O rei do riso (e dos parênteses) francês

Não tem jeito: vez por outra alguém que lida com arte sofre com a falta de inspiração. Não deve haver escritor que não tenha escrito algo sobre a falta do que escrever. Mas em termos de falta de inspiração, ninguém supera Alphone Allais (1854-1905). Ele fez desse tema a sua obra.

Na falta de talento, Messier Allais foi um prolífico autor sobre o nada. Sua obra-prima, porém, é uma composição musical: a Marcha Fúnebre para as Exéquias de um Grande Homem Surdo (1897). Ouça:

Se você não ouviu nada, não se desespere: não foi por falha do Youtube nem do seu equipamento (eletrônico e/ou auricular). Como se trata de uma marcha fúnebre para surdos, o objetivo é justamente esse: ter dois minutos de silêncio.

Allais também atuou como pintor e participou das exposições de “Arte Incoerente” (dedicadas às obras de “gente que não sabe como desenhar”) organizadas por Jules Lévy (1838-1903). Ironicamente, Lévy também não sabia desenhar: ele era um grande cornetista e, apesar do nome, era britânico e não francês.

Uma das obras de Allais era um simples retângulo branco intitulado Primeira Comunhão de Mocinhas Anêmicas em uma Tempestade de Neve. Também expôs a Colheita de Tomates por Cardeais Apopléticos às Margens do Mar Vermelho (que nada mais era do que um retângulo inteiramente vermelho).

Allais também esculpiu. Uma de suas esculturas tinha o trocadilhesco título de Terre cuite (Pomme de). O trocadilho só faz sentido em francês: Terre cuite é terracota, mas ao lado do que está entre parênteses passa a significar algo como “Batata assada”. A escultura, evidentemente, parecia uma batata feita de terracota.

Mais humorista do que escritor, Allais foi considerado o cara mais engraçado da França no fin-de-siècle (ou, se preferir, uma espécie de Millôr da belle-époque). Como deu pra perceber, Allais também foi um precursor do surrealismo (e se auto-proclamou recordista mundial de abertura de parêntesis (ah, ele também pode ser considerado pioneiro do nadismo), lançando um desafio a quem tentasse quebrá-lo  (estamos nos esforçando (deu pra perceber?) para quebrar tal recorde)).

Improviso Microbiano

Um dos grandes problemas científicos do século XXI é perceber os padrões que se escondem em quantidades de dados cada vez maiores. Peter Larsen, bioengenheiro do Argonne National Laboratory, era apenas mais um cientista às voltas com esse problema sério. Graças a sua paixão por jazz e por um empurrãozinho do colega Jack Gilbert, Larsen encontrou uma solução inusitada para a pesquisa que ambos conduzem sobre a diversidade microbial do Canal da Mancha Ocidental. Continue lendo…

Patentes Patéticas (nº. 65)

http://www.google.com/patents/US634887

No finzinho do século XIX, as bicicletas estavam em alta e Samuel G. Goss, de Chicago, achou que só faltava ter música para os passeios se tornarem mais agradáveis. Como ainda não havia rádio nem gramofones portáteis — muito menos mp3-players —, a única solução que Goss encontrou foi tranformar as próprias bikes em instrumentos musicais: Continue lendo…

Engenharia musical

Relatório escrito por um engenheiro de métodos e organização (que mais parece um economista) após uma visita ao Royal Festival Hall, grande salão de apresentações musicais situado em Londres:

Durante consideráveis períodos, os quatro tocadores de oboé não tinham nada para fazer. Seu número deveria ser reduzido, e seu trabalho deveria ser mais bem distribuído ao longo do concerto, eliminando os picos de atividade.

Todos os doze violinos tocavam notas idênticas. Isso parece um multiplicação desncessária. A equipe desse setor deveria ser drasticamente cortada. Se um grande volume de som é necessário, seria possível obtê-lo por meio de amplificadores eletrônicos.

Muito esforço foi despendido na execução das fusas [notas de 1/32 de duração]. Isso parece um refinamento desnecessário. É recomendável que todas das notas deveriam ser arredondadas para as semicolcheias [notas de 1/16, ou o dobro das fusas] mais próximas. Se isso fosse feito, seria possível usar trainees e diminuir o grau dos operadores mais extensivamente.

Parece haver excesso de repetição de algumas passagens musicais. As partituras deveriam ser drasticamente podadas. Não há qualquer utilidade em repetir, com os sopros, uma passagem que já foi apresentada pelas cordas. Estima-se que se todas as passagens redundantes fossem eliminadas, o tempo total do concerto poderia ser reduzido de duas horas para vinte minutos e não haveria necessidade de um intervalo.

O Condutor concorda genericamente com essas recomendações, mas expressa a opinião de que poderia haver alguma queda na receita dos ingressos. Em caso de tal evento improvável, seria possível fechar seções inteiras do auditório, com consequente economia de despesas extras – iluminação, funcionários, etc.

