Perdas e Ganhos
Mr. J. Cuthbert Hadden, que fez um estudo sobre esse assunto, diz que a oferta de versos hoje em dia excede grandemente a demanda. E, assim, acontece que muitos quartos de poesia não recebem pagamento algum. A maioria dos poetas menores cujos volumes vêm a público têm de sustentar todas as despesas de produção por si mesmos e apenas um número muito pequeno escapa sem perdas consideráveis. Em relação a isso, um divertida história envolvendo James Russell Lowell — que nada tem de poeta menor — merece ser contada. O custo da publicação de seu primeiro livro foi financiado inteiramente pelo próprio Mr. Lowell. Era uma edição simples, mas de substanciais 500 cópias. O autor logo sentiu orgulho comum por esse tipo de realização e esperava por uma fama quase imediata. Infelizmente, apenas umas poucas cópias da obra foram vendidas. Pouco depois, houve um incêndio na livraria onde os volumes estavam armazenados e todos foram destruídos. Como o publisher havia feito um seguro integral sobre o estoque, Mr. Lowell foi capaz de reaver todo o dinheiro que havia investido em sua aventura e teve a satisfação de dizer que aquela edição fora integralmente esgotada. — William Andrews, Literary Byways [Atalhos Literários], 1898
James Cuthbert Hadden (1861-1914) foi um escocês de habilidades múltiplas. Começa a carreira na adolescência, como assistente em uma livraria em Aberdeen. Aos vinte anos, após estudar música, torna-se organista em uma igreja em Crieff. Após casar-se em 1886 e ter uma filha, passa a atividades literárias, como o jornalismo e a biografia. Graças ao seu passado musical, especializa-se em biografias de músicos, entre os quais Handel, Haydn, Chopin e Mendelssohn. Prolífico, contribui com 98 artigos para o Dictionary of National Biography.
James Russell Lowell (1819-1891) foi um poeta, professor universitário e diplomata norte-americano. Da escola romântica, foi um dos primeiros poetas ianques a se tornar mais popular que os poetas britânicos na América. Seu primeiro livro foi publicado em 1841. Considerando que o poeta deve atuar como um profeta e crítico da sociedade, Lowell usa sua poesia para causas reformistas, especialmente para a abolição. No entanto, ao longo dos anos sua fidelidade ao abolicionismo e sua opinião sobre os afro-americanos vai se tornando inconstante. Ganha notoriedade nacional em 1848, quando publica A Fable for Critics, uma sátira sobre os poetas e críticos de seu tempo e The Biglow Papers, uma obra de tom regionalista com a Guerra Mexicano-Americana como pano de fundo. Após o falecimento da primeira esposa, em 1853, torna-se professor de línguas estrangeiras em Harvard. Apesar de permanecer na instituição por duas décadas, não leciona muito e dedica-se a atividades administrativas. Durante a Guerra Civil, para a qual alertava já em 1845, perdeu três sobrinhos, mas manteve uma postura pacifista. Após a Guerra, aproxima-se da política e sua amizade com o presidente Rutherford B. Hayes lhe vale dois postos diplomáticos: na Espanha (1877-1880) e na Inglaterra (1880-1885). Falece em 1891, vítima de um câncer que se espalhou pelos rins, pulmões e fígado.
Os demônios de Berbiguier
Alexis-Vincent-Charles Berbiguier de Terre-Neuve du Thym vivia sendo aterrorizado por farfadets, uma espécie de equivalente francês dos goblins. Filho de uma família pequeno-nobreza, Berbiguier nasceu em Carpentras, no sul da França, em 1765. Ele entraria para a história da literatura francesa por sua bizarra autobiografia demonológica. Intitulada Les farfadets ou Tous les démons ne sont pas de l’autre monde [Os farfadets, ou Todos os demônios não são do outro mundo], a autobiografia de Berbiguier foi publicada em três volumes entre 1818 e 1820. A obra é magnificamente ilustrada com litografias desenhadas pelo próprio autor. Continue reading “Os demônios de Berbiguier” »
A moça de maiô verde
Ela matava todo mundo e vivia nos enganando. Agatha Christie poderia ser uma serial-killer, mas tornou-se a maior autora de novelas policiais do século XX e pioneira do surfe. Pioneira do surfe?? What???
