“Tribos das Asas Escamosas”

Placa VIII de "De uitlandsche kapellen: voorkomende in de drie waereld-deelen Asia, Africa en America" ou "Papillons exotiques des trois parties du monde, l'Asie, l'Afrique et l'Amérique" (Cramer & Stoll,1775/82)

Placa VIII de “De uitlandsche kapellen: voorkomende in de drie waereld-deelen Asia, Africa en America” ou “Papillons exotiques des trois parties du monde, l’Asie, l’Afrique et l’Amérique” (Cramer & Stoll,1775/82)

Esse é o título de um longo poema escrito pelo entomologista britânico Edward Newman em 1857. A inspiração, evidentemente, é entomológica. Apresentamos uma versão em português (com hiperligações para os nomes citados, quando encontrados):

Vamos dar uma volta, minha Laura,
Descendo pela Alameda Rural até o lago arbustivo,
Onde teu pai amiúde pesca
Belos besouros d’água,
Grapii e branchiatus,
Hubneri e marginalis,
Agilis e punctulatus,
Ater, Sturmii e fusous,
Belos Colymbetes fuscus,
Que minha Laura já apanhou em voo.
De lá iremos ao Burnt Ash rural.
Casualmente econtraremos com Stainton,
cercado por sua ardente classe.
E enquanto caminharmos, vou tentar ensinar-te
Algo mais acerca das Asas Escamosas.
Lepidoptera, ou Asas com Escamas,
são as borboletas e mariposas noturnas,
e nós as reconhecemos pelas asas escamadas,
e a boca, enrolada feito uma mola de
relógio sob suas caras…

[e assim vai por umas nove páginas]

…mas sua estrutura, tão anormal,
serve para indicar a sequência
das Tipulæ ou moscas-grua,
as quais devíamos ter considerado de há muito.
Este discurso sobre as Asas Escamadas terminou,
vou tomar destas ervilhacas púrpuras,
ervilhacas púrpuras, Vicia cracca,
juntá-las numa grinalda
e coroar-te como Rainha das Asas Escamadas.

Um dos mais importantes entomologistas e botânicos de seu tempo, Edward Newman (1801-1876) foi membro fundador do Entomological Club em 1826 e da Entomological Society of London em 1833. Foi também escritor, tendo publicado Birds-nesting [Nidificação de Pássaros] (1861), New Edition of Montagu’s Ornithological Dictionary [Nova Edição do Dicionário Ornitológico de Montagu] (1866), Illustrated Natural History of British Moths [História Natural Ilustrada das Mariposas Britânicas] (1869) e Illustrated Natural History of British Butterflies [História Natural Ilustrada das Borboletas Britânicas] (1871).

File:EdwardNewman.jpg

O poema apresentado acima foi extraído de The Insect Hunters [Os Caçadores de Insetos], publicado em 1861. O Stainton citado em um dos versos é Henry Tibbats Stainton (1822-1892), outro entomologista britânico. Além dessa ode ao gênero Lepidoptera, Newman também escreveu versos para os Diptera, os Hymenoptera, os Coleoptera, os Stegoptera, os Neuroptera, os Hemiptera, e os Orthoptera.

Em uma palavra [125]

adínaton (a.dí.na.ton)
s.m. Retór. perífrase que denota impossibilidade ou absurdo: “A terra subirá onde os Céus andam, / O mar abrasará os Céus e terra, / O fogo será frio, o Sol escuro, / A Lua dará dia e todo mundo andará ao contrário de sua ordem” (Antônio Ferreira, “A Castro”, ato I, III) [do grego “adýnaton” = “coisa impossível”, “impossibilidade”]

Os adínatons diferem da antítese pela completa impossibilidade de realização das imagens que cria. A antítese contrasta; o adínaton reduz ao absurdo. Dividir por zero, por exemplo, seria um adínaton matemático. Essa figura de linguagem não é exclusividade da linguagem retórica ou poética. Também são adínatons expressões do dia-a-dia: “quando as galinhas criarem dente”; “procurar pelo em ovo (ou chifre em cabeça de cavalo)”. Antônio Ferreira (1528-1569) é poeta português do Renascimento, sendo considerado o ‘Horácio’ lusitano.

