Saturno Troll

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Na noite de 25 de abril de 1889, por volta das 8:30, eu estava examinando Saturno com uma potência de cerca de 180 em um [telescópio] Brashear acromático de 4 polegadas e 1/8, quando, para minha grande surpresa, percebi que a sombra do globo sobre os anéis estava curvada de maneira errada, i.e., partindo do globo, como mostra o desenho. Pensando que meus olhos estivessem enganados, chamei minha esposa e, sem contar-lhe o que vi, pedi-lhe que me descrevesse a forma da sombra. Ela a descreveu como tendo sua extremidade direita curvada para fora do planeta.saturno-sombra

Escrevi sobre isso ao Professor Comstock, do Washburn Observatory e ele me informou que, embora seja incomum, minha observação de Saturno estava longe de ser inédita. A mesma aparência fora observada em 1875 com um acromático de 26 polegadas em Washington. [James] Webb, em “Celestial Objects for Common Telescopes” [Objetos Celestes para Telescópios Comuns] diz: “A borda dessa sombra tem sido frequentemente encontrada curvada da maneira errada por sua perspectiva”. O Prof. Comstock ainda acrescenta: “Que eu saiba, nenhuma explicação satisfatória foi dada a essa anomalia”. — Aldro Jenks, “On the Reversed Curvature of the Shadow on Saturn’s Rings,” [“Da Curvatura Reversa da Sombra nos Anéis de Saturno”], Sidereal Messenger, 9:255, Junho de 1890

Há relatos similares em observações feitas entre 1886 e 1914. Ainda assim, qual seria o motivo? Todos os telescópios daquele período não podem estar com defeito… Seria uma ilusão  de ótica causada por algum alinhamento incomum entre o Sol, a Terra e Saturno?

“Escrita Automática de Romance”

A maravilhosa Lady Buxley era rica. A feia e ninfomaníaca [oversexed no orginal] Lady Buxley era solteira. John era sobrinho de Lady Buxley. Empobrecido e irritável, John era malvado. O belo e ninfomaníaco John Buxley era solteiro. John odiava Edward. John Buxley odiava o Dr. Bartholomew Hume. O brilhante Hume era malvado. Hume eram ninfomaníaco. O belo Dr. Bartholomew era solteiro. Gentil e indolente, Edward era rico. O ninfomaníaco Lord Edward era feio. Lord Edward casou-se com Lady Jane. Edward gostava de Mary Jane. Edward não era invejoso. Lord Edward detestava John. A bela e invejosa Jane gostava de Lord Edward.

Assim começa um conto de mistério policial instantâneo. Evidentemente artificial, a obra é resultado de um experimento liderado pelo Prof. Sheldon Klein na Universidade de Winsconsin em 1973.

Professor de Ciência da Computação e de Linguística, Klein fez um teste na fronteira entra as duas áreas: programou um Univac 1108 em Fortran V para escrever uma história 2.100 palavras em 19 segundos. A trama é bem aleatória (e aparentemente ninfomaníaca), mas cai num lugar-comum: o culpado é o mordomo.

Curiosamente, o professor Klein (e seu computador) ainda não recebeu nenhum prêmio IgNobel de Literatura.

Referência

Klein, S., J.F. Aeschlimann,  D. F. Balsiger,  S. L. Converse,  C. Court,  M. Foster,  R. Lao,  J. D. Oakely  &  J. D. Smith.  1973. AUTOMATIC NOVEL WRITING,  UWCS Tech Report No. 186, 109 pages. [disponível em pdf; o conto gerado começa na pág. 73]

>O Incidente de Kersey

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Kersey em 1957. Aquarela de Jack Merriot.
Pensando bem, aquele silêncio era mesmo uma coisa muito estranha: os sinos das igrejas pararam de tocar e até os patos se calaram e ficaram quietos no pequeno riacho no começo da rua principal enquanto o trio de cadetes navais se aproximava do vilarejo. Mais tarde, segundo a recordação dos garotos, até o canto outonal de um pássaro de desvaneceu à medida que eles se aproximavam das primeiras casas. Nenhuma folha se movia nas árvores que, aliás, pareciam não ter sombras. Até mesmo o vento parecia ter deixado de existir.

A rua em si estava bem deserta. Isso não seria surpresa numa manhã de domingo de 1957, ainda mais no coração rural da Inglaterra. No entanto, mesmo os mais remotos vilarejos britânicos já mostravam então sinais de modernidade — carros estacionados nas calçadas, linhas telefônicas suspensas ao lado das ruas e antenas espalhadas pelos tetos. Mas não havia nada disso naquela vila. De fato, todas as casas daquela rua pareciam antiquíssimas: eram grosseiras, com estruturas de madeira, e “quase medievais em aparência”, pensava um dos garotos.

