Em uma palavra [143]
saguate (sa.gua.te)
s.m. presente; dádiva; mimo; donativo: “E restituídas ao régulo as pretas submissas, entregue alguma ao lavadeiro à conta de saguate… lá recolhia Isidoro à capital da província.” (Joaquim Paço d’Arcos, Carnaval e Outros Contos, p. 56) [do hindu saughat = raridade, dádiva]
Em uma palavra [125]
adínaton (a.dí.na.ton)
s.m. Retór. perífrase que denota impossibilidade ou absurdo: “A terra subirá onde os Céus andam, / O mar abrasará os Céus e terra, / O fogo será frio, o Sol escuro, / A Lua dará dia e todo mundo andará ao contrário de sua ordem” (Antônio Ferreira, “A Castro”, ato I, III) [do grego “adýnaton” = “coisa impossível”, “impossibilidade”]
Os adínatons diferem da antítese pela completa impossibilidade de realização das imagens que cria. A antítese contrasta; o adínaton reduz ao absurdo. Dividir por zero, por exemplo, seria um adínaton matemático. Essa figura de linguagem não é exclusividade da linguagem retórica ou poética. Também são adínatons expressões do dia-a-dia: “quando as galinhas criarem dente”; “procurar pelo em ovo (ou chifre em cabeça de cavalo)”. Antônio Ferreira (1528-1569) é poeta português do Renascimento, sendo considerado o ‘Horácio’ lusitano.
Ou pelo menos é o que parece…

“Após vinte anos de luta encarniçada, os marcianos escravizaram a Terra, até o surgimento de um líder que leva os terráqueos à revolta…” Sob o título Planetas em Guerra, e com um enorme robô empunhando uma arma na capa, tem-se a impressão de que se trata de um livro com todos os clichês da Ficção Científica. Ou pelo menos é o que parece… Quando, porém, se nota quem é o autor – Poul Anderson –, é melhor esquecer os preconceitos e lembrar que não se julga um livro pela capa.
*** Esta resenha pode conter spoilers. Ou pelo menos é o que parece… *** Continue lendo…
Dança da Manivela
Em 1936, o escritor e jornalista norte-americano E.B. White relembrava suas experiências com o Ford T, que entre nós foi chamado Ford Bigode:
Durante minha associação com Modelos T, self-starters não eram um acessório comum. Eram caros e vistos com suspeitas. Seu carro vinha equipado com uma manivela de serviço e a primeira coisa que você aprendia era como obter resultados. Era um truque especial e até que você o aprendesse (geralmente com outro proprietário de um Ford, mas às vezes por um apavorante período de experimentação), você poderia muito bem ter levantado o toldo. O truque era deixar o botão de ignição em off, posicionar-se diante da cabeça do animal, puxar o afogador (era um pequeno fio que saía pelo radiador) e dar à manivela uns dois ou três movimentos indiferentes. Daí, assoviando como se pensasse em outra coisa, você retomaria o assento do motorista na cabine, ligaria a ignição, voltaria para a manivela e, pegando-a pelo baixo curso [down stroke], daria um rápido giro até enchê-lo. Se esse procedimento fosse seguido, o motor quase sempre respondia — primeiro com umas poucas explosões dispersas, depois com um tumultuoso tiroteio, o que você checava ao correr para o banco do motorista e retardar o acelerador. Muitas vezes, se o freio de emergência não estivesse puxado completamente, o carro avançava sobre você no instante em que a primeira explosão ocorria e você teria que segurá-lo apoiando seu peso contra ele. Ainda posso sentir meu velho Ford farejando-me na guia, como se procurasse por uma maçã no meu bolso.
Elwyn Brooks White (1899-1985) foi co-autor de The Elements of Style, manual de redação de língua inglesa ainda hoje muito usado, e de livros infantis, como Stuart Little. Suas recordações sobre o fordeco estão em Farewell, my lovely [Adeus, meu amado], ensaio publicado na edição de 19 de maio de 1936 da New Yorker.
Em uma palavra [116]
aptônimo (ap.tô.ni.mo)
s.m. 1. fig. de linguagem usada na ficção, na qual o autor dá ao personagem um nome que o descreve de modo cômico ou irônico. Ex: Alfred Jingle, personagem do “Pickwick Papers” de Charles Dickens; ‘jingle’ seria uma referência à onomatopéia do som do dinheiro, o que denunciaria o caráter ganancioso do personagem. 2. nome ou sobrenome real, mas que revela-se adequado à função ou trabalho exercido por alguém ou ao seu caráter; aquilo que o humorista José Simão chama de “predestinado”. Ex: “Predestinados Olímpicos! Claro que a primeira e sempre predestinada das Olimpíadas é a Chana, goleira de handebol do Brasil! O segundo é o nosso lutador de boxe: Esquiva Falcão! ‘Vai, Falcão, esquiva. Esquiva, Falcão!’” [hibridismo entre apto e o grego ónoma(tos) = designação, nome]
Termo surrupiado do excelente post de estreia do Curupira, novo vizinho do Science Blogs Brasil.
“Uma Historiadora parcial, preconceituosa e ignorante”
Henry IV ascendeu ao trono da Inglaterra, para sua grande satisfação, no ano de 1399, após convencer sobre seu primo e antecessor Richard II a renunciar em seu favor e retirar-se para o resto de sua vida para Pomfret Castle, onde aconteceu de ele ser assassinado. Supõe-se que Henry era casado, já que ele certamente teve quatro filhos, mas não está ao meu alcance informar ao Leitor quem era sua esposa. Seja como for, ele não viveu para sempre, mas caiu doente e seu filho, o Príncipe de Gales, veio e levou a coroa. Daí o Rei fez um longo discurso, para o qual eu devo indicar ao Leitor as Peças de Shakespeare, e o Príncipe fez outro ainda mais longo. Depois de assim resolverem as coisas entre si, o Rei morreu e foi sucedido por seu filho Henry, que anteriormente batera Sir William Gascoigne.
Esse despretensioso parágrafo é o começo de uma História da Inglaterra — ou melhor, The History of England from the reign of Henry the 4th to the death of Charles the 1st. — que a jovem Jane Austen (1775-1817) escreveu aos 15 anos. Aparentemente, seu objetivo inicial era tornar-se historiadora e não romancista.
Também é possível que a obra — um manuscrito que foi ilustrado pela irmã de Jane, Cassandra —, fosse uma paródia dos livros-texto de História da época. Austen assinou-se como “uma Historiadora parcial, preconceituosa e ignorante.” e assinalou que “Haverá bem poucas Datas nesta História”. Paródia ou não, ela foi mais honesta e sincera que muito historiador profissional ao falar se si mesma e de sua obra.
Ah, sim: pra quem não sabe, o reinado de Henry IV (1387-1413, regnabat 1399-1413) não foi dos mais tranquilos, já que ele deu um golpe em cima de Ricardo II (1367-1400, rei a partir de 1377). Além da bagunça na política interna, a Inglaterra do começo do século XV estava se engalfinhando com a França na Guerra dos Cem Anos (1337-1453).
Prazer, Sr. Nonsense

