Publicado
24 de mai de 2012
Se você vive sendo literalmente execrado por abusar do uso figurativo do advérbio “literalmente”, saiba que está em boa companhia. Até o próprio Times — o famoso jornal londrino — andou judiando do advérbio nos primórdios de 1949. O resultado foram algumas cartas dos leitores literalmente hilárias publicadas ao longo do mês de abril daquele ano:
Sir,
Sua recente reportagem sobre um jogador de tênis que “literalmente dinamitou seus adversários para fora do campo” sugere que está sendo preciso ser menos sutil para vencer. Como, por exemplo, indica a palavra “literalmente” em uma metáfora, não seria inadequado o uso de dinamite em uma partida de primeria classe?
Atenciosamente,
B.W.M. Young
Sir,
Talvez o uso mais pitoresco do “literalmente” foi daquele escritor que afirmava que “durante cinco anos Mr. Gladstone esteve literalmente colado ao Banco Central.”
Cordialmente,
E.W. Fordham
Outros leitores que aproveitaram para apresentar suas próprias experiências com o literal advérbio:
Sir,
Eu apresento o seguinte, longo e adoravelmente lembrado exemplo de meus dias de “penny dreadful”: “Dick, calorosamente perseguido pelo caçador de couro cabeludo, virou-se sobre sua sela, atirou e literalmente dizimou o índio”.
Cordialmente,
Edward Evans
Penny dreadful era o equivalente vitoriano dos contos de ficção pulp, publicados em papel vagabundo e vendidos a preços baixíssimos.
Também houve relato de abuso por parte de uma agência de viagem:
Sir,
Um guia para a Grécia amplamente lido no pré-guerra costumava descrever os habitantes daquele país como tão interessados em política que poderiam ser vistos diariamente “em cafés e restaurantes literalmente devorando seus jornais”.
Atenciosamente,
F.J.B. Watson
Mr. Davidson foi um jornalista que se arrependeu e também escreveu para reconhecer, ainda que com décadas de atraso, seu mau uso do literalmente:
Sir,
Quando eu era editor-assistente do “Saturday Review” no começo dos anos 1920, durante uma ausência temporária do editor eu permiti que um revisor declarasse, naquelas páginas augustas, que seu coração estava literalmente em suas botas.
Atenciosamente,
Ivy Davidson
Publicado
10 de nov de 2011
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| Segundo — e último — lançamento do Large Aerodrome. |
Em um editorial publicado em 10 de dezembro de 1903, um dia após um dos maiores fracassos da tentativa de conquista do ar — o segundo lançamento do Large Aerodrome A, que quase matou o piloto — o New York Times aconselhava o físico, astrônomo e inventor Samuel Langley (1834-1906) a desistir de suas experiências com máquinas voadoras:
Nós esperamos que o Professor Langley não deve colocar em perigo sua substancial grandeza como cientista continuando a perder seu tempo, e o dinheiro envolvido, em mais experimentos aeronáuticos. A vida é curta e ele é capaz de serviços incomparavelmente maiores para a humanidade do que os resultados que se pode esperar das tentativas de voo. [...] Pois para estudantes e investigadores do tipo de Langley há trabalhos mais úteis.
Esse excesso de pragmatismo, revelado claramente na última frase — que hoje em dia, por exemplo, pareceria perfeita em um jornal de Pequim —, choca-se frontalmente com o conceito de inovador que os americanos têm de si mesmos.
Com o tempo, seria esse mesmo pragmatismo imediatista, aliado a uma educação científica em declínio e a uma grave acomodação econômica (além dos cortes de investimentos), que afogaria a verdadeira inventividade americana. Não surpreende que mesmo com o maior número de universitários formados do mundo, os EUA estejam patinando e que nenhum “Edison” ou mesmo uns “irmãos Wright” tenham surgido no último meio século.
Ironicamente, uma semana depois da publicação desse editorial, os irmãos Wright — em um episódio que será eternamente disputável por não ter sido público nem ter tido testemunhas — levantaram (ou catapultaram) voo pela primeira vez em Kitty Hawk, na Carolina do Norte. O NYT não publicou qualquer retratação pelo imenso equívoco tecnológico que acabara de cometer.
Publicado
11 de ago de 2011
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Em seus primeiros dias como repórter no Columbus Dispatch, onde trabalhou entre 1921 e 1924, o futuro escritor e cartunista americano James Thurber (1894-1961) recebeu um importante conselho de seu editor: “escreva leads dramáticos para suas matérias.”
