Patentes Genéticas?

DNA®. Patente requerida.

DNA®. Patente requerida.

Nada parece mais orwelliano do que o controle de uma empresa privada sobre algo que todo mundo tem e do qual não pode abrir mão: genes. Não é possível comprar genes, é claro, mas pode-se patentar um. Faz quase 30 anos que o US Patent and Trademark Office emite patentes sobre genes humanos. Algumas dessas patentes, relacionadas a dois genes ligados ao aumento do risco de câncer de mama e câncer de ovário pertencem à Myriad Genetics, Inc. Pode isso, Arnaldo? Continue lendo…

A primeira missão interestelar já começou?

Concepção artística de “Daedalus”, astronave interestelar proposta pela British Interplanetary Society. (imagem: icarusinterstellar.org)

Se depender de alguns entusiastas liderados por Mae Jamison, a resposta é sim. Não são entusiastas de garagem: um programa recém-lançado, chamado 100 Year Starship Program, é uma iniciativa conjunta de respeitáveis organizações como a British Interplanetary Society, a americana Icarus Interstelar, Inc. e o próprio SETI. E, em maio, a Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA), — agência americana de projetos do Departamento de Defesa — anunciou que vai financiar os trabalhos do 100YSS. Ou, pelo menos, o começo dos trabalhos. Mas, com tantos problemas relacionados — questões humanas, políticas, financeiras e tecnológicas — será possível realizar uma viagem interestelar dentro de um século? O entusiasmo pelo 100YSS não seria mais um fogo de palha astronáutico? Continue lendo…

Guerras de Patentes matam os inventores

Toda semana, nós rimos aqui com as patentes patéticas. Mas há dois problemas sérios com o atual sistema de patentes e nenhum tem relação com inventores engenhosos porém ingênuos. O primeiro é o excesso de pedidos nos últimos anos e o segundo são os abusos de quem consegue uma patente.

Vamos começar pelos abusos dos detentores de direitos industriais. Em tese, as patentes deveriam servir apenas para produtos duráveis — i.e., aqueles que podem ser fabricados por alguns anos, ou talvez décadas, sem qualquer alteração substancial. Mas esse não é o caso, por exemplo, das patentes relacionadas a software, internet e, em menor grau, a hardware (também não me parece o caso de inovações na área biotecnológica, mas patentes sobre a vida são uma polêmica à parte). Continue lendo…

>Sex and the Vatican

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Denúncia de pedofilia: você está fazendo isso errado

O papa pode não ser mais italiano há um bom tempo, mas mesmo assim, parece que o Vaticano acha que suas fronteiras vão além dos muros que o separam de Roma. Em meio aos escândalos político-sexuais de seu primeiro-ministro fanfarrão, a Itália está calada. Vergonhosamente, também está calada com o lançamento do livro Sex and the Vatican, do jornalista Carmelo Abbate. Não que se esperassem louvores à obra que devassa a vida dupla que padres, freiras, monges e bispos italianos levam. Surpreendentemente, também não houve críticas generalizadas. Nem um escândalo sequer.

Entre outras coisas, o livro apresenta a vida de mulheres que, mesmo na clandestinidade, se casaram com padres e ou tiveram filhos ou fizeram aquilo que a igreja mais condena — aborto. Freiras denunciam estupros que sofreram nas mãos de padres. A conclusão, porém, não é surpreendente: tais comportamentos só ocorrem por que a Igreja impõe a castidade e o celibato, fardos pesados demais na vida de quem deseja ser clérigo.
Na França — onde boa parte da população é católica —, o livro tornou-se um best-seller instantâneo. A primeira edição se esgotou em uma semana. Sex and the Vatican foi o 12º. livro de não-ficção mais vendido pela Amazon francesa. Carmelo Abbate tem aparecido em diversos programas de entrevistas na TV francesa. Diversos artigos e resenhas têm sido escritos em diversos diários franceses nas últimas semana. Há até mesmo um documentário para a televisão sendo preparado sobre o tema.
Mas se você atravessar os Alpes e entrar na primeira banca que encontrar na Itália, não vai ver nada sobre Abbate ou sobre seu livro. Também não vai adiantar muito zapear pela TV italiana. Exceto por uma pequena nota publicada pela Ansa, a agência de notícias italiana, tudo o que saiu sobre o livro na Itália se resume a uma breve resenha em um pequeno jornal econômico de Milão, Finanza e Mercati, e uma matéria na revista Panorama, onde o próprio Carmelo Abbate trabalha. 
Falar sobre as relações entre sexo e Vaticano continua sendo um enorme tabu na bota mediterrânea. É como se o livro — e tudo o que ele revela — tivesse sido escondido debaixo do tapete, ou melhor, da batina. Há alguns que consideram Abbate apenas como um jornalista sensacionalista. Mas nem mesmo os deméritos do livro estão sendo discutidos aberta e extensivamente na mídia italiana.
Um dos motivos para isso está fuora i muri do pequeno Estado teocrático governado por Bento XVI. Além de ser o primeiro-fanfarrão do país, Silvio Berlusconi é dono de um império midiático: o Canale 5, o Italia 1 e a Rete 4. Esses são três dos cinco grandes canais de TV aberta na Itália. A RAI, maior emissora de TV do país, é pública e tem diversos canais — mas tal como no Brasil, a TV pública na Itália nunca foi muito autônoma. Não é surpresa, portanto, saber que a TV italiana calou sobre um assunto tão polêmico. O capo de tutti capi já tá bastante ferrado publicamente. Se suas empresas pudessem criticar o Vaticano, ele cairia feito um anjinho de asas quebradas.