É dificil imaginar aquela Dame de ares vitorianos saindo de uma kombi com uma prancha debaixo dos braços, pronta pra pegar um tubo. Ainda jovem no começo dos anos 1920, Agatha também teve a sua fase descolada. É o que conta Pete Robinson, fundador do Museum of British Surfing [Museu do Surfe Britânico], situado no condado de Devon, no sudoeste inglês. Para quem não sabe, Christie passou a infância e a adolescência em Devon, que também foi cenário de muitos de seus mistérios.
Como o sobrenome que a tornaria consagrada na literatura, Agatha Mary Clarissa Miller deve ao primeiro marido suas experiências com pranchas de surfe. Ex-aviador e veterano da I Guerra Mundial, Archibald “Archie” Christie foi convocado novamente pelo governo britânico em janeiro de 1922. Sua nova missão era promover a British Empire Exhibition [Exposição do Império Britânico] que seria realizada em Londres dois anos mais tarde. Após deixar a filha única de três anos aos cuidados da mãe e de uma irmã, Mrs. Christie partiu com o marido para o que acabaria sendo não uma viagem de negócios, mas uma verdadeira turnê surfista.
Agatha e Archie chegaram à África do Sul em fevereiro e logo foram apresentados a um esporte relativamente novo, o prone surfboarding (antigo nome do bodyboarding). Segundo a jovem Christie, “as pranchas de surfe na África do Sul eram feitas de madeira fina e leve, fáceis de carregar e logo se pega a manha para entra nas ondas.” Mas nem sempre era uma moleza, segundo a Rainha do Crime: “ocasionalmente, era doloroso, como quando você cai de nariz na areia. Mas, em geral, era um esporte simples e bastante divertido.”
Depois de passar pela Austrália e Nova Zelândia, os Christie alcançaram Honolulu em Agosto, em pleno verão havaiano. E foi em nada menos que Waikiki que, depois de umas dicas sobre como lidar com queimaduras de sol e barreiras de corais, o casal aprendeu a ficar de pé na prancha.
Entre uma onda e outra, Agatha escreveu Poirot Investiga e O Homem de Terno Marrom, que seriam publicados em 1924. Em sua autobiografia, Agatha Christie se recorda de suas peripécias no Havaí: “Eu aprendi a ponto de ficar expert — ou pelo menos expert do ponto de vista europeu — e o momento do meu completo triunfo foi no dia em que manti meu equilíbrio e fui até a praia de pé em minha prancha!” Agatha também sempre se lembrou da sua indumentária. Como o neoprene não existia na época, ela teve que apelar para a lã: “Um maravilhoso e modesto traje-de-banho de lã verde-esmeralda, que era a glória da minha vida e no qual eu me achava notavelmente bem!”
Segundo Robinson, os Christie estão entre os primeiros bretões a pegar uma onda — o único britânico que pegou uma onda antes do casal foi o próprio Príncipe Edward.
[Guardian via The Mary Sue]
Triste Fim de um Homenzinho Verde
Entre as personagens que recentemente atraíram a atenção do público em Brighton estava uma original, ou que seria original, genericamente conhecida pelo apelativo de ‘green man’. Ele vestia pantalonas verdes, colete verde, gravata verde. E, embora suas orelhas, suas suíças, suas sobrancelhas e suas bochechas fossem empoadas, seu semblante, indubitavelmente por reflexo de suas vestimentas, também era verde. Seu cabriolé, sua maleta, suas luvas e seu látego — eram todos verdes. Com um lenço de seda verde em suas mãos, e um grande relógio com elos verdes na corrente presa aos verdes botões de seu verde casaco, ele desfilava diariamente em Steine.
Na manhã de hoje, às 6 horas, esse gentleman pulou da janela de seu aposento na quarta sul, saiu correndo pela rua até a beira do penhasco próximo e lançou-se sobre o precípio para a praia lá embaixo. Diversas pessoas imediatamente acorreram em sua assistência —ele sangrava na boca e nas orelhas — e carregaram-no de volta ao seu alojamento. A altura do abismo de onde ele se precipitou é de aproximados 20 pés [pouco mais de 6 metros] na perpendicular. Dado o procedimento geral do gentleman supra, supõe-se que ele é demente. Seu nome, pelo que soubemos, é Henry Cope e ele é relacionado a algumas famílias das mais altas distinções. — entrada para 25 de outubro no “The Annual Register” [“O Anuário”] de 1806.