Edward Lear, em auto-caricatura
Em uma estação ferroviária qualquer da Inglaterra oitocentista, um gentleman comentava que suas crianças estavam lendo o Book of Nonsense. Quem quer que tenha sido, o tal senhor insistia em afirmar que Edward Lear não existia e que Lord Derby é que havia escrito o livro de poemas absurdos. Então, eis que surge outro gentleman, que estava só ouvindo a conversa e
juntanto-se espontanemente à conversação, disse — “Isso é um senhor equívoco. Eu tenho razão em saber que Edward Lear, o pintor e escritor, escreveu e ilustrou o livro inteiro.” “E eu”, disse o Gentleman, “tenho boas razões para saber, Sir, que vós estais redondamente enganado. Não existe essa tal pessoa, esse tal Edward Lear.” “Mas”, disse eu, “ela existe — e eu sou o tal — eu escrevi o livro!” Então que todos explodiram em risos, evidentemente me considerando um doido ou um piadista. Foi aí que eu tirei meu chapéu e mostrei-o, com Edward Lear e o endereço estampados em grandes tipos — e também um de meus cartões e um lenço marcado. Em meio ao espanto que devorava aqueles indivíduos incultos, eu parti, deixando-os a ranger os dentes em tumulto.
Esse senhor que aparece do nada e afirma ser Edward Lear não era doido nem piadista; era o próprio. Continue lendo…
Pelo mau uso do ‘literalmente’
Se você vive sendo literalmente execrado por abusar do uso figurativo do advérbio “literalmente”, saiba que está em boa companhia. Até o próprio Times — o famoso jornal londrino — andou judiando do advérbio nos primórdios de 1949. O resultado foram algumas cartas dos leitores literalmente hilárias publicadas ao longo do mês de abril daquele ano:
Sir,
Sua recente reportagem sobre um jogador de tênis que “literalmente dinamitou seus adversários para fora do campo” sugere que está sendo preciso ser menos sutil para vencer. Como, por exemplo, indica a palavra “literalmente” em uma metáfora, não seria inadequado o uso de dinamite em uma partida de primeria classe?
Atenciosamente,
B.W.M. Young
Sir,
Talvez o uso mais pitoresco do “literalmente” foi daquele escritor que afirmava que “durante cinco anos Mr. Gladstone esteve literalmente colado ao Banco Central.”
Cordialmente,
E.W. Fordham
Outros leitores que aproveitaram para apresentar suas próprias experiências com o literal advérbio:
Sir,
Eu apresento o seguinte, longo e adoravelmente lembrado exemplo de meus dias de “penny dreadful”: “Dick, calorosamente perseguido pelo caçador de couro cabeludo, virou-se sobre sua sela, atirou e literalmente dizimou o índio”.
Cordialmente,
Edward Evans
Penny dreadful era o equivalente vitoriano dos contos de ficção pulp, publicados em papel vagabundo e vendidos a preços baixíssimos.
Também houve relato de abuso por parte de uma agência de viagem:
Sir,
Um guia para a Grécia amplamente lido no pré-guerra costumava descrever os habitantes daquele país como tão interessados em política que poderiam ser vistos diariamente “em cafés e restaurantes literalmente devorando seus jornais”.
Atenciosamente,
F.J.B. Watson
Mr. Davidson foi um jornalista que se arrependeu e também escreveu para reconhecer, ainda que com décadas de atraso, seu mau uso do literalmente:
Sir,
Quando eu era editor-assistente do “Saturday Review” no começo dos anos 1920, durante uma ausência temporária do editor eu permiti que um revisor declarasse, naquelas páginas augustas, que seu coração estava literalmente em suas botas.
Atenciosamente,
Ivy Davidson
Em uma palavra [104]
elucidário (e.lu.ci.dá.rio)
s.m. livro que elucida, i.e., esclarece ou explica o sentido de assuntos pouco inteligíveis. [derivado de elucidar, por sua vez originário do lat. elucidare, iluminar, jogar luz sobre]




É um punhado de material cósmico, composto principalmente de carbono e hidrogênio, um animal, cordado, mamífero, primata, hominídeo pensante (cof,cof...) que não tem a mínima ideia do que está fazendo no mundo (ou do que é o mundo) e de quem é.