B-16 e Berlusconi têm muita coisa em comum: são chefes de Estado e líderes de gangues sexuais.

A mídia impressa também parece impor uma autocensura muito forte quando o assunto é sexo na Igreja. Aparentemente, os jornalistas italianos consideram mais importante o respeito a uma instituição decadente do que a revelação da verdade, seja ela qual for. Aliás, esse tipo de pseudojornalismo é o sonho do lulo-petismo (que mostrou-se muito católico ao condenar o aborto na última campanha eleitoral).
Entretanto, o que pode estar acontecendo na Itália é uma intervenção direta do clero para impor a lei do silêncio no país. Não é a primeira vez que isso ocorre. Em 2006, líderes católicos tentaram censurar a versão cinematográfica d’O Código da Vinci antes mesmo da estreia nos cinemas — não apenas na Itália, mas em diversos países. Onde não conseguiram, promoveu-se uma discreta porém verdadeira queima de livros de Dan Brown. Agora a estratégia é um pouco diferente: ignorar, orgullhosamente ignorar. Diferente, mas não muito. Essa tem sido a mesma estratégia católica diante das denúncias de abusos sexuais cometidos por padres e monges contra crianças e adolescentes. Em vez de enfrentar e reconhecer o problema, o Vaticano tem procurado abafar os casos, como se eles não existissem, como se eles fossem historinhas inventadas por criancinhas malvadas. 
Padres pedófilos não são punidos, denunciados nem mesmo excomungados: são transferidos para outra diocese e fica-se nisso até que cometam novos abusos e sejam transferidos ad nauseam. Em vez de jogar fora os frutos estragados, o clero prefere desacreditar os acusadores e proteger a reputação da fazenda onde esses frutos são produzidos. Nem que para isso seja necessário por em risco o Estado de Direito dando um verdadeiro golpe branco em um país soberano e independente do Vaticano. Ou que pelo menos deveria ser.

>A indústria ‘brasileira’ está com medinho

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Durante sua breve presidência, Fernando Collor declarou que nossos automóveis eram “umas carroças” e, com o objetivo de estimular o desenvolvimento e a queda nos preços, acabou com o protecionismo dado à “nossa” indústria automobilística e abriu as portas para a importação. Duas décadas se passaram. Apesar de alguns avanços — mais estéticos do que mecânicos —, nossos carros continuam defasados. Mesmo assim, as montadoras reclamam dos importados. Entre proteger uma indústria defasada e apoiar a concorrência do Mercosul e a pesquisa e o desenvolvimento, Dilma escolheu proteger os fabricantes estrangeiros de carroças.

Em duas décadas de competição ora mais ora menos justa com os importados, as indústrias automobilísticas que têm fábricas no Brasil pouco avançaram. Para ajudar ainda mais, o governo aumentou os impostos sobre os veículos ao longo dos últimos anos. Mesmo com uma “inflação controlada”, o preço do carro mais barato do mercado nacional — o Fiat Uno/Mille — mais do que dobrou, passando de R$ 11.116,00 em 1999 para mais de 23.220,00 hoje. Isso, claro, tratando-se de  um projeto com mais de 25 anos e de um modelo bem basicão — que saiu de linha na Europa em 1995!