Um incidente temporal?
Os três jovens, que eram cadetes da Royal Navy, aproximaram-se da construção mais próxima e meteram seus rostos nas janelas encardidas, esforçando-se para ver alguma coisa. O que dava para ver era algum tipo de açougue, mas o interior era ainda mais perturbador. Segundo um dos meninos, em depoimento ao escritor Andrew MacKenzie:
Não havia mesas ou balcões, apenas duas ou três carcaças interias de boi que haviam sido esfoladas e em alguns lugares já estavam esverdeadas de velhas. Havia uma porta pintada de verde e janelas com diminutos painéis de vidro, uma na frente e uma do lado, com um ar um tanto sujo. Eu me recordo que enquanto olhávamos incrédulos através daquela janela para as carcaças mofadas e emboloradas… o sentimento geral era um de descrença e irrealidade… Quem acreditaria que em 1957 as autoridades sanitárias permitiriam tais condições?

Eles espiaram em outra casa também. Que, também, tinha janelas esverdeadas e gordurosas e que parecia igualmente desabitada. As paredes pareciam ter sido toscamente caiadas, mas os cômodos estavam vazios. Os garotos não conseguiam ver nenhuma mobília ou objeto e pensavam que as salas em si “não seriam de qualidade moderna”. Assustados, os cadetes voltaram as costas de deram no pé para fora da estranha vila. A trilha que seguiram subia por uma pequena colina e eles não olharam para trás até alcançar o topo da pequena elevação. Daí, segundo um dos três se lembrou, “subitamente podíamos ouvir os sinos tocando novamente e vimos fumaça elevando-se das chaminés, embora nenhuma chaminé estivesse fumando quando estávamos no vilarejo… Nós corremos por uma centena de jardas como que para nos sacudir do sentimento de estranhamento.” [MacKenzie, pp. 6-9]

O que aconteceu com esses três rapazes numa manhã de outubro há mais de meio século ainda permanece um tanto misterioso (ou não). Eles participavam de um exercício de leitura de mapa que deveria ser bastante simples. A ideia era fazê-los se orientar através de quatro ou cinco milhas de uma área rural até um ponto determinado. Depois, eles voltariam à base e relatariam o que encontrassem — o que, de acordo com o plano, seria a pitoresca vila de Kersey, no condado de Suffolk. Mas quanto mais pensavam no assunto, mas os cadetes se convenciam de que algo muito estranho havia ocorrido. Anos mais tarde, William Laing, o rapaz escocês que liderava o trio, colocou as coisas nestes termos: 

Era uma vila fantasma, por assim dizer. Era quase como se tivéssemos andado para trás no tempo… Eu experimentei uma sensação esmagadora de tristeza e depressão em Kersey, mas também uma sensação de hostilidade de observadores ocultos que dariam frio na espinha de qualquer um… Eu me perguntava que, se nós batessemos em uma porta para fazer uma pergunta, quem a teria respondido? Não suporto ter de pensar nisso.
Laing, que viera de Pertshire, nas Highlands da Escócia, era um estrangeiro para essas bandas do leste da Inglaterra. Assim também eram seus colegas Michael Crowley (de Worcestershire) e Ray Baker (londrino da gema). Esse era o problema. Os três tinham só 15 anos e haviam acabado de se alistar na Royal Navy. Isso os tornava facilmente enganáveis pelos oficiais responsáveis pelo treinamento. Seus superiores, segundo Laing, estavam “um tanto céticos” quando ouviram sobre aquela experiência, mas logo estavam “rindo bastante, concordando que havíamos visto Kersey corretamente.” [MacKenzie, pp. 8-9]

O incidente de Kersey ficou esquecido até meados da década de 1980, quando Laing e Crowley — que agora viviam na Austrália — conversaram por telefone e remoeram a história toda. Laing sempre foi perturbado pelo acontecimento. Crowley, por sua vez, não se lembrava com tantos detalhes quanto o colega, mas pensava que alguma coisa estranha havia mesmo ocorrido e recordava-se do quadro geral de silêncio, ausência de antenas e postes e especialmente do açougue bizarro. Isso foi o bastante para fazer Laing escrever ao autor de um livro que ele havia lido: Andrew MacKenzie, que era um dos líderes da Society for Psychical Research.

Retrocognição?

