>Decoro parlamentar

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Thomas Coke, 2º. conde de
Leicester e recordista mundial
 de decoro parlamentar
Thomas Coke (1822-1909), segundo conde de Leicester foi membro do parlamento britânico por 67 anos, de 1842 a 1909 — sem dizer uma única palavra.
Seu filho, Thomas William Coke (1848-1941), o terceiro conde, manteve-se em silêncio por 32 anos. O quarto conde, também chamado Thomas William Coke (1880-1949) e também não disse nada durante 23 anos.
Por fim, o quinto conde de Leicester, Thomas William Edward Coke (1908-1976) ficou quieto no parlamento por 22 anos. Só se manifestou em 1972, quando disse: “Eu espero que nós iremos usar [substâncias] químicas mais seguras no lugar daquelas que tem devastado o campo.”
Mais tarde ele declarou que seu “recorde de silêncio não é de modo algum notável, pois sei que minha família não tem sido muito barulhenta nesta Casa.”

>Antimétrica

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A aritmética decimal é uma invenção dos homens para a contagem dos números e não uma propriedade do tempo, do espaço ou da matéria. Ela pertence essencialmente à manutenção da contabilidade, mas é um mero acidente das transções do comércio. A natureza não tem parcialidade pelo número 10. A tentativa de agrilhoar sua liberdade com eles [os decimais] sempre se provará abortiva. — John Quincy Adams, Secretário de Estado dos Estados Unidos, em recomendação contrária ao sistema métrico decimal, em 1821; citado em Chambers’ Edinburgh Journal, 15 de maio de 1852

Outra pérola do então secretário de Estado foi a chamada Doutrina Monroe. Filho do ex-presidente John Adams, Quincy Adams (1767-1848) foi  eleito presidente dos Estados Unidos em 1824. A eleição de Adams em 1824 foi, a seu modo, a versão oitocentista da polêmica eleição de George W. Bush (outro filho de um ex-presidente) em 2000. O vencedor, tanto no voto popular quanto no colégio eleitoral foi Andrew Jackson (1767-1845). Mas a vantagem de Jackson foi considerada insuficiente para elegê-lo e Adams foi eleito de forma indireta, pelo Congresso, no que foi considerado uma “barganha corrupta”. Porém, sem um ataque terrorista em solo americano para ajudá-lo, Quincy Adams perdeu a eleição seguinte para o próprio Andrew Jackson.

>Confirmado: deus está em baixa

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Deus: um declínio

Uma agência de pesquisas americana, a Public Policy Polling cansou-se de fazer sondagens populares sobre os políticos e, durante uma enquete sobre diversas figuras em evidência na mídia, finalmente fez a grande pergunta: “Se Deus existe, você aprova ou desaprova sua atuação?” Realizada entre 15 e 17 de julho, a pesquisa revelou que 52% dos 928 entrevistados aprovam a atuação de Deus. 40% estão indecisos e 8% o desaprovam. A margem de erro é 3,2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Alguns aspectos do divino governo também foram pesquisados. Questionados sobre a performance de Deus na criação do Universo, 71% aprovam; 5% desaprovam e 24% não souberam opinar. Entretanto, quanto mais se aproximam do mundo humano, mais cai a aprovação para as ações de Deus: só 56% aprovam o modo como o Todo-Poderoso cuida do reino animal e apenas metade do público aprova a atuação do Criador quanto aos desastres naturais. Infelizmente, porém, não foram feitas perguntas sobre as ações de Deus diante de problemas que afetam diretamente os humanos, como fome, miséria, violência, guerras (inclusive as santas) e segunda-feiras. Sem surpresa, os jovens entre 18 e 29 anos são mais críticos com relação a Deus; os maiores de 65 são os que mais o aprovam.
Embora tenha sido feita apenas nos Estados Unidos (#ficaadica, Ibope!) podemos depreender o seguinte: 1) Dados similares no Brasil mostrariam que Lula — que teve amplo apoio dos evangélicos — aparentemente foi maior que Deus (se é que não continua sendo); 2) Na prática, pode-se concluir que quase metade do público (norte-americano), 48%, é ateu ou agnóstico.