Modernização Conservadora Em vez de se manter atualizada, com carros do mesmo nível dos importados (ou até se esforçando para produzir algo melhor), o que aconteceu com a indústria automotiva no Brasil foi justamente o contrário. O mesmo marasmo que vigorava na era pré-importação continuou e continuou e continuou. A ausência de importados foi o que permitiu, entre outros absurdos tecnológicos, que o brasileiro continuasse comprando carros com carburador até bem depois do fim da importação: em 1996, ainda comprava-se um Fusca carburado. Zero quilômetro.
Sem importações, o Opala manteve-se praticamente inalterado por quase um quarto de século. Independente do ano de fabricação, o Opala, fabricado de 1968 a 1992, era essencialmente o mesmo. A importação deveria ter melhorado esse cenário, mas não foi isso o que se viu. O Santana e o Vectra, carros teoricamente dirigidos a um público mais exigente, permaneceram na mesma por mais de uma década. O modelo da VW foi renovado em 1992 — quatro anos depois do modelo europeu — e se manteve intacto até uma discretíssima despedida em 2005. O da GM, que estreou sem qualquer defasagem em 1996, causando frisson no mercado, também permaneceu intocável até 2005. A indústria diz que nós amamos modelos longevos.
Talvez seja verdade, dado o conservadorismo tipicamente nacional. Mas será que mesmo um público como os consumidores iniciais de Santana e Vectra — gente capaz de viajar para o exterior, por exemplo — gostam de saber que estão comprando um modelo defasado em relação às matrizes europeias ou americanas? É óbvio que não. Um dos motivos que levou à maxidesvalorização do real em 1998 foi a crescente importação de veículos. Os importados compensavam muito mais.

Brasília em ponto-morto Como compensam agora. Novamente, a sociedade inteira corre o risco de uma séria crise econômica por que nem o governo nem as montadoras querem se mexer. Por seu lado, o governo sabe que a solução está no corte de gastos e redução de impostos. Isso foi claramente demonstrado quando o IPI reduzido transformou “tsunami em marolinha” após a crise de 2008. Se isso pôde ser feito em tempos de crise, por que não se mantém em época de recuperação?
Por que o governo não quer fazer sua parte reduzindo seus gastos e realmente punindo envolvidos em corrupção. Do corte de gasto de R$50 bilhões anunciado logo no início do governo Dilma, nenhum centavo iria pagar supersalários de deputados, senadores e ministros. Dilma não forçou nenhum dos três poderes a respeitar o teto do funcionalismo público. Vinte anos depois de Collor, os marajás continuam aí, livres leves e soltos. Em vez de excomungá-lo — ou até lutar para que ele fosse condenado pela Justiça — o PT acaba de readmitir com festa Delúbio Soares, o tesoureiro do mensalão. Graças às manobras de José Dirceu, o pseudo-Che Guevara.
Como naquele irônico comercial da Nissan (“o luxo todo é do dinheiro de vocês!”), a indústria automotiva — que de nacional nunca teve nada — usa orgulhosamente os lucros obtidos com produtos obsoletos aqui no Brasil para salvar sua pele lá fora. Como não há investimento nem incentivo para inovação por aqui, a qualquer sinal de concorrência, as montadoras correm pedir proteção ao papai (ou agora seria mamãe?) governo. Tá todo mundo com medinho de carros argentinos.
Entretanto, parece que ninguém teme os chinesinhos. Embora os preços sejam baixos, especialmente entre os “populares”, ninguém teme uma invasão chinesa exatamente por que o que está chegando da China é o mesmo que temos no Brasil.  Tanto lá quanto cá, o que se fabrica são modelos de baixa qualidade e pouco inovadores, que já saíram de linha há muito em seus mercados de origem. 
Isso quando não são carros pirateados. O Cherry QQ, por exemplo, que se vende como o mais barato do Brasil, é uma cópia descarada do Daewoo Matiz produzido entre 1998 e 2008 na Coréia do Sul e exportado para a Europa até 2004 (sob uma plétora de outros nomes e graças à balbúrdia chamada GM, o carrinho ainda é vendido pela Chevrolet em diversos países). O JAC J3, que é anunciado como “inesperado” tem um visual muito pouco surpreendente perto do Hyundai i30 (que, por sua vez, também é supervalorizado pela publicidade).