Se ocorrer o pior dos pior possível, a coisa toda poderia ser abandonada e o público ainda poderia ir para o Albert Hall. — NPL News 236, 17 (1969)

Música-Múndi

Em 2008, James Plankovic passou seis semanas lutando com suas pautas musicais. Seu objetivo era compor uma partitura para 37 instrumentos — flautas, pianos, metais e cordas. Isso por si só já parece uma tarefa complicada, mas o que Plankovic estava realmente tentando fazer era musicar um mapa-múndi.

“Cada massa de terra foi transformada em notação musical”, explica o compositor. “Notas, pausas, ligaturas e algumas expressões musicais como forte ou pianissimo foram reunidas de modo que, como resultado final, ao afastar-se da própria imagem, você veja as terras. Você vê uma parte do mundo.” O tal resultado está no video a seguir.

“A música é muito ativa”, diz o próprio Plankovic em um resumo da monumental porém brevissima obra. “Há alguns pontos fluidos e harmoniosos, e há áreas que são definitivamente impertinentes e discordantes. Isso reflete como o mundo é.”

Longplayer is long

Qual é a música mais longa já criada? Dentre as muitas respostas possíveis, a mais provável é a composição chamada Longplayer. Composta pelo músico Jem Finer e outros artistas entre 1995 e 1999, Longplayer é uma peça para sinos tibetanos com duração estimada de 1000 anos. A execução foi iniciada em 31 de dezembro de 1999 e deve terminar nos últimos momentos de 2999.

Cronologicamente ambiciosa, a obra se baseia na aplicação de seis regras precisas para relacionar seis peças de música. Cada uma dessas peças é uma transposição harmônica de uma música-fonte, uma composição original com 20 minutos e 20 segundos de duração. Além da música-fonte, há uma versão uma oitava abaixo, uma sete semitons abaixo, outra cinco semitons abaixo e outras cinco e sete semitons acima.

Seis trechos de dois minutos — um de cada harmônico — estão tocando simultaneamente o tempo todo. Esses trechos são selecionados de modo a não haver repetição alguma durante 1000 anos. Ao fim desse milênio, tudo começa de novo, em um loop milenar. Por razões práticas, desde o começo, Longplayer tem sido executada apenas na forma digital. No entanto, segundo o Longplayer.org,

embora o computador seja um dispositivo barato e preciso no qual Longplayer pode ser executada, é importante — até mesmo para sua própria sobrevivência — que um meio fora do domínio digital seja encontrado. Para esse fim, um objetivo dos primeiros estágios do seu desenvolvimento tem sido pesquisar métodos alternativos de performance, incluindo versões mecânicas, não-elétricas e operadas por humanos.

Ainda segundo o site,

Longplayer surgiu de uma preocupação conceptual da representação e entendimento da fluidez e expansividade do tempo. Embora tenha encontrado forma como uma composição musical, isso também pode ser entendido como um processo vivo com 1000 anos de duração – uma forma de vida artificial programada para buscar suas próprias estratégias de sobrevivência. Mais que uma peça de música, Longplayer é um organismo social, dependente de pessoas — e da comunicação entre pessoas — para sua própria continuidade e existência enquanto comunidade de ouvintes ao longo dos séculos.

Quatro estratégias de sobrevência são propostas: o uso de uma radiofrequência globalmente dedicada, um dispositivo mecânico, um dispositivo computacional e, claro, a performance humana. Destas, apenas a performance humana já foi tentada: um trecho de 1000 minutos (16h40min) foi executado por diversas pessoas em 12 de setembro de 2009. Outra apresentação ao vivo, com três horas de duração, ocorreu durante a comemoração dos dez anos da música, em 31 de dezembro de 2009. Há planos para mais apresentações na Austrália ao longo de 2013 e nos Estados Unidos em 2014.

Embora ainda não tenham sido encontradas soluções extradigitais definitivas, a composição milenar pode ser ouvida em diversos locais do mundo. A primeira instalação foi feita no farol da Trinity Buoy Wharf, em Londres e na Brisbane Powerhouse em Queensland, Austrália. Ao longo da década, foram montados outros “pontos de audição” no Royal Observatory, também em Londres, no Orangery, em Nottinghamshire, no The Long Now Museum & Store em San Francisco e — talvez a locação mais emblemática — na nova Biblioteca de Alexandria, no Egito. Evidentemente, também há uma versão em livestream na internet.

>Conforme a música

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A música tem sido usada com sucesso para aumentar a produtividade industrial em quase tudo, da montagem de rádios à enrolação de cigarros e fogos de artifício. De fato, estima-se que a produtividade cresce em até 17%. Não há receita exata para qual melodia deve ser usada para acelerar as tarefas, mas geralmente são aquelas com tons definidos, como canções patrióticas, marchas, foxtrotes e polcas, são mais efetivas. [...] Mas talvez a mais imprevisível reação ocorreu quando uma fábrica, em uma febre de eficiência, tocou “Deep in the heart of Texas”, uma canção com um balanço bem próprio. Tudo correu bem na linha de montagem, até a entrada do refrão. O que se seguiu foi um pandemônio. Os trabalhadores estavam tão cheios do espírito da música que, no ponto em que o refrão pede por aplausos, eles automaticamente largaram suas ferramentas para aplaudir. — Women’s Day, novembro de 1963

>A última canção

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Enquanto está sendo desativado (ou morto) em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o computador HAL começa a cantar “Daisy Bell”. É uma cena clássica:
A letra da música é singela:

Daisy, Daisy, give me your answer do,
I’m half crazy, all for the love of you.
It won’t be a stylish marriage–
I can’t afford a carriage–
But you’ll look sweet upon the seat
Of a bicycle built for two.

De certo modo, isso é uma ironia poética. Durante uma visita ao Bell Labs em 1961, o autor de ficção científica Arthur C. Clarke (1917-2008) havia testemunhado uma apresentação do primeiro computador a cantar. O físico John Kelly (1923-1965) havia programado um IBM 704 para cantar através de um sintetizador de voz. O nome da canção era “Daisy Bell”.

>Patentes Patéticas (nº. 02)

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musiquinha
Muito se fala sobre o controle de natalidade, mas pouco tem sido feito. Talvez tenha sido pensando nisso que Paul Lyons apresentou a camisinha musical em 1991. No texto da patente, Lyons afirma que ela é divertida, incomum e “capaz de produzir um efeito surpreendente”. Quanto à parte musical:
A música ou mensagem de voz pode ser tocada apenas uma vez (por exemplo, a abertura de uma melodia pode ser executada por cerca de 20 segundos) ou pode ser repetida continuamente por vários minutos para coincidir com a duração do coito.
O que tocar em um momento tão íntimo? O próprio inventor recomenda um repertório clássico: Abertura de 1812, “Ode à Alegria” da Nona Sinfonia de Beethoven, “The Aniversary Waltz” e até mesmo “Happy Birthday to You”.
Vinte anos depois, os dispositivos de memória cresceram tanto em armazenamento quanto diminuíram em tamanho. Qual seria o seu repertório?

>Hino Multiuso

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Os americanos pensam que a tradicional canção My Country, ‘Tis of Thee, a.k.a. America, é um hino patriótico (embora não seja o oficial). Ironicamente, diversos países pensam da mesma forma. A mesma melodia serve como hino nacional (e oficial) da Dinamarca, Suécia, Suíça, Noruega, Liechtenstein — e até para a Rússia! Todos esses países “roubaram” a melodia que os britânicos conhecem como God save the Queen. Para piorar, diversas ex-colônias britânicas mantém a melodia como hino real: Belize, Bahamas, Barbados, Canadá (onde também tem versos em francês), Nova Zelândia, Jamaica…
Isso tem levado a situações constrangedoras durante eventos internacionais. Quando a Inglaterra jogou contra o Liechtenstein na Eurocopa de 2004, a mesma música teve que ser tocada duas vezes antes do jogo. Curiosamente, nas classificatórias da Euro 96, o hino foi tocado apenas uma vez no jogo entre a seleção inglesa e a da Irlanda do Norte. 
A própria origem do hino é uma bagunça. Para alguns autores, as primeiras notas teriam sido compostas em 1619 por um certo Dr. John Bull. Outros atribuem a melodia a um trecho da obra de Händel, alemão naturalizado britânico. A primeira versão completa, inclusive com os versos teria aparecido em 1744, na obra Thesaurus Musicus. Mas mesmo esse livro tem autoria disputada. 
Sem dúvida, a teoria mais bizarra é  a da origem francesa. Segundo o Marquês de Créquy, Grand Dieu sauve Le Roi foi composta por Marc-Antoine Charpentier para celebrar… a cura de uma fístula a anal de Luís XIV, o Rei-Estadão. Após uma vitória sobre os franceses em 1745, os britânicos teriam adotado o hino sem saber de sua origem…
Mas a situação pode mudar: desde 2007 tramita no Parlamento Britânico uma proposta para pôr ordem na casa e determinar qual hino deve ser usado em qual ocasião — a Inglaterra ainda tem outros três hinos (Jerusalem, Rule Britannia! e Land of Hope and Glory). God save the Queen está em clara desvantagem entre os candidatos à oficialização. Além de ter se tornado pouco britânico e ter as letras modificadas de acordo com o gênero do monarca, o Parlamento reconhece que o hino “não deveria envolver Deus.”

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