O elemento J

Um clássico tabu da tabela periódica está prestes a ser derrubado por uma equipe de pesquisadores japoneses. Após oito anos de tentativas, o Japão acaba de se tornar o primeiro país da Ásia a sintetizar um elemento — provisoriamente chamado de 113 ou ununtrium (Uut) —, o que lhe dará o direito de nomeá-lo. Apesar da esperança de finalmente termos um J na tabela periódica, a descoberta deve causar polêmica. Continue lendo…

O tubarão que veio do céu

Encontrar um tubarão em um campo de golfe não é incomum – embora geralmente seja um tubarão figurativo, como um tubarão capitalista. Mas e se você encontrasse um tubarão literal, de verdade, naquele gramado impecável, entre uma tacada e outra? Pois foi justamente isso que aconteceu na última segunda-feira no San Juan Hills Golf Club, em San Juan Capistrano, na Califórnia.

O mais incrível é que a queda de um tubarão-leopardo de duas libras [aprox. 1kg] foi um acontecimento discretíssimo. Ninguém estava jogando na tarde daquela segunda quando o Triakis semifasciata caiu perto do 12º. buraco. Segundo a diretora do clube de golfe, Melissa McCormack, o animal aparentemente caiu após ter sido capturado por alguma ave marinha*. Inofensivo aos humanos, o pequeno predador foi descoberto por um funcionário do campo, que encontrou o tubarão vivo, porém levemente ferido e sangrando.

Trabalhando às pressas para salvar o animal, McCormack e outros dois funcionários colocaram o tubarãozinho num balde com água. Então alguém lembrou que aquilo não era um peixe de água doce e o trio teve que improvisar uma dose de água salgada caseira (com sal de cozinha mesmo). Antes de soltá-lo no mar, McCormack teve o cuidade de fotografar o tubarão.

‘Onde estou? Quem sou eu?’ [Imagem: Melissa McCormick/San Juan Hills Golf Club]

Não é a primeira vez que o clube de golfe local atrai a fauna da região. “Nós temos nossos típicos coiotes, gambás e um ou outro cougar**”, disse McCormack. “Mas nada como um tubarão.”

[via The News Tribune]

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* Sobre uma ave que possa ter feito isso, vide o comentário do Rafael S. Marcondes a seguir.
** Para uma discussão do termo cougar, vide o comentário citado e a réplica Deste Que Vos Escreve.

Tem boi na linha!

Na quinta-feira [última], enquanto o trem de carvão da linha de Swannington prosseguia para Leicester, e estava próximo de Glenfield, o maquinista surpreendeu-se ao perceber um belo touro aparecer na linha, virar-se e disparar de encontro ao trem, cabeça a cabeça com a locomotiva. O animal correu diretamente contra seu esfumaçado antagonista e, após o choque, teve morte instantânea no local. Não houve tempo para parar a composição antes que a besta enfurecida aparecesse. Mais tarde, descobriu-se que o animal pertencia a Mr. Hassell, de Glenfield, e escapara de um campo adjacente à ferrovia. — ‘Leicester Journal’, republicado pelo ‘Times’ na edição de sexta-feira, 10 de agosto de 1849.

Acidentes ferroviários com gado não eram incomuns no século XIX. Tanto que um inventor americano tem uma patente patética para uma possível solução do problema.

Estrela é flagrada durante o jantar

Não, não estamos falando de uma estrela de cinema ou da TV. Não viramos o Ego ou o TV Fama. Mas você já deve ter ouvido falar que, um dia, daqui uns quatro meses bilhões de anos, um inchado e avermelhado Sol engolirá o nosso planeta. De certa forma, os cientistas acabam de ver isso — não no Sistema Solar, é claro.

Em trabalho recém-publicado no Astrophysical Journal Letters, uma equipe de astrônomos dos Estados Unidos, Espanha e Polônia afirmam ter descoberto que um planeta foi “engolido” enquanto estudavam a química de sua estrela-mãe. Um dos co-autores — Alex Wolszczan, da Pennsylvania State University — já é famoso no meio astronômico por ter liderado a equipe que descobriu o primeiro planeta extrassolar em 1992.

