>O Peso do Nome: Einstein (parte 2)

>

Separado da mãe de seus filhos não apenas por um segundo casamento, mas pelo clima cada vez mais sinistro da Alemanha entre-guerras, Albert Einstein partiu definitivamente para os Estados Unidos em 1933. Antes, porém, ele teve que resolver sua vida na Alemanha — e, atendendo a pedidos de Mileva —, na Suíça. Após recolher tudo o que precisava para partir e proferir algumas palestras nas principais universidades européias, Einstein visitou o filho e a ex-mulher em Zurique. Mesmo que não tenha sido um bom pai, deve ter sido um momento difícil na vida do maior gênio do século XX.

Albert encontrou um Eduard muito diferente daquele garotinho que tivera nos braços um dia. “Tede” era cada vez mais isolado e indiferente — não chegou a reconhecer o próprio pai. Einstein lembrou-se que, como ele, seu caçula gostava de tocar violino. Ao visitá-lo em Burghölzi, o ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1921 tocou violino para Eduard. O jovem não demonstrou qualquer reação. Albert Einstein foi embora — teve que ir — para nunca mais voltar. Ele jamais voltou a ver Eduard ou Mileva.
Em sua última visita, Einstein tentou tocar violino para
 animar o filho. Foi recebido com indiferença.
O filho mais velho de Albert e Mileva, Hans Albert, também acabaria migrando. Em 1938, Hans Albert Einstein, já casado e com filhos, fugiu da Alemanha nazista. Tornou-se professor de Engenharia Hidráulica em Los Angeles. Infelizmente, ir para os Estados Unidos não era uma opção para Eduard e sua mãe. As rígidas políticas de imigração impostas pela Grande Depressão tornavam difícil a entrada de alguém incapacitado. A própria entrada de Albert Einstein foi uma surpresa para muitos americanos — para os padrões da época, o grande físico alemão era um socialista e, portanto, suspeito.
Isolados em Zurique, a vida de Mileva e Eduard só piorou com o estouro da II Guerra Mundial. Apesar da situação cada vez mais difícil, os dois tiveram sorte em ser cidadãos de um país neutro (e cuja neutralidade foi respeitada por Hitler). Mesmo que Eduard sobrevivesse aos milhares de doentes mentais mortos pelo Reich em toda a Europa, ele e a mãe teriam poucas chances caso acabassem em um campo de concentração. Como muitos parentes do pai famoso, Eduard teria sido morto durante o Holocausto.
Eduard Einstein, já adulto. No início do tratamento, ele
ainda podia passar  alguns momentos com a mãe fora
 do hospital psiquiátrico
O fim da guerra em 1945 trouxe algum alívio, mas não muito. Mileva estava completamente falida e emocionalmente exausta. A moça que um dia sonhara em ser a nova Marie Currie terminaria seus dias dando aulas particulares de piano e matemática. Do pouco que ganhava, praticamente tudo ia para o tratamento do filho que também parecera tão promissor. Quando Mileva Maric morreu, em 1948, não tinha um centavo no bolso. Ela acabou enterrada como indigente no Cemitério Nordheim, em Zurique.
