Em uma palavra [147]
acrasia (a.cra.sia)
s.f. 1. falta de vontade-própria; falta de autocontrole; desregramento; inconstância; incontinência. 2. ação de uma pessoa que contraria seu melhor juízo, e.g., o marido que trai mas sabe que está errado. Acrásico, adj. [do grego akrasia = ausência de comando]
Sócrates já conhecia o conceito, mas perguntava-se como a acrasia seria possível. Ele considerava paradoxal o ato de julgar que A é a melhor coisa a fazer seguido do ato de fazer não-A (ou anti-A). Uma solução simples e comum para este impasse é que, simultaneamente, há diferentes motivações em cada pessoa: razão e emoção (ou ponderação e impulsividade). Também pode haver alguma pressão social nesse tipo de atitude (mesmo a contragosto, o marido pode trair porque esse é o papel que se espera dele).
Muitos tomam a acrasia como sinônimo de fraqueza de vontade, mas isso nem sempre é verdade. O fumante que num momento pensa em parar de fumar porque faz mal, mas no seguinte conclui que é melhor manter o vício pelo prazer tem vontade fraca, mas não é acrático. Ele muda de ideia, mas não se sente culpado. Uma definição mais clara de acrasia talvez seja a insistência em fazer algo que se considera errado, ainda que com alguma dose de remorso ou arrependimento.
Em uma palavra [141]
lipemania (li.pe.ma.nia)
s.f. Psico. melancolia mórbida; loucura triste, que pode levar ao suicídio. lipêmano ou lipemaníaco, adj. morbidamente melancólico, gravemente deprimido; extremamente triste, pesaroso. [do lat. lypemania, formado do greg. lýpé = pena, tristeza e manía = mania, loucura]
Em uma palavra [135]
egossintonia (e.gos.sin.to.nia)
s.f. Psiq. estado mental em que os impulsos do id são admitidos tanto pelo ego quanto pelo superego; personalidade harmônica ou equilibrada, que se ajusta à imagem que a pessoa tem de si mesma. egossintônico, adj. que ou aquele que apresenta seu comportamento e seus pensamentos de acordo com a representação que tem de si mesmo. [da fusão de ego + sintonia, por sua vez derivados do latim ego = eu e do grego sintonia = união de forças, intensidade]
O estado oposto é a egodistonia [de ego + distonia = distúrbio, fraqueza]: quando os pensamentos, impulsos, atitudes e comportamentos contrariam ou perturbam a própria pessoa. Conflito entre o id e o ego. Um egodistônico clássico é o homossexual que não aceita a própria sexualidade.
[verbete indicado por comentário na palavra da semana passada e que só foi publicado agora para não estragar a surpresa]
Patentes Patéticas (nº. 68)

A senhora acabou de casar com um príncipe encantado mas teve a infeliz descoberta de que ele ronca feito um sapo asqueroso? E o senhor? Está cansado de ser rejeitado pelo ruidoso ressonar? Vossos problemas acabaram! Ao menos é o que diria Gilbert S. Macvaugh, inventor do Snoring deconditioning system and method [Sistema e método de descondicionamento de ronco], cujos princípios são Continue lendo…
Em uma palavra [112]
eutimia (eu.ti.mia)
s.f. sentimento de perfeito estado de espírito; tranquilidade; serenidade; sossego. eutímico, adj. Cf. com distimia, depressão crônica [do grego euthymia]
Patentes Patéticas (nº. 63)
Quando se trata de disciplinar as crianças, os pais modernos têm um monte de dúvidas. Elas devem ou não ser punidas por seu comportamento (ou falta de)? Se sim, como deve ser a punição: física, moral, psicológica ou uma combinação de todos? O conflito com os pais é sempre problemático, criando sentimentos de vingança entre os filhos? Castigos destroem a família? Como lidar? Tentando resolver todos esses problemas, tornar o processo de punição divertido para as crianças e ainda ganhar uma grana, o casal americano Jose e Mary Jo Gonzalez inventou a Punishment Wheel [Roda dos Castigos], formada por Continue lendo…
Patentes Patéticas (nº. 51)
Modificar o comportamento de alguém é algo complicado, que leva tempo. Comportamento, tempo… Comportamento, tempo… Percebendo essa tênue correlação, Neil W. Decker (de Eagle, Idaho) inventou o que considera a maneira mais efetiva, prática e barata de mudar qualquer comportamento de qualquer pessoa – o “Behavior Modification Wristwatch” ou “Relógio de Modificação de Comportamento”:
Um relógio de modificação de comportamento (10) apresentado tem um corpo (11) modelado em forma de um octógono, inclui uma face pintada de vermelho e com a palavra “stop” pintada nela para lembrar um sinal de trânsito e, assim, servir como constante lembrete consciente e inconsciente para que o(a) usuário(a) pare com seu comportamento destrutivo. O relógio (10) inclui três mostradores digitais: um mostrador de relógio (16), para apresentação de funções cronológicas normais, como a hora do dia, a data, o dia da semana, a hora do alarme, etc; um mostrador de contagem (17) para exibição e contagem do tempo decorrido em dias, horas e minutos desde que o indivíduo abandonou o comportamento destrutivo; e um mostrador alfa[bético] multi-caracter (18) para exibição de palavras ou frases de reforçamento positivo após certos períodos de tempo. O relógio (10) também inclui um alarme audível (34) para gerar um sinal auditivo responsivo tanto para o alarme de tempo comum quanto para a mudança do mostrador de reforçamento positivo (18) de uma frase para outra para chamar a atenção do usuário e facilitar a experimentação de um senso de cumprimento do dever.