MacKenzie ficou intrigado com a carta de Laing e reconheceu um possível caso de retrocognição. Observando cuidadosamente os detalhes, ele pensou que os cadetes haviam visto Kersey não como era em 1957, mas como era séculos antes. MacKenzie e Laing trocariam correspondências por dois anos. Pesquisas em bibliotecas locais com auxílio de um historiador levaram MacKenzie a confirmar sua hipótese. Em 1990, o ex-cadete retornou à Inglaterra e visitou novamente o vilarejo, acompanhado do pesquisador.

O que torna esse caso particularmente interessante é que a retrocognição é o mais raro dos supostos fenômenos paranormais. O número de casos relatados não passa de uma mão cheia. Muitos fatores levaram MacKenzie a considerar como genuína a experiência dos garotos: a sinceridade óbvia de Laing e Crowley (Ray Baker foi procurado sobre o assunto, mas disse não se recordar da experiência); os detalhes de suas recordações; e algumas descobertas persuasivas. 

Entre os detalhes que mais impressionaram o investigador foi o fato de que a cada que Laing identificava como o açougue — que era uma residência particular tanto em 1957 quanto em 1990 — datava de cerca de 1350 e realmente havia sido um açougue até por volta de 1790. MacKenzie também se impressionou com uma sugestiva mudança de estação sentida pelos garotos ao entrar no vilarejo — dentro de Kersey, segundo Laing, “estava verdejante… as árvores estavam naquela cor verde magnífica que se encontra na primavera ou no começo do verão”. Intrigante também era a questão da igreja da vila. Laing notou como o grupo não a viu após entrar na vila sob um manto de silêncio. Aliás, ele lembra-se explicitamente de que “não havia sinal de uma igreja. Eu certamente deveria tê-la visto, já que tinha um campo de observação de 360 graus” no topo do morro. Crowley também se recorda de “nada de igreja ou pub.” [MacKenzie pp. 4, 6, 11]

Contradições Históricas

Tudo isso, porém, parece inexplicável. A Igreja de Santa Maria de Kersey data do século XIV e é o principal edifício do distrito, sendo bem visível a qualquer um que passe pela rua principal. No entanto, MacKenzie vê nisso uma evidência da data em que Laing e sua turma “visitou” o local. Segundo ele, a construção da torre do templo foi interrompida por um surto de Peste Negra (1348-9) que matou metade da população de Kersey. Para MacKenzie, os meninos viram o local como estava após a praga, quando a torre da igreja semiconstruída estava escondida em meio às árvores. Mas MacKenzie, contraditório como todo investigador de paranormalidade, também diz que a data mais provável seria por volta de 1420. Isso porque por essa época Kersey começava a enriquecer como comércio de lã [Kerridge p.5], o que permitiria o aparecimento das primeiras janelas de vidro.

No entanto, essa simples contradição de datas joga por terra a hipótese de que os garotos tenham se perdido no tempo. Kersey é exatamente o tipo de lugar que poderia causar confusões em visitantes novatos e estrangeiros. Quanto à falta de postes e antenas, há uma explicação bastante racional para isso. No começo dos anos 1950 a Suffolk Preservation Society lutou pela preservação da paisagem local [Electrical Review p.414; Electrical Times p.300]. O resultado dos protestos a favor da preservação histórica de Kersey podem ser encontrados em relatórios do Parlamento Britânico da época, que falam de “negociações que resultaram na transferência das linhas aéreas para o fundo das casas de cada lado da rua ou o enterro do cabo no subsolo no ponto onde a rua precisa ser cruzada.” [Command Papers p.96] Ou seja, havia sim linhas elétricas. Elas apenas estavam escondidas por motivos turísticos.

E quanto aos outros detalhes? Janelas de vidro, mesmo que toscas, eram bastante caras e portanto raras nos séculos XIV e XV [Cantor p.139]. Mesmo que a Kersey supostamente visitada fosse rica, porque suas casas estariam abandonadas e sem móveis? Se o local houvesse sido repentinamente abandonado por causa de uma praga, ninguém teria tempo de levar sua mobília.