Durante as observações feitas entre 12 de janeiro de 2005 e 5 de março deste ano, no telescópio Hobby Eberly do McDonald Observatory, no Texas, os pesquisadores notaram que a estrela BD+48 740 devia ter acabado de jantar. No menu, um planeta com 1,6 massa de Júpiter. Sendo uma gigande vermelha em processo de envelhecimento, já se esperava que BD+48 740 estivesse em regime de engorda.

Concepção artístca do jantar estelar: petisco era um planeta pouco maior que Júpiter. [imagem: BBC]

O que ninguém esperava era pegá-la no flagra. Como explica Eva Villaver, da Universidad Autonoma de Madrid, em declaração à BBC, “capturar um planeta no ato de ser devorado por uma estrela é um feito quase improvável, dada a relativa rapidez do processo. Mas a ocorrência de tal colisão pode ser deduzida pela maneira como afeta a química estelar.”

Foi exatamente assim, por uma evidência química que, mesmo sem chegar a vê-lo, os cientistas descobriram que o planeta já havia sido servido (muito bem-pessado, talvez). Quando percebeu que BD+48 740 tinha uma concentração incomum de lítio — elemento que é rapidamente consumido pelas estrelas e, portanto, raro em sua composição —, a equipe passou a pensar que a estrela estava digerindo um de seus planetas. Também há outro planeta no sistema BD+48 740, situado a uns 1813 anos-luz, na direção da constelação de Perseu.

Esse sobrevivente foi tão afetado pelo cataclisma que serviu como testemunha que comprova a hipótese de uma estrela “fominha”. “De fato”, explica Andrzej Niedzielski, da Universidade Nicolaus Copernicus, em Torun, Polônia, “a órbita do planeta de BD+48 740 é a mais eliptica detectada até agora”. Essa órbita incomum não teria se formado naturalmente, mas seria consequência da desestabilização do sistema causada pelo crescimento da estrela e a consequente absorção de um planeta mais interno. Aliás, o planeta sobrevivente poderia ter sido lançado nessa nova órbita pela súbita liberação de energia causada por um “arroto” estelar. Comer um filho e arrotar diante de outro — que deselegante por parte de uma estrela-mãe!

M. Adamów et al. BD+48 740—Li Overabundant Giant Star with a Planet: A Case of Recent Engulfment? 2012 ApJ 754 L15. Artigo completo disponível em arXiv:1206.4938.

>Nomeados mais dois elementos químicos

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A IUPAC anunciou ontem que os elementos 114 (Ununquadium) e 116 (Ununhexium) podem ganhar nomes definitivos até o fim do ano. Resultado da colaboração entre o Laboratório Flerov de Reações Nucleares, na Rússia e o Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos Estados Unidos, os novos elementos — descobertos no fim dos anos 1990 e confirmados na década seguinte — deverão ser batizados segundo um acordo de cavalheiros: os russos devem dar nome ao 114 e os americanos vão nomear o 116.

Segundo a série Periodic Videos (em inglês), o elemento 114 deverá homenagear Georgy Nikolayevich Flyorov (em russo: Гео́ргий Никола́евич Флёров, 1913-1990), físico nuclear soviético e fundador do Laboratório que leva seu nome, onde o Ununquadium foi descoberto em 1999. No entanto, dada a dificuldade de transcrição de nomes próprios do russo para línguas ocidentais, ainda não se sabe ao certo como será formado o nome. O mais provável é que seja Flerovium [símbolo: Fl] (Fleróvio, em português) derivado de Flerov, uma forma latinizada de Flyorov.

Embora também tenha sido descoberto no laboratório russo, o elemento 116 deve homenagear o laboratório norte-americano. Seria chamado Livermorium [símbolo: Lv] (ou Livermório). Há controvérsias, porém. Embora o recém-divulgado comunicado da IUPAC afaste essa possibilidade, em março deste ano fontes da imprensa russa disseram que o elemento 116 também seria batizado pelos russos e ganharia o nome de Moscovium [Mo?] (já que o Laboratório Flerov fica no oblast — ou distrito — de Moscou).

Pessoalmente, porém, os dois nomes, se confirmados, me decepcionam. Parecem grandes novidades, mas na verdade são repetitivos. Bastante repetitivos.
O Fleróvio é mais uma homenagem a um laboratório que vem monopolizando a descoberta de elementos nas últimas décadas. Foram descobertos no Laboratório Flerov: o Rutherfórdio (1964), o Nobélio (1966), o Dúbnio (1968), o Seabórgio (1976 e sem dúvida um dos piores nomes da tabela); o Bóhrio (1976; não confundir com Boro) e os caçulas 114/Fleróvio(?) (1999), 116/Livermório/Moscóvio(?) (2001), 113 (2004), 115 (2004), 118 (2006) e 117 (2010). Mas com todo respeito ao cientista nuclear soviético, Moscóvio me soa muito melhor que Fleróvio (ou seria Flyoróvio?). A situação do Livermório também não é muito melhor: o laboratório nacional americano já foi homenageado com um elemento, o Laurêncio
Na verdade, eu bem que gostaria de ver escritores de ficção científica e/ou cientistas populares sendo homenageados. Se os russos quisessem, poderiam batizar o 114 de Asimovium, Asimóvio [As], em homenagem a Isaac Asimov, que embora tenha sido criado nos Estados Unidos era de origem russa (e foi bioquímico no início da carreira). Os americanos, por sua vez, poderiam por o nome de Carl Sagan no elemento 116: Saganium, Sagânio [Sa]. Seria bem geek, pelo menos.

>O Quinto Gigante

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Imagem: weareallstarstuff.tumblr.com

Um novo estudo recém-publicado na seção de astrofísica do arXiv.org indica, com base em simulações virtuais, que Jupiter, Saturno, Urano e Netuno podem não ter sido os únicos gigantes gasosos de nosso sistema solar. De acordo com David Nesvorny, do Colorado’s Southwest Research Institute, nosso atual sistema planetário nunca poderia ter se formado sem a existência de um quinto planeta. Até o momento, esse planeta primitivo e hipotético ainda não tem nome.

Em um trabalho para determinar como o sistema solar foi formado, Nesvorny conduziu uma série de 6.000 simulações em computadores. Ao trabalhar apenas com os quatro planetas gigantes, as simulações indicavam que eles seriam muito grandes e acabariam se destruindo mutuamente. Em outras simulações, onde foram aglomerados em um supergigante, os planetas rochosos, como Vênus e Marte é que acabavam sendo desagregados. De acordo com esses resultados, a atual estrutura do sistema solar teria uma probabilidade muito baixa de ocorrência se tivesse começado apenas com os quatro planetas rechosos e os quatro gasosos que conhecemos e observamos hoje (e que talvez algum dia visitemos pessoalmente).

Após essas simulações, Nesvorny decidiu adicionar um quinto planeta gigante ao grupo. Com a adição desse grande planeta, os resultados mostraram um aumento significativo nas chances de formação do sistema solar como o conhecemos.

Gráfico indica a ejeção do 5º. planeta gasoso (linha rosa)

As simulações mais bem-sucedidas mostram que Jupiter, Saturno, Urano, Netuno e o quinto planeta — de natureza semelhante à de Netuno ou Urano — começaram todos a orbitar muito próximos entre si, a uma distância de 15 unidades astronômicas (1 UA é a distância da Terra ao Sol, i.e., 149 milhões de quilômetros). Os planetas mais leves foram sendo “empurrados” para fora por influência de Jupiter e Saturno. Então, em algum momento, um encontro bem próximo com Jupiter expulsa esse misterioso quinto planeta do sistema solar.

A seguir, o resumo do artigo:

Resumo
Recentes estudos da formação do sistema solar sugerem que os planetas gigantes formaram-se no disco protoplanetário e depois migraram para alcançar órbitas ressonantes, com todos os planetas dentro de 15 UA do Sol. Após a dispersão do disco de gás, Urano e Netuno foram provavelmente espalhados pelos gigantes de gás, aproximando-se de suas órbitas atuais e dispersando o disco transplanetário de planetisimais, cujos restos sobreviveram até hoje nessa região conhecida como cinturão de Kuiper. Aqui nós realizamos integrações N-corporais da fase de espalhamento entre os planetas gigantes em uma tentativa de determinar quais estados iniciais são plausíveis. Nós descobrimos que as simulações dinâmicas que começam com um sistema ressonante de quatro planetas gigantes tem uma baixa taxa de sucesso em adequar-se às presentes órbitas dos planetas gigantes, além de várias outras restrições (e.g., sobrevivência dos planetas terrestres). A evolução dinâmica é tipicamente bastante violenta se Jupiter e Saturno começam numa ressonância de 3:2 e leva a sistemas finais com menos de quatro planetas. Diversos estados iniciais implicam em uma possibilidade relativamente grande de sucesso de adequar-se às restrições. Alguns dos melhores resultados em termos estatísticos foram obtidos através da suposição de que o sistema solar tinha, inicialmente, cinco planetas gigantes, com mais um gigante de gás, de massa comparável à de Urano e Netuno, que foi ejetado para o espaço interestelar por Jupiter. Essa possibilidade parece concebível à luz da recente descoberta de grande número de planetas que flutuam livremente no espaço interestelar, o que indica que a ejeção de planetas deve ser comum.

O artigo completo (em inglês) está aqui: Young Solar System’s Fifth Giant Planet? arXiv:1109.2949v1 [astro-ph.EP] http://arxiv.org/abs/1109.2949

>TrES-2b, o Planeta Negão

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Concepção artística de TrES-2b, o planeta mais rubro-negro conhecido

Tente imaginar alguma coisa mais preta (ou negra ou afro-descendente) que carvão. Agora tente imaginar um planeta inteiro dessa cor. Foi exatamente isso que o telescópio espacial Kepler descobriu na semana passada.
Distante apenas 5 milhões de quilômetros de sua estrela-mãe, TrES-2 — e a 750 anos-luz da Terra —, o gigante gasoso chamado TrES-2b arde a cerca de 980ºC. Apesar disso, aquele mundo imenso e infernal aparentemente não reflete quase nenhuma luz que recebe.
David Kipping, líder da equipe que descobriu o planeta negão confirma: “é menos refetivo que o carvão ou mesmo a mais negra tinta acrílica — de longe o planeta mais obscuro já descoberto”. Kipping, astrônomo do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, em Cambridge, Massachussets dá uma ideia da aparência do TrES-2b: “Se pudéssemos vê-lo de perto, ele pareceria uma bola de gás quase preta, com uma tênue faixa vermelha brilhante — um verdadeiro exotismo entre os exoplanetas.”

Sombra da sombra
O planeta, evidentemente, não foi descoberto por observação direta. Mesmo orbitando ao redor da Terra e sendo projetado especialmente para buscar planetas extrassolares, o observatório Kepler encontrou esse planeta rubro-negro (mais para negro) através do método de trânsito. Quando um planeta passa diante de seu astro-rei, a luz de seu sol diminui, ainda que por frações minúsculas. Ou, se preferir, é mais ou menos um microeclipse estelar. Se o fenômeno se repete periodicamente e se a estrela reagir gravitacionalmente a esse movimento orbital, pode haver um planeta lá. 
Mas, se não houve observação direta, como sabemos que esse planeta é tão escuro? Simples: um pouco antes de eclipsar seu sol, todo planeta passa por uma “fase crescente”, quando é capaz de refletir a luz que recebe. No caso desse planeta, a luminosidade refletida — chamada de albedo pelos atrônomos — era de aproximadamente de 6,5 partes por milhão (!) em relação ao brilho da estrela TrES-2. É o menor sinal fotométrico já registrado.
O Mistério Negro de TrES-2b
Parece título de ficção científica barata¹, mas é sério. Ninguém sabe ainda por que o TrES-2b é tão escuro. Os modelos de computador mais recentes indicavam que um Júpiter quente — um gigante gasoso que fica muito próximo de suas estrela — só poderia ser tão obscuro quanto Mercúrio, que reflete apenas 10% da luz que vem do Sol. Mas o TrES-2b é tão escuro que reflete apenas 1% da luz que vem de seu sol. É um albedo baixíssimo. O albedo da Terra varia de 37 a 39% (por causa das nuvens) e o de Jupiter é de 52%. Vênus é o planeta mais brilhante que conhecemos: reflete 90% da luz solar. 
Se as medidas estiverem realmente corretas, porque o planeta é tão escuro? “Alguns têm proposto” —  explica Kipping — “que essa escuridão pode ser causada por uma enorme abundância de sódio e óxido de titânio gasosos.” 
Céus de titânio podem parecer fodásticos, mas essa hipótese não empolga o descobridor: “Mas é mais provável que haja algo exótico lá, algo que nunca pensamos antes. É este mistério que eu considero tão excitante sobre essa descoberta.” Ou talvez seja apenas uma combinação de mormaço e falta de filtro solar…
Enfim, como TrES-2b é um nome um tanto sem-graça para um planeta tão interessante, já há um apelido: Erebus, o deus grego da escuridão e consorte da deusa da noite, Nyx. Mas eu acho que um nome melhor (e menos eurocêntrico) seria Kuk (ou Keku²), o deus (ou deusa, por ser andrógino/a) da escuridão primordial na mitologia egípcia (foi mal por todos esses parênteses, mas é um vício pra mim). 
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¹ Pensando bem, quase toda Ficção Científica é barata em termos literários. Mas eu adoro isso.
² Ou talvez não fosse uma ideia tão boa, já que depois de buraco negro, chamar um planeta negro de Keku só nos traria uma coisa: mais piadas infames.

>Vista Grossa

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Não é de hoje que o governo norte-americano faz vista grossa a uma ameaça de ataque em seu próprio território para entrar em uma guerra. Em 7 de janeiro de 1941, exatos 11 meses antes do ataque japonês a Pearl Harbor, o embaixador Joseph Clark, mandou o seguinte telegrama para o Departamento de Estado:

Um membro da Embaixada foi informado por —– meu colega que em muitos quartéis, inclusive em um japonês, ele ouviu que um massivo ataque-surpresa em Pearl Harbor estaria sendo planejado pelas forças militares japonesas em caso de “problema” entre o Japão e os Estados Unidos. Tal ataque envolveria o uso de todas as instalações militares japonesas.

Washington não fez nada, pois o governo de Franklin Roosevelt sabia que somente um ataque direto convenceria a opinião pública norte-americana a se envolver na II Guerra Mundial. Ironicamente, sessenta anos depois os Republicanos — que faziam oposição a Roosevelt e defendiam a postura isolacionista — usaram do mesmo artifício diante das crescentes ameaças de ataques terroristas islâmicos nos EUA. Em 2001, eram os Republicanos que queriam uma guerra.

Uma guerra errada, como se viu (duas, na verdade). Bin Laden pode ter sido extremamente estúpido em abandonar a vida de playboy de petrodólares por um fundamentalismo religioso odiento. Mas ele não se tornou um simples guerrilheiro; foi um gênio por se esconder no Paquistão. Por outra ironia do destino, os militares americanos caíram na própria armadilha que criaram na Guerra Fria. Eles jamais ousaram atacar o Paquistão, por que ainda acreditavam em um antigo aliado na luta contra o comunismo seria confiável. Ainda mais um aliado com um arsenal nuclear. Assim, se Washington tivesse lutado pelo desmantelamento completo do arsenal nuclear em todo o mundo — Israel inclusive — nos anos 90, pegar o terrorista número 1 teria sido bem mais fácil (e barato, pois dez anos de uma guerra infrutífera ajudaram e muito a botar a economia americana de joelhos).

Ficou bem claro agora que os Estados Unidos desmantelaram o sistema errado quando Moscou caiu. A CIA pós-soviética já não era a mesma: acomodou-se com a suposta postura de única superpotência e abriu mão de infiltrados e clássicas estratégias de espionagem em favor de equipamento high tech. Quando os alertas sobre o 11 de setembro surgiram já era tarde e, como se viu, foram ignorados por uma mistura estúpida de conservadorismo político-econômico e fundamentalismo religioso.

>O exorcismo de Amora Carson

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Uma jovem de vinte anos, moradora de Lake Cherokee, Texas, foi condenada a prisão perpétua por sua participação em um crime que chocou o Estado, famoso por seu fervor cristão: o assassinato de sua própria filha de treze meses de idade. Jesseca Carson foi condenada por unanimidade pelo júri que a julgou pelo assassinato de Amora Carson. O companheiro de Jesseca, Blaine Milam também já foi condenado à pena capital por espancar Amora com um martelo até matá-la. Embora Blaine tenha perpetrado os golpes de martelo, Jesseca foi condenada como mentora intelectual do assassinato da filha. O casal afirmava que aquilo era um “exorcismo”.

Em uma apresentação chocante diante do juri, a promotora Lisa Tenner descreveu Carson como “a mulher que sacrificou sua filha para um monstro.” Membros do júri chegaram a passar mal quando as fotos do corpo esmagado de Amora foram apresentadas como provas. Alguns até comentaram que podem ter sido traumatizados pela apresentação. A defesa procurou atenuar a participação de Jesseca, apresentando-a como alguém que foi dominada pelo namorado violento, que a teria convencido de que a filha estava possuída por um demônio. Por algum motivo ainda não esclarecido, Carson e Milam decidiram que Amora estava possessa e precisava do “exorcismo”.
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Apenas alguém cego pelo fanatismo
veria algo diabólico nessa garotinha
Em dezembro de 2008, a menina de treze meses foi brutalmente agredida com um martelo e outras ferramentas. Além disso, havia diversas marcas de mordidas pelo corpo de Amora. Segundo a investigação, as mordidas foram feitas enquanto Milam “gritava o nome de Jesus” para expulsar os demônios. Quando a filha morreu, Carson e Milam deixaram o corpo no chão do quarto e foram a uma loja de penhores, onde tentariam obter dinheiro para pagar um exorcista profissional (possivelmente para incriminá-lo). A polícia foi chamada e encontrou o corpo de Amora tão irreconhecível que, segundo um policial, “não podíamos dizer quantos golpes ela havia recebido. E havia mais de 20 mordidas pelo corpo dela.” Durante a investigação, Milam e Carson mudaram frequentemente seus depoimentos. Vencida pelo cansaço dos interrogatórios, Jesseca acabou confessando a verdade, mas insistiu na necessidade do ritual.
Blaine Milam já havia sido condenado por atentado violento ao pudor de uma menina de 14 anos, mas acabaou liberado. Sua condicional o proibia de ter qualquer contato com crianças fora de sua família. Por diversas vezes, a polícia teria sido chamada pelos vizinhos após denúncias de violência doméstica. Amigos de Jesseca Carson afirmaram que ela se tornou bastante reclusa durante os meses anteriores ao crime.

fonte: The Houston Chronicle (chron.com)

>Cadê a maturidade democrática que estava aqui?

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Esquecendo-se de que a Guerra Fria já acabou e tentando mostrar que há disputa política numa eleição marcada pelo continuísmo, PT e PSDB agem de forma imatura e apelam para o jogo da arapongagem mútua.

Os recentes escândalos de arapongagem que envolvem os dois principais concorrentes à presidência da República mostram como a política brasileira continua atrasada. PT e PSDB travam uma verdadeira Guerra Fria nos bastidores. Mas diante das câmeras dizem que tudo deve ser investigado e que os responsáveis serão punidos. Entretanto, os responsáveis pelos mensalões — cada lado com o seu — jamais foram julgados e muito menos punidos. Marcos Valério, José Dirceu (PT) e Eduardo Azeredo (PSDB), entre outros, continuam livres, leves e soltos, graças ao corporativismo político que domina os bastidores (e que, ironicamente, une os dois partidos antagonistas). Mais de cinco anos se passaram e a desculpa já é velha: os acusados têm amplo direito à defesa e foram simplesmente pré-julgados.
Enquanto em 2002, a eleição de Lula foi louvada como uma demonstração da maturidade política da Nova República, a sucessão do ex-líder metalúrgico aparece como um claro retrocesso político. Tanto Dilma quanto Serra tentam se apresentar como continuadores de políticas sociais que, embora bem sucedidas do ponto de vista quantitativo não resultaram em avanços qualitativos. A situação da educação pública está aí para prová-lo. Nem o PT nem o PSDB têm bons planos para essa área crucial. Ambos insistem em focar no ensino técnico, mas ignoram solenemente os problemas da educação básica. Por quê? Por que investir em ensino básico é projeto de longo prazo. Nem Dilma nem Serra têm maturidade política para assumir tal projeto. Ambos apresentam-se da mesma forma: como administradores bem-sucedidos, não como estadistas com visão de futuro.
E, ainda que nominalmente seja da “oposição”, Serra faz de tudo para convencer que não vai destruir o que deu certo no governo Lula. Com uma campanha tão baixa nos bastidores — e jogando contra a “máquina federal” que o próprio Lula vivia criticando, mas agora usa a seu favor — essa imagem de “Serra Paz e Amor” simplesmente não cola. Os erros absurdos na TV, o “como” e a pseudofavela (menos convincente que as das novelas da Globo) só pioraram a situação. Aí, bateu o desespero no PSDB.
Dilma, por sua vez, não passa de um produto de marketing. Foi escolhida a dedo não por ter qualidades políticas ou mesmo administrativas, mas por ser mulher. Afinal, ela só chegou à Casa Civil após o afastamento de José Dirceu. Desde então, sua imagem de admistradora foi construída tendo em vista as eleições deste ano — com um eleitorado majoritariamente feminino. Exatamente por ser uma candidatura artificial e imposta, o PT ainda não confia em Dilma. Aí, bateu o desespero no PT.
Desesperados, ambos partem para a arapongagem mútua. A esperança é que enquanto tucanos e petistas brincam de gato e rato à moda da Guerra Fria, a população abra os olhos. Não estamos tendo uma eleição democrática; estamos nos encaminhando para um plebiscito branco.
Nada contra a manutenção de um partido no poder por mais de dois ciclos presidenciais. Isso também acontece nos Estados Unidos, onde há ciclos alternados, às vezes com décadas de duração, de Republicanos e Democratas na Casa Branca. O problema está nos métodos usados para manter o Palácio do Planalto: cooptação e chantagem eleitoral através de programas sociais; censura de parte da imprensa e até de humoristas (que só foi suspensa por que já estava passando dos limites e isso poderia afastar parte do eleitorado); e, por fim, espionagem suja.
Se a maturidade democrática brasileira está viva, para quê tudo isso? Se a maturidade está sob ameaça, como parece estar agora, é hora de dar um recado a quem quer ameaçá-la em nome da simples luta do poder pelo poder. Esqueça as forças políticas que ainda não superaram a queda do Muro de Berlim. Está na hora de fazer política de acordo com o século XXI.

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