Rothamsted, berço da agricultura moderna

Photo:Rothamsted Manor - 1880's - by Lady Caroline Lawes

Rothamsted Manor [Mansão], em aquarela de Caroline Lawes. c. 1880.

Se a questão da fome no mundo é algo que lhe preocupa, é bom lembrar que a Química criou condições para alimentar (quase) todos os bilhões de habitantes do planeta já no século XIX. O que pode ser chamado de primeira Revolução Verde começou com a pesquisa e o desenvolvimento de fertilizantes sintéticos num lugar chamado Rothamsted. Continue lendo…

A ‘cabeça demoníaca’ de Mordrake

edwardmondrakePouco se sabe sobre Edward Mordrake e há quem o considere mera lenda urbana.

Nascido no fim do século XIX, Mr. Mordrake seria herdeiro de um nobre inglês e — é aqui que começa a lenda — teria uma segunda face no lugar da nuca. Segundo relatos, a face extra seria capaz de rir e chorar, mas não podia se alimentar nem falar (se assim foi, o rosto traseiro não teria ligação com a garganta). Ou será que não seria bem assim? Também se conta que Mr. Mordrake passou a vida implorando aos médicos que lhe retirassem o que ele chamava de “cabeça demoníaca”, a qual atazanava o “pobre Edward” durante a noite sussurrando uma língua satânica. Evidentemente, nenhum médico se arriscou a fazer a remoção cirúrgica do outro rosto de Mordrake.

Sem surpresa, o herdeiro britânico, atormentado por uma crise de dupla identidade aparentemente insuperável, cometeu suicídio aos 23 anos. O que surpreende, porém, é que apesar de sua condição extraordinária faltam dados médicos confiáveis sobre Mordrake. Em plena era dos estudos sobre o crânio (e dos freak-shows) é difícil entender porque os médicos (ou, pelo menos, os donos de circo) não se interessariam por um caso tão extraordinário. Possivelmente, dada a sua condição de nobre, Mordrake teria sido escondido como uma aberração pela família em algum porão obscuro. Por isso, desconhecemos sua data de nascimento e é difícil confirmar sua existência. Talvez mesmo seu nome seja falso. Isso, claro, se a história toda não for uma lenda urbana.

A condição da dupla-face, porém, não é inteiramente impossível. Pelo menos dez casos de Craniopagus parasiticus — isto é, o desenvolvimento da cabeça de um gêmeo parasítico com um corpo subdesenvolvido, dando a impressão de duas cabeças ou faces — foram documentados cientificamente e há outros oitenta relatos históricos sob suspeita. Lendário ou não, Edward Mordrake poderia ser um deles.

As desventuras do Teorema de Pick

Em 1900, o matemático austríaco Georg Alexander Pick publicou um artigo de oito páginas intitulado “Geometrisches zur Zahlenlehre” [“Resultados Geométricos sobre a Teoria dos Números”]. O artigo apresentava um teorema interessante e simples, ou como dizem os matemáticos, elegante.

Pick havia encontrado uma maneira de determinar facilmente a área de um polígono simples com a ajuda de coordenadas inteiras. Esteja o polígono P em um plano reticulado — como o de um caderno quadriculado. Se i é o número de pontos reticulares (i.e., determinados pela retícula) no interior do polígono e b o número de pontos reticulares na borda do polígono, então a área, A, é dada pela seguinte fórmula:

pick's theorem

Vamos considerar o exemplo da figura a seguir.

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gitterpolygon.svg

Nesta figura, temos um polígono sobre uma reticula. O polígono de bordas pretas tem seu interior preenchido com a cor amarela. Os pontos reticulares do interior do polígono (i) estão destacados em vermelho e os da borda (b) são os pontos pretos. Para encontrar a área desse polígono, basta contar os pontos e aplicar a Fórmula de Pick: A = 40 + 12/2 – 1 = 45. A unidade de área pode ficar a gosto.

No entanto, apesar de ser extremamente elegante e útil, a fórmula de Pick passou quase setenta anos esquecida. O motivo? Continue lendo…

Dr. Beddoes, um médico cheio de gás

Thomas Beddoes (1760-1808).

Thomas Beddoes não queria ser esquecido e fez tudo o que pôde para evitar isso. Entretanto, sua teimosia em se destacar custou-lhe justamente o que ele mais prezava e desviou completamente sua atenção. Nascido em 1760, em Shifnal, Shropshire, Beddoes foi um estudante notável. Além das excelentes notas na escola, o jovem Thomas aprendeu sozinho a falar Francês, Alemão, Espanhol e Italiano. Sua carreira acadêmica, porém, já dava sinais de sua personalidade meio hiperativa. Continue lendo…

Quatro volumes e um destino

Quatro volumes de um velho livro de Direito no fundo de um barril cheio de lixo. Parece desprezível, mas isso pode mudar o destino de uma pessoa e, através dessa pessoa, o rumo de um país inteiro:

Um dia, [A. J. Conant] perguntou a Mr. Lincoln como ele se tornou interessado em Direito. “Foram os Blackstone’s Commentaries que fizeram isso”, disse Mr. Lincoln, relatando em seguida como foi seu primeiro encontro com esse livro. “Eu estava cuidando de um armazém em New Salem [Illinois], quando, num dia, um homem que estava migrando para o Oeste apareceu com um carroção que continha toda sua família e sua mobília. Ele me perguntou se eu poderia comprar um velho barril para o qual não havia mais espaço em seu carroção e que, segundo ele, não continha nada de valor especial. Eu não queria, mas concordei em comprá-lo e paguei-lhe meio dólar, eu acho. Sem nenhum exame, coloquei-o no fundo do armazém e o esqueci completamente. Algum tempo depois, ao rearranjar as coisas, me deparei com o barril e pus seu conteúdo sobre o chão. Debaixo do lixo, encontrei uma edição completa dos ‘Commentaries’ de Blackstone. Eu comecei a ler esses famosos trabalhos e tinha bastante tempo disponível, pois, durante os longos dias do verão, quando os fazendeiros estavam ocupados em suas lavouras, meus clientes eram poucos e esporádicos. Quanto mais eu lia” — disse ele, com uma ênfase incomum — “mais intenso meu interesse ficava. Em toda a minha vida, minha mente nunca esteve tão inteiramente absorvida. Eu li até devorá-los.” — Ida M. Tarbell, Selections From the Letters, Speeches, and State Papers of Abraham Lincoln [Seletas das Cartas, Discursos e Papéis Governamentais de Abraham Lincoln], 1911

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“Uma Historiadora parcial, preconceituosa e ignorante”

Henry IV ascendeu ao trono da Inglaterra, para sua grande satisfação, no ano de 1399, após convencer sobre seu primo e antecessor Richard II a renunciar em seu favor e retirar-se para o resto de sua vida para Pomfret Castle, onde aconteceu de ele ser assassinado. Supõe-se que Henry era casado, já que ele certamente teve quatro filhos, mas não está ao meu alcance informar ao Leitor quem era sua esposa. Seja como for, ele não viveu para sempre, mas caiu doente e seu filho, o Príncipe de Gales, veio e levou a coroa. Daí o Rei fez um longo discurso, para o qual eu devo indicar ao Leitor as Peças de Shakespeare, e o Príncipe fez outro ainda mais longo. Depois de assim resolverem as coisas entre si, o Rei morreu e foi sucedido por seu filho Henry, que anteriormente batera Sir William Gascoigne.

Esse despretensioso parágrafo é o começo de uma História da Inglaterra — ou melhor, The History of England from the reign of Henry the 4th to the death of Charles the 1st. — que a jovem Jane Austen (1775-1817) escreveu aos 15 anos. Aparentemente, seu objetivo inicial era tornar-se historiadora e não romancista.