Nunca antes na história deste universo o PC (Partido Celestial) esteve tão em baixa — ao menos nos Estados Unidos, onde o criacionismo ainda é divulgado em escolas a título de “ensinar a controvérsia”. Aparentemente, a  tática não tem dado muito certo… Levando-se em conta a margem de erro e a popularidade divina em baixa na Europa e na Austrália já há algum tempo, a reeleição de Deus estaria ameaçada se o cargo-mor do Universo fosse eletivo. Felizmente, para ele e infelizmente para nós, seu governo é uma monarquia absolutista e autocrática (se existir, é claro).

Procurado pela nossa reportagem, Deus não se manifestou. Nem São Pedro, nem os anjos, nem o herdeiro hippie, Jesus Cristo. Seus relações-públicas na Terra, entre os quais estão o Papa, o Dalai Lama e o bispo Edir Macedo também não comentaram os resultados da pesquisa. Aos berros, o pastor ali da esquina disse que isso é tudo intriga da oposição e que pesquisa é “coisa do demo”. Ainda não há dados sobre a popularidade do líder da oposição, Satã, que também não concedeu entrevista. O relatório completo da pesquisa poder ser visto aqui — não, não naquele “aqui”, neste “aqui”.

>A indústria ‘brasileira’ está com medinho

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Durante sua breve presidência, Fernando Collor declarou que nossos automóveis eram “umas carroças” e, com o objetivo de estimular o desenvolvimento e a queda nos preços, acabou com o protecionismo dado à “nossa” indústria automobilística e abriu as portas para a importação. Duas décadas se passaram. Apesar de alguns avanços — mais estéticos do que mecânicos —, nossos carros continuam defasados. Mesmo assim, as montadoras reclamam dos importados. Entre proteger uma indústria defasada e apoiar a concorrência do Mercosul e a pesquisa e o desenvolvimento, Dilma escolheu proteger os fabricantes estrangeiros de carroças.

Em duas décadas de competição ora mais ora menos justa com os importados, as indústrias automobilísticas que têm fábricas no Brasil pouco avançaram. Para ajudar ainda mais, o governo aumentou os impostos sobre os veículos ao longo dos últimos anos. Mesmo com uma “inflação controlada”, o preço do carro mais barato do mercado nacional — o Fiat Uno/Mille — mais do que dobrou, passando de R$ 11.116,00 em 1999 para mais de 23.220,00 hoje. Isso, claro, tratando-se de  um projeto com mais de 25 anos e de um modelo bem basicão — que saiu de linha na Europa em 1995!

Modernização Conservadora Em vez de se manter atualizada, com carros do mesmo nível dos importados (ou até se esforçando para produzir algo melhor), o que aconteceu com a indústria automotiva no Brasil foi justamente o contrário. O mesmo marasmo que vigorava na era pré-importação continuou e continuou e continuou. A ausência de importados foi o que permitiu, entre outros absurdos tecnológicos, que o brasileiro continuasse comprando carros com carburador até bem depois do fim da importação: em 1996, ainda comprava-se um Fusca carburado. Zero quilômetro.
Sem importações, o Opala manteve-se praticamente inalterado por quase um quarto de século. Independente do ano de fabricação, o Opala, fabricado de 1968 a 1992, era essencialmente o mesmo. A importação deveria ter melhorado esse cenário, mas não foi isso o que se viu. O Santana e o Vectra, carros teoricamente dirigidos a um público mais exigente, permaneceram na mesma por mais de uma década. O modelo da VW foi renovado em 1992 — quatro anos depois do modelo europeu — e se manteve intacto até uma discretíssima despedida em 2005. O da GM, que estreou sem qualquer defasagem em 1996, causando frisson no mercado, também permaneceu intocável até 2005. A indústria diz que nós amamos modelos longevos.
Talvez seja verdade, dado o conservadorismo tipicamente nacional. Mas será que mesmo um público como os consumidores iniciais de Santana e Vectra — gente capaz de viajar para o exterior, por exemplo — gostam de saber que estão comprando um modelo defasado em relação às matrizes europeias ou americanas? É óbvio que não. Um dos motivos que levou à maxidesvalorização do real em 1998 foi a crescente importação de veículos. Os importados compensavam muito mais.