Embora não tenha voltado a visitar o filho e nem tenha ido ao enterro da ex-mulher, Albert Einstein continuou a sustentar “Tede”. Em diversas ocasiões, Einstein teria dito que tudo teria sido melhor se Eduard jamais tivesse nascido. Mas quando se casou com Mileva, Albert sabia muito bem dos riscos que corria. Uma das irmãs de Mileva, Zorka, também sofria de esquizofrenia. Durante a separação, foi Zorka quem teve que cuidar dos meninos da famíla Einstein em diversas ocasiões. Embora não o demonstrassem publicamente, o casal sempre se preocupara com a saúde mental dos filhos.
Apesar de jamais poder sair novamente e ter cada vez menos contato com o mundo exterior, o nome de Eduard Einstein lhe garantiu uma vida relativamente tranquila e um tratamento digno. Eduard morreu em consequência de um derrame em 1965, apenas dez anos depois da morte do pai. Foi enterrado em Zurique, no Hoggerberg, um cemitério diferente de onde repousava sua devotada mãe.
Um raro momento: nos anos 1920, Albert ainda se esforçava
para visitar os filhos (Hans à esq. e Eduard à dir.)
A vida — e a morte — de Eduard Einstein chamou muita atenção, dentro e fora da ciência, para a questão da esquizofrenia e de seus efeitos sobre uma família. Ainda assim, a história de Eduard continua misteriosa, já que não se sabe ao certo quando exatamente começaram a surgir os primeiros sintomas nem se, por diversos motivos, eles não foram negligenciados.
Hans Albert Einstein: desde dos anos 80 um
 prêmio de engenharia hidráulica leva seu nome.
Hans Albert, o filho mais velho e teimoso, estava casado com Frieda Knecht desde 1927 e teve três filhos: Bernard Caesar, Klaus Martin e Evelyn, que ele adotou nos Estados Unidos. Klaus Martin morreu em 1938, aos seis anos, pouco depois de chegar à América. Após ficar viúvo e casar-se novamente em 1958, Hans Albert viveu uma vida relativamente tranquila até 1973. Talvez tenha surpreendido o pai quando tornou-se um nome importante dentro da Engenharia Hidráulica.
Os dois netos de Albert Einstein também já faleceram. Bernhard Caesar, nascido em 1930, seguiu os passos do avô e tornou-se físico, embora bem mais discreto. Foi o único neto de Einstein a se casar e teve cinco filhos: Thomas, Paul, Teddy, Myra e Charles. Bernhard morreu aos 78 anos, em 2008.
Evelyn Einstein: mesmo adotada,
a neta sentiu o peso do nome.
Embora tenha sido adotada, Evelyn Einstein também teve uma vida agitada e morreu recentemente, aos 70 anos. A neta adotiva de Albert Einstein formou-se especialista em Literatura Medieval, mas teve um casamento infeliz com um professor de Antropologia da Universidade da Califórnia. Após o divórcio, a jovem perdeu o pai, ficou desempregada e chegou a passar alguns meses dormindo no próprio carro. Sua vida só melhorou nos anos 1980, quando encontrou um verdadeiro tesouro: 500 cartas pessoais de Albert Einstein nos arquivos da família. Muitas eram sobre a difícil relação entre Albert e Mileva. Evelyn sofria de doença cardíaca e diabetes e não teve filhos.