O açougue bizarro

Quanto ao açougue, esse é um ponto crucial e demonstra a superficialidade das pesquisas históricas de MacKenzie. A questão é: um vilarejo medieval teria um açougue? Isso não quer dizer que tais estabelecimentos não existissem. Mas eles normalmente ficavam em cidades maiores, onde havia mais demanda. Isso porque a carne, nessa época, era um alimento bem caro. A maioria dos camponeses (e vilões) tinha uma dieta quase exclusivamente vegetariana. Quando se abatia um animal numa vila, o consumo deveria ser imediato, já que não havia muitos métodos de armazenar carne. [Mortimer pp.10-13, 93-4] 
O consumo de carne pode até ter aumentado bastante no século XIV (passando de “um décimo ou menos do orçamento alimentar para um quarto ou um terço do total”), mas há evidências de que tal consumo era ocasional: em Norfolk, não muito longe de Suffolk, apenas três cabeças de gado foram abatidas em um ano por volta daquela época. [Dyer pp.85-6] Portanto, parece absurdo supor que um lugar tão pequeno quanto Kersey tivesse não apenas um açougue, mas um açougue com duas ou talvez três carcaças inteiras por volta de 1420. Nessa época Kersey já tinha uma feira semanal onde seria muito mais fácil encontrar carne fresca em pequenas quantidades.

Confusão mental

Portanto, tudo parece indicar que os cadetes tiveram sim uma experiência excepcional — mas uma experiência puramente psicológica, a derrealização. A derrealização é uma condição psicológica na qual o mundo real subitamente aparenta ser irreal. A favor dessa hipótese há os elementos-chave do incidente: o silêncio, a ausência de vida, as “árvores sem sombra” relatados pelos garotos são comuns em casos de derrealização. As causas podem ser diversas, mas nesse caso tudo não passaria de uma forte impressão de irrealidade causada talvez pelo estresse a que os cadetes haviam sido submetidos durante seu exercício de localização. Assustados por estarem em um local desconhecido no espaço, ele teriam tido a impressão de estarem perdidos no tempo — o que só foi reforçado pela quietude de uma manhã de domingo em um vilarejo pacato do interior da Inglaterra.
Referências
  • Andrew Mackenzie. Adventures in Time. London: Athlone Press, 1997
  • Eric Kerridge. Textile Manufactures in Early Modern England. Manchester: MUP, 1988
  • Electrical Review vol. 145 (1949); Electrical Times vol.116 (1949)
  • Command papers. Great Britain: Parliament: House of Commons. London: HMSO, 1951. Vol. XX
  • Leonard Cantor. The Changing English Countryside, 1400-1700. London: RKP, 1987
  • Ian Mortimer. The Time Traveller’s Guide to Medieval England. London: Vintage, 2009
  • Christopher Dyer. Everyday Life in Medieval England. London: Vantage, 2000

>Viva voz

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Um [certo] Mr. Smith foi atacado à noite, há cerca de duas semanas, nas vizinhanças de Hexam, por três homens. Eles o arrancaram de seu cavalo e lançaram-no, com a face virada para baixo, contra o chão. Não foi feita qualquer tentativa de roubá-lo e nem se pronunciou uma sílaba. Mr. Smith também manteve-se calado até sentir os dentes de uma faca entrando na carne de sua nuca, ao que ele exclamou: “O que estão fazendo comigo?” Ao ouvir sua voz, um dos homens observou: “Esse não é ele!” Imediatamente, todos os três partiram. Esses bárbaros obviamente estavam à espera de alguém que seria objeto de vingança e que eles queriam destruir através do instrumento que citamos. — The Times, 19 de dezembro de 1821

>O Quinto Gigante

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Imagem: weareallstarstuff.tumblr.com

Um novo estudo recém-publicado na seção de astrofísica do arXiv.org indica, com base em simulações virtuais, que Jupiter, Saturno, Urano e Netuno podem não ter sido os únicos gigantes gasosos de nosso sistema solar. De acordo com David Nesvorny, do Colorado’s Southwest Research Institute, nosso atual sistema planetário nunca poderia ter se formado sem a existência de um quinto planeta. Até o momento, esse planeta primitivo e hipotético ainda não tem nome.

Em um trabalho para determinar como o sistema solar foi formado, Nesvorny conduziu uma série de 6.000 simulações em computadores. Ao trabalhar apenas com os quatro planetas gigantes, as simulações indicavam que eles seriam muito grandes e acabariam se destruindo mutuamente. Em outras simulações, onde foram aglomerados em um supergigante, os planetas rochosos, como Vênus e Marte é que acabavam sendo desagregados. De acordo com esses resultados, a atual estrutura do sistema solar teria uma probabilidade muito baixa de ocorrência se tivesse começado apenas com os quatro planetas rechosos e os quatro gasosos que conhecemos e observamos hoje (e que talvez algum dia visitemos pessoalmente).

Após essas simulações, Nesvorny decidiu adicionar um quinto planeta gigante ao grupo. Com a adição desse grande planeta, os resultados mostraram um aumento significativo nas chances de formação do sistema solar como o conhecemos.