Brasília em ponto-morto Como compensam agora. Novamente, a sociedade inteira corre o risco de uma séria crise econômica por que nem o governo nem as montadoras querem se mexer. Por seu lado, o governo sabe que a solução está no corte de gastos e redução de impostos. Isso foi claramente demonstrado quando o IPI reduzido transformou “tsunami em marolinha” após a crise de 2008. Se isso pôde ser feito em tempos de crise, por que não se mantém em época de recuperação?
Por que o governo não quer fazer sua parte reduzindo seus gastos e realmente punindo envolvidos em corrupção. Do corte de gasto de R$50 bilhões anunciado logo no início do governo Dilma, nenhum centavo iria pagar supersalários de deputados, senadores e ministros. Dilma não forçou nenhum dos três poderes a respeitar o teto do funcionalismo público. Vinte anos depois de Collor, os marajás continuam aí, livres leves e soltos. Em vez de excomungá-lo — ou até lutar para que ele fosse condenado pela Justiça — o PT acaba de readmitir com festa Delúbio Soares, o tesoureiro do mensalão. Graças às manobras de José Dirceu, o pseudo-Che Guevara.
Como naquele irônico comercial da Nissan (“o luxo todo é do dinheiro de vocês!”), a indústria automotiva — que de nacional nunca teve nada — usa orgulhosamente os lucros obtidos com produtos obsoletos aqui no Brasil para salvar sua pele lá fora. Como não há investimento nem incentivo para inovação por aqui, a qualquer sinal de concorrência, as montadoras correm pedir proteção ao papai (ou agora seria mamãe?) governo. Tá todo mundo com medinho de carros argentinos.
Entretanto, parece que ninguém teme os chinesinhos. Embora os preços sejam baixos, especialmente entre os “populares”, ninguém teme uma invasão chinesa exatamente por que o que está chegando da China é o mesmo que temos no Brasil.  Tanto lá quanto cá, o que se fabrica são modelos de baixa qualidade e pouco inovadores, que já saíram de linha há muito em seus mercados de origem. 
Isso quando não são carros pirateados. O Cherry QQ, por exemplo, que se vende como o mais barato do Brasil, é uma cópia descarada do Daewoo Matiz produzido entre 1998 e 2008 na Coréia do Sul e exportado para a Europa até 2004 (sob uma plétora de outros nomes e graças à balbúrdia chamada GM, o carrinho ainda é vendido pela Chevrolet em diversos países). O JAC J3, que é anunciado como “inesperado” tem um visual muito pouco surpreendente perto do Hyundai i30 (que, por sua vez, também é supervalorizado pela publicidade).

Que País é Este? Não bastasse tudo isso, o próprio Poder Executivo parece se esquecer que este país é uma República Federativa, uma união de Estados autônomos no plano interno. Mas na República Federativa do Brasil, os Estados simplesmente não têm o direito de reduzir seus próprios impostos para competir livremente entre si. Tal qual Lula (e até FHC), Dilma faz de tudo para evitar guerras fiscais entre os 27 Estados, mesmo sabendo que isso estimularia a competividade, descentralizaria a indústria (e não apenas a automobilística), gerando mais empregos e preços menores.  Apesar disso, deputados, senadores e governadores não parecem muito incomodados com o catastrófico gigantismo político-econômico do governo federal. Muito se fala em “pacto federativo”, mas ninguém defende um federalismo de facto.
Nós temos uma matriz energética que faz muito sucesso lá fora, mas tanto o governo como a indústria parecem achar que isso é o suficiente e que apenas carros flexíveis vão ajudar a salvar o planeta. Entretanto, mesmo com o petróleo pesado do Pré-Sal — excelente para a produção de óleo diesel — os econômicos carros a óleo continuam proibidos sob a desculpa de que atrapalhariam o transporte de cargas no país. Ninguém no governo deve ter percebido que  a competição entre carros e caminhões faria o preço do diesel cair naturalmente, sem precisar dos atuais subsídios estatais.
Embora haja subsídio para o álcool e até para o detestado óleo diesel, não há nenhum incentivo fiscal para fabricação, pesquisa e desenvolvimento de carros híbridos ou elétricos no Brasil — e em alguns Estados até os adorados carros flex pagam o mesmo imposto de veículos a gasolina, ainda que na prática só usem álcool. Sendo assim, apenas para falar em “populares”, Gol (já trintão), Palio e Ford Ka (com uma década e meia nas costas), que já deviam estar sendo substituídos, devem ter pelo menos mais uma década de vida.
Ninguém vai achar ruim mesmo, por que não existe consumidor exigente abaixo da linha do Equador.

>Vista Grossa

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Não é de hoje que o governo norte-americano faz vista grossa a uma ameaça de ataque em seu próprio território para entrar em uma guerra. Em 7 de janeiro de 1941, exatos 11 meses antes do ataque japonês a Pearl Harbor, o embaixador Joseph Clark, mandou o seguinte telegrama para o Departamento de Estado:

Um membro da Embaixada foi informado por —– meu colega que em muitos quartéis, inclusive em um japonês, ele ouviu que um massivo ataque-surpresa em Pearl Harbor estaria sendo planejado pelas forças militares japonesas em caso de “problema” entre o Japão e os Estados Unidos. Tal ataque envolveria o uso de todas as instalações militares japonesas.

Washington não fez nada, pois o governo de Franklin Roosevelt sabia que somente um ataque direto convenceria a opinião pública norte-americana a se envolver na II Guerra Mundial. Ironicamente, sessenta anos depois os Republicanos — que faziam oposição a Roosevelt e defendiam a postura isolacionista — usaram do mesmo artifício diante das crescentes ameaças de ataques terroristas islâmicos nos EUA. Em 2001, eram os Republicanos que queriam uma guerra.

Uma guerra errada, como se viu (duas, na verdade). Bin Laden pode ter sido extremamente estúpido em abandonar a vida de playboy de petrodólares por um fundamentalismo religioso odiento. Mas ele não se tornou um simples guerrilheiro; foi um gênio por se esconder no Paquistão. Por outra ironia do destino, os militares americanos caíram na própria armadilha que criaram na Guerra Fria. Eles jamais ousaram atacar o Paquistão, por que ainda acreditavam em um antigo aliado na luta contra o comunismo seria confiável. Ainda mais um aliado com um arsenal nuclear. Assim, se Washington tivesse lutado pelo desmantelamento completo do arsenal nuclear em todo o mundo — Israel inclusive — nos anos 90, pegar o terrorista número 1 teria sido bem mais fácil (e barato, pois dez anos de uma guerra infrutífera ajudaram e muito a botar a economia americana de joelhos).

Ficou bem claro agora que os Estados Unidos desmantelaram o sistema errado quando Moscou caiu. A CIA pós-soviética já não era a mesma: acomodou-se com a suposta postura de única superpotência e abriu mão de infiltrados e clássicas estratégias de espionagem em favor de equipamento high tech. Quando os alertas sobre o 11 de setembro surgiram já era tarde e, como se viu, foram ignorados por uma mistura estúpida de conservadorismo político-econômico e fundamentalismo religioso.

>50 Anos-Lesma

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A ausência do homem no espaço é sinal de que desperdiçamos uma chance enorme de evoluir. Garantir a autodestruição é sempre mais fácil, seguro e barato do que adaptar-se aos novos tempos.
Há meio século, Yuri Gagarin foi o primeiro a chegar aonde nenhum homem jamais estivera — o Espaço Sideral. Parecia ser o início de uma nova era, há muito imaginada pelos autores de ficção científica. Essa seria a nova Era das Grandes Navegações, que agora se desenrolariam no vasto profundo Oceano Cósmico. Mas ao contrário do louvor camoniano, “se mais espaço houvera, lá não chegara.”
Pois cinquenta anos depois do primeiro homem no espaço, colônias de férias na Lua, cidades em Marte e mineradores no Cinturão de Asteróides ainda são fantasias distantes da realidade. Viagens espaciais são hoje algo tão excepcional que ainda nos lembramos do nome do primeiro viajante (compare com as viagens de trem, por exemplo. Alguém ainda se lembra do primeiro passageiro?)



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Yuri Gagarin: se a exploração espacial fosse
bem-sucedida, ele não deveria ser lembrado.
Onde foi que erramos? O que foi que nos faltou? Jovens ousados, cheios de espírito explorador e desafiador certamente não devem ter faltado nesses cinquenta anos. Tampouco houve falta de foguetes capazes de levá-los com segurança à Lua e, possivelmente, a Marte e trazê-los de volta. Então faltou o quê? Ousadia? Arrojo? — Amarelamos?
Faltou dinheiro. Money, grana, bufunfa, casacalho, moeda mesmo. Só isso. E esse dinheiro não faltou por que estivemos resolvendo nossas próprias bagunças — como pobreza e miséria — antes de sair de casa. Pelo contrário, o planeta está mais bagunçado do que nunca. E pra onde foi todo aquele dinheiro?
Segundo dados do Center for Defense Information, 13,1 trilhões de dólares foram gastos apenas nos Estados Unidos entre 1948 e 1991. A média anual era de US$ 298 bilhões. Parece razoável crer que os russos gastaram a mesma quantia, se não mais. Trilhões de dólares — sem contar milhares de vidas humanas — foram desperdiçados pela paranóia dos políticos e dos militares americanos e soviéticos, que controlaram este mundo durante grande parte das últimas décadas.
Para comparação, a NASA custa apenas uns 8,3 bilhões de dólares por ano. Esse é o orçamento médio desde a fundação da agência espacial americana, em 1958, o custo total somaria US$ 440 bilhões, o que representa 3,3% do total desperdiçado pelos americanos durante a Guerra Fria. Parece razoável estimar que o mesmo é válido para o programa espacial soviético/russo. Portanto, EUA e URSS gastaram até 26 trilhões de dólares para garantir a destruição mútua. Para explorar o espaço, coisa que poderia (e deveria) ser feita em cooperação internacional, a estimativa para ambos soma pouco mais de 1 trilhão.
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Montar a humanidade em bombas atômicas:
para políticos e militares, é divertido. E barato.
Era de ouro em anos de chumbo Cinquenta anos de progresso e coexistência pacífica, de erradicação da fome  e das doenças mais graves e de expedições espaciais cooperativas foram simplesmente transformados numa era sombria, cheia de medo, desconfianças, ódios e enormes dívidas. Líderes políticos e militares conseguiram uma façanha alquímica: transmutaram uma era de ouro em anos de chumbo. Após se armarem com milhares de ogivas nucleares e mísseis intercontinentais, russos e americanos perceberam que seus esforços foram tão bem-sucedidos que se tornaram inúteis. O poder de destruição criado foi tamanho que, felizmente, nenhum dos lados apertou o botão que traria a vitória e a derrota definitivas. Mas o preço foi alto.
A bomba que explode agora é outra: é a fissão incontrolável de seis — sete — bilhões de seres humanos vivendo no mesmo planeta, em condições não apenas cada vez mais desiguais, mas cada vez piores. US$ 30 bilhões por ano evitariam uma crise global de fome; mas o mundo ainda prefere desperdiçar mais de US$1 trilhão por ano com gastos militares. Se realmente houvesse inimigos externos, essa quantia seria justificável. Mas não é.
Gastos militares no mundo
Orçamento militar mundial: de volta aos níveis da Guerra Fria. Os milicos não sofreram com a crise.
De ambos os lados da antiga Cortina de Ferro, a exploração de recursos naturais (e até mesmo as tentativas de controle do clima) foi abusiva a ponto de desequilibrar um sistema planetário inteiro. Em grande parte, a responsável por tudo isso foi justamente aquela geração que sonhava em mudar o mundo com paz e amor. Esteve mais para sexo, drogas e rock’n’roll do que para verdadeira contestação e mudanças. As gerações atuais — inclusive a deste autor —, com seu consumismo quase autista, também não são muito melhores. Em vez de colônias de férias na Lua, nos trancamos em condomínios fechados ou subimos o morro (mas ainda nos perguntamos sobre nossos carros voadores).
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Estação Espacial Internacional: nem estação, nem espacial nem internacional.
A passo de lesma É por tudo isso que não temos razões para comemorar o primeiro jubileu da Era Espacial. A exploração da Terra vai bem, mas estamos a passo de lesma em termos de exploração extraterrestre. Nesse momento os homens mais distantes do planeta Terra estão a apenas 340km acima do solo, numa estação orbital (não espacial e bem pouco internacional). A missão mais longa, em 2006-2007 durou 215 dias, ainda menos que um ano. Com pouca gente passando tão pouco tempo “fora” e em algo tão próximo da Terra, é difícil acreditar que algum dia nos adaptaremos ao ambiente espacial.
Porém, nosso maior empecilho para mandar uma dúzia de pessoas, de diversas nações, para Marte (ou mesmo para a Lua) continua meramente econômico. Todos os recursos econômicos e humanos que poderiam ser usados para manter astronautas por todo o Sistema Solar foram desperdiçados na criação, construção e manutenção de meios para nos autodestruir. O desperdício foi tamanho que é impossível recuperá-lo. Afinal, não podemos vender ogivas, mísseis e submarinos nucleares para fabricar naves espaciais. Pelo visto, não se pode nem desmontá-los e aproveitá-los como propulsão atômica.
spaceodyssey
Dave ficaria abismado. Por não existir.
Estamos abismados Chegamos à beira do precipício da autodestruição. Perdemos muita coisa, mas parece que relutamos em dar meia-volta e seguir um caminho mais seguro e promissor. Em vez de começar a navegar em direção às estrelas, continuamos a correr em volta das mesmas estradas de terra batida. Nossas divergências políticas, econômicas, étnicas, sociais, culturais, religiosas e até mesmo sexuais nos parecem mais importantes que tirar bilhões de pessoas da miséria e, ao mesmo tempo, modificar profundamente nosso modelo de civilização a fim de nos salvar. Já nos salvamos uma vez e podemos fazê-lo novamente.
Ainda evitamos todos os desafios mais sérios como evitamos a imponderabilidade do espaço. É realmente mais barato e mais seguro enviar emissários robóticos a Marte. Mas fazer isso ao longo de quarenta anos é tão barato e tão seguro quanto fabricar uma dúzia de robôs em vez de educar, alimentar, dar abrigo, transporte e saúde a uma centena de operários (ou seriam desempregados?) e suas famílias pelo mesmo período.
Nossa ausência no espaço é apenas um reflexo de nossa ausência dentro da sociedade. O mais irônico de tudo isso é notar como fomos generosos em financiar a criação de meios para nos autodestruir, para aprofundar nossas diferenças. Agora temos que ser austeros e cortar os “gastos” dos quais pode depender a nossa própria sobrevivência. Podemos cometer verdadeiros genocídios sociais, mas se (ao menos no papel) os orçamentos estiverem bem, não há qualquer problema nisso. Como as estrelas, somos apenas números mesmo.