>O Peso do Nome: Einstein (parte 1)

>

Eduard Einstein
Eduard Einstein, a.k.a. “Tede”

Nascido em 1910, Eduard Einstein era o filho caçula de Mileva Maric com o físico — e que físico! — Albert Einstein. Apelidado de “Tede” pela mãe, Eduard parecia ter um futuro brilhante e sempre se destacou na escola. Ele se dava bem com ambos os pais (seu irmão seis anos mais velho, Hans Albert, vivia às turras com o pai). Apesar disso, a vida da família Einstein nunca foi um mar de rosas.

Casados em 1903, Mileva sonhava em formar com Albert em casal de cientistas tão bem-sucedido quanto Marie e Pierre Currie, os descobridores da radioatividade. Pouco depois do casamento, eles tiveram uma filha Lieserl. Embora os biógrafos contem que a menina tenha morrido de febre escarlatina, não há certeza sobre seu destino, já que não há qualquer atestado de óbito. Há quem afirme que a Lieserl teria sido dada para adoção, mas essa é outra história.
wedding elieva
Foto do casamento: Mileva sonhava formar uma dupla imbatível com Eintein na ciência. Foi frustrada pela vida familiar.
Porém, após a morte da menina, a família Einstein se recuperou rapidamente. Hans Albert nasceu em 1904. O ano seguinte, 1905 seria o annus mirabillis para Einstein, que escreveu quatro artigos que mudaram a História, derrubando, ao menos em parte, a Física Clássica. Tudo parecia se encaminhar às mil maravilhas. Embora buscasse ajudar o marido, Mileva não pode contribuir muito, pois sua carreira acadêmica foi interrompida pelo casamento e pela criação dos filhos. Em carta a uma amiga sérvia, Mileva contava que “nós terminamos alguns trabalhos importantes que vão tornar meu marido mundialmente famoso.”
mnee2
Albert com a mulher e o primeiro
filho (1907): A fama, a guerra e as constantes
 mudanças o tornaram ausente.
Graças à fama crescente, Albert vivia mudando-se com a família. Em 1911, foi para Praga. No ano seguinte, os Einstein voltaram para Zurique. Após o nascimento de “Tede” o casamento já dava sinais de desgaste. Pouco depois, quando Marie Currie recebeu novamente um Prêmio Nobel, em 1911, ela ficou arrasada a ponto de ser internada. Mileva sentia-se fracassada pessoal e profissionalmente e teve que chamar as irmãs para cuidar dos meninos enquanto se recuperava.
A situação piorou quando Albert aceitou se mudar para Berlim no começo de 1914. Sérvia e casada com um judeu, Mileva não se sentia segura e detestava a capital alemã. Um mês antes do início da I Guerra Mundial, ela fugiu com os filhos para Zurique, esperando que isso forçasse Albert a voltar. Ele não voltou; foi morar com a prima Elsa Einstein, com quem se casaria. Mileva nunca aceitou a situação. Buscando proteger os filhos, ela fez o possível para dificultar o divórcio. Mas foram justamente os filhos que sofreram mais com o longo processo, que só acabou em um acordo no fim da guerra: Mileva reconhecia o divórcio; em troca, Albert se comprometia a depositar qualquer Prêmio Nobel que ganhasse em uma poupança para os filhos.
Em 1919 a guerra, tanto na Europa quanto na família Einstein, estava acabada. Mas tanto a Europa quanto Mileva saíram devastadas. A situação melhorou quando Albert cumpriu sua palavra. Ele colocou todo o dinheiro do Prêmio Nobel de Física de 1921 em uma poupança para os filhos.
Mesmo separado, Einstein fazia o possível para visitar os filhos e não ser um pai ausente. Entretanto sua fama e sua origem judaica tornavam a viagem de trem de 10 horas entre Berlim e Zurique extremamente perigosa. Tudo graças à interminável crise econômica da Alemanha do pós-guerra, um campo fértil para o crescimento do antissemitismo do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Mesmo forçada, a ausência de Einstein deixou marcas profundas nos filhos.
einst_emh
Mileva com os filhos: ela fugiu de Berlim um mês antes da Grande Guerra. Salvou a vida dos filhos,
mas não o casamento.
Hans Albert continuava um garoto teimoso e de gênio difícil; aconselhado pelo pai a se dedicar à Física Quântica, acabou estudando Engenharia Hidráulica e se casou com uma mulher mais velha. Enquanto isso, Eduard tinha a saúde frágil e o comportamento retraído. Apesar disso, “Tede” era um bom aluno; escrevia poesias e, como o pai, tocava violino. Mas seu verdadeiro sonho era estudar medicina — ele queria ser um psiquiatra freudiano. Dez anos mais tarde, Eduard concluía o colegial com um boletim repleto de notas A. O caçula de Einstein já estudava para entrar na faculdade quando, novamente, tudo mudou…
Em 1930, Eduard passou a se tornar cada vez mais melancólico e recluso, chegando até mesmo a ter pensamentos suicidas. Sua mãe procurou vários médicos antes que Albert o encaminhasse para Sigmund Freud. Mesmo o tratamento com o próprio Freud teve pouco sucesso e em 1932, Eduard foi diagnosticado com esquizofrenia. Logo em seguida, ele foi internado no Burghölzi, o hospital psiquiátrico da Universidade de Zurique. Apesar dos recursos da poupança deixada pelo ex-marido, a situação começou a apertar de novo para Mileva. Para cuidar de “Tede”, ela teve que vender duas das três casas que a família tinha. Para não perder o que sobrou, passou a última casa para o nome de Albert.
A essa altura, Einstein estava visitando os Estados Unidos com Elsa. Ele estava prestes a aceitar um cargo de professor em Princeton, mas não queria se mudar para a América. Albert prentendia passar seis meses de cada lado do Atlântico. Então, em Janeiro de 1933, foi forçado novamente a mudar seus planos. A ascenção de Adolf Hitler na Alemanha tornava quase impossível sua permanência.

>O peso do nome: Edison (parte 2)

