Dobro ou metade?

Mais um curioso paradoxo divisado pelo matemágico Raymond Smullyan. Considere dois inteiros positivos, x e y. Um é o dobro do outro, mas não sabemos qual é. Assim, conclui-se que:

  • Se x é maior que y, segue-se que x = 2y e a diferença entre x e y é igual a y. Por outro lado, se y é o maior valor, então x = 0,5y e a diferença entre as incógnitas é expressa por y – 0,5y = 0,5y. Como y é maior que 0,5y, podemos dizer genericamente que, se x > y, a diferença de x e y é maior do que a diferença de y e x, se y > x.
  • Se d é a diferença entre x e y, isso é o mesmo que dizer que d tem o mesmo valor do menor número. Assim, geralmente, o excesso de x em relação a y, se x > y, é igual ao excesso de y em relação a x, se y > x.

As duas conclusões possíveis estão em clara contradição. Qual é o problema?

O Paradoxo do Chá

festa do chá

Você já tomou chá feito com folhas (e não com saquinhos)? Se sim, você já notou como as folhas de chá têm um estranho comportamento enquanto você as mexe com uma colher na água quente? Em caso negativo, da próxima vez que for fazer seu chá, use folhas e observe: elas tendem a migrar para o centro e para o fundo da xícara, ao contrário do que seria de se esperar quando se tem uma força centrífuga espiral. Não está claro desde quando o fenômeno é conhecido (nem se foi notado por Lewis Carroll), mas ele foi solucionado por ninguém menos que Albert Einstein em 1926.

Mas não é preciso ser um gênio para entender o fenômeno. Todo mundo sabe que agitar o líquido na xícara o faz girar dentro dela. Para que se mantenha essa trajetória curvada, uma força centrípeta (para dentro) é necessária. Isso se dá através de um gradiente de pressão externo (pressão maior fora do que dentro).

Entretanto, perto do fundo da xícara e das bordas, o líquido sofre os efeitos da fricção. Não importa quão lisa pareça a sua xícara, ela sempre vai ter algum atrito com a água do chá. Nesse ponto, a força centrífuga (para fora) enfraquece, pois a velocidade do líquido cai e o gradiente de pressão torna-se predominante.Xícara

Porém, graças à força centrífuga é que a pressão é maior ao longo da borda do que no centro da xícara. Se o líquido como um todo rotacionasse como um corpo sólido, a força centrípeta anularia a centrífuga e não haveria qualquer movimento quer para dentro quer para fora. (E você bebe porque é líquido; se fosse sólido, comê-lo-ia).

No fundo da xícara, a rotação também é mais lenta. Portanto, o gradiente de pressão cria um fluxo para dentro. Na superfície, o líquido move-se como o vemos: para fora. É esse fluxo secundário que faz as folhas agruparem-se no centro, depois em cima, nas bordas, e perto do fundo. Como as folhas são pesadas demais para ficar na superfície, elas tendem a ficar no meio.

>O paradoxo do acionista honesto

>

Um acionista em meio a uma crise de consciência?

Suponha que você tenha  ações de uma companhia e que você descobriu que ela age de maneira imoral (digamos que ela explore mão-de-obra em condições de escravidão). Você decide, então, vender seus títulos. Mas será que isso é moralmente correto? 

Se possuir as ações de tal companhia lhe parece moralmente condenável por torná-lo co-responsável pela conduta da empresa, vendê-las para outra pessoa também pode ser um ato imoral. O comprador pode não perceber que a ação está moralmente podre, mas você tem consciência disso (e ainda tem lucro com aquelas ações “sujas”).

Mesmo renunciar à propriedade das suas ações, devolvendo-as à empresa, pode ser imoral. Isso levaria a uma redistribuição do valor da empresa entre os demais acionistas, o que aumenta a culpabilidade moral deles. Nesse caso, é possível ter uma saída honesta do mercado de ações?