Com o conselho em mente, Thurber escreveu a seguinte introdução para um caso de assassinato: “Morto. Assim estava o homem quando o encontraram com uma faca nas costas às 4 da tarde em frente ao Riley’s Saloon na esquina das ruas 52 e 12.”
Jornalismo literário é para os fracos.
Publicado
10 de jul de 2011
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Em 1962, o Hospital Sueco de Seattle começou a abrir seu programa de diálise para pacientes. Como havia apenas 17 vagas para um programa pioneiro, o hospital montou um “comitê de políticas de admissão” formado por pessoas bastante comuns: um pastor, um advogado, uma dona-de-casa, um líder sindicalista, um funcionário público, um banqueiro e um cirurgião.
Na peneira para escolher os candidatos, o comitê considerava se o paciente: (a) era empregado; (b) tinha filhos; (c) era educado; (d) tinha um histórico de realizações pessoais e (e) tinha potencial para ajudar outras pessoas. Em suas deliberações, o conselho ainda avaliava a personalidade do candidato, seus méritos pessoais e as forças e fraquezas de sua família.
“O candidato preferido” — relataram os sociologistas Renée Fox e Judith Swazey — “era uma pessoa que havia demonstrado realizações através de trabalho duro e sucesso profissional, alguém que ia para a igreja, participava de grupos e estava ativamente envolvida em assuntos da comunidade.” Pode parecer um processo seletivo bastante isento e objetivo vindo de pessoas tão comuns.
No entanto, quando a atuação do “comitê de políticas de admissão” foi divulgada pela imprensa, observadores passaram a questionar a ética de sua atuação e a qualificação de seus membros, majoritariamente leigos em questões médicas. Nenhum dos critérios usados levava em conta o estado da doença ou a expectativa de vida do paciente durante o tratamento.
Na primavera de 1963, o Seattle Times apresentou uma foto de nove candidatos à diálise em sua capa e perguntava: “Essas pessoas vão ter que morrer?” Um membro da comissão se defendeu: “Nós estamos escolhendo cobaias para fins experimentais. Não estamos negando a cura aos outros.” Hoje a ”Experiência de Seattle” é lembrada como um marco na formação da bioética.
Publicado
27 de jun de 2011
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O jovem Hemingway em 1916, pouco antes de entrar pra essa vida perdida de jornalista-escritor-lobo-do-mar. |
Excertos do Star Copy Style, o manual de redação do Kansas City Star, onde Ernest Hemingway começou sua breve carreira jornalística em 1917 (evidentemente, algumas dicas fazem mais sentido em inglês):
- Use frases curtas. Use parágrafos de abertura curtos. Use Inglês vigoroso. Seja positivo, não negativo.
- Elimine toda palavra supérflua: escreva “Velório será Terça, às 2 horas” e não “O velório será realizado às 2 horas na Terça”. “Ele disse” é melhor que “No curso da conversação, ele disse”.
- Evite o uso de adjetivos, especialmente os extravagantes, como “esplêndido”, “deslumbrante”, “grandioso”, “magnífico”, etc.
- Tenha cuidado com a palavra “also” [também; além disso]. Ela geralmente modifica a palavra mais próxima. “He, also, went” significa “He, too, went” [Ele, também, foi.] “He went also” significa que ele foi, além de tomar alguma outra atitude.
- Tenha cuidado com a palavra “only” [só; apenas; somente]. “He only had $10” [Só ele tinha $10] significa que ele era o único dono de tal quantia; “He had only $10” significa que dez era todo o dinheiro que ele possuía.
- Uma citação longa antes de introduzir o autor pode ser confusa e é ruim em qualquer situação. Interrompa a citação tão cedo quanto puder: “‘Eu gostaria’, disse o orador, ‘de informar o leitor que serei tão breve quanto possível.’”
“Aquelas”, lembrou Hemingway a um repórter em 1940, “foram as melhores regras que eu aprendi para o negócio de escrever. Eu nunca as esqueci. Nenhum homem com qualquer talento, que sente e escreve verdadeiramente sobre o que está tentando dizer, pode deixar de escrever bem se sergui-las.”
Publicado
15 de mai de 2011
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| Denúncia de pedofilia: você está fazendo isso errado |
O papa pode não ser mais italiano há um bom tempo, mas mesmo assim, parece que o Vaticano acha que suas fronteiras vão além dos muros que o separam de Roma. Em meio aos escândalos político-sexuais de seu primeiro-ministro fanfarrão, a Itália está calada. Vergonhosamente, também está calada com o lançamento do livro Sex and the Vatican, do jornalista Carmelo Abbate. Não que se esperassem louvores à obra que devassa a vida dupla que padres, freiras, monges e bispos italianos levam. Surpreendentemente, também não houve críticas generalizadas. Nem um escândalo sequer.