>Soneto ao Nada

>Poema de Richard Porson, publicado na edição de 4 de março de 1814 do Morning Chronicle:

Misterioso Nada! Como hei-de mostrar
Vosso infome, infundado, ilocável vazio?
Nem forma, nem cor, nem som, nem tamanho traz.
Nem palavras ou dedos podem expressar vosso vozerio.

Mas embora não possamos vos comparar a algures,
Um milhar de coisas a vós podem se assemelhar.
E embora vós não estais com ninguém em nenhures,
Ainda assim, metade da Humanidade está a vos adorar.

Quantos volumes vossa história contém!
Quantas cabeças perseguem vossos poderosos ímpetos!
Quantas mãos laboriosas apenas uma porção de vós retém!
Quantos corpos se ocupam apenas com vossos projetos!

Os grandes, os orgulhosos, os vertiginosos, nada há-de dominar
E tudo — como meu soneto — em nada vai terminar.

>Literatura Médica

>

Quando o médico escocês John Armstrong (1709-1779) disse aos amigos que tinha planos de escrever um livro sobre A Arte de Preservar a Saúde todos devem ter achado uma boa ideia. O que ninguém esperava é que ele o escrevesse em versos brancos (a divisão dos versos foi mantida tal qual o original):

O lânguido estômago amaldiçoa até mesmo
A deliciosa gordura e todas as raças de óleo
Pois quanto mais oleoso, o alimento relaxa
Seu débil tônus. E a voraz linfa
(Doida para se incorporar em tudo que encontra)
Recatadamente ele mistura. E evita com escorregadias artimanhas
O cortejado abraço. Esse insolúvel óleo
Tão gentil, lento e lisonjeiro, em fluxos
De bile rançosa se esparrama: Quanto tumulto causa,
Quantos horrores levanta são nauseante para relatar.
Escolhei mantimentos enxutos, ó vós de jovial feitio!

Publicado em 1744, o poema continua assim, nessa toada, por 128 páginas dividas em quatro livros. O resultado é floreado demais para ser útil e ao mesmo tempo nauseabundo demais para ser inspirador. O Dr. Armstrong ainda insistiu mais um pouco em sua poesia mediocremente médica, mas não teve sucesso. Mas para ganhar a vida, ele teve que voltar a escrever apenas receitas: em 1760 ele foi contratado como médico pelo exército britânico que estava na Alemanha.

>A última canção

>

Enquanto está sendo desativado (ou morto) em 2001: Uma Odisseia no Espaço, o computador HAL começa a cantar “Daisy Bell”. É uma cena clássica:
A letra da música é singela:

Daisy, Daisy, give me your answer do,
I’m half crazy, all for the love of you.
It won’t be a stylish marriage–
I can’t afford a carriage–
But you’ll look sweet upon the seat
Of a bicycle built for two.

De certo modo, isso é uma ironia poética. Durante uma visita ao Bell Labs em 1961, o autor de ficção científica Arthur C. Clarke (1917-2008) havia testemunhado uma apresentação do primeiro computador a cantar. O físico John Kelly (1923-1965) havia programado um IBM 704 para cantar através de um sintetizador de voz. O nome da canção era “Daisy Bell”.

>Oração do Lobisomem

>

Segundo Sabine Baring-Gould, em seu Book of Werewolfes [Livro dos Licantropos] (1865), os versos que seguem são, segundo o folclore russo, uma invocação de lobisomens:

Aquele que deseja se tornar um oboroten, deve procurar na floresta uma árvore cortada. Deve apunhalá-la com uma pequena faca de cobre e andar ao redor da árvore, repetindo o seguinte encantamento:

No mar, no oceano, na ilha, em Bujan,
No pasto vazio cintila a lua, sobre um rebanho
que repousa em um verde bosque, em um obscuro vale
Em direção ao rebanho desvia-se um lobo desgrenhado
Os cornos do gado procuram suas brancas e afiadas presas
Mas o lobo não se volta para a floresta
Nem desce ao sobrio vale
Lua, lua, lua de chifres de ouro
Cega o voo das balas, parte as facas dos caçadores
Quebra a clava do pastor
Lança um medo pânico sobre todo o gado
Sobre os homens, todas as coisas mais aterrorizantes
Que eles não possam capturar o lobo cinza,
Que eles não possam rasgar sua pele quente!
Minha palavra é irresistível, mais irresistível que o sono,
Mais comprometedora que a promessa de um herói!

