Em uma palavra [96]

morósofo (mo.ró.so.fo)
s.m. 1. um sábio idiota: alguém de educação pobre com eventuais iluminações filosóficas. 2. pejorativamente é um pseudo-filósofo, um filósofo pedante. Morosofia, s.f. espécie de loucura tranquila e lúcida. Morosofada, s.f. neolog. o “insight” filosófico de um morosofo; cf. filosofada. [do grego moros = tolo, néscio, louco + sophos = sábio, prudente]

BÔNUS: O insulto inglês moron – estúpido, retardado – vem da mesma raiz grega e originalmente era um termo técnico que significava “retardo mental brando” em psicologia.

OBSERVAÇÃO: Não estou certo quanto à pronúncia. Não sei se é /morósofo/ (como filósofo) ou /morôsofo/ (como moroso, palavra com a qual não há nenhum parentesco etimológico).

UPDATE (23/03): Como bem lembrou o Roberto nos comentários, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) registra a forma Morósofo. O post foi corrigido para incluir o acento.

Inglês Impronunciável

Se você está tentando aprender inglês, é bom saber que há algumas palavrinhas que enrolam a língua até dos falantes nativos. A mais longa palavra em inglês com uma única vogal é strengths [subst: pontos fortes ou verbo: ele/a força]. Em compensação, a palavra inglesa que mais vogais tem é queueing [subst: enfileiramento; fileira; verbo: gerúndio de queue, enfileirar, formar fila]. E o mais comprido monossílabo na língua de Shakespeare é squirreled [passado do verbo to squirrel que pode ser tanto “esconder algo como um esquilo enconde nozes” ou “mover-se erratica e confusamente, como um esquilo”].

>Em uma palavra [80]

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écdise (éc.di.se)
s.f. a troca de pele pela qual passam alguns insetos, crustáceos ou cobras. [do grego ekdusis, através do inglês ecdysis]

>Estados Unidos: singular ou plural?

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É uma velha dúvida que nos atormenta na hora de escrever sobre a Grande República do Norte: “Estados Unidos é um país” ou “Estados Unidos são um país”? Aparentemente, a dúvida também tem atormentado os estado-unidenses ao longo de sua História. 
Na redação dos primeiros documentos após a Independência, os Pais Fundadores tendiam a usar o plural. Em 1783, por exemplo, John Adams escreveu: “The United States are another object of debate” [“Os Estados Unidos são outro assunto de debate”]. Mais de meio século mais tarde, a 13ª. Emenda proclamava que a escravidão não existirá “no interior dos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito às suas jurisdições.” Ou, no original: “within the United States, or any place subject to their jurisdiction.”
Apesar da tradição histórica do plural, muitos argumentam que o resultado da Guerra Civil — iniciada, ironicamente, pela 13ª. Emenda — estabeleceu uma unificação em sentido moderno nos Estados Unidos. Isto é, na denominação da república norte-americana, a ênfase passou a ser mais a União (com sua singularidade) do que os Estados (com sua pluralidade). 
Como não há nada equivalente a uma Academia Americana de Letras, a questão nunca foi oficialmente resolvida (Até há uma American Academy of Arts and Letters. Entretanto, tal academia é muito mais um clube honorário do que uma autoridade normativa). Vários escritores consagrados e jornalistas já usavam o singular antes da guerra ou continuaram usando o plural após o conflito. O poeta e jornalista William Cullen Bryan (1794-1878), por exemplo, baniu o uso do singular no New York Evening Post em 1870. Ambrose Bierce (1842-1913?) ainda pressionava pelo uso do plural em 1909.
Lentamente, porém, a imprensa foi se fechando em torno do singular. Isso se deu tanto pela ausência de flexão de artigos na língua inglesa — especialmente do artigo definido, the — quanto por razões políticas. Em 1887, um escritor declarou ao Washington Post que “a guerra havia resolvido para sempre a questão gramatical. [...] A rendição de Mr. Davis e do Gen. Lee significou uma transição do plural para o singular.” Oito anos mais tarde, o New York Times observava que “A rebelião tornou as ideias de direito e de soberania dos Estados bastante desagradável às pessoas leais e resultou na correspondente proeminência e popularidade da ideia de nacionalidade.” O diplomata John W. Foster (1836-1917), em artigo numa edição do NYT de 1901, confirmou que “desde a guerra civil, a tendência tem se inclinado para esse uso”, isto é, o singular.
Em português, ambas as formas são aceitas, mas em diferentes contextos. Quando há artigo, usa-se o plural: “Os Estados Unidos são um país da América do Norte.” Sem artigo, usa-se o singular: “Estados Unidos é um país da América do Norte.”

