que você pensa é no lugar onde, segundo a tradição, mora o Papai Noel. Felizmente, para ele, e infelizmente para nós, não existe apenas um único lugar, um único ponto da Terra que possa ser chamado de Pólo Norte.
Pólo #01 — Dos diversos pólos nortes, o mais conhecido (e o único que aparecia nos livros de geografia em que você estudou quando era um pirralho) é o Pólo Norte Geográfico, que é o ponto para onde convergem todas as linhas imaginárias de longitude (e onde as divisas de fuso-horário fazem seu happy-hour). Aparentado com o Pólo Geográfico, há a sua extensão na esfera celeste, o Pólo Celeste, que parece ser um ponto fixo do céu, ao redor do qual giraria toda a abóbada celeste.
Pólo #02 — Um patamar abaixo em termos de popularidade (e um degrau acima em termos de temores apocalípticos) estão os Pólos Magnéticos. O Pólo Norte Magnético (PNM), por exemplo, fica no norte do Canadá. Pelo menos por enquanto. Acontece que o PNM não tem localização física fixa. Sujeito às complexidades do campo magnético terrestre e da rotação da Terra, o PNM simplesmente não pára quieto. Normalmente ele se move menos de 15km por ano – mas desde a da década de 1990, o PNM passou a correr. Atualmente ele se move a até 55km/ano e está indo para a Sibéria. Nesse pique, o PNM deve ter um encontro com o Pólo Geográfico ainda durante esta década.
A reversão dos Pólos Magnéticos é um fenômeno lento, gradual, natural e seguro. Mas muita gente acredita que pode haver resultados apocalípticos (pra variar, em 2012).
Na verdade, porém, uma reversão dos Pólos Magnéticos apenas facilitaria as coisas para nós. Por que, fisicamente falando, o Pólo Norte Magnético (para onde os arcos magnéticos convergem, voltando para dentro da Terra em direção ao núcleo-dínamo) age como se fosse o Pólo Sul de um grande dipolo. Igualmente, o Pólo Sul Magnético age como se fosse um Pólo Norte em um ímã: é o lugar a partir do qual os arcos magnéticos divergem, afastando-se da Terra espaço a fora.
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| Mapa Magnético. Note que as linhas de força entram no Norte e saem do Sul |
Pólo #03 — Mais
na verdade ainda, o ponto exato onde as linhas de campo do Campo Magnético são exatamente verticais é outro tipo de polo: o Pólo Geomagnético, que também pode ser definido como o ponto de origem das auroras (boreais no norte e austrais no sul). Se você estiver no PGM
Sul (que fica no litoral da Groenlândia), além de ter a melhor visão de uma aurora, sua agulha vai apontar para baixo, junto com as linhas descendentes. Se você fosse visitar o PGM Norte (que fica no sul), sua bússola apontaria para cima, acompanhando as linhas ascendentes.
Uma reversão nos Pólos Magnéticos faria com que estes se alinhassem com os Geomagnéticos. Evidentemente, mesmo ao ritmo apressadinho do PMN, uma reversão levaria séculos2. Nesse meio tempo (e se a rota de inversão começar mesmo pela Sibéria), teríamos o PNM em lugares bizarros tipo a Índia.
Pólo #04 — Por fim, há o que pode ser chamado de Pólo Humano, que é a cidade mais próxima do Pólo Geográfico. O Pólo Norte Humano é a capital das Ilhas Svalbard, Longyearbyen. Mas também há uma cidade no Alasca que, embora esteja distante de qualquer dos outros pólos aqui citados, foi cinicamente batizada de North Pole1 e, por isso mesmo, recebe milhares de cartinhas endereçadas ao Papai Noel — evidentemente, escritas por crianças que não sabem que o endereço correto é o da Finlândia, mas enfim…
No mapa acima, A é o Polo Norte Magnético da Terra; B é o Pólo Norte Geomagnético; C é o Pólo Norte Humano e D é a cínica North Pole, Alasca. (Eu tentei incluir também o Polo Geográfico, mas aparentemente, o Google Maps não sabe localizar as coordenadas 90.0 N, 0 W dentro do mapa. #FAIL)
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2 Ao ritmo de 55km/ano seriam necessários 231 anos para o Pólo Norte Magnético chegar ao Pólo Sul. Evidentemente, o processo pode levar mais ou menos tempo, pois não se sabe ao certo que tipo de interação causa o fenômeno, nem onde exatamente o Pólo vai estacionar. E, sim, por uma pequena confusão, a nota 2 vem antes da 1. 1 Há ainda outras duas localidades chamada North Pole. Cada uma é mais cínica que a do Alasca: a primeira também é uma cidade e fica no interior do estado de Nova York, na latitude 44º. N.; a segunda situa-se em pleno Hemisfério Sul, mais precisamente na região de Marble Bay, na Austrália Ocidental. Para evitar maiores confusões, esses “Pólos” não entram em nossas contas polares.
OBS: Note-se abaixo que a dimensão textual política também foi escolhida por uma incessante busca do duplo sentido (Pegou? política = estudo dos polos).
Publicado
25 de jan de 2011
>Nomes palindrômicos de cidades ou vilas:
- Anahanahana, Madagascar
- Zirak Kariz, Afeganistão
- Allagalla, Sri Lanka
- Arrawarra, Austrália
- Assamassa, Portugal
- Caraparac, Peru
- Daba Qabad, Somália
- Dabababad, Irã
- Elleyelle, Nigéria
- Illibilli, Sudão
- Wassamassaw, Estados Unidos
Alguém conhece uma opção nacional?