Patentes patéticas (nº. 96)

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Por mais patéticas que tenham sido, as 95 patentes apresentadas ao menos se esforçaram para tentar resolver algum problema de ordem prática (mas que geralmente já tinham soluções mais simples). Uma patente dedicada à confecção simplificada de mapas mais precisos pode parecer algo mais sério e mais útil. Esse seria o caso de Map (profile) of Earth’s continents and methods of manufacturing world maps [Mapa (perfil) dos continentes da Terra e métodos de manufatura de mapas-múndi]. Mas a seriedade e utilidade dessa patente acaba no fim do parágrafo-resumo: Continue lendo…

Amikejo, o quase-país do Esperanto

Quando se fala em (ou melhor, sobre) Esperanto, há sempre a objeção de que não é uma língua natural, que não tem uma cultura própria ou falantes nativos. Pois bem, o Esperanto quase foi a língua oficial de um pequeno país europeu.

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Moresnet.pngTudo começou muito antes do Dr. Zammenhoff. Ironicamente, a culpa é de Napoleão. Durante a reorganização do mapa europeu no período pós-napoleônico, uma fatia de 3,44 km² de terra ficou em litígio entre a Prússia e os Países-Baixos (nº. 3 no mapa acima; 4 é a atual Alemanha; 1 é a Holanda e 2, a Bélgica). A disputa arrastou-se silenciosamente por décadas e área ficou conhecida como Neutral Moresnet e virou uma terra de ninguém.

Já que a terra era de ninguém, que tal falar uma língua de ninguém ali? Em 1908, o imigrante e esperantista alemão Wilhelm Molly propôs transformar o minúsculo território de Neutral Moresnet no primeiro país esperantófono do mundo.

Os esperantistas mais entusiasmados logo batizaram o que seria o seu país de Amikejo (lit. “lugar dos amigos”) e compuseram um hino nacional (em esperanto, é claro). Até mesmo o Congresso Internacional Esperantista decidiu mudar sua sede de Haia para a nova “capital mundial” da língua internacional.

O que era para ser, não foi. A Alemanha não tardou em abocanhar aquele naco de terra durante a I Guerra Mundial. Após outro redesenho europeu — o Tratado de Versalhes —, a área acabou ficando com a Bélgica.

O destino da língua oficial de Amikejo não foi muito diferente (não que a Bélgica o tenha adotado): o Esperanto também é uma ideia não pegou. Mas talvez seja melhor que Amikejo não tenha se realizado. Não faria muito sentido que uma língua cujo objetivo era ser internacional se tornasse apenas mais uma língua nacional, de uma micronação.

Um século e meio de furacões, tornados, ciclones e tufões

Imagem: John Nelson/IDV Solutions

John Nelson cartografa novamente! Depois de mapear pouco mais de um século de terremotos, o gerente de cartografia da IDV Solutions voltou-se para os desastres atmosféricos. Com base em dados do antigo US Weather Bureau e da National Oceanic and Atmospheric Administration (atual agência meteorológica do governo norte-americano) registrados entre 1851 e 2010, Mr. Nelson usou suas cores brilhantes para revelar as trajetórias de furacões e tempestades tropicais que assolaram o planeta durante o último século e meio.

Desta vez, Nelson foi cartograficamente ousado e optou por uma projeção centrada no Pólo Sul. As vantagens são óbvias: as curvas das tempestades tornam-se claramente visíveis, bem como sua tendência de seguir de leste para oeste (ou, se preferir, em sentido anti-horário no mapa).

A frequência e intensidade dos fenômenos cresce a partir da década de 1940. Mas não tire conclusões precipitadas. Tal aumento deve-se antes ao aperfeiçoamento dos sistemas de detecção de furacões e similares. A partir dos anos 1970, por exemplo, há uma explosão no número de registros simplesmente porque o governo americano passou a “ver”, através de satélites, as tempestades tropicais e os tufões da Ásia.

O mais notável, porém, é a assimetria entre o hemisfério sul dos oceanos Pacífico e Atlântico e do oceano Índico. Praticamente metade do Pacífico sul é realmente pacífica (o que explica o batismo, já que Fernão de Magalhães entrou nesse oceano pelo sul). A única ocorrência no Atlântico sul foi o ciclone (ou furacão) que atingiu Santa Catarina em 2004.

O mapa em tamanho original (5000 x 3150 pixel) está aqui.

[via ouramazingplanet.com]

Todos os terremotos de pouco mais de um século

Quando se trata de visualizar terremotos, mapas são sempre úteis — especialmente para saber onde eles ocorrem. Mas e quanto à dimensão temporal?

Juntando dados do ANSS (Advanced National Seismic System), do USGS (United States Geological Surveys) e da Universidade de Berkeley à imagens da NASA, John Nelson montou um mapa com todos os sismos registrados desde 1898. Cada ponto luminoso é um terremoto, ou melhor, o epicentro de um terremoto. Quanto mais brilhante, mais tremores há em determinada área. As magnitudes são separadas por cores e vão de 4 a 8 na escala Ritcher.


Uma pena que o infográfico (tamanho integral) de Mr. Nelson seja apenas estático e não interativo — seria muito mais interessante poder clicar em cada ponto, ampliá-lo e ter acesso aos dados sobre os terremotos representados. Ainda assim, além do pouco surpreendente acúmulo de ocorrências em torno do Pacífico, há informações interessantes. Como indica o gráfico no rodapé, os sismos mais frequentes foram os de 4 graus (74,45% dos registros). Apenas 0,01% tiveram grau 8 (ou mais). Note que há alguns tremores, ainda que de pequena magnitude, no território brasileiro — principalmente no Nordeste, que fica mais próximo do rift meso-atlântico.

[IDV Solutions via Scinerds]

Música-Múndi

Em 2008, James Plankovic passou seis semanas lutando com suas pautas musicais. Seu objetivo era compor uma partitura para 37 instrumentos — flautas, pianos, metais e cordas. Isso por si só já parece uma tarefa complicada, mas o que Plankovic estava realmente tentando fazer era musicar um mapa-múndi.

“Cada massa de terra foi transformada em notação musical”, explica o compositor. “Notas, pausas, ligaturas e algumas expressões musicais como forte ou pianissimo foram reunidas de modo que, como resultado final, ao afastar-se da própria imagem, você veja as terras. Você vê uma parte do mundo.” O tal resultado está no video a seguir.

“A música é muito ativa”, diz o próprio Plankovic em um resumo da monumental porém brevissima obra. “Há alguns pontos fluidos e harmoniosos, e há áreas que são definitivamente impertinentes e discordantes. Isso reflete como o mundo é.”

O céu está caindo?

De certo modo, sim. As nuvens da atmosfera terrestre estão ficando mais baixas, segundo dados de um satélite da NASA. Mas antes de soar alarmes apocalíticos, é bom saber que isso pode ser uma boa notícia.

Cientistas da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, analisaram medições de altitudes de nuvens feitas entre março de 2000 e fevereiro de 2010 pela sonda Terra, da NASA. Recém-publicada na Geophysical Research Letters, a análise revela uma tendência de diminuição generalizada na altitude das nuvens. Ao longo da década pesquisada, a média global de altitude de nuvens caiu cerca de 1%, o que equivale a algo entre 30 e 40 metros de diferença. A redução foi causada principalmente pela ocorrência menos frequente de nuvens em altitudes muito altas.

El Nino/La Niña parecem reforçar as variações observadas. (Imagem: University of Auckland/NASA JPL-Caltech)

Líder da pesquisa, o professor Roger Davies afirma que, embora ainda seja muito pouco para ser uma tendência definitiva, a variação observada pode indicar que está acontecendo algo importante nos céus da Terra. Uma queda consistente na altitude das nuvens poderia ajudar o planeta a se resfriar mais facilmente, com possível redução dos efeitos do aquecimento global.

Ao contrário do derretimento das calotas polares (que reforça o aquecimento), esse seria um processo de feedback negativo: uma mudança causada pelo aquecimento global que enfraquece-o. “Não sabemos exatamente o quê causa a diminuição na altitude das nuvens”, diz Davies. “Mas deve ser por causa de uma mudança nos padrões de circulação que dificulta a formação de nuvens em grandes altitudes.”