>Em uma palavra [73]

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paragonar / parangonar
1. v. Comparar coisas ou pessoas buscando observar semelhanças ou diferenças entre elas; assemelhar; cotejar; fazer paralelo entre. 2. Artes Gráficas. Alinhar o texto a ser impresso de um ou de ambos os lados. 
|| paragão, s.m. comparação, semelhança, paralelo; por extensão, modelo. var. parangona e parágono [do italiano paragonare; cf. com o inglês paragon = modelo exemplar; padrão superior, de mesma etimologia]

>De pseudovocábulo a neologismo

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Esse mundo está tão cheio de perfis fakes que eles chegaram até os dicionários. Não, fake ainda não entrou para o Aurélio ou o Houaiss. Em 2001, os editores do New Oxford American Dictionary (NOAD) inseriram uma palavra fake como armadilha para descobrir se outros lexicógrafos estavam usando seu material de forma imprópria.
Ironicamente, a palavra que inventaram foi esquivalience — ou esquivaliência — definida como “o insistente ato de evitar responsabilidades oficiais; a fuga do dever.” Parece clara a correlação com o nosso esquivar-se.
Sem surpresa, a palavra não tardou a aparecer no Dictionary.com (para depois ser deletada), que citava como fonte o Webster’s New Millenium Dictionary. O recém-finado Google Dictionary apresentava esquivalience com três definições e exemplos, mas corretamente indicava o NOAD como fonte.
Entretanto, quando é que uma palavra falsa se torna verdadeira? Quando uma palavra inventada passa a ser usada, ela cai em domínio público? Aparentemente, a resposta para a última pergunta é sim.

Christine Lindberg, a editora do NOAD que inventou essa armadilha lexicográfica, disse ao Chicago Tribune que ela própria se pega usando o neologismo regularmente. “Eu gosto especialmente do tom crítico, de julgamento que eu posso expressar: ‘Aqueles miseráveis esquivalientes’. Parece indecente e literário de uma só vez. Eu gosto disso.”

>Em uma palavra [70]

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latrinologia
s.f. neolog. o estudo das inscrições encontradas em banheiros (latrinália). [derivado de latrina; originalmente cunhado como latrinology pelo Professor Alan Dundes, da Universidade de Berkeley]

>Manual de Redação de Hemingway

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O jovem Hemingway em 1916, pouco antes de entrar
pra essa vida perdida de jornalista-escritor-lobo-do-mar.

Excertos do Star Copy Style, o manual de redação do Kansas City Star, onde Ernest Hemingway começou sua breve carreira jornalística em 1917 (evidentemente, algumas dicas fazem mais sentido em inglês):

  • Use frases curtas. Use parágrafos de abertura curtos. Use Inglês vigoroso. Seja positivo, não negativo.
  • Elimine toda palavra supérflua: escreva “Velório será Terça, às 2 horas” e não “O velório será realizado às 2 horas na Terça”. “Ele disse” é melhor que “No curso da conversação, ele disse”.
  • Evite o uso de adjetivos, especialmente os extravagantes, como “esplêndido”, “deslumbrante”, “grandioso”, “magnífico”, etc.
  • Tenha cuidado com a palavra “also” [também; além disso]. Ela geralmente modifica a palavra mais próxima. “He, also, went” significa “He, too, went” [Ele, também, foi.] “He went also” significa que ele foi, além de tomar alguma outra atitude.
  • Tenha cuidado com a palavra “only” [só; apenas; somente]. “He only had $10” [Só ele tinha $10] significa que ele era o único dono de tal quantia; “He had only $10” significa que dez era todo o dinheiro que ele possuía.
  • Uma citação longa antes de introduzir o autor pode ser confusa e é ruim em qualquer situação. Interrompa a citação tão cedo quanto puder: “‘Eu gostaria’, disse o orador, ‘de informar o leitor que serei tão breve quanto possível.’”

“Aquelas”, lembrou Hemingway a um repórter em 1940, “foram as melhores regras que eu aprendi para o negócio de escrever. Eu nunca as esqueci. Nenhum homem com qualquer talento, que sente e escreve verdadeiramente sobre o que está tentando dizer, pode deixar de escrever bem se sergui-las.”

>Hamlet: Uma comédia de erros?