Gráfico indica a ejeção do 5º. planeta gasoso (linha rosa)

As simulações mais bem-sucedidas mostram que Jupiter, Saturno, Urano, Netuno e o quinto planeta — de natureza semelhante à de Netuno ou Urano — começaram todos a orbitar muito próximos entre si, a uma distância de 15 unidades astronômicas (1 UA é a distância da Terra ao Sol, i.e., 149 milhões de quilômetros). Os planetas mais leves foram sendo “empurrados” para fora por influência de Jupiter e Saturno. Então, em algum momento, um encontro bem próximo com Jupiter expulsa esse misterioso quinto planeta do sistema solar.

A seguir, o resumo do artigo:

Resumo
Recentes estudos da formação do sistema solar sugerem que os planetas gigantes formaram-se no disco protoplanetário e depois migraram para alcançar órbitas ressonantes, com todos os planetas dentro de 15 UA do Sol. Após a dispersão do disco de gás, Urano e Netuno foram provavelmente espalhados pelos gigantes de gás, aproximando-se de suas órbitas atuais e dispersando o disco transplanetário de planetisimais, cujos restos sobreviveram até hoje nessa região conhecida como cinturão de Kuiper. Aqui nós realizamos integrações N-corporais da fase de espalhamento entre os planetas gigantes em uma tentativa de determinar quais estados iniciais são plausíveis. Nós descobrimos que as simulações dinâmicas que começam com um sistema ressonante de quatro planetas gigantes tem uma baixa taxa de sucesso em adequar-se às presentes órbitas dos planetas gigantes, além de várias outras restrições (e.g., sobrevivência dos planetas terrestres). A evolução dinâmica é tipicamente bastante violenta se Jupiter e Saturno começam numa ressonância de 3:2 e leva a sistemas finais com menos de quatro planetas. Diversos estados iniciais implicam em uma possibilidade relativamente grande de sucesso de adequar-se às restrições. Alguns dos melhores resultados em termos estatísticos foram obtidos através da suposição de que o sistema solar tinha, inicialmente, cinco planetas gigantes, com mais um gigante de gás, de massa comparável à de Urano e Netuno, que foi ejetado para o espaço interestelar por Jupiter. Essa possibilidade parece concebível à luz da recente descoberta de grande número de planetas que flutuam livremente no espaço interestelar, o que indica que a ejeção de planetas deve ser comum.

O artigo completo (em inglês) está aqui: Young Solar System’s Fifth Giant Planet? arXiv:1109.2949v1 [astro-ph.EP] http://arxiv.org/abs/1109.2949

>TrES-2b, o Planeta Negão

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Concepção artística de TrES-2b, o planeta mais rubro-negro conhecido

Tente imaginar alguma coisa mais preta (ou negra ou afro-descendente) que carvão. Agora tente imaginar um planeta inteiro dessa cor. Foi exatamente isso que o telescópio espacial Kepler descobriu na semana passada.
Distante apenas 5 milhões de quilômetros de sua estrela-mãe, TrES-2 — e a 750 anos-luz da Terra —, o gigante gasoso chamado TrES-2b arde a cerca de 980ºC. Apesar disso, aquele mundo imenso e infernal aparentemente não reflete quase nenhuma luz que recebe.
David Kipping, líder da equipe que descobriu o planeta negão confirma: “é menos refetivo que o carvão ou mesmo a mais negra tinta acrílica — de longe o planeta mais obscuro já descoberto”. Kipping, astrônomo do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, em Cambridge, Massachussets dá uma ideia da aparência do TrES-2b: “Se pudéssemos vê-lo de perto, ele pareceria uma bola de gás quase preta, com uma tênue faixa vermelha brilhante — um verdadeiro exotismo entre os exoplanetas.”