Então ele pula três vezes sobre a árvore e corre para a floresta, transformado em um lobo.
Pensando bem, isso mais parece uma oração, não é mesmo? Pagã, talvez, mas ainda tem uma estrutura muito similar à uma oração: começa com um relato, aparece um problema e clama-se a uma divindade (nesse caso, a “lua de chifres de ouro”) uma proteção invencível e uma transformação mágica em troca de uma fidelidade igualmente invencível (“mais comprometedora que a promessa de um herói”). Amém.

>Silogismos de Carroll

>

Os silogismos a seguir são parte de um livro-texto de Lewis Carroll sobre lógica. Como Carroll era um cara à frente de seu tempo, eles mais se parecem com peças de arte surrealista do que exemplos sérios de lógica.

1. Bebês são ilógicos;
2. Quem é desprezado não pode controlar um crocodilo;
3. Pessoas ilógicas são desprezadas.
Portanto, Bebês não podem controlar crocodilos.

Na verdade, o que Carroll queria mesmo era demonstrar o ponto fraco da lógica aristotélica: dadas quaisquer premissas, a conclusão será igualmente aleatória.

1. Nenhum poema interessante é impopular entre pessoas de bom-gosto;
2. Nenhuma poesia moderna é livre de afetações;
3. Todos os seus poemas são sobre bolhas de sabão;
4. Nenhuma poesia afetada é popular entre pessoas de bom-gosto;
5. Apenas um poema moderno poderia tratar de bolhas de sabão.
Portanto, todos os seus poemas são desinteressantes.

>Black Bart, o assaltante-poeta

>

Para um fora-da-lei do Velho Oeste, Black Bart era um bocado sensível. Bart, também conhecido como Charles Bolton, foi veterano da Guerra Civil (1861-1865). Seu verdadeiro nome era Charles Earl Bowles (1829-1888?); ele nasceu em Norfolk, na Inglaterra e aos dois anos migrou para os Estados Unidos com a família (os pais e mais 3 irmãs e 7 irmãos).
Depois de se casar, ter quatro filhos, abandonar a família e tentar a vida como minerador durante a Febre do Ouro e participar da Guerra Civil, Bart passou a roubar milhares de dólares das diligências nos anos 1870 e 1880. Suas primeiras vítimas o descreviam por sua polidez — ele evitava palavras de baixo calão e pedia tranquilamente ao cocheiro: “Por favor, desça da boléia.” 

Como isso nem sempre convencia, Bowles partia para a trollagem mesmo: ele virava-se para os arbustos próximos, de onde pareciam sair rifles, e dizia: “Se ele ousar atirar, dêem uma bela saraivada, rapazes!”. O cocheiro então descia, sem reagir. Quando Black Bart sumia da vista, o sujeito percebia que o que pareciam ser rifles no meio dos arbustos eram apenas galhos.
Em pouco tempo, Bart elaborou seu modus operandi: passou a escrever poesias completas para deixar na cena de cada crime. Ele deixou estes versos após um assalto na Califórnia em 1877:

I’ve labored long and hard for bread,
For honor and for riches,

But on my corns too long you’ve tread

You fine-haired sons of bitches.

[Eu laborei muito, dei duro pelo pão,

Pela honra e pelas riquezas
Mas nos meus calos vocês deram muito pisão,
Seus almofadinhas filhos-da-mãe.]

O último verso não foi lá muito polido. Mas como ele precisava de uma rima para riches (e afinal era um ladrão), vamos dar uma licença poética. No ano seguinte, Bart quase pediu desculpas pelo que fez no Oregon:

Here I lay me down to sleep
To wait the coming morrow,
Perhaps success, perhaps defeat,
And everlasting sorrow.
Let come what will I’ll try it on,
My condition can’t be worse;
And if there’s money in that box
‘Tis munny in my purse.