(Steve M. Cahn, “A Puzzle Concerning Divestiture” [“Um Problema em Relação ao Desinvestimento”], Analysis, 1987)

>Um Paradoxo Linear

>

Quase sempre, os paradoxos são paradoxais exatamente por apresentar uma certa circularidade auto-referencial (cf. o famoso Dilema de Tostines). O quase é porque o conjunto das sentenças abaixo forma o que seu descobridor, Stephen Yablo, chama de paradoxo linear (e não apenas graficamente):

Todas as sentenças abaixo dessa são falsas.
Todas as sentenças abaixo dessa são falsas.
Todas as sentenças abaixo dessa são falsas.
Todas as sentenças abaixo dessa são falsas.
Todas as sentenças abaixo dessa são falsas.
Todas as sentenças abaixo dessa são falsas.
Todas as sentenças abaixo dessa são falsas.
Todas as sentenças abaixo dessa são falsas.
Todas as sentenças abaixo dessa são falsas.

ad infinitum

Apresentado por Yablo em 1993, esse arranjo consegue ser paradoxal sem ser circular, isto é, sem conter auto-referência. As sentenças não podem ser todas falsas, pois isso tornaria verdadeira a primeira delas, causando uma contradição. Por outro lado, nenhuma delas pode ser verdadeira, pois uma única afirmativa verdadeira teria que ser seguida por uma infinidade de sentenças falsas, e a falsidade de qualquer uma delas implica a verdade daquela que seguem.

Em outras palavras, suponha que em algum lugar dessa sequência infinita de “Todas as sentenças abaixo dessa são falsas.” haja uma enésima sentença que seja verdadeira. Disso decorrem duas coisas:

  • (a) a enésima-primeira sentença é falsa e 
  • (b) qualquer sentença que esteja além da enésima-primeira é falsa também. 

Só que, segundo (b), o que a enésima-primeira sentença diz —  que todas as sentenças que estão abaixo dela são falsas — é verdadeiro e, portanto, ao contrário do que se conclui por (a), a enésima-primeira sentença é verdadeira. Portanto, qualquer sentença dada na sequência é falsa. Mas as sentenças subsequentes a qualquer sentença dada são todas falsas, o que valida a verdade da sentença dada como verdadeira.

>O Paradoxo de São Petersburgo

>

Vamos jogar um joguinho bastante simples. Você lança uma moeda e se sair cara, eu te dou R$ 1,00. Se sair cara de novo, eu te pago R$ 2,00 e se o resultado se repetir novamente, eu dobro o valor para 4 reais, depois 8 e assim por diante. Quando sair coroa, o jogo acaba e você pode ficar com o que já ganhou.
Mas como eu não sou bobo de assumir o risco de te dar um real à toa, eu cobro ingressos dos jogadores. Porém, qual seria um valor justo para cobrir meus custos? Surpreendentemente, parece que eu deveria cobrar uma quantidade infinita de dinheiro. Acontece que a cada novo lance, sua chance de sucesso é 1/2, mas seu possível prêmio dobra. Assim, o prêmio total que você pode esperar — a soma dos prêmios multiplicados pela chance de serem ganhos — é infinito:

P = (1/2 × 1) + (1/4 × 2) + (1/8 × 4) + … = ∞

Nicholas Bernoulli (1695-1726) foi o primeiro a descrever esse problema em 1713, junto com o primo Daniel Bernoulli (1700-1782). Em 1724, quando Nicholas passou uma temporada em São Petersburgo, apresentou o problema ao czar Pedro, o Grande (1672-1725), que o batizou com o nome da capital de seu império. 
Uma possível solução é que esse jogo ignora a psicologia humana e a condição social dos jogadores. Nós estamos considerando apenas o valor monetário do prêmio como algo maior do que o valor que a vitória tem para nós. E ouro vale mais para um miserável sem-teto do que para um bilionário.

Uma vez que acumulamos certa soma, o apelo para obter uma riqueza maior começa a diminuir. Mesmo que não percamos nada, as chances de ganhar são cada vez menores e assim vamos parando de arriscar. A não ser, é claro, que você seja desses que pensam que quanto mais dinheiro melhor, mesmo que não possa (ou nem queira) gastá-lo.

“Os matemáticos”, segundo Gabriel Cramer (1704-1752), “estimam o dinheiro em relação à sua quantidade e os homens de bom-senso em proporção ao uso que podem fazer dele.”

>O paradoxo do corte de custos

>

Esse paradoxo é especialmente dedicado a todos os economistas ortodoxos que acham que cortes de custos são um sempre um santo remédio, mas que não veem problema algum na origem de todas as crises — a jogatina irracional e histérica das bolsas de valores.