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ham
Em 1889, Fredericka Raymond Beardsley Gilchrist propôs a teoria de que todo o sentido de Hamlet havia sido confundido por causa de um mero erro tipográfico. Na Cena V do Ato I, a sombra revela a Hamlet o adultério de sua mãe e o assassinato de seu pai. Então, Hamlet responde:
O all you host of heaven! O earth! what else?
And shall I couple hell? O fie!
[Ó legiões do céu! Ó terra! Que mais, ainda?
Invocarei o inferno?]
Mas Mrs. Gilchrist afirmava que o segundo verso deveria ser lido assim:


hamleto
O gatinho Hamlet — leva um tempão pra morrer.
Mrs. Gilchrist obviamente não queria um Hamlet encenado em forma de LOLcat. Desculpem a nossa falha. A redação proposta por ela é a seguinte:
And shall I couple? Hell! O fie!
[lit. E deverei eu formar um par? Para o Inferno!]
Ou, em bom português, “E eu ainda casar-me-ei? Não!” A autora de The True Story of Hamlet and Ophelia [A verdadeira história de Hamlet e Ofélia] argumenta que, no estado em que estava, após saber dos crimes em sua família, Hamlet não teria condições de parar e procurar algo para acrescentar a ‘céus!’ e ‘terra!’ em suas exclamações. 
Para ela, portanto, Hamlet se dá conta do risco de seu casamento com Ofélia. O príncipe da Dinamarca, então, desistiria de seu amor e o resto da peça é a história de um “amante infeliz”. Fredericka compara e apresenta diversas edições (como as de 1603, 1604 e 1623), mas reconhece que “Nenhures encontrei a leitura que eu procuro. Mas estou convencida de que a presente leitura não é a verdadeira.”
hamlet1
“A Trágica História de Hamlet, príncipe da Dinamarca” (edição de 1605).
No entanto, ela insiste:  “A pontuação do Folio não foi feita por Shakespeare. Essa pontuação diferia da dos Quartos, elas divergiam entre si e todas são distintas da pontuação moderna: Acredito que todas são incorretas.” Ela segue argumetando sobre as confusões da pontuação do inglês da época de Shakespeare.
Entretanto, ela parece se esquecer de que Hamlet surgiu numa época em que tanto a língua inglesa quanto a imprensa já estavam bem estabelecidas. Embora um erro de pontuação na transcrição ou na tipografia seja perfeitamente possível, ela não apresenta nenhuma edição que comprove sua tese. Mas defende sua interpretação de forma tão peremptória e apaixonada que ela tenta contrabalançar com uma dose de humildade (bastante falsa, diga-se de passagem):
Por quase três séculos tem sido possível mal-entender, não apenas passagens específicas, mas a intenção fundamental da peça. Durante esse tempo nenhuma explicação satisfatória de todas as suas obscuridades foi apresentada. Eu acredito que essa teoria as explica. Contrariando a aparente vaidade e presunção da afirmação anterior, tal crença baseia-se em cuidadosos estudos e comparações. — Fredericka R. B. Gilchrist, The True Story of Hamlet and Ophelia [A verdadeira história de Hamlet e Ofélia], 1889

>O caso Fanny Adams

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Em 24 de agosto de 1867, o balconista Frederick Baker decidiu sair na hora do chá e foi para um pasto perto de uma plantação de lúpulo em Alton, Hampshire (preciso dizer que é na Inglaterra?). Lá, ele encontrou três garotinhas. Brincou, correu com elas e, ao colher amoras-pretas, dispensou duas delas com três moedas pra cada. Elas viram Baker carregando Fanny Adams, de 8 anos, morro acima, dizendo “Venha comigo e eu vou te dar duas moedas a mais.” A menina jamais foi vista novamente pelas coleguinhas.
Investigadores encontraram a cabeça de Fanny em uma treliça de lúpulo. Os dois olhos haviam sido arrancados e uma orelha, cortada. Os braços dela foram encontrados em dois locais distintos. Em um dos braços a mãozinha ainda guardava duas moedinhas. O coração havia sido extraído, um pé foi encontrado em um campo de margaridas, mas as pernas teriam sido jogadas no Rio Wey. Não havia evidência de crime sexual por que a parte inferior do tronco nunca foi encontrada.

Baker não conseguiu explicar as manchas de sangue em suas mangas. Afirmou apenas que sua faca era pequena demais para ter feito tamanhos danos. Ele foi condenado por assassinato premeditado e enforcado na véspera do Natal.

A prova que condenou Baker foi seu próprio diário. Nele encontra-se o seguinte registro no dia 24 de agosto: “Killed a young girl. It was fine and hot.” [“Matei uma jovem menina. Era bela e quente.”]

O crime teve tamanho impacto que entrou para a fraseologia do inglês britânico: a expressão “sweet Fanny Adams” é o mesmo que “nothing at all” ou “absolutamente nada”.

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