>O Paradoxo da Lealdade

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Tal como a modéstia, a lealdade pode ser um comportamento paradoxal.

Você tem lealdade por alguém quando está ligado a essa pessoa por algum laço: de família, de amor, de amizade, de trabalho, ou de propósito. Lealdade é um ideal e, idealisticamente, você sente que tem um dever com essa pessoa. Mas ao apoiá-la incondicionalmente, você se submete ao bem-estar de outro indivíduo — e isso é o oposto do idealismo, é um anti-ideal.

“À primeira vista, apresentamos o agente leal como alguém louvável de um ponto de vista imparcial.”, escreve o filósofo cientista político irlandês Philip Pettit. “Um olhar mais apurado pode ver motivo para preocupação. [...] Ser leal é ser dedicado ao bem-estar de um indivíduo em particular e isso parece conflitar com a noção de que o leal é um idealista.”
Pettit não deixa de estar certo, mas só até certo ponto. Ser leal não significa, necessariamente, perder inteiramente a própria liberdade, tornando-se submisso. Como há várias camadas de lealdade, você pode, por exemplo, se considerar leal ao seu país, mas não ao seu governo. É esse tipo de lealdade que geralmente move revolucionários — como a juventude árabe dos dias atuais.

>Propina.exe

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Philosoraptor geekii
Se a extensão do arquivo for igual à sigla de qualquer partido político brasileiro (.pmdb, .pt, .dem, etc), esse hack funciona.

>Voto de Pobreza

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Por que a população do Vaticano não derruba o papa? Porque o ”povo” vaticano
 vive rica e fartamente com a renda de suas ovelhinhas.

>Próximo!

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Na China, os professores de religião precisam agora pedir uma autorização antes de serem reincarnados.
O decreto, em vigor desde 2007, especifica que os pedidos devem ser submetidos a quatro repartições públicas distintas. Segundo a lei, “A seleção de reincarnados deve preservar a unidade nacional e a solidariedade de todos os grupos étnicos. O processo de seleção não pode ser influenciado por qualquer grupo ou indivíduo de fora do país.”
Por bizarro que seja, o Estado chinês, oficialmente ateu, reconhece a reincarnação. Mais que criar escritórios ociosos cargos burocráticos, a medida é política. Como apenas reincarnações “nacionais” e certificadas pelo governo chinês são válidas, isso significa que caberá a Pequim decidir quem será o próximo Dalai Lama. O governo chinês acredita que com um líder escolhido, criado e doutrinado pelos comunistas, o movimento separatista do Tibete deve enfraquecer.
Moral da história: embora não admita, a China está aprendendo muito com os norte-americanos. A começar pelas leis bizarras e pelas fronteiras nebulosas entre Estado e Religião.

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