>

tomjr
Apesar do acordo com o pai, as coisas só pioravam na vida de Thomas Alva Edison Junior. A venda do “Magno-Electric Vitalizer” foi proibida em 1904, após ser considerada fraudulenta pelo U.S. Postal Service. A Thomas A. Edison Junior Chemical Company, que comercializava o produto e estava sendo processada pelo Edison-pai, acabou falindo rapidamente. Em uma entrevista para o New York American, Edison Sr. fez duras críticas a Junior, especialmente por sua falta de habilidade nos negócios, sua ingenuidade e sua educação incompleta.
magnoad
Anúncio do Magno-Electro Vitalizer: Thomas Alva Edison Junior acreditava no poder da cura
pela eletricidade (e via nobreza nisso). Para o pai, isso era puro charlatanismo.
Embora ajudasse, a pensão que Tom Jr. recebia do pai para não se meter em encrencas financeiras era bastante modesta — cerca de 50 dólares por mês. Junior tinha acabado de se casar novamente (com uma enfermeira que cuidara dele durante um colapso nervoso) e lutava para pagar as despesas. Seus problemas, porém, foram agravados pelo alcoolismo, o que levou a uma briga feia com um Edison Sr. O pai estava desesperado com a falta de rumo do filho, mas apesar da genialidade, não sabia como tratá-lo. Foi o fim da tênue relação entre pai e filho e dois jamais voltaram a se falar.
receipt1
Um recibo da pensão: Junior recebia mesada para não criar mais empresas com o próprio nome. Mas
a relação com o pai só iria piorar.
Por volta de 1915, Thomas Junior parecia mais perdido do que nunca. Ele morava numa chácara com a esposa, Beatrice Heyzer, onde produzia peras. Nessa época, Thomas Sr. estava interessado em automóveis (elétricos, é claro) e expandia os negócios para o ramo de autopeças. Seus planos para baterias especiais para carros elétricos eram ambiciosos — tanto quanto os de “Dash”, que também decidiu fazer fortuna na nova indústria. Afinal, pensava ele, não seria possível superar o pai plantando peras.
edisonjrcar
Em um raro momento juntos, os Edisons posam em um carro elétrico. Quando Edison Sr. se interessou
pelo setor automotivo, Junior seguiu-o, para tentar superá-lo.
Junior tentou chamar a atenção de Henry Ford, um grande amigo do pai. Ele vivia correndo atrás de Ford para conseguir velas elétricas e outras peças para uma nova invenção que, ele dizia, “espero que possa provar ser de benefícios mútuos para nós dois.” Por volta de 1919, as esposa de Thomas Junior escrevia aos familiares e amigos (Ford, inclusive) sobre as condições cada vez piores do marido: “Dash” sofria com severas dores de cabeça e uma depressão que o deixava incapacitado. Isso atrasou, mas não impediu Tom Junior de ir em frente e apresentar, em 1921, a tal invenção revolucionária: era o “Econômetro”. Segundo a orgulhosa descrição do inventor, a novidade, quando anexada ao carburador de um carro, aumentaria a eficiência dos combustíveis de 20 a 50%. Após passar anos trabalhando duro na ideia, Edison Jr. tentou vendê-la a Ford, para que ele instalasse Econômetros em todos os seus carros.
ecometer
O “revolucionário” Econômetro de Edison Junior: o acessório prometia economia
de combustível de até 50% e foi oferecido a Ford.
Ford encontrou-se numa situação incômoda. Ele não queria brigar com Thomas Sr. (que não acreditava na geringonça), mas também não queria desagradar “Dash”. Então, ele convenceu seus técnicos a submeter os Econômetro a uma série de testes. E até mesmo emprestou 1,2 milhão de dólares a Thomas Jr. para a criação da Ecometer Manufacturing Company [Companhia de Produção de Econômetros]. Infelizmente, a invenção não funcionava e Ford não teve escolha a não ser rejeitá-la (e retomar o milhão emprestado, obviamente).
O fiasco do Econômetro arrasou completamente Edison Jr, que já era inseguro. Ele e a esposa ainda tentaram vender o acessório a outras montadoras, mas todas recusaram. Junior afundou ainda mais em uma espiral descendente de depressão e alcoolismo. Quando Thomas Alva Edison Sr. morreu em 1931, Junior não passava de um assistente de um dos laboratórios do pai. Sua situação melhorou um pouco após uma verdadeira batalha judicial com os outros irmãos*. Quando a disputa terminou, Charles, o irmão mais novo (e bem-sucedido), apontou Thomas Edison Junior para a diretoria responsável pela administração das várias empresas criadas por Edison Sr. Enfim, Junior teria a chance de mostrar o valor de seu nome.
minutes
Uma Chance: Após a morte do pai, Thomas Junior foi chamado
pelo irmão para administrar os negócios da família.
Mas não por muito tempo…
Em 25 de agosto de 1935, Thomas Alva Edison Junior viajou a trabalho para Springfield, Massachussets e hospedou-se em um hotel. Pouco depois do check-in, seu corpo foi encontrado no quarto. Embora a causa da morte tenha sido relatada como “Trombose Coronária, Edema Pulmonar e Morte Súbita”, havia detalhes curiosos que levantaram suspeitas. Junior hospedou-se com o nome de “J.J. Byrne” (alguns jornais disseram mais tarde ser “J.J. Griffin”). De acordo com a hipótese mais plausível, Thomas Jr. adoeceu quando estava voltando para casa após visitar o irmão em New Hampshire. Para evitar chamar a atenção, ele parou em Springfield e hospedou-se com um nome falso. Segundo os dois colegas que o acompanhavam na viagem, eles chamaram um médico, mas “Dash” morreu duas horas após chegar. Apesar da saúde cada vez pior em seus últimos anos e da hipertensão (frutos de seu pesado alcoolismo), é bastante provável que Edison Junior tenha sucumbido à depressão pondo fim à própria vida. 
Quaisquer que sejam as circunstâncias de sua morte, Thomas Alva Edison Junior, que sonhava em superar o pai, tornou-se apenas uma nota de rodapé na biografia de Edison. Ele nunca teve filhos e suas ações nas empresas passaram para o irmão.
Sua triste história é um alerta — ainda bastante atual — dos perigos de tentar viver de acordo com as expectativas dos outros.