Eu estou apaixonado pelo paradoxo do empresário que devo a Lisa Collier: O presidente de certa companhia ofereceu uma recompensa de $ 100 para qualquer empregado que apresentasse uma sugestão sobre como a empresa poderia economizar dinheiro. Sugestão de um empregado: “Eliminar a recompensa”. — Raymond Smullyan

Taí um exemplo típico de presidente que não merece nem os bônus nem o alto salário que recebe. Mas como cortar na própria carne é sempre difícil, quem acabou cortado deve ter sido o funcionário que demonstrou mais sagacidade que o patrão. It’s a trap! 

>Morte Eterna

>

Aparentemente, um escritor e psicólogo alemão descobriu o caminho para a vida eterna há quase um século:

Leinbach descobriu uma prova de que, na realidade, a morte não existe. Está além de questionamento, diz ele, que não apenas no momento do afogamento, mas em todos os momentos de morte de qualquer natureza, o sujeito vive novamente toda a sua vida com uma rapidez inconcebível. Essa vida relembrada também deve ter um último momento, e esse último momento também deve ter o seu, e assim por diante. Portanto, o próprio ato de morrer é uma eternidade e, de acordo com a teoria dos limites, pode-se aproximar da morte, mas nunca pode-se alcançá-la.
— Arthur Schnitzler, Flucht in die Finsternis [Fuga na Escuridão], 1931

Então será que Arthur Schnitzler não é o verdadeiro Dom Cobb?

“Uma morte, dentro de uma morte, dentro de uma morte…”

>Um Paradoxo-trollagem: o Quadro-negro de Smullyan

>

Todo paradoxo não deixa de ser uma trollagem lógica. Mas este é simplesmente sensacional por que pode ser feito na prática. O matemático, pianista, lógico e filósofo norte-americano Raymond Smullyan propõe uma cena na qual dois homens debatem uma proposição diante de um quadro-negro. Na lousa está escrita a seguinte frase:

— Você acredita naquela sentença? — pergunta o primeiro homem.
— Claro que não — responde o segundo — Apenas um idiota acreditaria naquela sentença.

Segundo o próprio Smullyan, que também é mágico, o segundo homem “claramente acredita na sentença, embora diga que não acredita. Então ele se encontra na curiosa posição de acreditar em algo e simultaneamente acreditar que ele não acredita.”
Eis aí uma trollagem que deveria ser feita nas aulas de filosofia (ou de religião).

>O Paradoxo da Lealdade

>

Tal como a modéstia, a lealdade pode ser um comportamento paradoxal.

Você tem lealdade por alguém quando está ligado a essa pessoa por algum laço: de família, de amor, de amizade, de trabalho, ou de propósito. Lealdade é um ideal e, idealisticamente, você sente que tem um dever com essa pessoa. Mas ao apoiá-la incondicionalmente, você se submete ao bem-estar de outro indivíduo — e isso é o oposto do idealismo, é um anti-ideal.

“À primeira vista, apresentamos o agente leal como alguém louvável de um ponto de vista imparcial.”, escreve o filósofo cientista político irlandês Philip Pettit. “Um olhar mais apurado pode ver motivo para preocupação. [...] Ser leal é ser dedicado ao bem-estar de um indivíduo em particular e isso parece conflitar com a noção de que o leal é um idealista.”
Pettit não deixa de estar certo, mas só até certo ponto. Ser leal não significa, necessariamente, perder inteiramente a própria liberdade, tornando-se submisso. Como há várias camadas de lealdade, você pode, por exemplo, se considerar leal ao seu país, mas não ao seu governo. É esse tipo de lealdade que geralmente move revolucionários — como a juventude árabe dos dias atuais.

>Nevermore!

>

Ver uma maçã vermelha deveria aumentar sua confiança na ideia de que todos os corvos são negros.

Por quê? Porque a afirmação “Todos os corvos são negros” é logicamente equivalente a “Todas as coisas não-negras são não-corvos”. E ver uma maçã vermelha ou grama verde ou neve branca (ou o Corinthians perdendo a Libertadores) reforça essa crença.
Mesmo sendo contraintuitivo, isso é logicamente inescapável. É o paradoxo de Hempel.

Categorias

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM