Em uma palavra [105]

armamentário (ar.ma.men.tá.rio)
s.m. armazém onde se mantém armas; local onde se armazena os armamentos; arsenal. [do latim armamentarium]

As Flechadas de Franklin

Em carta ao general Charles Lee datada de fevereiro de 1776, Benjamin Franklin argumentava que o exército das colônias deveria se armar com instrumentos tipicamente americanos — arcos e flechas. Franklin os considerava “boas armas, insensatamente postas de lado”. O inventor e diplomata americano apresentou seis razões para o uso estratégico de um arsenal low-tech:

  1. 1. “Porque um homem pode atirar tão verdadeiramente com um arco quanto com um mosquete comum.”
  2. 2. “Ele pode lançar quatro flechas no intervalo entre carregar e descarregar uma bala.”
  3. 3. “Seu alvo não lhe é tirado de vista por fumaça do seu próprio lado.”
  4. 4. “Uma chuva de flechas, vista por baixo, aterroriza e perturba a atenção do inimigo.”
  5. 5. “Uma flecha que acerte qualquer parte de um homem o põe hors de combat até que seja extraída.”
  6. 6. “Arcos e flechas são mais fáceis de se arranjar em qualquer lugar do que mosquetes e munições.”

Franklin também recomendava a utilização do pique (uma longa lança com ponta de aço, comum na Idade Média). Mesmo que não tenham sido postas em prática, as recomendações militares de Franklin continuaram a ser debatidas muito tempo após a Revolução Americana.

Um teórico calculou que, em 22 de maio de 1794, na Batalha de Tournay, os franceses revolucionários e a coalizão antirepublicana (Áustria, Grã-Bretanha e Hanôver) trocaram 1.280.000 tiros. Com estimadas 8.500 baixas de ambos os lados, o resultado foi uma média de 150 disparos para cada baixa, “o que evidentemente aparece em favor do arco, em termos da certeza de seu tiro, de não mais de 20 [disparos] para 1 [morte].”

>Os EUA derrotariam Roma?

>

Essa boa pergunta começou como uma experiência de pensamento no Reddit.com quando um usuário chamado The_Quiet_Earth postou a seguinte questão: “Eu poderia destruir o Império Romano inteiro durante o reinado de Augusto [circa 23 A.E.C.] se eu viajasse no tempo com um moderno batalhão de infantaria da Marinha dos Estados Unidos ou uma MEU?” Pouco depois, o usuário fez alguns esclarecimentos e apresentou um cenário mais preciso:

Digamos que a gente volte no tempo com uma MEU [Marine Expeditionary Unit ou Unidade Expedicionária de Fuzileiros-Navais]… poderíamos destruir todas as legiões de Augusto?
Estaríamos contra mais ou menos 330.000 homens, uma vez que cada legião era composta por 11.000 homens. Esses homens eram tipicamente equipados com armaduras para os braços e o tronco, feitas de metal e como armas eles usavam espadas, lanças, arcos e outros implementos de apunhalamento. Nós também encontraríamos armas de cerco como catapultas e toscas armas incendiárias.
Nós teríamos um total de cerca de 2.000 membros, do qual metade participaria de operações de ataque terrestre. Nós poderíamos usar nossos veículos mecanizados (60 Humvees, 16 veículos blindados, etc), mas não poderíamos usar nosso reforço aéreo. Aeronaves seriam apenas para transporte.
Nós teríamos médicos conosco, além de moderno equipamento médico e drogas, mas não teríamos mais uma linha de suprimento mágica através do tempo (nós tínhamos, mas os timelords desprezaram-nas, infelizmente!) que nos alimentaria com toda a munição, equipamento e sustento que precisaríamos para sobreviver. Nós teríamos que prosseguir com as coisas que trouxemos conosco.
Assim, seríamos nós vitoriosos?
A pergunta, obviamente, causou um frenesi de discussões e argumentações. Outro usuário, James Erwin escreveu um conto, Rome Sweet Rome, imaginando como as batalhas se desenrolariam sob tais condições.  Não demorou muito para se formar uma comunidade em torno do conto, de onde surgiram diversos traillers no Youtube baseados na história de James Erwin. A coisa foi tão louca que a Warner Bros. já comprou os direitos cinematográficos sobre o conto (Erwin deve desenvolver o conto em um livro, a ser publicado até o fim do ano que vem). 
Agora, porém, são os historiadores profissionais que estão se debruçando sobre essa questão. Expert sobre o Exército Romano, o historiador Adrian Goldsworthy foi entrevistado pela Popular Mechanics. Eis o que ele pensa sobre esse cenário:

Obviamente, haveria uma diferença brutal de poder de fogo. A armadura romana seria não só inútil contra um rifle — muito menos contra um lança-granadas ou uma metralhadora .50 —, ela provavelmente distorceria os projéteis, tornando as feridas mais profundas.