_____________________
Nota:
* Eram seis os irmãos Edison: Marion, a “Dot” (1873–1965); Junior “Dash” (1876–1935); William Leslie (1878–1937); Madaleine (1888-1979); Charles (1890-1979) e Theodore Miller (1898-1992). Os três mais velhos eram do primeiro casamento de Edison Sr. com Mary; os últimos são filhos de Mina.

>O peso do nome: Edison (parte 1)

>

tomjr
Thomas A. Edison Jr., a.k.a. Dash (Traço). O apelido telegráfico foi dado pelo pai.

Thomas Alva Edison Junior nunca teve paz na vida.

Nascido em 1876, ele era filho do mais famoso inventor do mundo e todo mundo esperava que ele seguisse os passos do pai. Apelidado pelo pai de “Dash” (traço; sua irmã mais velha, Marion, era “Dot”, ponto), ele teve uma primeira infância bastante idílica, embora sempre tenha passado mais tempo com a mãe, Mary. Arrasado pela morte da mãe quando tinha sete anos, Thomas Jr. e sua irmã pouco podiam fazer com o pai, um homem emocionalmente distante, para quem o laboratório era o lar. Junior passou o resto de sua infância em um internato onde, segundo relatos, ele se mostraria um mau aluno. Quando Edison-Pai se casou novamente em 1886 e a família se mudou para Glenmont, Nova Jersey, Mina (a segunda esposa), tentou formar laços afetivos com as crianças, mas Junior acabou se afastando da nova família. O fato de sua madrasta ser apenas um pouco mais velha que ele pode ter dificultado a situação, que se tornou insuportável.