Que País é Este? Não bastasse tudo isso, o próprio Poder Executivo parece se esquecer que este país é uma República Federativa, uma união de Estados autônomos no plano interno. Mas na República Federativa do Brasil, os Estados simplesmente não têm o direito de reduzir seus próprios impostos para competir livremente entre si. Tal qual Lula (e até FHC), Dilma faz de tudo para evitar guerras fiscais entre os 27 Estados, mesmo sabendo que isso estimularia a competividade, descentralizaria a indústria (e não apenas a automobilística), gerando mais empregos e preços menores.  Apesar disso, deputados, senadores e governadores não parecem muito incomodados com o catastrófico gigantismo político-econômico do governo federal. Muito se fala em “pacto federativo”, mas ninguém defende um federalismo de facto.
Nós temos uma matriz energética que faz muito sucesso lá fora, mas tanto o governo como a indústria parecem achar que isso é o suficiente e que apenas carros flexíveis vão ajudar a salvar o planeta. Entretanto, mesmo com o petróleo pesado do Pré-Sal — excelente para a produção de óleo diesel — os econômicos carros a óleo continuam proibidos sob a desculpa de que atrapalhariam o transporte de cargas no país. Ninguém no governo deve ter percebido que  a competição entre carros e caminhões faria o preço do diesel cair naturalmente, sem precisar dos atuais subsídios estatais.
Embora haja subsídio para o álcool e até para o detestado óleo diesel, não há nenhum incentivo fiscal para fabricação, pesquisa e desenvolvimento de carros híbridos ou elétricos no Brasil — e em alguns Estados até os adorados carros flex pagam o mesmo imposto de veículos a gasolina, ainda que na prática só usem álcool. Sendo assim, apenas para falar em “populares”, Gol (já trintão), Palio e Ford Ka (com uma década e meia nas costas), que já deviam estar sendo substituídos, devem ter pelo menos mais uma década de vida.
Ninguém vai achar ruim mesmo, por que não existe consumidor exigente abaixo da linha do Equador.

>50 Anos-Lesma

>yuriearth_iss_900

A ausência do homem no espaço é sinal de que desperdiçamos uma chance enorme de evoluir. Garantir a autodestruição é sempre mais fácil, seguro e barato do que adaptar-se aos novos tempos.
Há meio século, Yuri Gagarin foi o primeiro a chegar aonde nenhum homem jamais estivera — o Espaço Sideral. Parecia ser o início de uma nova era, há muito imaginada pelos autores de ficção científica. Essa seria a nova Era das Grandes Navegações, que agora se desenrolariam no vasto profundo Oceano Cósmico. Mas ao contrário do louvor camoniano, “se mais espaço houvera, lá não chegara.”
Pois cinquenta anos depois do primeiro homem no espaço, colônias de férias na Lua, cidades em Marte e mineradores no Cinturão de Asteróides ainda são fantasias distantes da realidade. Viagens espaciais são hoje algo tão excepcional que ainda nos lembramos do nome do primeiro viajante (compare com as viagens de trem, por exemplo. Alguém ainda se lembra do primeiro passageiro?)



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Yuri Gagarin: se a exploração espacial fosse
bem-sucedida, ele não deveria ser lembrado.
Onde foi que erramos? O que foi que nos faltou? Jovens ousados, cheios de espírito explorador e desafiador certamente não devem ter faltado nesses cinquenta anos. Tampouco houve falta de foguetes capazes de levá-los com segurança à Lua e, possivelmente, a Marte e trazê-los de volta. Então faltou o quê? Ousadia? Arrojo? — Amarelamos?
Faltou dinheiro. Money, grana, bufunfa, casacalho, moeda mesmo. Só isso. E esse dinheiro não faltou por que estivemos resolvendo nossas próprias bagunças — como pobreza e miséria — antes de sair de casa. Pelo contrário, o planeta está mais bagunçado do que nunca. E pra onde foi todo aquele dinheiro?
Segundo dados do Center for Defense Information, 13,1 trilhões de dólares foram gastos apenas nos Estados Unidos entre 1948 e 1991. A média anual era de US$ 298 bilhões. Parece razoável crer que os russos gastaram a mesma quantia, se não mais. Trilhões de dólares — sem contar milhares de vidas humanas — foram desperdiçados pela paranóia dos políticos e dos militares americanos e soviéticos, que controlaram este mundo durante grande parte das últimas décadas.
Para comparação, a NASA custa apenas uns 8,3 bilhões de dólares por ano. Esse é o orçamento médio desde a fundação da agência espacial americana, em 1958, o custo total somaria US$ 440 bilhões, o que representa 3,3% do total desperdiçado pelos americanos durante a Guerra Fria. Parece razoável estimar que o mesmo é válido para o programa espacial soviético/russo. Portanto, EUA e URSS gastaram até 26 trilhões de dólares para garantir a destruição mútua. Para explorar o espaço, coisa que poderia (e deveria) ser feita em cooperação internacional, a estimativa para ambos soma pouco mais de 1 trilhão.
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Montar a humanidade em bombas atômicas:
para políticos e militares, é divertido. E barato.
Era de ouro em anos de chumbo Cinquenta anos de progresso e coexistência pacífica, de erradicação da fome  e das doenças mais graves e de expedições espaciais cooperativas foram simplesmente transformados numa era sombria, cheia de medo, desconfianças, ódios e enormes dívidas. Líderes políticos e militares conseguiram uma façanha alquímica: transmutaram uma era de ouro em anos de chumbo. Após se armarem com milhares de ogivas nucleares e mísseis intercontinentais, russos e americanos perceberam que seus esforços foram tão bem-sucedidos que se tornaram inúteis. O poder de destruição criado foi tamanho que, felizmente, nenhum dos lados apertou o botão que traria a vitória e a derrota definitivas. Mas o preço foi alto.
A bomba que explode agora é outra: é a fissão incontrolável de seis — sete — bilhões de seres humanos vivendo no mesmo planeta, em condições não apenas cada vez mais desiguais, mas cada vez piores. US$ 30 bilhões por ano evitariam uma crise global de fome; mas o mundo ainda prefere desperdiçar mais de US$1 trilhão por ano com gastos militares. Se realmente houvesse inimigos externos, essa quantia seria justificável. Mas não é.
Gastos militares no mundo
Orçamento militar mundial: de volta aos níveis da Guerra Fria. Os milicos não sofreram com a crise.
De ambos os lados da antiga Cortina de Ferro, a exploração de recursos naturais (e até mesmo as tentativas de controle do clima) foi abusiva a ponto de desequilibrar um sistema planetário inteiro. Em grande parte, a responsável por tudo isso foi justamente aquela geração que sonhava em mudar o mundo com paz e amor. Esteve mais para sexo, drogas e rock’n’roll do que para verdadeira contestação e mudanças. As gerações atuais — inclusive a deste autor —, com seu consumismo quase autista, também não são muito melhores. Em vez de colônias de férias na Lua, nos trancamos em condomínios fechados ou subimos o morro (mas ainda nos perguntamos sobre nossos carros voadores).
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Estação Espacial Internacional: nem estação, nem espacial nem internacional.
A passo de lesma É por tudo isso que não temos razões para comemorar o primeiro jubileu da Era Espacial. A exploração da Terra vai bem, mas estamos a passo de lesma em termos de exploração extraterrestre. Nesse momento os homens mais distantes do planeta Terra estão a apenas 340km acima do solo, numa estação orbital (não espacial e bem pouco internacional). A missão mais longa, em 2006-2007 durou 215 dias, ainda menos que um ano. Com pouca gente passando tão pouco tempo “fora” e em algo tão próximo da Terra, é difícil acreditar que algum dia nos adaptaremos ao ambiente espacial.
Porém, nosso maior empecilho para mandar uma dúzia de pessoas, de diversas nações, para Marte (ou mesmo para a Lua) continua meramente econômico. Todos os recursos econômicos e humanos que poderiam ser usados para manter astronautas por todo o Sistema Solar foram desperdiçados na criação, construção e manutenção de meios para nos autodestruir. O desperdício foi tamanho que é impossível recuperá-lo. Afinal, não podemos vender ogivas, mísseis e submarinos nucleares para fabricar naves espaciais. Pelo visto, não se pode nem desmontá-los e aproveitá-los como propulsão atômica.
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Dave ficaria abismado. Por não existir.
Estamos abismados Chegamos à beira do precipício da autodestruição. Perdemos muita coisa, mas parece que relutamos em dar meia-volta e seguir um caminho mais seguro e promissor. Em vez de começar a navegar em direção às estrelas, continuamos a correr em volta das mesmas estradas de terra batida. Nossas divergências políticas, econômicas, étnicas, sociais, culturais, religiosas e até mesmo sexuais nos parecem mais importantes que tirar bilhões de pessoas da miséria e, ao mesmo tempo, modificar profundamente nosso modelo de civilização a fim de nos salvar. Já nos salvamos uma vez e podemos fazê-lo novamente.
Ainda evitamos todos os desafios mais sérios como evitamos a imponderabilidade do espaço. É realmente mais barato e mais seguro enviar emissários robóticos a Marte. Mas fazer isso ao longo de quarenta anos é tão barato e tão seguro quanto fabricar uma dúzia de robôs em vez de educar, alimentar, dar abrigo, transporte e saúde a uma centena de operários (ou seriam desempregados?) e suas famílias pelo mesmo período.
Nossa ausência no espaço é apenas um reflexo de nossa ausência dentro da sociedade. O mais irônico de tudo isso é notar como fomos generosos em financiar a criação de meios para nos autodestruir, para aprofundar nossas diferenças. Agora temos que ser austeros e cortar os “gastos” dos quais pode depender a nossa própria sobrevivência. Podemos cometer verdadeiros genocídios sociais, mas se (ao menos no papel) os orçamentos estiverem bem, não há qualquer problema nisso. Como as estrelas, somos apenas números mesmo.

