>Celeridade Jurídica

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Não é exclusividade nossa o abuso do juridiquês, levando a volumosos processos cheios de linguagem pomposa e digressiva (não raro com centenas e até milhares de páginas) que só atrasam os julgamentos. A seguir, apresenta-se uma exceção: a íntegra da decisão juiz J. H. Gillis, da Corte de Apelações de Michigan, sobre o caso Denny v. Radar Industries Inc., 1970.
O apelante tentou distinguir a situação factual deste caso daquela do caso Renfroe v. Higgins Rack Coating and Manufacturing Co., Inc. (1969), 17 Mich.App. 259, 169 N.W.2d 326. Ele não pôde. Nós também não conseguimos [nos convencer]. Custos para o apelado. Cumpra-se.

“É um verdadeiro modelo de brevidade”, comentou um juiz estadual do Arizona. “Se mais decisões judiciais fossem como essa, advogados e juízes que têm de lê-las seriam mais felizes e as florestas estariam mais seguras”, já que seria necessário muito menos papel.

>Em uma palavra [76]

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polhastro (po.lhas.tro)

s.m. 1. Frango grande. 2. Jovem de grande estatura; rapagão; mocetão; cavalo. 3. Espertalhão. [do castelhano pollastro, aumentativo de pollo = polho (port. arcaico), frango; rapaz]

Se juntarmos todos os sentidos de polhastro teremos um sinônimo muito bom para um cara galinha (e talvez até melhor).

>Em uma palavra [75]

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paramimia
s.f. uso de gestos desconexos em relação ao que se está falando; gesticulação excessiva e desnecessária. Paramímico, adj., aquele que apresenta paramimia. [derivado do grego mimós = imitação, mímica]

>Em uma palavra [64]

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ileísmo
s.m. o uso, muitas vezes impróprio ou afetado, da terceira pessoa do singular (ele) ou do próprio nome em lugar da primeira pessoa do singular (eu). “Dalí é imortal e não morrerá” (Salvador Dalí). Ileísta, adj. aquele que pratica ileísmo. [do latim ille = ele + -ismo, como em egoísmo]

Outros ileístas famosos são: Júlio César, Charles de Gaulle, Paulo Maluf, Anthony Garotinho e Bob Dole na política e Pelé e Maradona no esporte. Na ficção, o Sr. Miyagi, em Karate Kid (ocasionalmente), Elmo, em Vila Sésamo, Hulk e Dr. Doom, personagens da Marvel, Lord Voldemort, em Harry Potter e Gollum, em O Senhor dos Anéis.

>Manual de Redação de Hemingway

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O jovem Hemingway em 1916, pouco antes de entrar
pra essa vida perdida de jornalista-escritor-lobo-do-mar.

Excertos do Star Copy Style, o manual de redação do Kansas City Star, onde Ernest Hemingway começou sua breve carreira jornalística em 1917 (evidentemente, algumas dicas fazem mais sentido em inglês):

  • Use frases curtas. Use parágrafos de abertura curtos. Use Inglês vigoroso. Seja positivo, não negativo.
  • Elimine toda palavra supérflua: escreva “Velório será Terça, às 2 horas” e não “O velório será realizado às 2 horas na Terça”. “Ele disse” é melhor que “No curso da conversação, ele disse”.
  • Evite o uso de adjetivos, especialmente os extravagantes, como “esplêndido”, “deslumbrante”, “grandioso”, “magnífico”, etc.
  • Tenha cuidado com a palavra “also” [também; além disso]. Ela geralmente modifica a palavra mais próxima. “He, also, went” significa “He, too, went” [Ele, também, foi.] “He went also” significa que ele foi, além de tomar alguma outra atitude.
  • Tenha cuidado com a palavra “only” [só; apenas; somente]. “He only had $10” [Só ele tinha $10] significa que ele era o único dono de tal quantia; “He had only $10” significa que dez era todo o dinheiro que ele possuía.
  • Uma citação longa antes de introduzir o autor pode ser confusa e é ruim em qualquer situação. Interrompa a citação tão cedo quanto puder: “‘Eu gostaria’, disse o orador, ‘de informar o leitor que serei tão breve quanto possível.’”

“Aquelas”, lembrou Hemingway a um repórter em 1940, “foram as melhores regras que eu aprendi para o negócio de escrever. Eu nunca as esqueci. Nenhum homem com qualquer talento, que sente e escreve verdadeiramente sobre o que está tentando dizer, pode deixar de escrever bem se sergui-las.”

>Bebês-objeto

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Na Nova Caledônia, as crianças recebem seus nomes de objetos naturais. Mas se a criança morre, os parentes não podem mais chamar aquele objeto por seu antigo nome. Uma nova denominação deve ser inventada para uso daquela família. O costume resulta em notável variedade do dialeto neocaledôneo e é um desafio para os pais que perdem seus filhos. — J. B. Mc Clure, Entertaining Anecdotes from Every Source Avaiable [Anedotas Divertidas, de todas as fontes disponíveis], 1880

>Desafio Tipográfico

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tipografo
Um tipógrafo [que coisa antiga!] compõe uma sentença em uma fonte monoespaçada. Após o ponto final, ele acrescenta um espaço e repete a mesma sentença vez após vez até encher uma página inteira com um longo parágrafo. A frase em questão é menor que uma linha e nenhuma palavra é hifenizada.

Prove que uma página composta dessa forma sempre vai ter uma coluna formada por espaços em branco.

>Sr. 1069

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O que é um nome? Ou, o que pode ser um nome? Em 1976, o cozinheiro Michael Herbert Dengler entrou na justiça de Dakota do Norte para mudar de nome. Até aí tudo normal: mudar de nome até que é fácil nos Estados Unidos (basta cumprir certas exigências, como ter bons antecedentes, morar no Estado por certo tempo, apresentar uma justificativa e um novo nome). 
O porém é que Dengler queria ser chamado de 1069. Além de dizer que havia sido adotado, ele alegava que cada dígito refletia um aspecto de sua personalidade, em uma numerologia bastante idiossincrática. Segundo o cozinheiro, 6, por exemplo, representava a relação com o universo em minha compreensão de minha ocupação espacial através desta vida. Como se vê, não faz muito sentido. Mas Michael Dengler insitiu: a única maneira que essa identidade pode ser expressada é 1069.
Como também é bastante comum nos Estados Unidos, um caso tão trivial — para não dizer bizarro — acabou chegando à Suprema Corte do Estado. Além de apresentar as mais diversas definições sobre o que é um nome, a Justiça Estadual de Dakota do Norte levantava outro problema caso Mr. Dengler conseguisse trocar seu nome por um número:

Se a mudança proposta for escrita ou impressa, o nome apareceria em numerais arábicos: 1069. Mas e se fosse verbalizado, ele seria “um mil e sessenta e nove”, “um, zero, seis, nove” ou seria “dez meia nove”? Durante a argumentação oral, o Requerente disse como ele iria verbalizar o nome, mas isso não eliminaria o problema pois outras pessoas não saberiam disso [a pronúncia escolhida por Dengler].

Alguns observadores fizeram piada com o caso e diziam que ele acabaria sendo chamado de Juan. Por fim, a corte rejeitou totalmente o pedido e justificou-se com estas palavras: Ideias inovadoras, mesmo quando beiram o bizarro, são frequentemente encorajadas e devem ser protegidas pela lei e pelos tribunais. Mas usar a lei e os tribunais para impor ou forçar um número em lugar de um nome, contra toda a sociedade, é outra coisa.”. 

O texto completo da decisão judicial, com a íntegra da justificativa de Dengler e todas as definições de “nome” usadas, está aqui [em inglês].

>Lingva Latina morta non est

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 O Latim não está morto. A língua de Ovídio, Júlio César e da Antiguidade Clássica está em franco renascimento, graças à internet e à curiosidade de jovens do mundo todo.

O Latim, há séculos considerado como língua morta, está ressuscitando graças à internet (sive interrete) e à comunidade global de latinistas. E eles não são apenas velhos saudosos dos tempos do latim do colégio ou monges fundamentalistas do Vaticano. Muitos latinófilos (ou seriam latin lovers?) são, na verdade, jovens admiradores que estão redescobrindo – e reinventando – a primeira flor do Lácio.
“Noli Fumari”: em uma estação de trem em Wallsend,
Inglaterra, uma placa bilíngue mostra que o latim está vivo.

Como o latim andava meio sumido, seu vocabulário teve que ser modernizado. Muitos termos modernos foram inventados pelos monges do Vaticano, único país que mantém o Latim como língua oficial. Entretanto, como não há uma autoridade única – nem todos, com razão, reconhecem a autoridade vaticana – há múltiplas versões para termos e nomes modernos. Alguns usam o nome original para se referir a algo, enquanto outros criam e usam formas latinizadas. Um exemplo interessante e comum é “Estados Unidos”. Alguns referem-se aos EUA em latim como United States; outros como Civitates Foederatum.

Quando se fala em invenções bem mais recentes que o latim clássico, a coisa pode ficar complicada, pois aí o consenso é difícil. Ferrovia, por exemplo, e por extensão, trem, pode acabar virando, em latim coisas tão díspares quanto Ferrivia, trenus, tramen, agmen, hemaxosticus (sic) e até mesmo Ferrovia. Na cidade, você pode entrar num trólebus ou então em um trolleycarrus, ou num coenautocinetum publicum ou, melhor, num electrolaophorum. Se você tiver dinheiro, pode comprar um carro (carrus), que também chamamos de automóvel (ou então, em latim, autocinetum, automobile ou ainda autoraedum).
Há quarenta anos, os homens chegaram à Luna num Rochete (foguete) e meio orbe (mundo) viu tudo pela televisoria ou ouviu pela radiophona (pelo rádio). Hoje, você navega na interrete usando  uma computaralia ou um ordinatralis (computador ou ordenador). Se você tiver denarium, pode acessar através do seu telephonula ingeniosa (smartphone) Evidentemente, para acessar a interrete, é preciso ter um coniuctio (uma conexão). Depois, você pode usar seu mus (mouse) para tangere (clicar) em ligamenis, nexus ou nodi (links, ou linques ou elos ou ligações; em português também é um quid pro quod).
Se você quiser, pode extrahere (baixar) emepe-tre (mp-3) de rockica musica e grave metallum (rock e heavy-metal), iazzica e modanovae (jazz e bossa nova), classica, electronica, pop musica, ou até mesmo punkica musica  (punk) e — por que não? — funkica.
TÁ, LEGAL, MAS E DAÍ?
E daí que, sendo uma língua que estava “morta” e  que está renascendo, o latim pode ser considerado uma língua internacional perfeita, pois não está ligada a nenhuma nação moderna – o Império Romano extinguiu-se há muitos séculos. Assim, politicamente falando, o latim é neutro e pode ser adotado por (quase) todo mundo. Como é uma língua natural e razoavelmente unificada, não conta com as imperfeições e falta de cultura das línguas internacionais artificiais, como o Esperanto, o Volapuk, e outras dissidentes. Há poesia, música, livros, revistas e programas de rádio e podacasts em latim.

Cuidado romanos! Asterix em latim!

Além disso, o latim já tem — e sempre teve — grande influência junto à mais internacional das comunidades, a comunidade científica. O latim é fundamental para se entender Biologia e Direito e, em menor escala, Geografia e Astronomia.
Infelizmente, não se pode dizer que o latim tenha neutralidade ideológica, pois os principais falantes do latim no mundo moderno são os clérigos da Igreja Católica. Eles, por exemplo, traduziram “humanista” como “ártium liberálium cultor” (algo como “artista liberal”, em referência aos humanistas do Renascimento e não aos humanistas seculares do mundo moderno). “Filantropia” é que foi traduzida como “Humanitas”.
O latim vaticano é (como era de se esperar) conservador e inflexível; peca muitas vezes por usar expressões com mais de uma palavra para designar coisas modernas e simples. “Playboy”, por exemplo, no entender dos vaticanistas, é o mesmo que iúvenis voluptárius, ou jovem voluptuoso. 
Regulus: o Pequeno Príncipe que fala latim.

Os críticos do uso do latim como lingua franca global sempre afirmaram que o idioma latino só é facilmente reconhecível e inteligível para os falantes das línguas neolatinas (Italiano, Francês, Espanhol, Português e Romeno) ou de línguas que sofreram uma influência considerável, como o Inglês e o Alemão ou de línguas com estrutura de desinências semelhante, como o Russo. Assim, o latim, embora politicamente neutro, seria intrinsecamente eurocêntrico.

Isso pode até ser verdade e certamente deve ser muito difícil para os orientais, árabes, indianos ou africanos apender latim. Mas há que se levar em conta que a maioria das línguas com grande número de falantes (todas as línguas citadas, além do mandarim chinês) tem uma ou outra influência latina, o que facilita o aprendizado. O latim tem prestígio não só por nascença, mas por maioria de votos.
É muito fácil, porém, deixar o Vaticano ou a ideologia de lado mesmo quando se fala de latim (ou em latim). A maior autoridade independente é, sem dúvida, a comunidade que edita e mantém a Vicipaedia (a wikipedia latina)  que muito faz para modernizar – sem distorcer – uma língua com mais de 2700 anos de tradição.
DE LIBERA ENCYCLOPAEDIA

Um dos criadores da Vici é Josh Rocchio, americano, estudante universitário da University of Maryland. Fã de Ovídio e baterista nas horas vagas, ele diz que ficou “encantado com a estrutura e simplicidade do latim e como se pode expressar conceitos complexos em poucas palavras”.

Como qualquer cara de 28 anos, ele usa jeans e camiseta e não toga. Segundo Rocchio, o projeto começou como um meio de praticar o latim que aprendeu durante um curso gratutito de latim que ganhou enquanto estudava matemática. A paixão foi tão grande e arrebatadora que acabou fazendo-o abandonar números e fórmulas para estudar Latim e Grego Clássicos.
Latinistas profissionais aprovam a iniciativa. Mesmo que artigos escritos por novatos sejam cheios de errata, “o que é bom é realmente muito bom”, segundo Robert Gurval, chefe do departamento de Literatura Clássica da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).
Eis um exemplo de artigo da Vicipaedia considerado bom. Um excerto do texto sobre Harry Potter:
Harrius Potter, aut Henricus Figulus (Anglice: Harry Potter) est persona ficta et actor princeps in “mythistoria” fabulosa, creatus ab Anglica scriptrice Ioanna Rowling (cui fabulae auctrici nomen est J. K. Rowling), cuius acta et facinora narrantur in librorum serie eodem nomine appellata. Seriei primus liber anno 1997 editus est. Usque ad 2007, septem libri editi sunt.
Dá pra entender perfeitamente e sem muito esforço que Harry Potter é o personagem principal de uma história fabulosa criada por J.K. Rowling, escritora inglesa. O primeiro livro foi editado em 1997 e até 2007 sete livros foram lançados.

Tela inicial e cena da versão latina de Zelda II

Aliás, também há diversas versões latinas de ícones da cultura moderna: a saga de Henricus Figulus, o Pequeno Príncipe, Asterix e até o videoludum Zelda II foram traduzidos para a língua de Virgilio.

NEXUS (para aprender e gastar o seu latim):
  • Curso de Latim — apostila de 98 páginas disponível no scribd; pode ser baixada gratuitamente.
  • google/la — o maior buscador do mundo, em latim;
  • Vicipaedia — versão latina da wikipedia; como é uma inciativa libre, onde o consenso é fundamental, é uma boa fonte de textos e vocabulário moderno;

  • Ephemeris — notícias em latim; a página peca apenas por ter um visual que já deve ter uns 10 anos sem mudanças;
  • Audi Nuntios Latinos per interretepodcasts hebdomadários de notícias em latim feitos por uma rádio finlandesa (com textos);
  • Vocabula computatralia — vocabulário de informática; dicionário bilíngue inglês-latim feto por uma universitária alemã (isso é que globalização!);
  • Glossarium Anglico-Latinum — dicionário inglês-latim; útil para quem já sabe inglês;
  • Adagia — página com provérbios em latim;
  • Lexicon Recentis Latinitatis, sive Parvun Verborum Novatorum Lexicum — Vocabulário oficial de termos modernos de Latim do Vaticano;
  • Regulus — o Pequeno Príncipe em Latim (infelizmente, só na Amazon. Mas dá pra ver algumas páginas)
  • Zelda II – Expeditio Lincihack (cantherius?) para jogar o clássico Zelda em uma língua igualmente clássica.

    >Meta-Inventário

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    Nesta sentença há dezesseis palavras, oitenta e nove letras, um hífen, três vírgulas e um ponto-final.

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