John Steele, o herói azarado
Imagine-se como um soldado americano sendo lançado de paraquedas na França na madrugada anterior ao Dia D. Agora imagine que, em vez de cair a oeste de uma cidadezinha normanda, você desce diretamente sobre a pracinha principal, que está cheia de militares alemães. Pra piorar, seu paraquedas acaba se enroscando na torre da igreja, te deixando pendurado lá em cima, bem à vista dos tedescos. Seria difícil acreditar que, depois de tudo isso, você ainda acabaria virando um monumento.
Mas, por incrível que pareça, foi justamente essa sequência de FAILS que transformou o paraquedista americano John Steele em herói para a população de Sainte-Mère-Église. Junto com outros soldados de dois dos três batalhões da 82ª. Divisão Aerotransportada, Steele foi lançado por engano sobre aquela cidadezinha após um bombardeio realizado na noite anterior ao Dia D.
Em situações como essa, paraquedistas são alvos fáceis. A sorte de Steele mudou quando, depois de ser ferido no tiroteiro anti-aéreo e sobreviver, ele ficou preso pelo páraquedas na torre da igreja. Notando que seus companheiros ou já chegavam mortos ao solo ou eram mortos após o pouso, Steele resolveu se fingir de morto. Seus ferimentos ajudaram em sua encenação estratégica.
O truque funcionou, mas não muito. Duas horas depois, Steele foi descoberto e, como estava vivo, foi feito prisioneiro. Só que o truque dos alemães também não funcionou por muito tempo. Mesmo ferido, Steele escapou e conseguiu encontrar as tropas do terceiro batalhão de paraquedistas, a essa altura reorganizados no 505º. Regimento de Infantaria Paraquedista e pousados no lugar certo. Steele voltou à vila com seus companheiros e ajudou-os a capturar St.-Mère-Église, num ataque que matou 11 alemães e capturou outros 30. Mais tarde, o paraquedista azarão foi recompensado com uma Estrela de Bronze e uma Purple Heart.
Após a guerra, Steele continuou visitando anualmente a cidadezinha que ajudou a libertar. Foi feito cidadão honorário e deu seu nome à uma taverna situada naquela praça, onde sua memória é mantida através de fotos e cartas. Há uma estátua de Steele pendurada com um paraquedas na torre da igreja onde ele teve a (in)felicidade de ficar enroscado. Num dos vitrais reconstruídos, dois paraquedistas cercam a Virgem Maria — um deles é o próprio John Steele, que faleceu em 1969, de câncer, poucas semanas antes do 25º. aniversário do Dia D.
O Selvagem de Hanover
Ele apareceu nos bosques perto da cidade alemã de Hamelin, perto de Hanover. Todo engrenhado e sujo, ele alimentava-se apenas de ervas e frutinhas, não dizia uma palavra e, embora aparentasse ter uns dez anos ou mais, andava de quatro. Ninguém sabia quem ele era nem exatamente de onde veio, mas ele acabou sendo chamado de Peter, o Garoto Selvagem de Hanover.
Documentado como um dos primeiros casos de crianças com comportamento animalesco, Peter não tardou a chamar a atenção de outro animal natural de Hanover — George I, rei da Inglaterra (1660-1727; regnabat 1714-1727). Intrigado com o caso, o rei hanoveriano meio que adotou o Wild Boy: o menino foi levado à sua corte e tratado como mascote. Depois de chegar à Inglaterra, Peter tornou-se uma celebridade-instantânea, inspirando sátiras de Johathan Swift (1667-1745) e Daniel Defoe (1660?-1731). Diz-se que, ao ser informado das condições sui generis daquele moleque que mais parecia um animal, Lineu (1707-1778) criou uma categoria especial de humanos — Juvenis Hanoveranus — só para enquadrar Peter no seu Systema Natura.
Na corte inglesa, o menino-fera foi posto sob tutela da Princesa Caroline (1683-1737; futura rainha consorte de George II). Apesar da real educação, ele nunca aprendeu a falar — o máximo que conseguiu foi repetir algumas palavras. Mesmo assim, as pessoas que o encontravam diziam que ele parecia entender o que os outros falavam.
A “adoção” de Peter pela família real também acendeu uma polêmica científica que, de certo modo, ainda persite: o que separa humanos de animais, especialmente de animais selvagens? É nature ou nurture, natureza ou nutrição [ambiental/cultural] que nos torna humanos? O debate ainda está aberto, mas o caso de Peter parece decorrer da natureza mesmo: recentes pesquisas indicam que ele seria portador da Síndrome de Pitt-Hopkins, uma deficiência genética que só foi descoberta em 1978.
Evidentemente, o Wild Boy não foi um boy para sempre. Após a morte de George I em 1727, a família real afastou-o da corte e colocou-o sob os cuidados de um fazendeiro em Hertfordshire. No verão de 1751, Peter desapareceu. Vários anúncios foram postos em jornais mas mesmo assim ele foi preso — e quase morreu no incêndio da cadeia onde estava. Depois disso, ele passou a viver com uma coleira de couro que trazia a seguinte inscrição: “Peter, o Homem Selvagem de Hanover. Quem quer que o traga a Mr. Fenn em Berkhamsted, Hertfordshire, será recompensado.”
Peter foi longevo para sua época e faleceu aos (estimados) 72 anos em 1785. Foi enterrado no cemitério de St. Mary’s Church, perto da porta principal da igreja. Na parede sul da nave do templo, há uma plaquinha com um pequeno perfil biográfico do falecido garoto selvagem. Um retrato de Peter ainda sobrevive em Londres, onde pode ser visto na parede leste da escadaria real do Kensington Palace. Outra relíquia, sua coleira de couro está na coleção da Berkhamsted Collegiate School.
Um “herói desconhecido”
Em certo dia, nos meados do século XVIII, um gentleman saiu às ruas de Londres carregando um aparelho de aparência muito estranha. Às vezes, ele o carregava ao seu lado, mas às vezes ele o expandia para carregá-lo por cima. Ele era inglês, foi um grande viajante e havia trazido esse curioso dispositivo da distante Pérsia. A aparência daquilo nunca havia sido vista na Inglaterra e causou grande dose de curiosidade. Mais que isso, aquilo trouxe muitos abusos e ridicularizações sobre a cabeça do gentleman. Multidões de homens e rapazes o seguiam, vaiando e zombando e até mesmo lançando-lhe pedras. Mas ele não foi intimidado e persistiu na sua prática dia após dia. Outros também, e ele viveu para ver seu exemplo seguido por quase toda a população de Londres. O nada romântico nome desse herói desconhecido era Jonas Hanway e ele foi o primeiro britânico a usar um guarda-chuva. — Albert William Macy, “Curious Bits of History” [“Pedaços Curiosos da História”], 1912
Mr. Hanway (1712-1786) tornou-se um viajante após associar-se com um tal Mr. Dingley, mercador em São Petersburgo, na Rússia. Hanway partiu da então capital russa em 10 de setembro de 1743. Depois de passar por Moscou, Tsaritsyn e Astrakhan, ele embarcou numa travessia do Mar Cáspio em 22 de novembro, chegando em Astrabad, na então Pérsia, em 18 de dezembro. Ao chegar, ele teve a infelicidade de ser assaltado, mas após perseguir os bandidos conseguiu recuperar a maior parte de seu bens.
Sua viagem de volta também não foi das mais agradáveis: Mr. Hanway sofreu com atrasos por motivo de doença, por ataques de piratas e ainda teve que aguardar uma quarentena antes de chegar a São Petersburgo em 1º. de janeiro de 1745. Ele partiu dali em 9 de julho de 1750 e, após atravessar a Alemanha e a Holanda, retornou à Inglaterra em 28 de outubro, tendo se estabelecido em Londres.
Após publicar um livro sobre suas viagens em 1753 — Historical Account of British Trade over the Caspian Sea, with a Journal of Travels, etc. [Relato Histórico do Comércio Britânico sobre o Mar Cáspio, com um Diário de Viagens, etc.] —, Hanway dedicou-se à filantropia. Em 1756 fundou a The Marine Society, dedicada a auxiliar os marinheiros britânicos. Dois anos mais tarde, ele tornou-se gerente, e mais tarde, vice-presidente do Foundling Hospital. Também teve papel importante na fundação do Magdalen Hospital e procurou aperfeiçoar o sistema de registro de nascimentos de Londres.
Apesar de avançado para a sua época, Mr. Hanway também defendia posições que hoje seriam extremamente conservadoras: ele pregava o confinamento na solitária para todos os prisioneiros e opunha-se à naturalização de judeus.
Ninguém é perfeito.
O matemático lunático
Sendo um dos mais famosos matemáticos franceses de sua época, era natural que Jacques Hadamard (1865-1963) recebesse várias correspondências de aspirantes a matemáticos cheias de dúvidas ou de teorias malucas. Boa parte daquelas cartas geralmente era ignorada por Hadamard, até que ele recebeu uma prova brilhante de um tal André Bloch. Hadamard ficou tão fascinado pela elegância da prova que decidiu conhecer aquele sujeito e convidá-lo para um jantar. Uma vez que eles só mantinham contato através de cartas, Hadamard escreveu de volta para o endereço do remetente: 57, Grand Rue, Saint-Maurice. Em resposta, Bloch só informou que estava impossibilitado de sair, mas convidou o grande matemático a lhe fazer uma visita.
Foi só ao chegar ao endereço que Jacques Hadamard descobriu porque o brilhante colega não poderia sair: o que ficava na 57, Grand Rue, Saint-Maurice não era uma casa, mas um hospital. Ou melhor, um hospício, o Asilo de Lunáticos de Charenton. Apesar da imensa surpresa, Hadamard foi ao encontro de Bloch e em meio a uma longa conversa sobre temas matemáticos, ele conheceu a história do matemático lunático. Continue reading “O matemático lunático” »
Herdeiros por telefone
Qual a melhor utilidade para uma lista telefônica hoje em dia? Escorar o pé da mesa bamba? Servir de peso de papel? Fonte de papel reciclável? Aparentemente, listas telefônicas também podem ser usadas para redistribuir renda. Foi exatamente assim que um excêntrico aristocrata português resolveu usar uma lista telefônica para se despedir da vida.
Em vez de legar sua herança para hospitais, instituições de caridade ou alguma ONG, Luís Carlos de Noronha Cabral da Câmara resolveu partilhar seus bens entre 70 pessoas escolhidas ao acaso em uma lista telefônica de Lisboa. Parece piada, ou pior, um golpe, mas não é nem uma coisa nem outra.
Um dos poucos aristocratas excêntricos de Portugal, o Sr. Cabral da Câmara era um solteirão sem filhos que faleceu em 2001, aos 42 anos. Apesar da nobreza, Luis Carlos era um filho ilegítimo e tinha poucos amigos. Por isso mesmo, treze anos antes de morrer, ele já havia registrado em cartório um testamento com uma lista de números que ele escolheu aleatoreamente diante de duas testemunhas.
Na época, muita gente se surpreendeu não pela excentricidade do testamento, mas pelo testamento em si. Como os brasileiros, os portugueses abominam tanto a morte que não têm o hábito de registrar testamentos.
Entre os bens legados, havia um apartamento de 12 quartos no centro de Lisboa, uma casa na cidade histórica de Guimarães, um carro, um par de motocicletas e 25 mil euros em dinheiro. Pode parecer pouco para cada herdeiro telefônico — especialmente agora que Portugal está em crise. Mas se o Sr. Cabral da Câmara não tivesse indicado herdeiros, sua fortuna acabaria nas mãos do governo português.
Conflitos Esquecidos [11] — o Incidente Schäffer
Muita gente sabe (ou deveria saber) que a Rússia já foi dona do Alasca. Embora não tenham conseguido fazer muita coisa por lá — já que era preciso atravessar a Rússia inteira antes de por os pés do lado de cá do Estreito de Bering —, os russos também têm a duvidosa honra de quase terem conseguido ficar com o Havaí.
No começo do século XIX, a situação do Havaí lembrava muito a da Itália: cada ilha era praticamente um feudo. Como ocorreria com a Itália mais tarde, o Havaí foi unificado em 1810 e transformado em Reino por Kamehameha I, o Grande (1758-1819). Aí é que está o erro dos russos: eles chegaram um pouco atrasados. Continue reading “Conflitos Esquecidos [11] — o Incidente Schäffer” »




É um punhado de material cósmico, composto principalmente de carbono e hidrogênio, um animal, cordado, mamífero, primata, hominídio pensante (cof,cof...) que não tem a mínima ideia do que está fazendo no mundo (ou do que é o mundo) e de quem é.