Também é possível que a obra — um manuscrito que foi ilustrado pela irmã de Jane, Cassandra —, fosse uma paródia dos livros-texto de História da época. Austen assinou-se como “uma Historiadora parcial, preconceituosa e ignorante.” e assinalou que “Haverá bem poucas Datas nesta História”. Paródia ou não, ela foi mais honesta e sincera que muito historiador profissional ao falar se si mesma e de sua obra.

Ah, sim: pra quem não sabe, o reinado de Henry IV (1387-1413, regnabat 1399-1413) não foi dos mais tranquilos, já que ele deu um golpe em cima de Ricardo II (1367-1400, rei a partir de 1377). Além da bagunça na política interna, a Inglaterra do começo do século XV estava se engalfinhando com a França na Guerra dos Cem Anos (1337-1453).

O caso Kotzwara

Há pessoas que, mesmo com alguma fama, só entram para a História quando saem da vida. Ou pela forma como saem da vida. Frantisek Kotzwara, por exemplo. Nascido em 1730 em Praga, na então Boêmia, Kotzwara (Kočvara em checo) foi um compositor e virtuoso baixista que viajou por toda a Europa com diversas orquestras antes de se estabelecer na Inglaterra em 1775. Suas obras incluem canções, serenatas, trios e quartetos para cordas e umas duas dezenas de sonatas. Sua composição mais popular foi The Battle of Prague, sonata baseada na batalha travada por prussianos e Habsburgos em sua terra natal em 1757.

Ironicamente, Kotzwara ainda é mais lembrado pela sua causa mortis bizarra do que por seus acordes. Em 2 de fevereiro de 1791, o compositor boêmio (literalmente) acordou meio masoquista e foi procurar alguma diversão do tipo na Vine Street, em Londres. Lá ele encontrou-se com uma meretriz chamada Susannah Hill e convidou-a para um lauto jantar. Após os comes-e-bebes, ele perguntou — assim como quem não quer nada — se ela simplesmente não poderia castrá-lo. Hill negou-se, é claro, pois há propostas indecentes que ofendem até uma dama da noite. Mas Kotzwara insistiu (ou pagou) tanto que eles conseguiram chegar a um acordo — brincar de asfixia erótica! Continue lendo…

A lista de Edison

Se você tem o hábito de manter listas de tarefas e acha que encher uma página do seu caderninho já é o bastante, a lista de afazeres de Thomas Alva Edison certamente iria te assustar.

Ao longo de cinco (cinco!) páginas do seu diário — datadas de 3 de janeiro(?) de 1888 —, Mr. Edison lista uma série de coisas que estava desenvolvendo ou pretendia desenvolver [“things doing and to be done”]. Muitas, claro, eram relativas ao fonógrafo, que aparentemente foi sua invenção favorita. Eis algumas, seguidas da reprodução da lista completa:

  • Apanhador de Algodão
  • Novo Fonógrafo Padrão
  • Fonógrafo Movido a mão
  • Aparelho de Surdez
  • Piano Elétrico
  • Novo Dínamo barato de Baixa Velocidade
  • Novo dínamo de expansão piromagnética
  • Transmissor padrão de Telefone de longas distâncias
  • Baterias em rede para Telefones, Telefones de Longa Distância, Phonoplex, Telégrafo e Voltímetro
  • Material de Isolamento Não-Inflamável
  • Boa Cera para Fonogramas
  • Grande Fonógrafo para Romances, etc
  • Fonógrafo de brinquedo para Bonecas
  • Refinar Cobre Eletricamente
  • Seda artificial
  • Relógio fonográfico
  • Telegrafia marina
  • Bateria de cal
  • Tinta para cegos

Edison teria dito que “genialidade é 1% de inspiração e 99% de transpiração. Consequentemente, ‘gênio’ é apenas uma pessoa talentosa que faz toda a sua lição de casa.” Com tantas tarefas, não é difícil considerá-lo um gênio.