Mas Mr. Goldsworthy lembra que há um porém:

No curto prazo e em campo aberto, a infantaria moderna poderia massacrar qualquer soldado da antiguidade com um risco mínimo  de baixas. Mas você não poderia sustentar essa infantaria moderna. Assim, com todas essas armas e veículos você poderia fazer uma aparição breve, dramática e até mesmo devastadora, mas que rapidamente se tornaria inútil. Provavelmente em questão de dias… Os marines são os melhores guerreiros já treinados. Mas eles não podem lutar contra uma onda interminável de soldados. Ninguém pode.

Essa limitação logístico-temporal acabaria com qualquer poder moderno. Os veículos não tardariam a ficar sem combustíveis (ainda mais sendo beberrões como são os veículos militares). As munições também se esgotariam rapidamente. Por outro lado, nossos soldados do século XXI certamente poderiam se virar em termos de alimentação. Só que, sem qualquer poder de fogo, nossos dois mil homens seriam inúteis contra as 30 legiões de Augusto, ainda que conseguissem destruir algumas delas enquanto tivessem poder de fogo. No entanto, todas essa legiões não estariam reunidas na Itália — ou, provavelmente, não deveriam estar —, o que obrigaria a uma caçada através de toda a Europa e Oriente Médio para aniquilá-las.

>De trás pra frente, só que ao contrário

>

Quando Marshall Bean saiu do Exército dos Estados Unidos em 1965, após servir por oito anos, ele decidiu começar uma nova vida. Não por se envergonhar de sua experiência militar, mas apenas para enganar os credores mesmo. Por isso, ele inverteu seu nome: em sua carteira de motorista e seu cartão de seguridade social o nome eram Naeb Llahsram.

Infelizmente, o plano de Marshall (ou Llashram) funcionou bem demais, pois enganou até o Exército, que o convocou novamente em 1966. Ele levou mais de um ano para provar que já havia cumprido o serviço militar.

“Tudo isso foi culpa dele”, disse um porta-voz do Exército à Associated Press. “Não teria acontecido se ele não tivesse grafado seu nome de trás pra frente.” Isso prova a eficácia da — com o perdão da contradição — “inteligência militar”.

>50 Anos-Lesma

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A ausência do homem no espaço é sinal de que desperdiçamos uma chance enorme de evoluir. Garantir a autodestruição é sempre mais fácil, seguro e barato do que adaptar-se aos novos tempos.
Há meio século, Yuri Gagarin foi o primeiro a chegar aonde nenhum homem jamais estivera — o Espaço Sideral. Parecia ser o início de uma nova era, há muito imaginada pelos autores de ficção científica. Essa seria a nova Era das Grandes Navegações, que agora se desenrolariam no vasto profundo Oceano Cósmico. Mas ao contrário do louvor camoniano, “se mais espaço houvera, lá não chegara.”
Pois cinquenta anos depois do primeiro homem no espaço, colônias de férias na Lua, cidades em Marte e mineradores no Cinturão de Asteróides ainda são fantasias distantes da realidade. Viagens espaciais são hoje algo tão excepcional que ainda nos lembramos do nome do primeiro viajante (compare com as viagens de trem, por exemplo. Alguém ainda se lembra do primeiro passageiro?)



gagarin
Yuri Gagarin: se a exploração espacial fosse
bem-sucedida, ele não deveria ser lembrado.
Onde foi que erramos? O que foi que nos faltou? Jovens ousados, cheios de espírito explorador e desafiador certamente não devem ter faltado nesses cinquenta anos. Tampouco houve falta de foguetes capazes de levá-los com segurança à Lua e, possivelmente, a Marte e trazê-los de volta. Então faltou o quê? Ousadia? Arrojo? — Amarelamos?
Faltou dinheiro. Money, grana, bufunfa, casacalho, moeda mesmo. Só isso. E esse dinheiro não faltou por que estivemos resolvendo nossas próprias bagunças — como pobreza e miséria — antes de sair de casa. Pelo contrário, o planeta está mais bagunçado do que nunca. E pra onde foi todo aquele dinheiro?
Segundo dados do Center for Defense Information, 13,1 trilhões de dólares foram gastos apenas nos Estados Unidos entre 1948 e 1991. A média anual era de US$ 298 bilhões. Parece razoável crer que os russos gastaram a mesma quantia, se não mais. Trilhões de dólares — sem contar milhares de vidas humanas — foram desperdiçados pela paranóia dos políticos e dos militares americanos e soviéticos, que controlaram este mundo durante grande parte das últimas décadas.
Para comparação, a NASA custa apenas uns 8,3 bilhões de dólares por ano. Esse é o orçamento médio desde a fundação da agência espacial americana, em 1958, o custo total somaria US$ 440 bilhões, o que representa 3,3% do total desperdiçado pelos americanos durante a Guerra Fria. Parece razoável estimar que o mesmo é válido para o programa espacial soviético/russo. Portanto, EUA e URSS gastaram até 26 trilhões de dólares para garantir a destruição mútua. Para explorar o espaço, coisa que poderia (e deveria) ser feita em cooperação internacional, a estimativa para ambos soma pouco mais de 1 trilhão.
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Montar a humanidade em bombas atômicas:
para políticos e militares, é divertido. E barato.
Era de ouro em anos de chumbo Cinquenta anos de progresso e coexistência pacífica, de erradicação da fome  e das doenças mais graves e de expedições espaciais cooperativas foram simplesmente transformados numa era sombria, cheia de medo, desconfianças, ódios e enormes dívidas. Líderes políticos e militares conseguiram uma façanha alquímica: transmutaram uma era de ouro em anos de chumbo. Após se armarem com milhares de ogivas nucleares e mísseis intercontinentais, russos e americanos perceberam que seus esforços foram tão bem-sucedidos que se tornaram inúteis. O poder de destruição criado foi tamanho que, felizmente, nenhum dos lados apertou o botão que traria a vitória e a derrota definitivas. Mas o preço foi alto.
A bomba que explode agora é outra: é a fissão incontrolável de seis — sete — bilhões de seres humanos vivendo no mesmo planeta, em condições não apenas cada vez mais desiguais, mas cada vez piores. US$ 30 bilhões por ano evitariam uma crise global de fome; mas o mundo ainda prefere desperdiçar mais de US$1 trilhão por ano com gastos militares. Se realmente houvesse inimigos externos, essa quantia seria justificável. Mas não é.
Gastos militares no mundo
Orçamento militar mundial: de volta aos níveis da Guerra Fria. Os milicos não sofreram com a crise.
De ambos os lados da antiga Cortina de Ferro, a exploração de recursos naturais (e até mesmo as tentativas de controle do clima) foi abusiva a ponto de desequilibrar um sistema planetário inteiro. Em grande parte, a responsável por tudo isso foi justamente aquela geração que sonhava em mudar o mundo com paz e amor. Esteve mais para sexo, drogas e rock’n’roll do que para verdadeira contestação e mudanças. As gerações atuais — inclusive a deste autor —, com seu consumismo quase autista, também não são muito melhores. Em vez de colônias de férias na Lua, nos trancamos em condomínios fechados ou subimos o morro (mas ainda nos perguntamos sobre nossos carros voadores).
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Estação Espacial Internacional: nem estação, nem espacial nem internacional.
A passo de lesma É por tudo isso que não temos razões para comemorar o primeiro jubileu da Era Espacial. A exploração da Terra vai bem, mas estamos a passo de lesma em termos de exploração extraterrestre. Nesse momento os homens mais distantes do planeta Terra estão a apenas 340km acima do solo, numa estação orbital (não espacial e bem pouco internacional). A missão mais longa, em 2006-2007 durou 215 dias, ainda menos que um ano. Com pouca gente passando tão pouco tempo “fora” e em algo tão próximo da Terra, é difícil acreditar que algum dia nos adaptaremos ao ambiente espacial.
Porém, nosso maior empecilho para mandar uma dúzia de pessoas, de diversas nações, para Marte (ou mesmo para a Lua) continua meramente econômico. Todos os recursos econômicos e humanos que poderiam ser usados para manter astronautas por todo o Sistema Solar foram desperdiçados na criação, construção e manutenção de meios para nos autodestruir. O desperdício foi tamanho que é impossível recuperá-lo. Afinal, não podemos vender ogivas, mísseis e submarinos nucleares para fabricar naves espaciais. Pelo visto, não se pode nem desmontá-los e aproveitá-los como propulsão atômica.
spaceodyssey
Dave ficaria abismado. Por não existir.
Estamos abismados Chegamos à beira do precipício da autodestruição. Perdemos muita coisa, mas parece que relutamos em dar meia-volta e seguir um caminho mais seguro e promissor. Em vez de começar a navegar em direção às estrelas, continuamos a correr em volta das mesmas estradas de terra batida. Nossas divergências políticas, econômicas, étnicas, sociais, culturais, religiosas e até mesmo sexuais nos parecem mais importantes que tirar bilhões de pessoas da miséria e, ao mesmo tempo, modificar profundamente nosso modelo de civilização a fim de nos salvar. Já nos salvamos uma vez e podemos fazê-lo novamente.
Ainda evitamos todos os desafios mais sérios como evitamos a imponderabilidade do espaço. É realmente mais barato e mais seguro enviar emissários robóticos a Marte. Mas fazer isso ao longo de quarenta anos é tão barato e tão seguro quanto fabricar uma dúzia de robôs em vez de educar, alimentar, dar abrigo, transporte e saúde a uma centena de operários (ou seriam desempregados?) e suas famílias pelo mesmo período.
Nossa ausência no espaço é apenas um reflexo de nossa ausência dentro da sociedade. O mais irônico de tudo isso é notar como fomos generosos em financiar a criação de meios para nos autodestruir, para aprofundar nossas diferenças. Agora temos que ser austeros e cortar os “gastos” dos quais pode depender a nossa própria sobrevivência. Podemos cometer verdadeiros genocídios sociais, mas se (ao menos no papel) os orçamentos estiverem bem, não há qualquer problema nisso. Como as estrelas, somos apenas números mesmo.

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