Sombra da sombra
O planeta, evidentemente, não foi descoberto por observação direta. Mesmo orbitando ao redor da Terra e sendo projetado especialmente para buscar planetas extrassolares, o observatório Kepler encontrou esse planeta rubro-negro (mais para negro) através do método de trânsito. Quando um planeta passa diante de seu astro-rei, a luz de seu sol diminui, ainda que por frações minúsculas. Ou, se preferir, é mais ou menos um microeclipse estelar. Se o fenômeno se repete periodicamente e se a estrela reagir gravitacionalmente a esse movimento orbital, pode haver um planeta lá. 
Mas, se não houve observação direta, como sabemos que esse planeta é tão escuro? Simples: um pouco antes de eclipsar seu sol, todo planeta passa por uma “fase crescente”, quando é capaz de refletir a luz que recebe. No caso desse planeta, a luminosidade refletida — chamada de albedo pelos atrônomos — era de aproximadamente de 6,5 partes por milhão (!) em relação ao brilho da estrela TrES-2. É o menor sinal fotométrico já registrado.
O Mistério Negro de TrES-2b
Parece título de ficção científica barata¹, mas é sério. Ninguém sabe ainda por que o TrES-2b é tão escuro. Os modelos de computador mais recentes indicavam que um Júpiter quente — um gigante gasoso que fica muito próximo de suas estrela — só poderia ser tão obscuro quanto Mercúrio, que reflete apenas 10% da luz que vem do Sol. Mas o TrES-2b é tão escuro que reflete apenas 1% da luz que vem de seu sol. É um albedo baixíssimo. O albedo da Terra varia de 37 a 39% (por causa das nuvens) e o de Jupiter é de 52%. Vênus é o planeta mais brilhante que conhecemos: reflete 90% da luz solar. 
Se as medidas estiverem realmente corretas, porque o planeta é tão escuro? “Alguns têm proposto” —  explica Kipping — “que essa escuridão pode ser causada por uma enorme abundância de sódio e óxido de titânio gasosos.” 
Céus de titânio podem parecer fodásticos, mas essa hipótese não empolga o descobridor: “Mas é mais provável que haja algo exótico lá, algo que nunca pensamos antes. É este mistério que eu considero tão excitante sobre essa descoberta.” Ou talvez seja apenas uma combinação de mormaço e falta de filtro solar…
Enfim, como TrES-2b é um nome um tanto sem-graça para um planeta tão interessante, já há um apelido: Erebus, o deus grego da escuridão e consorte da deusa da noite, Nyx. Mas eu acho que um nome melhor (e menos eurocêntrico) seria Kuk (ou Keku²), o deus (ou deusa, por ser andrógino/a) da escuridão primordial na mitologia egípcia (foi mal por todos esses parênteses, mas é um vício pra mim). 
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¹ Pensando bem, quase toda Ficção Científica é barata em termos literários. Mas eu adoro isso.
² Ou talvez não fosse uma ideia tão boa, já que depois de buraco negro, chamar um planeta negro de Keku só nos traria uma coisa: mais piadas infames.

>O Mistério da Cegueira Homérica

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Em 1858, William Ewart Gladstone percebeu algo peculiar em Homero: as cores relatadas em suas obras parecem estranhas demais. Tanto o gado quanto o mar, por exemplo, são descritos como tendo a cor do vinho. As ovelhas são “violetas”, o mel é “verde” e, embora seja descrito como estrelado, amplo, grande, de ferro e de cobre, o céu nunca é azul. Gladstone conjecturou que “o órgão da cor e suas impressões eram apenas parcialmente desenvolvidos entre os gregos do período homérico”.
É uma hipótese bastante interessante, mas é igualmente improvável — afinal, como provar que uma população, quiçá a humanidade inteira foi daltônica em certa época? William Gladstone (1809-1898) pode ter sido facilmente enganado pela noção da Terra jovem, i.e., a teoria de que o planeta (e tudo que nele existe) tem mais ou menos seis mil anos. Mesmo que não fosse criacionista, o futuro premiê do Reino Unido por quatro vezes deve ter pensado que os homens de poucos milênios atrás eram tão primitivos que mal distinguiriam as cores.

Dizer que todo mundo era cego para as cores no tempo de Homero era absurdo, mas vinte anos depois de Gladstone fazer sua conjectura, a teoria ainda persistia. Em 1878, o engenheiro e cientista William Pole (1814-1900) escreveu na Nature que
Seria um fato dos mais interessantes na fisiologia e na óptica se pudéssemos demonstrar, dessa forma, que o dicromatismo foi um estágio inicial da visão humana, a partir do qual a atual, mais perfeita e compreensiva capacidade tem sido gradualmente desenvolvida no curso de alguns milhares de anos.
Odisseu (a.k.a. Ulisses) preso ao mastro para resistir ao canto
 das sereias. (vaso grego , circa 450 A.E.C.)

A verdade talvez nunca venha a ser conhecida. Há diversos fatores possíveis para explicar a discrepância observada por Gladstone e Pole — do uso de drogas por Homero a erros persistentes e sobrepostos ao longo de séculos de cópias, transcrições e traduções.

A tradicional cegueira homérica, entretanto, seria uma explicação mais simples: sendo cego, Homero não tinha muita noção de mundo quando se tratava de cores e, assim, suas descrições cromáticas nos parecem descabidas por que sabemos que o mar é azul e que bois e mares não têm (ao menos normalmente) a mesma cor do vinho. Sem falar na possibilidade de licença poética. Afinal, por que não poderia haver uma dose de surrealismo em um poema da antiguidade? Ou será que o surrealismo só seria possível no século XX e os gregos antigos não tinham imaginação?

Homero e seu guia. Pintura de
 William-Adolphe Bouguereau, 1874

Ou, se quisermos ser bem chatos (e talvez incrédulos demais), basta explicar que Homero sequer existiu: ele teria sido um personagem quase mítico inventado para ser apresentado como autor de poemas que já existiam há muito na Grécia Antiga e que teriam sido obras de criação coletiva. Sua cegueira, portanto, seria igualmente fictícia, criada apenas para reforçar o heroísmo do autor da Ilíada e da Odisséia. As discrepâncias de cores poderiam ser explicadas por essa hipótese. Mas então, por que esses erros sobreviveriam em uma obra que, ao longo dos séculos seria extensivamente estudada e revisada?
Por outro lado, a hipótese de que a cegueira de Homero tenha sido apenas cromática seria uma grande prova a favor da existência individual do autor grego. Como Pole ressalta no mesmo artigo na Nature, se pudessemos comprovar isso, nós teríamos “a mais forte prova possível, por evidência interna, da existência de um autor único, a quem se deve todos os poemas”.
O retorno de Odisseu. Pintura de Claude Lorrain, 1644

>Mini-Holmes

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Com apenas 503 palavras (em inglês e 469 nesta tradução que eu fiz), o conto a seguir é a mais curta história de Sherlock Holmes escrita por Arthur Conan Doyle (1859-1930). O miniconto foi feito para ser publicado em um minilivro de 1,5 polegada [3,81 cm] de altura e que seria parte da biblioteca de uma casa de bonecas da Rainha Mary (1867-1953), esposa de George V (1865-1936, regnabat 1910-1936):

Como Watson aprendeu o truque
Watson estava observando intensamente seu companheiro desde que ele havia se sentado à mesa do café-da-manhã. Casualmente, Holmes levantou seus olhos e viu-o:
— Bem, Watson, você está pensando no quê?
— Em você.
— Em mim?
— Sim, Holmes. Pensava em quão superficiais são esses seus truques e como é incrível que o público continue a mostrar interesse neles.
— Eu concordo deveras. De fato, me lembro de uma vez em que fiz uma observação similar.
— Seus métodos  disse Watson secamente  se adquirem com muita facilidade.
— Sem dúvida 
 Holmes respondeu com um sorriso . Talvez você mesmo queira dar um exemplo desse método de raciocínio.
— Com prazer. Eu sou capaz de dizer que você estava bastante preocupado quando acordou hoje cedo.
— Excelente!  exclamou Holmes  E como pôde saber disso?
— Porque você geralmente é um homem muito organizado, mas até agora se esqueceu de fazer a barba.
— Meu caro! Quanta sagacidade! Eu não tinha ideia, Watson, de que você seria tão bom aluno. Seus olhos de águia detectaram algo mais?
— Sim, Holmes. Você tem um cliente chamado Barlow e não tem sido bem-sucedido nesse caso.
— Meu caro, como você percebeu isso?
— Eu vi o nome fora do envelope. Quando você o abriu, soltou um gemido e guardou-o no bolso com o cenho franzido.
— Admirável! Você é mesmo um bom observador. Tem mais algum ponto?
— Eu receio, Holmes, que você esteja envolvido em alguma especulação financeira.
— Como pode afirmar isso, Watson?
— Você abriu o jornal, pulou para a página de finanças e soltou uma exclamação de interesse em voz alta.
— Bem, isso é muito sagaz de sua parte, Watson. Algo mais?
— Sim, Holmes. Você vestiu seu casaco preto e não o seu robe, o que significa que você está esperando alguma visita importante.
— Nada mais?
— Eu não tenho dúvida de que poderia apresentar outros pontos, Holmes. Mas só lhe dou esses poucos para mostrar-lhe que há outras pessoas no mundo que são tão espertas quanto você.
— E algumas nem tanto. Eu admito que são poucas, mas receio, meu caro Watson, que eu não devo contar você entre elas.
— O que quer dizer, Holmes?
— Bem, meu caro colega, receio que suas deduções não sejam tão felizes quanto eu gostaria.
— Quer dizer que estou enganado?
— É mais ou menos isso, eu acho. Vamos por as coisas em ordem: eu não fiz a barba porque mandei a lâmina para ser afiada; vesti meu casaco em lugar do robe porque, por azar, tenho um encontro matutino com o dentista. O nome dele é Barlow e a carta veio para confirmar o compromisso. A página de críquete fica bem ao lado da financeira e eu procurava saber se Surrey ainda está à frente de Kent. Mas vá em frente, Watson, vá em frente! É um truque bastante superficial e sem dúvida você irá adquiri-lo logo.

J.M. Barrie (1860-1937; autor de Peter Pan), Thomas Hardy (1840-1928; “o último dos grandes vitorianos”), Rudyard Kipling (1865-1936; Nobel de Literatura em 1907) e Somerset Maugham (1874-1965) também contribuíram com minivolumes para a minibiblioteca real, que ainda está em exposição no Castelo de Windsor. Socialista e irlandês, George Bernard Shaw (1856-1950) recusou o convite para participar dessa brincadeira lítero-real.

>O caso Belle Gunness

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Em 1902, Belle Gunness, uma imigrante norueguesa de 42 anos comprou uma fazenda em LaPorte, Indiana, com os 8.500 dólares que recebeu do seguro após a morte de seu marido e dois de seus filhos. Não demorou muito e Mrs. Gunness casou-se novamente. Nove meses depois, seu segundo marido também morreu.
Belle Gunness e seus filhos. O olhar dessa senhora já revela tudo.

Durante os seis anos seguintes, diversos pretendentes — muitos deles prósperos —, visitaram a fazenda da viúva norueguesa e jamais voltaram. Se você é leitor de romances policiais, já deve ter sacado que a perda de dois maridos em questão de meses e diversos pretendentes ao longo dos anos não foram meras fatalidades ou acidentes.

Em abril de 1908, quando o irmão de um desses homens desaparecidos resolveu investigar, a casa da fazenda foi incendiada de forma súbita. Os bombeiros descobriram quatro corpos no meio dos escombros. Três eram de filhos de Belle Gunness, mas o quarto — que era de uma mulher adulta — não pôde ser identificado por que estava decapitado.

Investigadores nas ruínas do porão de Mrs. Gunness. A autoria e as causas do incêndio
 nunca foram esclarecidas.

Mesmo assim, as investigações prosseguiram e descobriram vários cadáveres esquartejados enterrados pela propriedade. Em depoimento à polícia, o trabalhador rural Ray Lamphere disse que Gunness atraía suas vítimas até a sede da fazenda, sedava-as, matava-as a machadadas e depois enterrava-as no chiqueiro ou perto dele.

Ray Lamphere: único empregado de
Mrs. Gunness. Suspeito (?).

Ainda hoje, estima-se que Gunness matou mais de 40 pessoas. Assim, ela é considerada uma das maiores serial killers da América. Há também quem diga que ela foi a primeira matadora compulsiva da História (ou, pelo menos, da História Moderna).

Misteriosamente, seu destino é desconhecido. Belle Gunness foi declarada morta após o incêndio, mas seus vizinhos insistiam que o corpo decapitado não poderia ser o dela. Lamphere também acreditava nessa hipótese e disse que Belle havia forjado sua própria morte para fugir com 100.000 dólares em dinheiro roubado. Mais tarde, porém, ele foi considerado o verdadeiro suspeito de assassinar a “viúva negra” de Indiana. Nunca saberemos quem tem razão nesse caso — não sobrou DNA suficiente para fazer uma identificação segura do cadáver decapitado e carbonizado.

>O homem do pudim de ameixas

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Em 1805, o então futuro poeta romântico francês Émile Deschamps (1791-1871) recebeu um pudim de ameixas de um estranho, o Monsieur de Fontgibu.
Dez anos depois, Deschamps pediu um pudim de ameixas em um restaurante de Paris. Polidamente, o garçom lhe explicou que o último pudim já havia sido servido para outro freguês — ninguém menos que o M. de Fontgibu.
Dezessete anos mais tarde, em 1832, Deschamps novamente recebeu um pudim de ameixas de presente. Ele havia começado a contar aos seus amigos sobre estranhas coincidências que o prato lhe trazia quando, por engano, um homem entrou na sala onde estava… Sim, senhoras e senhores, era ele mesmo: M. de Fontgibu!
“Três vezes na minha vida eu comi pudim de ameixas e nas três vezes eu vi o M. de Fontgibu!”, exclamou Deschamps, irado (e esquecendo-se de que não comeu o segundo pudim). “Na quarta vez eu seria capaz de fazer qualquer coisa! ou de não fazer nada…”
Até hoje, ninguém sabe ao certo quem foi M. de Fontgibu. Mas a história já rendeu pelo menos um curta-metragem (rodado em inglês e holandês):

M. de Fontgibu & the plum pudding from Prosper de Roos on Vimeo.

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