[Aqui me deito para dormir
À espera da vindoura aurora:
Talvez sucesso, talvez derrota
E um sofrimento interminável.
Tentarei o que der e vier,
Minha condição não pode ser pior.
E se houver dinheiro naquela caixa
É dinheiro no meu bolso.]

Em 1883, Bowles foi ferido durante um assalto e, ao fugir, deixou seus óculos e um lenço com suas iniciais na cena do crime. Investigações do detetive James B. Hume (que, ironicamente, era parecidíssimo com Bart) acabaram resultando em sua prisão.

Quando Black Bart saiu da prisão em 1888, um repórter lhe perguntou se ele voltaria a roubar diligências. “Não, cavalheiro”, ele respondeu. “Eu abandonei o crime.” Outro repórter perguntou então se ele escreveria mais poesias. Bart apenas sorriu: “Meu filho, não me ouviste dizer que eu abandonei o crime?”

Entretanto, ninguém sabe ao certo que destino Charles Bowles tomou ao sair da cadeia. Seis meses depois de ser libertado, o corpo de um assaltante não-identificado foi encontrado perto de Virginia City, Nevada. Mas dado a fama que Black Bart alcançara, seu corpo teria sido reconhecido. Há quem diga que ele realmente se aposentou e mudou-se para Nova York, onde teria vivido em paz até morrer em 1917, aos 88 anos.

Mais informações no site-tributo a Black Bart [em inglês].

>Cruz na Porta da Tabacaria

>

Não posso dizer se é verdade ou não (não encontrei nada sobre o tal Tom Klaes), mas assim que eu encontrei a estória a seguir, me lembrei imediatamente do poema de Álvaro de Campos:

O maior fumante da Europa morreu em Roterdã e deixou um testamento dos mais curiosos. Ele deixou expresso seu desejo de que todos os fumantes do país deveriam ser convidados para suas exéquias, e que eles fumariam durante todo o cortejo fúnebre. Ele pede que seu corpo seja posto em um caixão montado com madeira tirada de velhas caixas de charutos Havana. Aos seus pés, devem ser depositados tabaco, cigarro e fósforos. E o epitáfio que ele escolheu para ser posto sobre seu túmulo é o seguinte:

Aqui Jaz
TOM KLAES,
O Maior Fumante da Europa
Ele bateu seu cachimbo
4 de julho de 1872
Chorado por sua família e
todos os mercadores de tabaco
ESTRANHO, FUMAI POR ELE!
– Charles Bombaugh, Facts and Fancies for the Curious From the Harvest-Fields of Literature [Fatos e Firulas para os Curiosos, dos Campos Cultivados da Literatura], 1905

>Ode ao… ao… sujeito cujo nome nunca me lembro

>

Uma vez — não importa quando,
Nem onde  — Viveu um homem,
Um homem chamado  —  lembrando
agora isso me some.


Ele, bem, ele havia nascido
e vivia com afinco.
Sua idade  — eu não sou preciso  —
Era alguma coisa e cinco.


Ele viveu — por quanto tempo
Não consigo te dizer;
Mas um fato aparece sem contratempo:
Ele viveu até morrer.


Ele morreu, te digo
Você pode não acreditar,
Mas que ele está num jazigo
Isso eu não posso inventar


Ele teve um filho, juro!
Ouvi falar de uma mulher,
Talvez até outra, te asseguro
Mas, ó vida, não sei dizer!


Fosse ele rico
Ou fosse ele pobre
Ou gato ou rato ou mico
Não consigo dizer, não me cobre!


Não me lembro de seu nome
Nem como era sua aparência
Por favor, tenha paciência!
Vamos nos servir de seu renome.


E assim é que eu me perco
Falando desse homem desconhecido.
Eu derrubaria um cerco
Para salvar esse esquecido


Das sombras do esquecer
E achar alguma lei
Mas… Ah! eu não sei
O quem, o onde, o quando, o que — ou o porquê


MORAL:


Um epílogo vamos ter,
Uma moral devemos encontrar
Mas qual devia ser
Acaba de me escapar!


– William T. Dobson, Literary Frivolities, Fancies, Follies and Frolics [Frivolidades, Fantasias, Tolices e Firulas Literárias], 1880

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