>“Comer, comer, comer, comer…”

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Eu simplesmente não entendo os gourmands (ou gourmets ou foodies), esses gulosos sujeitos que gastam fortunas só para comer (e, como se não houvesse fome e pobreza no mundo, ainda sentem prazer nisso). Para eles, quanto mais caro e exótico, melhor. Hoje em dia há glutões tão doentios não se contentam em esbanjar para comer: eles também fotografam tudo o que comem e, depois de fazer uma ou outra crítica, chegam até a postar essas fotos em redes sociais. Ou então acaba ficando com saudades de determinado prato, que era tão caro que ele só pôde comer uma vez na vida. Mas se você acha que a vida de um gourmand é apenas luxo, gordura e glamour (ou glacê), eis uma história bem mais realista:
Um gentleman de Gloucester tinha um filho e mandou-o para o estrangeiro, para fazer o fazer o grand tour no Continente. Lá ele [o filho] prestou mais atenção à culinária das nações e a um modo de vida luxurioso do que qualquer outra coisa. Antes de seu retorno, seu pai morreu, deixando-lhe uma grande fortuna. Ele [o herdeiro] passou então a procurar entre suas anotações para descobrir onde os mais exóticos pratos e os melhores cozinheiros poderiam ser obtidos. Todos os empregados em sua casa eram cozinheiros — seu mordomo, seu lacaio, seu governante, seu cocheiro e os tratadores, todos eram cozinheiros. Ele também tinha três cozinheiros italianos — um de Florença, outro de Siena e o terceiro, de Viterbo — para preparar um prato florentino. Ele era conhecido por comer um único jantar ao custo de £50, embora raramente houvesse mais de dois pratos à mesa. Nove anos depois, ele começou a empobrecer, o que o deixou melancólico. Quando estava totalmente arruinado, após desperdiçar £150.000, um amigo lhe deu um guinéu [antiga moeda de ouro, equivalente 1 libra] para evitar-lhe a fome. No dia seguinte, ele foi encontrado em um sótão, broiling an ortolan [“grelhando uma sombra-brava”, um pequeno pássaro francês, então parte da cozinha do interior da França].
Tit-Bits from All the Most Interesting Books, Periodicals and Newspapers in the World [Petiscos dos Mais Interessantes Livros, Periódicos e Jornais do Mundo], 22 de outubro de 1881
Moral da História: não importa quão pobre um gourmand acabe ficando após literalmente devorar uma fortuna. Mesmo que ele fique deprimido e maltrapilho, ele sempre vai se recusar a comer algo tão banal quanto pão e água.

>A verdade por trás de um reality-show

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>A Física está "amolecendo"?

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Einstein e Lévi-Strauss: quem teve mais espírito científico?


John Horgan levantou uma intrigante questão epistemológica no site da Scientific American: A Física teórica está se tornando uma ciência mais soft que a Antropologia?

Tradicionalmente há uma clara oposição entre as Ciências Exatas e as Humanas. Na ficção científica, as Exatas são chamadas de hard science enquanto as Humanas são a soft science. Mas como não há verdades absolutas na ciência, até essa oposição clássica começa a mudar — a se confundir, na verdade.

Horgan começa seu artigo pela parte soft: ele diz ter ficado intrigado com a exclusão da palavra “ciência” do estatuto da Associação Antropológica Americana (AAA). A mudança causou alvoroço entre os antropologistas, que lutaram durante anos anos para melhorar a imagem da Antropologia, descolando-a do ramo das humanas.
john-horgan
John Horgan: ele acha que o
pessoal das exatas está
teorizando demais
Citando um artigo de Nicholas Wade, Horgan define as Exatas como “empíricas”, isto é, baseadas em experimentos para comprovar suas teorias; e as Humanas são estudos “analíticos, críticos ou especulativos”, cujas teorias raramente são comprovadas por experimentos.
Os antropologistas cientificistas sempre quiseram agregar seu campo não com historiadores ou críticos literários, mas com físicos, supostamente o padrão-ouro da boa ciência, a hard science. No entanto, a Física tem se tornado cada vez menos empírica e mais especulativa  que a Antropologia mais humanística. E é por isso que agora a AAA não quer mais ter “ciência” entre suas missões.
John Horgan culpa os físicos e a mídia pelo “amolecimento” da Física, que ele chama de “ciência irônica”. O colunista da SciAm não deixa de ter razão: desde a Einstein, Schröeddinger e Heisenberg, o que mais se tem visto na Física é uma bagunça de teorias concorrentes — e cada vez mais ambiciosas — capaz de fazer inveja a qualquer Departamento de Filosofia (ou até mesmo teólogos).
Ok, a relatividade e a física quântica não são “apenas teorias”, como qualquer criacionista gostaria de gritar agora. Da Era do Rádio à Exploração Espacial, todas as revoluções tecnológicas foram resultado direto ou indireto de avanços na Física que começaram como teorias bastante ousadas e distantes da realidade empírica do quotidiano. Mas ambas as teorias precisaram esperar décadas de debates e especulação antes que os físicos buscassem fazer o mais básico do seu ofício, algo que sempre fizeram após formular uma nova teoria — comprová-la empiricamente.
Enquanto isso, a Antropologia nascia, crescia e buscava se afirmar justamente com pesquisas empíricas e trabalho de campo em lugar dos ensaios teórico-acadêmicos. Como lembra Horgan, em seu artigo:
antropologistas reúnem dados — pela observação de caçadores na floresta amazônica, pela escavação de um assentamento neolítico na Jordânia, pelo datamento por radiocarbono de um maxilar de Ardipitecus encontrado na Etiópia — e tentam compreender o que tudo isso quer dizer. Esse ato envolve muita interpretação, imaginação e, portanto, subjetividade, resultando em teorias altamente especulativas [...] Mas mesmo a mais hermenêutica antropologia ainda se ocupa de coisas reais: primatas de verdade em lugares de verdade.
Os físicos do mundo inteiro, por sua vez,  ficavam quietos em suas salas especulando (ainda que com números e equações) sobre assuntos e coisas cada vez mais distantes da realidade quotidiana e das experiências práticas. Mas coisas como buracos negros ou mesmo o Big Bang já foram comprovados. Então, qual é o problema da Física que tanto incomoda o colunista americano?
É o fato de que os físicos estão indo cada vez mais longe: falam agora de dimensões quânticas, de matéria escura, de mebranas ou de supercordas. Tais coisas, ressalta Horgan, não estão apenas situadas remotamente no espaço e no tempo — elas podem nem mesmo existir. A existência dessa parafernália teórica é, segundo o Horgan, “como a de Deus, que não pode ser provada ou desprovada” e portanto seu estudo não merece a denominação de ciência.
A crítica levantada por Horgan é bastante importante. Há quem reclame da má qualidade da divulgação e da educação científica, mas a verdade é que os próprios cientistas é que estão se trancando em torres de marfim — ou gigantescos anéis magnéticos subterrâneos, o que dá no mesmo. Não há nenhum problema em se perguntar ou levantar teorias sobre o que veio antes do big bang, ou qual é a partícula última da matéria (se é que há uma ou outra coisa).
Pelo contrário, a curiosidade científica deve ser incentivada. Mas curiosidade, especulação, isso só não basta para fazer ciência. Ter uma ideia ou pensar sobre um fenômeno é apenas parte de um longo ciclo de teoria-experiência-comprovação/refutação-nova teoria.
O que também não pode acontecer, especialmente se as pesquisas forem custeadas com dinheiro público, é não conseguir explicar para o cidadão comum o que está sendo feito com o dinheiro de seus impostos. É mais fácil para um leigo entender (ou, pelo menos, aceitar) pesquisas, digamos, sobre mitologia comparada ou sobre ossos enterrados em um deserto do que sobre nuvens de matéria escura misteriosa e fugidia situada a milhões de anos-luz da Terra, em condições que não podem ser reproduzidas em laboratório.
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Sheldon Cooper, protagonista
de The Big Bang Theory, é o
arquétipo do Físico Teórico.
Mais que importante, a crítica de Horgan é contundente: ela pisa no calo dos físicos teóricos, Sheldons que lutam apenas para manter seus brinquedinhos bilionários enquanto ainda há pessoas que morrem picadas por mosquitos ou até mesmo por falta de comida e/ou saneamento básico em um planeta à beira de sua mais séria crise energética e ambiental.
A solução, evidentemente, não é mandar físicos para a roça, como fez a China durante sua revolução cultural. Basta cortar orçamentos de linhas de pesquisa menos imediatas e injetar dinheiro em questões urgentes como energia alternativa. Ou será que buscar formas mais eficientes de captar e armazenar energia solar, por exemplo, é uma questão menos interessante e desafiadora do que a matéria escura? Foram os físicos que nos deram o mundo de conforto que temos hoje e são eles que têm que nos ajudar a manter e melhorar o mundo que criaram.

>Isso é escolha?

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Nunca antes na história deste país tivemos uma eleição tão baixa. Ambos os lados acusam-se mutuamente, culpando um ao outro pela baixaria. Parecem incapazes de raciocinar e perceber que isso é que é baixaria. Muito se tem escrito, dentro e até fora do país, sobre o amadurecimento da democracia brasileira. Eu já disse antes do primeiro turno que discordo disso. A voracidade e a pseudo-polarização desta campanha demonstram justamente o contrário. Pois a oposição nunca soube se comportar como tal e o governo nunca deixou de ser politicamente violento, mesmo diante de uma oposição dúbia.
Quando PT e PSDB tiveram que assumir os papéis que lhes cabiam nesse pleito, ambos exageraram na dose, como um ator que não é capaz de mergulhar no personagem. Petistas e tucanos só fizeram mímicas e agiram literalmente como palhaços.
De um lado, volta o discurso da “herança maldita”, da História ignorada e reescrita a cada discurso: “Nunca antes na história deste país…”; que fala dos milhões que tirou da pobreza, mas nada diz sobre os milhões desviados para acabar com a própria pobreza e ainda comprar apoio — tudo em nome da “governabilidade”, coisa que nem os militares inventaram. De outro, uma oposição sempre indecisa e dividida, que ora tenta colar sua imagem na de Lulla, ora parte para o ataque que nunca fez à corrupção institucionalizada desde 2005; que cometeu erros políticos claros ao se fechar em si mesma e ao conduzir um duvidoso processo de escolha dos candidatos à presidência e, principalmente, à vice-presidência.
No meio de tudo isso, surge do nada a questão do aborto, tratada da mesma forma que as demais pelos dois candidatos (que de cândidos não têm nada). Em vez de assumir suas verdadeiras posturas — ambos foram, em diferentes momentos e em maior ou menor grau, favoráveis ao aborto do ponto de vista da saúde pública — e apresentar seus verdadeiros programas de governo, Serra e Dilma passaram a se acusar mutuamente e a correr atrás das bênçãos (e dos votos) de bispos evangélicos e/ou católicos. E quando até o papa se mete na marmelada, eles dizem cinicamente que cada um pensa o que quer, que os bispos não podem se meter na política por que o Brasil é um Estado laico…
Serra e Dilma são tão iguais que precisam insuflar a velha militância violenta e intolerante para se diferenciar. Felizmente, a artilharia não passou de rolos de fita adesiva e balões de água. Mas não seria difícil armar uma guerra civil num país que tem MST, tráfico-Estado e milícias para-militares. Se eles compram até parlamentares, como é que não podem comprar esses criminosos?
Novamente, a democracia brasileira não está amadurecida; está em plena adolescência traumática, ameaçada pelos hormônios do radicalismo e da ignorância política (e até religiosa). Os dois presidenciáveis querem apenas gerenciar por que acham difícil ser estadista e se colocar acima dos próprios partidos e ouvir críticas da oposição. Seja Serra ou Dilma, teremos um Lulla III. Isso é escolha?

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