Contrariando os conselhos paternos, “Dash” abandonou os estudos aos 17 anos e não se formou. Herdeiro do nome Edison, ele estava determinado a tornar-se um grande inventor e superar o pai. O velho Edison deu-lhe um trabalho em seu laboratório de West Orange. Mas o garoto mostrou-se muito inquieto e foi parar nas minas que o pai possuía em Ogden, NJ. Numa carta para a madrasta de 1897, Junior escrevia: “Eu provavelmente nunca vou ser capaz de agradá-lo e tenho medo do que não está em mim. Mas eu nunca desistirei tentando… Eu tenho muitas ideias próprias, as quais às vezes, diria até que em todas as ocasiões, eu gostaria de perguntar ou falar sobre elas com ele, mas eles nunca me deixam abrir a boca.”
Após deixar seu trabalho na mineradora — que não durou muito —, o rapaz partiu para Nova York, onde tornou-se o centro das atenções após uma matéria em um jornal, onde era apresentado como “Edison Jr, o Mago”. O artigo apresentava uma suposta lista das criações do jovem Edison e sugeria que ele “está desenvolvendo uma formidável rivalidade com seu ilustre pai em seu próprio campo.”. Porém, o autor da reportagem não deve ter feito muitas pesquisas sobre a situação de Thomas Jr. e acreditou totalmente em suas afirmações sobre invenções. Todo esse hype acabou levando “Dash” a trabalhar em uma exposição em Madison Square Garden, onde fazia propaganda de si mesmo, de suas ambiciosas ideias e dos novos aparatos elétricos: tomava chá de uma chaleira elétrica e comia biscoitos feitos em um “forno eletricamente aquecido”. Porém, após o fim da exibição, o ingênuo Thomas Jr. caiu sob a influência de inúmeros oportunistas, charlatães  e especuladores que queriam apenas tirar vantagem de seu nome famoso.
Certificado de Acionista da Edison Steel and Iron Process Company. Até o embaixador
dinamarquês investiu na empresa e, como todo mundo, perdeu dinheiro.
Uma nova empresa de metalurgia, a Edison Junior Steel and Iron Process Company [Companhia de Processamento de Ferro e Aço Edison Junior], foi rapidamente formada. Aos vinte anos, Junior era o acionista principal. O verdadeiro Thomas Edison ficou irado com a exploração em cima de seu nome e pediu que o filho parasse. Thomas Jr. respondeu que iria “continuar do jeito que estou fazendo”. Ele também acusou o pai de atrapalhar seus planos e até mesmo disse que “Se meu nome fosse Smith, eu seria um homem rico hoje.” Em 1899, o casamento secreto de Junior com a atriz Mary Touhey foi outro escândalo que abalou ainda mais a relação entre “Dash” e Edison. Não se sabe como foi a lua-de-mel, mas o casamento durou pouco. Junior parece ter feito isso apenas de birra, mas até sua ex-mulher também se aproveitou dele: ela, que morreria sete anos mais tarde, continuou usando o sobrenome Edison mesmo após o divórcio. A essa altura, Thomas Jr. estava quebrado. Todas as empresas fundadas por ele ou com investimentos dele evaporaram. Após fazer uma montanha de dívidas e soltar uma frota de cheques voadores, ele teve de fugir de Nova York para não ser preso por endividamento. O promissor menino-mago agora era motivo de piada.
thomasedison
Thomas A. Edison Sr.: o Mago de Menlo Park não foi um bom pai.
Como Edison Sênior reclamaria mais tarde, “A cabeça do meu filho está agora tão bagunçada que eu não posso fazer absolutamente nada por ele. Ele está sendo usado por indivíduos mórbidos e vorazes, que estão apenas atrás dos próprios interesses! Eu nunca consegui fazê-lo ir para a escola ou trabalhar no Laboratório! Ele é, portanto, absolutamente iletrado, cientificamente ou de qualquer outro modo!” Mesmo assim, o nome Edison ainda tornava Thomas Jr. um produto desejável. A Edison Chemichal Company [Companhia Química Edison], que estava sendo processada pelo Edison Sr. por uso indevido da marca, contratou o garoto para conseguir legitimidade. Após mudar de nome para “Thomas A. Edison Junior Chemical Company”, e colocá-lo como vice-presidente, a empresa ampliou seu catálogo de ofertas dúbias com as invenções de “Dash”. O “Vitalizador Magno-elétrico” de Junior era anunciado como cura para a paralisia, o reumatismo, a ataxia locomotora e “outros males incuráveis”. Também eram vendido os “Wizard’s Ink Tablets [tabletes de tinta d'O Mago]”. As propagandas usavam ostensivamente o nome de Edison: a linha de produtos da Chemical Company saía do “jovem cérebro de Thomas Edison Junior” e cada lançamento era a “última descoberta do Edison”.
wizink
Thomas Edison, o pai, estava perdendo as estribeiras com seu garoto-problema. Ele escreveu para o filho pedindo o fim de qualquer associação com aquela companhia. Em 1902, em troca de uma mesada, Junior cedeu e concordou em “desistir de todos os direitos futuros sobre o nome Edison para fins de obter lucro.” O velho Edison estava livre para processar as diversas empresas “Edison Junior” que infestavam o mercado. Como ele disse em uma entrevista em 1904, “Eu vou proteger meu nome mesmo que isso me custe cada dólar que eu tenho.” Os advogados processaram a Edison Junior Chemical Company pelo uso do nome Edison e da marca Wizard. No processo, os advogados de Edison Sr. justificaram a ação dizendo que a empresa estava enganando consumidores, fazendo-os crer que os produtos piratas eram do próprio Edison. O pai chegou até mesmo a fazer uma declaração juramentada, dizendo que Edison Jr. não era inventor, não tinha ocupação fixa e era “incapaz de fazer qualquer invenção de mérito.”

Categorias

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM