Patentes Patéticas (n°. 98)

bicicleta eólica

Pedalar é uma opção de transporte ecologicamente correta, mas cansativa. Sempre há a possibilidade de dar uma mão na roda da bicicleta, mas as alternativas para facilitar o uso das magrelas não são lá muito sustentáveis: ou são pequenos motores de combustão, movidos a combustíveis fósseis ou são baterias que movem motores elétricos. Esta parece mais eco-friendly, mas aí você se lembra que as baterias estão cheias de metais tóxicos e que a eletricidade para carregá-las nem sempre é gerada de forma sustentável. Você quer pedalar, mas sem fazer muito esforço. Como proceder?

Use a energia dos ventos. É a sugestão do canadense James C. Hayes, criador da “Wind-assisted bicycle” [“Bicicleta com auxílio eólico”]: Continue lendo…

>Efeito Bourne

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Em 14 de março de 1887, o norte-americano Ansel Bourne acordou em um quarto desconhecido. Para sua imensa surpresa (e a sua também, leitor), Bourne, que vivia em Rhode Island como pastor evangélico, descobriu que estava em Norristown, Pensilvânia. Lá, ele havia se estabelecido dois meses antes, apresentando-se como A. J. Brown, e abriu uma loja de confecção.
Mister Bourne/Brown foi encontrado por seu sobrinho, que ajudou-o a voltar para Providence, capital de Rhode Island. Psicólogos diagnosticaram nele um dos primeiros casos de fuga dissociativa, múltipla personalidade e amnésia.
Não foi a primeira vez que Bourne perdeu sua identidade (não, não foi o RG). Em 1857-58, ele, que até então era carpinteiro, tornou-se subitamente obcecado com a ideia de visitar uma capela. Depois desse episódio, ele tornou-se o pastor Bourne.
Quase um século depois, em 1980, Robert Ludlum foi inspirado pela história e deu o sobrenome do carpinteiro/pastor/comerciante ao personagem principal de sua trilogia mais bem-sucedida — A Identidade Bourne, A Supremacia Bourne (1986) e O Ultimato Bourne (1990).

>Hino Multiuso

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Os americanos pensam que a tradicional canção My Country, ‘Tis of Thee, a.k.a. America, é um hino patriótico (embora não seja o oficial). Ironicamente, diversos países pensam da mesma forma. A mesma melodia serve como hino nacional (e oficial) da Dinamarca, Suécia, Suíça, Noruega, Liechtenstein — e até para a Rússia! Todos esses países “roubaram” a melodia que os britânicos conhecem como God save the Queen. Para piorar, diversas ex-colônias britânicas mantém a melodia como hino real: Belize, Bahamas, Barbados, Canadá (onde também tem versos em francês), Nova Zelândia, Jamaica…
Isso tem levado a situações constrangedoras durante eventos internacionais. Quando a Inglaterra jogou contra o Liechtenstein na Eurocopa de 2004, a mesma música teve que ser tocada duas vezes antes do jogo. Curiosamente, nas classificatórias da Euro 96, o hino foi tocado apenas uma vez no jogo entre a seleção inglesa e a da Irlanda do Norte. 
A própria origem do hino é uma bagunça. Para alguns autores, as primeiras notas teriam sido compostas em 1619 por um certo Dr. John Bull. Outros atribuem a melodia a um trecho da obra de Händel, alemão naturalizado britânico. A primeira versão completa, inclusive com os versos teria aparecido em 1744, na obra Thesaurus Musicus. Mas mesmo esse livro tem autoria disputada. 
Sem dúvida, a teoria mais bizarra é  a da origem francesa. Segundo o Marquês de Créquy, Grand Dieu sauve Le Roi foi composta por Marc-Antoine Charpentier para celebrar… a cura de uma fístula a anal de Luís XIV, o Rei-Estadão. Após uma vitória sobre os franceses em 1745, os britânicos teriam adotado o hino sem saber de sua origem…
Mas a situação pode mudar: desde 2007 tramita no Parlamento Britânico uma proposta para pôr ordem na casa e determinar qual hino deve ser usado em qual ocasião — a Inglaterra ainda tem outros três hinos (Jerusalem, Rule Britannia! e Land of Hope and Glory). God save the Queen está em clara desvantagem entre os candidatos à oficialização. Além de ter se tornado pouco britânico e ter as letras modificadas de acordo com o gênero do monarca, o Parlamento reconhece que o hino “não deveria envolver Deus.”

>Bloqueio de um navio só

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Boyle
Irritado com os constantes “bloqueios de papel” impostos pela Royal Navy britânica ao litoral americano, o privateiro (ou seria patriota?) Thomas Boyle atracou no Canal da Mancha em 1814 e declarou um bloqueio naval de um navio só — o Chasseur [Caçador] — contra o Reino Unido inteiro:


Pelo Senhor Thomas Boyle, Comandante do Brigue Armado Privado Chausseur, etc.

PROCLAMAÇÃO
Como tem sido de hábito dos Almirantes da Grã Bretanha comandar pequenas forças nas costas dos Estados Unidos, particularmente [por parte de] Sir John Borlaise Warren e Sir Alexander Cochrane, para declarar toda a costa dos Estados Unidos em estado de estrito e rigoroso bloqueio, sem possuir poder para justificar tal declaração, ou estacionar uma força adequada para manter o dito bloqueio;
Eu, a partir de agora, por virtude do poder e da autoridade em mim investidos (e possuindo suficientes forças), declaro todos os portos, atracadouros, baías, rios, ribeirões, riachos, córregos, ilhas e litorais marinhos do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda em estado de estrito e rigoroso bloqueio.
E eu ainda declaro que considero a força sob meu comando adequada para manter estrita, rigorosa e efetivamente o dito bloqueio.
E venho por este requerer que os respectivos oficiais, sejam capitães, comandantes ou oficiais comandados sob meu comando, empregado ou a ser empregado nas costas da Inglaterra, Irlanda e Escócia prestem estrita atenção à execução desta minha proclamação.
E por meio deste eu alerto e proíbo os navios e vasos de toda e qualquer nação em amizade em paz com os Estados Unidos de entrar ou tentar entrar; ou de sair ou tentar sair de qualquer um dos ditos portos, baías, rios, ribeirões, riachos, córregos, ilhas e litorais marinhos sob qualquer pretexto.
E para que ninguém possa alegar ignorância desta minha proclamação, eu ordenei que a mesma seja publicada na Inglaterra.

Dado sob minhas mãos a bordo do Chausseur
(ass.) THOMAS BOYLE
Pelo comando do oficial comandado
(ass.) J. J. STANBURY

A proclamação do bloqueio naval contra a Inglaterra não foi uma simples bravata; acabou sendo publicada em terras inglesas. O ultimato foi exposto na Lloyd’s Coffee House de Londres, a mais antiga cafeteria londrina e importante ponto de encontro de mercadores e lobos do mar.
Mesmo tendo tão poucas informações, a declaração de Boyle foi suficiente para alarmar os mercadores ingleses, fazendo os fretes e seguros disparar por alguns dias. Apesar disso, o bloqueio falhou — mas não por ter navios de menos (ou um texto horrivelmente ameaçador). 
Mr. Boyle cometeu sério erro estratégico: ele teria feito muito melhor se também mandasse uma cópia de sua declaração de bloqueio a Napoleão Bonaparte, que certamente se interessaria muito pelo caso.
Pouco se sabe do fim que Boyle teve após a era napoleônica. Mas o Chausseur voltou para casa como o “Orgulho de Baltimore” e um destróier da Segunda Guerra Mundial foi batizado com o nome do capitão que bloqueou a Inglaterra inteira sozinho.

>Fica a Dica (7) — Como dar Pausa no Atari?

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Na longínqua era pré-Nintendo, as maratonas gamísticas eram praticamente intermináveis. Não havia uma maneira de “dar um tempo” no game para, digamos, responder às “necessidades fisiológicas” de seu corpo. Quando o Atari 5200 foi lançado como upgrade do 2600, uma das maiores novidades era o primeiro botão “pause” da história. Obviamente, a novidade manteve-se no 7800, no qual também dava pra jogar todos os clássicos do 2600 — mas os fãs dos jogos mais antigos não podiam usar a novidade.


onix jr
Onyx Jr.: clone brazuca era
melhor que o original
Não podiam até agora. Levou trinta anos, mas agora dá pra dar uma pausa no Atari! E tudo graças a um brasileiro (e à pirataria). Victor Trucco era mais um dentre muitos que buscavam inutilmente uma pausa para o Atari. Um dia, ele trabalhava num console Onyx Jr, um clone brasileiro do Atari feito nos anos 80. Por uma simples diferença de processador, a cópia pirata saía-se melhor que o original — o Onix Jr. foi o único sistema Atari com pausa.
Com o perdão do trocadilho, Trucco descobriu o truque simples que faria qualquer Atari pré-pausa pausar (perdão pela aliteração). Tudo o que você tem que fazer é comprar uns componentes eletrônicos e ter um pouco de trabalho para soldá-los da maneira correta. Ou, se você for um nerd preguiçoso, porém rico, pode comprar um kit pré-montado que a gringa AtariAge oferece por US$ 20 — irônico como a solução também foi “pirateada” para ser vendida.
As instruções detalhadas para um upgrade faça-você-mesmo no seu Atari estão no site do Victor Trucco. Mas se você prefere gastar 20 doletas, pode comprar o kit aqui.
PS: a solução é nacional, mas eu só fiquei sabendo através do RetroThing.

>A Indústria Fonográfica e suas ameaças

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Perseguida no século passado por músicos profissionais que se sentiam ameaçados, agora é a indústria fonográfica que se considera ameaçada e usa as mesmas estratégias que foram usadas contra ela. O resultado vai ser o mesmo: nenhum.

Na década de 1930, à medida que a música gravada se tornava mais popular, os músicos ficavam cada vez mais preocupados. Havia um temor quase universal entre os profissionais da música em relação à nascente indústria fonográfica. Os músicos acreditavam seriamente que acabariam sendo economicamente extintos pelos discos de vinil, pelo rádio (e pelo recém-inventado cinema com som).
Eles opunham-se até a avanços tecnológicos que pareciam mais distantes, como robôs capazes de compor, cantar e tocar — coisas que não existem nem nesse início de século XXI, quase oitenta anos depois. Procurando manter suas posições ameaçadas, músicos profissionais dos Estados Unidos e do Canadá se reuniram na Federação Americana de Músicos.anúncio-FAM
O trabalho da FAM era simples: publicar anúncios em jornais — que, então, eram os principais meios de comunicação — alertando contra a música “robotizada” das gravadoras, do rádio e do cinema, apresentado-a como “sem emoção”. Um anúncio típico da FAM, como este ao lado, também argumentava que a música gravada resultariam em “monotonia nos teatros — degradação do bom-gosto — destruição da arte.”
Apesar de conseguir reunir mais de 140.000 músicos profissionais em dois países com grandes economias, a Federação Americana de Músicos não foi capaz de deter o crescimento da indústria fonográfica, o surgimento da era do rádio ou o sucesso dos filmes falados e com trilha sonora. Era uma luta essencialmente vã, uma luta contra o avanço tecnológico e cultural.
80 ANOS DEPOIS
Foram-se os discos de vinil, foram-se as fitas cassete. Mas, ironicamente, quando o CD começou a cair em desuso, quem passou a ser reacionário foi a própria indústria fonográfica — aquela, que fora tão criticada pelos velhos músicos do século passado. Tal qual os músicos ludistas dos anos 1930, a indústria fonográfica como um todo sente-se ameaçada pelo surgimento de uma nova tecnologia musical, o MP3.
E do mesmo modo que os músicos, a indústria fonográfica associa-se a órgãos de “defesa dos direitosriaa autorais” (a RIAA nos Estados Unidos e a ABPD no Brasil, além de outras 45 em diversos países). Esses órgãos tentam convencer o público de que compartilhamento digital de músicas é algo ilegal; que os músicos e os compositores vão perder seus empregos se não forem pagos por suas músicas; que músicos independentes de gravadoras são meros amadores de má qualidade e que ainda atrapalham a carreira de músicos profissionais. Acima de tudo, essas associações de gravadoras tentam nos convencer de que o fim da indústria fonográfica seria o fim do mundo.
É verdade que, com o surgimento do cinema sonoro, muitos músicos perderam seus empregos em salas de exibição de filmes. A indústria fonográfica tornou-se ao longo das últimas décadas um verdadeiro guardião musical, decindo investir apenas no que lhe apraz e não no que interessa aos músicos ou ao público. Igualmente, pode até ser verdade que muita gente vai perder emprego se fecharmos as fábricas e as lojas de CDs e DVDs. Mas a indústria fonográfica não vai sumir.
Da mesma forma que aconteceu com os músicos profissionais de orquestras, a indústria fonográfica vai sobreviver, só que num mercado de nicho, os lp-dockaudiófilos. Audiófilos são pessoas que prezam muito a qualidade do som, seja  técnica ou artística. Essa tribo é tão influente que graças a ela voltaram a ser feitos lançamentos de vinis e novas vitrolas foram fabricadas — e vendidas. Ainda que sejam poucos, os audiófilos têm uma grande vantagem sobre o ouvinte comum: eles realmente se dispõem a pagar por música gravada, mesmo que possam consegui-la na internet.
Mesmo com a possibilidade de ganhar mais com menos, as gravadoras ainda se sentem ameaçadas. Chegam ao cúmulo de pedir indenizações de milhões de dólares em  processos judiciais contra adolecentes só por que estes se negam a pagar algumas dezenas de dólares por um disco de plástico (ou até vinil) que traz apenas uma ou duas músicas que lhes agrada.
O final de toda essa grande ironia histórica é que as gravadoras vão ter o mesmo sucesso que os músicos profissionais tiveram em tentar destrui-las no século passado. As gravadoras — embora sejam empresas multimilionárias e com muito mais poder político que um bando de músicos mal-organizados — também serão incapazes de impedir ou retroceder o avanço tecnológico. O grande público não vai voltar a pagar para ter música em mídias físicas quando pode ter música de graça da mesma forma que deixou de pagar por concertos musicais quando pôde ter discos.

>Que feio, HADOPI!

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No dia 12 do corrente, em Paris, o ministro da Comunicação e Culrura francês, Ftédéric Mitterrand (pra quem já desconfiou, ele é um genérico sobrinho do ex-presidente François Mitterrand) revelou o logo da HADOPI, entidade nazista francesa que defende os direitos autorais:


Esperava-se que esse símbolo assuste os “piratas” virtuais (“tô morrendo de medo, mamãe!”) e os faça mudar de hábito (i.e., gastar dinheiro com livros, filmes e sessões de cinema cada vez mais caras). Em vez disso, o novo emblema logo virou motivo de vergonha pública para a HADOPI.
Foi sem querer, querendo!
O design já estava pronto e devidamente registrado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial da França há dois meses. Entretanto, a fonte usada no design era uma cópia não-licenciada, pirata mesmo, de uma fonte chamada “Bienvenue”. A fonte foi originalmente criada no ano 2000 por um designer que trabalhava na France Telecom (FT), chamado Jean-François Porchez.
Segundo o autor da obra tipográfica, “O problema é que esta fonte é um ‘tipo de uso exclusivamente empresarial’. Não poderia ser usada por ninguém a não ser a France Telecom/Orange.” O tipógrafo disse que, embora as letras “d” e “p” tenham sido modificadas, isso não é o bastante para considerar o design como uma fonte nova.
A agência que criou o logo, a Plan Créatif — que foi muito criativa em sua explicação do caso — disse que a fonte violava os direitos da Bienvenue, mas que isso fora um “erro de manipulação” — leia-se, “o estagiário apertou sem querer a sequência Ctrl-C+Ctrl-V. Ele não sabia o que era.”
O governo da França emitiu um comunicado com um pedido formal e público de desculpas. Para alívio da HADOPI, a FT já anunciou que não vai processá-la. O mesmo não se pode dizer do criador da fonte, Jean-François Porchez. Ele já contratou um advogado para ver o que pode ser feito.
Chupa, HADOPI!

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Cometário editorial:

Eu sempre desconfiei desses caras que defendem fervorosamente o direito autoral tal como era no século passado.
Pro governo, um pedido de desculpa basta. Mas se você baixar filmes, músicas e fontes tipográficas da net não vai adiantar pedir desculpas. E tome indenização milionária por uma meia dúzia de músicas! (ou livros, ou filmes, ou… ah, vocês entenderam).
O problema com a indústria cultural é que eles ainda não perceberam que, sem os custos de distribuição dos meios físicos (discos, livros, etc), eles deveriam investir mais na criação de mais obras e de maior qualidade. Ou baixar os preços e vender tudo pela web. Mas parece que eles preferem estrangular a galinha (os autores e os consumidores) a perder alguns ovinhos de ouro…

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