A sonda Terra deve continuar recolhendo dados sobre o clima até o fim da década e pode confirmar a tendência de queda das nuvens.

Com informações da NASA.

>Alá é para lá [2]

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Situado na Polinésia Francesa, próximo ao famoso atol Mururoa, o atol Tematangi (ou Tematangui) é a antípoda quase exata de Meca — o ponto exatamente oposto fica a uns 50km a nordeste do atol. Por isso mesmo, um lugar que é aparentemente paradisíaco deve ser um inferno para os seguidores do Islã.

Em Tematangi a qibla¹ torna-se tão sensível quanto uma bússola perto de um campo magnético. Naquele pequeno atol, e em algumas ilhas mais próximas, dois seguidores de Maomé dificilmente oram alinhados na mesma direção e — talvez de modo bastante perigoso do ponto de vista doutrinário e teológico — cada um pode escolher para que lado se voltar. Não surpreende que não haja nehuma mesquita no local, habitado por apenas 57 pessoas.

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¹ qibla [direção em árabe]: a direção em que todo muçulmano se deve voltar quando faz cada uma de suas cinco orações diárias, isto é, com a face voltada para a Caaba, em Meca.

>Na esquina do mundo

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A caminho da Austrália, o capitão do navio canadense S.S. Warrimoo percebeu que teria uma oportunidade realmente única em sua viagem. À meia-noite do dia 30 de dezembro de 1899, ele parou o navio exatamente no ponto onde se encontram a Linha do Equador e a Linha Internacional da Data (ponto A no mapa abaixo).
Naquele breve momento, o navio estava ali na esquina do mundo, flutuando entre dois hemisférios, dias, meses, anos, estações e séculos diferentes — tudo ao mesmo tempo. Ao passear entre a proa e a popa, os passageiros poderiam trocar o inverno pelo verão, o Norte pelo Sul e o Século XIX pelo Século XX (ou vice-versa). 
Mas espere… Isso não deveria ter sido na noite de 31 de dezembro de 1899? Não, e por um pequeno detalhe: graças à sua posição, o Warrimoo simplesmente “pulou” o último dia do século XIX. Como bônus, todo mundo a bordo acabou a viagem praticamente um dia mais jovem.

>Toma lá, dá cá

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A rochosa ilhota de Märket fica no Mar Báltico, bem entre a Finlândia e a Suécia. Quando os finlandeses construíram um farol na ilha em 1885, não perceberam que o fizeram em território sueco. Isso criou um problema sério: sem ter como alterar a costa ou mover o farol, os dois países tinham que encontrar uma nova forma de dividir Märket igualmente.
O que em outros lugares teria sido motivo de guerra foi resolvido com um acordo simples e justo: a Suécia cedeu a área do farol para a Finlândia e, em troca, os finlandeses entregaram aos suecos uma porção equivalente do seu lado da pequena ilha. Embora a fronteira seja um enorme S invertido nos mapas, Märket é igualmente dividida. É a menor ilha do mundo dividida por uma fronteira internacional.

>Mundo Multipolar

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O pólo norte não é o único. Tampouco o pólo sul. O planeta Terra tem, na verdade, quatro pólos em cada hemisfério. E causa uma bagunça…

Quando se fala em Pólo Norte, a primeira coisa em que você pensa é no lugar onde, segundo a tradição, mora o Papai Noel. Felizmente, para ele, e infelizmente para nós, não existe apenas um único lugar, um único ponto da Terra que possa ser chamado de Pólo Norte.
Pólo #01 — Dos diversos pólos nortes, o mais conhecido (e o único que aparecia nos livros de geografia em que você estudou quando era um pirralho) é o Pólo Norte Geográfico, que é o ponto para onde convergem todas as linhas imaginárias de longitude (e onde as divisas de fuso-horário fazem seu happy-hour). Aparentado com o Pólo Geográfico, há a sua extensão na esfera celeste, o Pólo Celeste, que parece ser um ponto fixo do céu, ao redor do qual giraria toda a abóbada celeste.
Pólo #02 — Um patamar abaixo em termos de popularidade (e um degrau acima em termos de temores apocalípticos) estão os Pólos Magnéticos. O Pólo Norte Magnético (PNM), por exemplo, fica no norte do Canadá. Pelo menos por enquanto. Acontece que o PNM não tem localização física fixa. Sujeito às complexidades do campo magnético terrestre e da rotação da Terra, o PNM simplesmente não pára quieto. Normalmente ele se move menos de 15km por ano – mas desde a da década de 1990, o PNM passou a correr. Atualmente ele se move a até 55km/ano e está indo para a Sibéria. Nesse pique, o PNM deve ter um encontro com o Pólo Geográfico ainda durante esta década.
A reversão dos Pólos Magnéticos é um fenômeno  lento, gradual, natural e seguro. Mas muita gente acredita que pode haver resultados apocalípticos (pra variar, em 2012).
Na verdade, porém, uma reversão dos Pólos Magnéticos apenas facilitaria as coisas para nós. Por que, fisicamente falando, o Pólo Norte Magnético (para onde os arcos magnéticos convergem, voltando para dentro da Terra em direção ao núcleo-dínamo) age como se fosse o Pólo Sul de um grande dipolo. Igualmente, o Pólo Sul Magnético age como se fosse um Pólo Norte em um ímã: é o lugar a partir do qual os arcos magnéticos divergem, afastando-se da Terra espaço a fora.

Mapa Magnético. Note que as linhas de força entram no Norte e saem do Sul
Pólo #03 — Mais na verdade ainda, o ponto exato onde as linhas de campo do Campo Magnético são exatamente verticais é outro tipo de polo: o Pólo Geomagnético, que também pode ser definido como o ponto de origem das auroras (boreais no norte e austrais no sul). Se você estiver no PGM Sul (que fica no litoral da Groenlândia), além de ter a melhor visão de uma aurora, sua agulha vai apontar para baixo, junto com as linhas descendentes. Se você fosse visitar o PGM Norte (que fica no sul), sua bússola apontaria para cima, acompanhando as linhas ascendentes.

Uma reversão nos Pólos Magnéticos faria com que estes se alinhassem com os Geomagnéticos. Evidentemente, mesmo ao ritmo apressadinho do PMN, uma reversão levaria séculos2. Nesse meio tempo (e se a rota de inversão começar mesmo pela Sibéria), teríamos o PNM em lugares bizarros tipo a Índia.

Pólo #04 — Por fim, há o que pode ser chamado de Pólo Humano, que é a cidade mais próxima do Pólo Geográfico. O Pólo Norte Humano é a capital das Ilhas Svalbard, Longyearbyen. Mas também há uma cidade no Alasca que, embora esteja distante de qualquer dos outros pólos aqui citados, foi cinicamente batizada de North Pole1 e, por isso mesmo, recebe milhares de cartinhas endereçadas ao Papai Noel — evidentemente, escritas por crianças que não sabem que o endereço correto é o da Finlândia, mas enfim…
No mapa acima, A é o Polo Norte Magnético da Terra; B é o Pólo Norte Geomagnético; C é o Pólo Norte Humano e D é a cínica North Pole, Alasca. (Eu tentei incluir também o Polo Geográfico, mas aparentemente, o Google Maps não sabe localizar as coordenadas 90.0 N, 0 W dentro do mapa. #FAIL)
___________
 2 Ao ritmo de 55km/ano seriam necessários 231 anos para o Pólo Norte Magnético chegar ao Pólo Sul. Evidentemente, o processo pode levar mais ou menos tempo, pois não se sabe ao certo que tipo de interação causa o fenômeno, nem onde exatamente o Pólo vai estacionar. E, sim, por uma pequena confusão, a nota 2 vem antes da 1.
1 Há ainda outras duas localidades chamada North Pole. Cada uma é mais cínica que a do Alasca: a primeira também é uma cidade e fica no interior do estado de Nova York, na latitude 44º. N.; a segunda situa-se em pleno Hemisfério Sul, mais precisamente na região de Marble Bay, na Austrália Ocidental. Para evitar maiores confusões, esses “Pólos” não entram em nossas contas polares.



OBS: Note-se abaixo que a dimensão textual política também foi escolhida por uma incessante busca do duplo sentido (Pegou? política = estudo dos polos).

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