Entre outras coisas, o livro apresenta a vida de mulheres que, mesmo na clandestinidade, se casaram com padres e ou tiveram filhos ou fizeram aquilo que a igreja mais condena — aborto. Freiras denunciam estupros que sofreram nas mãos de padres. A conclusão, porém, não é surpreendente: tais comportamentos só ocorrem por que a Igreja impõe a castidade e o celibato, fardos pesados demais na vida de quem deseja ser clérigo.
Na França — onde boa parte da população é católica —, o livro tornou-se um best-seller instantâneo. A primeira edição se esgotou em uma semana. Sex and the Vatican foi o 12º. livro de não-ficção mais vendido pela Amazon francesa. Carmelo Abbate tem aparecido em diversos programas de entrevistas na TV francesa. Diversos artigos e resenhas têm sido escritos em diversos diários franceses nas últimas semana. Há até mesmo um documentário para a televisão sendo preparado sobre o tema.
Mas se você atravessar os Alpes e entrar na primeira banca que encontrar na Itália, não vai ver nada sobre Abbate ou sobre seu livro. Também não vai adiantar muito zapear pela TV italiana. Exceto por uma pequena nota publicada pela Ansa, a agência de notícias italiana, tudo o que saiu sobre o livro na Itália se resume a uma breve resenha em um pequeno jornal econômico de Milão, Finanza e Mercati, e uma matéria na revista Panorama, onde o próprio Carmelo Abbate trabalha.
Falar sobre as relações entre sexo e Vaticano continua sendo um enorme tabu na bota mediterrânea. É como se o livro — e tudo o que ele revela — tivesse sido escondido debaixo do tapete, ou melhor, da batina. Há alguns que consideram Abbate apenas como um jornalista sensacionalista. Mas nem mesmo os deméritos do livro estão sendo discutidos aberta e extensivamente na mídia italiana.
Um dos motivos para isso está fuora i muri do pequeno Estado teocrático governado por Bento XVI. Além de ser o primeiro-fanfarrão do país, Silvio Berlusconi é dono de um império midiático: o Canale 5, o Italia 1 e a Rete 4. Esses são três dos cinco grandes canais de TV aberta na Itália. A RAI, maior emissora de TV do país, é pública e tem diversos canais — mas tal como no Brasil, a TV pública na Itália nunca foi muito autônoma. Não é surpresa, portanto, saber que a TV italiana calou sobre um assunto tão polêmico. O capo de tutti capi já tá bastante ferrado publicamente. Se suas empresas pudessem criticar o Vaticano, ele cairia feito um anjinho de asas quebradas.
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| B-16 e Berlusconi têm muita coisa em comum: são chefes de Estado e líderes de gangues sexuais. |
A mídia impressa também parece impor uma autocensura muito forte quando o assunto é sexo na Igreja. Aparentemente, os jornalistas italianos consideram mais importante o respeito a uma instituição decadente do que a revelação da verdade, seja ela qual for. Aliás, esse tipo de pseudojornalismo é o sonho do lulo-petismo (que mostrou-se muito católico ao condenar o aborto na última campanha eleitoral).
Entretanto, o que pode estar acontecendo na Itália é uma intervenção direta do clero para impor a lei do silêncio no país. Não é a primeira vez que isso ocorre. Em 2006, líderes católicos tentaram censurar a versão cinematográfica d’O Código da Vinci antes mesmo da estreia nos cinemas — não apenas na Itália, mas em diversos países. Onde não conseguiram, promoveu-se uma discreta porém verdadeira queima de livros de Dan Brown. Agora a estratégia é um pouco diferente: ignorar, orgullhosamente ignorar. Diferente, mas não muito. Essa tem sido a mesma estratégia católica diante das denúncias de abusos sexuais cometidos por padres e monges contra crianças e adolescentes. Em vez de enfrentar e reconhecer o problema, o Vaticano tem procurado abafar os casos, como se eles não existissem, como se eles fossem historinhas inventadas por criancinhas malvadas.
Padres pedófilos não são punidos, denunciados nem mesmo excomungados: são transferidos para outra diocese e fica-se nisso até que cometam novos abusos e sejam transferidos ad nauseam. Em vez de jogar fora os frutos estragados, o clero prefere desacreditar os acusadores e proteger a reputação da fazenda onde esses frutos são produzidos. Nem que para isso seja necessário por em risco o Estado de Direito dando um verdadeiro golpe branco em um país soberano e independente do Vaticano. Ou que pelo menos deveria ser.
Publicado
30 de abr de 2011
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No início de setembro de 1924, no auge da Lei Seca norte-americana, houve rumores de que pessoas ricas estariam bebendo e se divertindo. Onde? Em um vapor de 17.000 toneladas ancorado a 15 milhas náuticas [27km] da costa de Nova York, literalmente fora dos limites da lei. “Uma orquestra de Jazz fornece a música para que milionários e melindrosas dancem em um piso encerado com o aroma da maresia em suas narinas”, escreveu Sanford Jarrell no New York Herald Tribune. Para escrever a matéria — sob a enorme manchete “New Yorkers Drink Sumptuously on 17,000-Ton Floating Cafe at Anchor Fifteen Miles off Fire Island” —, o repórter teria conseguido passar uma noite a bordo do misterioso navio.
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| “Eu vou acabar com esse jornalista filho-da-puta!” — Nucky Thompson, ao saber da notícia |
Foi um verdadeiro furo. Outros jornais acreditaram na história, reproduziram-na e deram os devidos créditos a Jarrell e ao Herald Tribune. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas a concorrência também foi buscar suas versões dos fatos. Agentes da Alfândega começaram suas investigações quando perceberam o súbito interesse dos nova-iorquinos pela Fire Island. Até o governo federal acreditou e a Marinha mandou um cúter da Guarda Costeira para caçar o suposto navio-cabaré. Surpreendentemente, ninguém conseguiu confirmar o caso. Todos ficaram a ver navios.
Inicialmente, o NYHT defendeu Jarrell contra os que duvidavam da história. Mas diante da falta de provas, o jornal acabou admitindo que a história não era verdadeira. O episódio começou com uma dica de uma fonte respeitável. Jarrell investigou a história e, como todo mundo depois dele, não encontrou nada que pudesse ser confirmado e publicado. Ele só publicou sua matéria sobre o “sin ship” como uma brincadeira, mas a história era tão boa que acabou ganhando vida própria. Apesar de convincente e extremamente provável, tudo não passava de uma farsa.
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| “Nada como mandar algumas garrafas de uísque para todas as redações” |
Sabendo que isso bastava para acabar com a carreira de qualquer jornalista (ao menos em um país civilizado) e que seria punido, Sanford Jarrell escreveu uma carta ao editor do jornal um dia depois de o jornal admitir que estava errado. Na carta o jornalista, além de confessar seu crime, pedia demissão: “Em antecipação à pena natural pela minha contravenção, e reafirmando meu mais sincero arrependimento por todo esse caso, eu venho por meio desta pedir meu imediato desligamento como membro da equipe do Herald Tribune.”
Publicado
10 de fev de 2011
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Albert Herpin, nascido na França em 1862 e há quinze anos cocheiro nesta cidade, declara que ele não pregou os olhos nos últimos dez anos. Apesar disso, ele está em perfeita saúde e não parace sofrer qualquer desconforto por sua notável condição. Ele vai para a cama regularmente, mas diz que nunca fecha seus olhos ou nem por um instante perde consciência sobre tudo o que acontece à sua volta. Ao amanhecer, ele levanta-se renovado e pronto para outro dia de trabalho entre os cavalos. Ele diz que a mudança de posição e a escuridão do quarto parecem dar-lhe todo o descanso que ele quer.
— “Hasn’t Slept in Ten Years” [“Não Durmo há Dez Anos”], New York Times, 29 de fevereiro de 1904
A matéria dizia que Herpin sofria de insônia desde o nascimento de seu primeiro filho, vinte anos antes. Pouco tempo depois, Mrs. Herpin morreu e o cocheiro passou a dormir cada vez menos, até ser incapaz de “pregar os olhos” durante a noite. Ele, diz-se, não tinha sequer uma cama. O cocheiro descansava em uma cadeira de balanço onde, não raro, ele varava a noite lendo jornais.
Na época, aparentemente, a condição de Mr. Herpin não parece ter chamado muita atenção — nem mesmo dos primeiros neurologistas que começavam a explorar o cérebro humano. É possível que pouca gente tenha acreditado numa reportagem que não tinha nenhuma fonte a não ser um homem humilde, porém excêntrico.
Quase quarenta anos mais tarde, porém, o efeito Herpin (se é que houve algum) atraiu um batalhão de médicos. A cada dia dezenas deles visitavam o ex-cocheiro, agora aposentado. Diversas teorias surgiram e, embora nenhuma tenha sido comprovada, costuma-se explicar o caso como efeito de um ferimento sofrido pela mãe de Al Herpin dias antes de ele vir ao mundo. No entanto, tal teoria também é falha: ela não diz que ferimento seria capaz de tal efeito nem explica por que o cocheiro só deixou de dormir de vez quando tinha pouco mais de trinta anos.
Quando Herpin morreu, em janeiro de 1947, o New York Times ressuscitou a história. Dessa vez, porém, o jornalismo já era coisa mais profissional e o NYT foi (um pouco) mais cético:
A morte chegou hoje para Alfred E. Herpin, um recluso que vivia nos subúrbios da cidade e insistia em dizer jamais ter dormido. Ele estava com 94 anos e, quando questionado sobre sua “insoniedade”, afirmava que ele nunca cochilou realmente, mas apenas “descansava”. Nenhuma outra pessoa com insônia total viveu por um período tão longo. Aparentemente, ele morreu por outras causas e não pela falta de sono, já que sua insônia não parecia afetar suam saúde.
— “Man Who Said He Never Slept Dies at 94; New Jersey Doctors Are Skeptical of Claim” [“Homem que dizia nunca ter dormido morre aos 94; médicos de Nova Jersey duvidam”], New York Times, 4 de janeiro de 1947.
Notem a divergência sobre a data de nascimento de Mr. Herpin entre uma reportagem e outra: a primeira matéria diz que ele nasceu em 1862; a segunda afirma, implicitamente, que ele nasceu nove anos antes, em 1853.
Não há nada além da palavra de um homem, nem sequer uma fotografia foi tirada (eu, pelo menos, não encontrei). Nenhum jornalista ou cientista sequer tentou passar a noite com ele para comprovar a suposta insônia. E mesmo que ele não dormisse por uma noite inteira, poderia muito bem ser algo ocasional, quando não intencional. A história inteira portanto, tem pouca credibilidade e talvez não passe de um
hoax inventado pelo próprio Herpin. Ou talvez até por um
jornalista entediado, coisa que não é incomum.
Publicado
17 de jan de 2011
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A Guerra Fria teve notáveis efeitos na indústria automobilística. O mais visível foram os grandes carros com inspiração aeroespacial produzidos pelos Estados Unidos nos anos 1950.
Mas a indústria automotiva soviética queria mostrar que tudo não passava de aparências. Então, durante a Feira Mundial de 1958, em Bruxelas, na Bélgica, os fabricantes soviéticos desafiaram os norte-americanos.
Um engenheiro suíço foi escolhido de comum acordo e fez uma comparação exaustiva entre um modelo ianque e um bolchevique. O resultado não foi surpresa: o carro americano era melhor.
Mas nem todo mundo ficou sabendo, é claro. O Pravda, principal jornal soviético, relatou apenas que “em uma recente competição automotiva internacional, o carro russo foi o segundo melhor e o americano foi o penúltimo.”
Publicado
25 de nov de 2010
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A pressa é inimiga da perfeição. O entusiasmo, também. Quando a velocidade da luz começou a ser medida, no fim do século XIX, não faltavam comentários entusiásticos nas jovens revistas de divulgação científica, como a francesa La Science Populaire:
A luz cruza o espaço com a prodigiosa velocidade de 6.000 léguas por segundo. (La Science Populaire, Abril de 1881)
Seis mil léguas luminosas? Isso dá cerca de 33.336 km/s, o que é pouco mais de 10% do valor atualmente aceito para a velocidade da luz (299.792 km/s). Obviamente, o erro não estava na velha légua e foi corrigido de maneira mais ou menos poética:
Um erro tipográfico caiu em nosso último número e é importante corrigi-lo: a velocidade da luz é de 76.000 léguas por hora — não 6.000. (LSP, Maio de 1881)
Opa! 76.000 léguas dá 422.256 quilômetros. Não, esse valor 40% acima do que conhecemos hoje não é um erro, por causa da falta de precisão dos equipamentos da época. Além disso, previa-se um valor de c maior do que se foi verificado realmente. Mas há outro erro na errata acima: dessa vez o valor foi apresentado corretamente, mas em léguas por hora!
Isso não passou despercebido e três meses depois, sem muito entusiasmo, a Le Science Populaire finalmente informou o valor correto da velocidade da luz:
Uma nota corrigindo um erro apareceu em nosso número 68 indicava que a velocidade da luz é de 76.000 léguas por hora. Nossos leitores corrigiram esse novo erro: a velocidade da luz é aproximadamente 76.000 léguas por segundo. (LSP, Junho de 1881)