[via Brain Pickings]

Perdas e Ganhos

Mr. J. Cuthbert Hadden, que fez um estudo sobre esse assunto, diz que a oferta de versos hoje em dia excede grandemente a demanda. E, assim, acontece que muitos quartos de poesia não recebem pagamento algum. A maioria dos poetas menores cujos volumes vêm a público têm de sustentar todas as despesas de produção por si mesmos e apenas um número muito pequeno escapa sem perdas consideráveis. Em relação a isso, um divertida história envolvendo James Russell Lowell — que nada tem de poeta menor — merece ser contada. O custo da publicação de seu primeiro livro foi financiado inteiramente pelo próprio Mr. Lowell. Era uma edição simples, mas de substanciais 500 cópias. O autor logo sentiu orgulho comum por esse tipo de realização e esperava por uma fama quase imediata. Infelizmente, apenas umas poucas cópias da obra foram vendidas. Pouco depois, houve um incêndio na livraria onde os volumes estavam armazenados e todos foram destruídos. Como o publisher havia feito um seguro integral sobre o estoque, Mr. Lowell foi capaz de reaver todo o dinheiro que havia investido em sua aventura e teve a satisfação de dizer que aquela edição fora integralmente esgotada. — William Andrews, Literary Byways [Atalhos Literários], 1898

James Cuthbert Hadden (1861-1914) foi um escocês de habilidades múltiplas. Começa a carreira na adolescência, como assistente em uma livraria em Aberdeen. Aos vinte anos, após estudar música, torna-se organista em uma igreja em Crieff. Após casar-se em 1886 e ter uma filha, passa a atividades literárias, como o jornalismo e a biografia. Graças ao seu passado musical, especializa-se em biografias de músicos, entre os quais Handel, Haydn, Chopin e Mendelssohn. Prolífico, contribui com 98 artigos para o Dictionary of National Biography.

James Russell Lowell (1819-1891) foi um poeta, professor universitário e diplomata norte-americano. Da escola romântica, foi um dos primeiros poetas ianques a se tornar mais popular que os poetas britânicos na América. Seu primeiro livro foi publicado em 1841. Considerando que o poeta deve atuar como um profeta e crítico da sociedade, Lowell usa sua poesia para causas reformistas, especialmente para a abolição. No entanto, ao longo dos anos sua fidelidade ao abolicionismo e sua opinião sobre os afro-americanos vai se tornando inconstante. Ganha notoriedade nacional em 1848, quando publica A Fable for Critics, uma sátira sobre os poetas e críticos de seu tempo e The Biglow Papers, uma obra de tom regionalista com a Guerra Mexicano-Americana como pano de fundo. Após o falecimento da primeira esposa, em 1853, torna-se professor de línguas estrangeiras em Harvard. Apesar de permanecer na instituição por duas décadas, não leciona muito e dedica-se a atividades administrativas. Durante a Guerra Civil, para a qual alertava já em 1845, perdeu três sobrinhos, mas manteve uma postura pacifista. Após a Guerra, aproxima-se da política e sua amizade com o presidente Rutherford B. Hayes lhe vale dois postos diplomáticos: na Espanha (1877-1880) e na Inglaterra (1880-1885). Falece em 1891, vítima de um câncer que se espalhou pelos rins, pulmões e fígado.

Os demônios de Berbiguier

Berbiguier_Farfadets

Essas criaturinhas de outro mundo vão aprontar altas confusões!

Alexis-Vincent-Charles Berbiguier de Terre-Neuve du Thym vivia sendo aterrorizado por farfadets, uma espécie de equivalente francês dos goblins. Filho de uma família pequeno-nobreza, Berbiguier nasceu em Carpentras, no sul da França, em 1765. Ele entraria para a história da literatura francesa por sua bizarra autobiografia demonológica. Intitulada Les farfadets ou Tous les démons ne sont pas de l’autre monde [Os farfadets, ou Todos os demônios não são do outro mundo], a autobiografia de Berbiguier foi publicada em três volumes entre 1818 e 1820. A obra é magnificamente ilustrada com litografias desenhadas pelo próprio autor. Continue lendo…

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