>Menor Encaixotado

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É um triste fato que bebês mortos apareçam frequentemente entre os conteúdos dos Departamentos de Achados e Perdidos das ferrovias. Quando isso acontece, eles são geralmente entregues à polícia e um inquérito formal é aberto. Há pouco tempo, conta-me Mr. Groom, uma criança viva foi encontrada em uma pequena caixa na plataforma de embarque, perto do trem escocês das oito horas. O pequenino estava comodamente colocado sobre palha e estava acompanhado de uma mamadeira. Uns poucos buracos haviam sido feitos na caixa — a qual, aliás, estava revestida com papel de parede e endereçada para uma residência em Kilburn. As autoridades daquela casa, porém, recusaram-se a receber a criança, já que nenhum dinheiro havia sido enviado com ela. Assim, o pobre e perdido infante foi entregue à polícia que, por sua vez, repassou-a a um hospício, onde foi batizado “Willie Euston” e viveu por quatro anos. Consegui obter uma fotografia do achado dessa criança e o incidente é mostrado na ilustração que segue. O oficial à direita deu seu próprio nome de batismo ao pobre menor abandonado. — William G. FitzGerald, “The Lost Property Office” [“O Departamento de Achados e Perdidos”] Strand, dezembro de 1895

É difícil apontar quem é mais pobre — materialmente ou de espírito — nessa história: a mãe (ou pai) que abandonou o menino; a família que se recusou a recebê-lo sem dinheiro ou o policial que, mesmo tendo batizado o pequeno, relegou-o aos cuidados de um hospício. Quanto ao destino de “Willie Euston”, não está muito claro se ele foi finalmente adotado ou morreu ainda na infância. A segunda hipótese me parece mais provável.

>A Torre de Eben-Ezer

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Apesar de seu nome bíblico, a Torre de Eben-Ezer é um pequeno castelo construído no isolado vale Jaker, na Bélgica durante os anos 1960. Trata-se da obra de um homem só, Robert Garcet, que era fascinado pela Bíblia e por numerologia e civilizações antigas. 
A Vida
Robert Garcet (1912-2001): uma figura!
Segundo relatos de quem o conheceu, Robert Garcet deve ter sido uma figura. Ele foi um historiador, antropólogo e paleontologista amador, além de escritor e escultor. Ele começou a construir o castelo em 1962 como uma manifestação de suas filosofias pessoais, suas crenças e sua “anti-conformidade”. Apesar de sua inspiração bíblica, Messier Garcet era anti-clerical e anti-militarista — diz-se que ele nunca permitiu que alguém de uniforme entrasse em Eben-Ezer (nem mesmo padres, afinal a batina é um uniforme). 
A Obra

Com sete andares, a torre de 30 metros de altura é feita de sílex e, de acordo com M. Garcet, foi projetada com auxílio de antigas medidas místicas. O interior da obra está repleto das coleções bíblica, arqueológica, paleontológica e geológica de M. Garcet. Estátuas de quatro enormes animais bíblicos  fazem a vigilância no topo do castelo.

Na entrada da propriedade, uma pequena placa de madeira deixa bem claro quem é bem-vindo:

Sejam Bem-vindos
Os Pacifistas, Mundialistas, Esperantistas, An-arquistas (sic), Resistentes à Guerra,
Todos os que lutam pela paz,
Todos os que engedram a Fraternidade
Na arcada da porta principal, há inscrições com os direitos e obrigações da humanidade. À direita estão os direitos do homem, que são os mesmos proclamados pela Revolução Francesa: Liberté – Egalité – Fraternité [Liberdade, Igualdade, Fraternidade].

Por outro lado, à esquerda, há as obrigações da humanidade que, segundo Garcet são: Aimer – Penser – Créer [Amar, Pensar, Criar].

Ironicamente, a torre, embora pareça antiga, está situada sobre uma rede de túneis verdadeiramente antigos. Garcet dizia ter descoberto mais de uma centena de “novas” criaturas fossilizadas e até uma (suposta) vila de 70 milhões de anos perdida no labirinto de túneis no subsolo de sua torre. Infelizmente — ou talvez intencionalmente —, a vila pré-histórica foi destruída por uma explosão durante trabalhos de mineração antes de ser estudada.

Tobert Garcet faleceu em 2001, aos 89 anos. Atualmente a Torre de Eben-Ezer é administrada pelo Musée du Silex, que organiza visitas turísticas e excursões escolares.

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[via: Atlas Obscura e crazy chris here and there]

>Montaigne e a força do hábito

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Roubemos espaço aqui para uma história. Um fidalgo francês sempre se assoava com a mão — coisa muito avessa ao nosso costume. Acerca disso, defendendo sua atitude (e era famoso pelos ditos espirituosos), ele perguntou-me que privilégio tinha aquela excreção para que lhe fôssemos preparando um belo lenço delicado a fim de recebê-la e depois, o que é pior, empacotá-la [no lenço] e guardá-la cuidadosamente em nós; que isso devia causar mais horror e náusea do que vê-la ser lançada fora de qualquer maneira, como fazemos com as outras excreções. Achei que ele não falava totalmente sem razão e que o costume me eliminara a percepção dessa extravagância, que no entanto consideramos tão horrível quando é narrada a propósito de um outro país.
— Michel de Montaigne, Do costume e de não mudar facilmente uma lei aceita. in: Ensaios, Livro I (1595)
Estou lendo, ainda que lentamente, Montaigne. À parte sua inevitável linguagem quinhentista e as diversas citações latinas e até gregas, achei Montaigne muito parecido com um blogueiro. Seus escritos foram originalmente criados apenas como uma espécie de diário, de auto-retrato de seu pensamento.
Com uma ampla gama de temas — do hábito de assoar o nariz aos índios da América e à educação das crianças — exemplificados por experiências do autor ou de conhecidos seus, os Ensaios de Michel de Montaigne (1533-1592) foram inovadores justamente por sua diversidade e sua brevidade (em relação aos outros textos filosóficos da época). 
Os ensaios começaram a ser escritos em 1572, mas foram publicados pela primeira vez em dois volumes em 1580. Na segunda edição, em 1588, foram feitos inúmeros acréscimos e saiu um terceiro volume. A terceira edição, de 1595, já póstuma foi baseada em rascunhos manuscritos feitos por Montaigne em um exemplar de 1588.
Quanto à filosofia, Montaigne não cria uma escola de pensamento pois não é um moralista ou um doutrinador. Como se nota em seus Ensaios, ele preocupa-se mais em levantar perguntas do que dar respostas ou apresentar as coisas como certas ou erradas. Embora seja cristão, mantém-se cético diante de relatos de milagres, de misticismos e crendices. Igualmente, mostra-se bastante indiferente às divisões religiosas de sua época. Assim, ele pode ser considerado o pai do livre-pensamento moderno.

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