Quem já estudou o básico de teorias psicológicas é capaz de perceber facilmente, através dos termos “reforçamento positivo” e “sinal responsivo”, que o relógio modificador de comportamento de Decker é uma invenção essencialmente behaviorista.
Entre as justificativas apresentadas em 28 de dezembro de 1992 no que se tornaria a patente 5.285.430 em 8 de fevereiro de 1994, Mr. Decker diz que as pessoas sempre foram atormentadas com comportamentos fisica, emocional ou moralmente destrutivos. Entre os exemplos citados, há os comportamentos de alcoolismo, drogadição, tabagismo, abuso físico, sobrealimentação, preguiça, jogatina, xingamentos, discriminação, abusos emocionais e “certo comportamento sexual” — este último, embora não especificado, poderia ser o homossexualismo já que abusos sexuais aparentemente entrariam na categoria de abusos físicos.
Decker ainda relata a crescente popularidade de programas de controle de tais comportamentos, como dietas ou terapias (não fica claro se ele considera inúteis apenas as terapias científicas ou apenas as pseudocientíficas ou ambas). No entanto, ele afirma que “embora uma pessoa em particular tenha um desejo relativamente intenso de abandonar um comportamento destrutivo”, os meios para isso “podem ser realmente contraproducentes”, já que “diferentes pessoas reagem a diferentes estímulos.”
Ironicamente, porém, Mr. Decker oferece justamente uma solução universal, um relógio-alarme-panaceia cujos únicos estímulos para todos os comportamentos que se propõe a resolver são uma meia dúzia de frases ou palavras de auto-ajuda apresentadas de hora em hora e um ridículo mostrador em forma de placa de trânsito. Ainda que as frases ou palavras possam ser modificadas de acordo com o caso, não deve ser muito efetivo.
O sistema de contagem de tempo passado desde que o usuário abandona um hábito pode ser mais poderoso, mas não é lá muito prático. Se você está tentando parar de fumar, por exemplo, tem que lançar esse cronômetro especial assim que toma a decisão. Se tiver uma recaída, o relógio evidentemente não vai parar a contagem sozinho — será necessário zerar a contagem e começar tudo de novo. Obviamente, isso é mais frustrante do que recompensador.
Além tudo isso, o uso puro e simples de um relógio já pode ser uma fonte de estresse e até mesmo de alguns dos “comportamentos destrutivos” – como o fumo ou os xingamentos ou a preguiça. Quanto às frases motivacionais, uma apresentação mais artística (e sem alarmes irritantes) — como os cartazes da série Keep Calm and Carry On — deve ser mais barata, divertida e bonita do que um relógio que grita “pare!” a toda hora.
Em uma palavra [96]
morósofo (mo.ró.so.fo)
s.m. 1. um sábio idiota: alguém de educação pobre com eventuais iluminações filosóficas. 2. pejorativamente é um pseudo-filósofo, um filósofo pedante. Morosofia, s.f. espécie de loucura tranquila e lúcida. Morosofada, s.f. neolog. o “insight” filosófico de um morosofo; cf. filosofada. [do grego moros = tolo, néscio, louco + sophos = sábio, prudente]
BÔNUS: O insulto inglês moron – estúpido, retardado – vem da mesma raiz grega e originalmente era um termo técnico que significava “retardo mental brando” em psicologia.
OBSERVAÇÃO: Não estou certo quanto à pronúncia. Não sei se é /morósofo/ (como filósofo) ou /morôsofo/ (como moroso, palavra com a qual não há nenhum parentesco etimológico).
UPDATE (23/03): Como bem lembrou o Roberto nos comentários, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) registra a forma Morósofo. O post foi corrigido para incluir o acento.
O lado sombrio do penhasco branco
Parece mais uma idílica paisagem de wallpaper, não é mesmo? Mas esse típico pedaço do litoral sul inglês tem uma fama nem um pouco idílica. Com 162 metros de desnível em relação ao mar, Beachy Head é o maior penhasco calcário da Grã-Bretanha. Por isso mesmo, é também uma atração turística e tem um ponto de ônibus convenientemente próximo do ponto mais alto da falésia.
Ironicamente, essa combinação de grande altura, facilidade de acesso e beleza cênica tem contribuído para o lado sombrio de Beachy Head. Este é o local com o maior número de suicídios cometidos por ano em todo o Reino Unido — 20, em média.
Esse turismo de suicidas obviamente chamou a atenção das autoridades. Hoje o local conta com uma cabine telefônica especial, em linha direta com um centro de apoio psicológico. Além disso, o belo penhasco branco é constantemente patrulhado por voluntários que buscam evitar o êxito dos que querem se matar.





É um punhado de material cósmico, composto principalmente de carbono e hidrogênio, um animal, cordado, mamífero, primata, hominídeo pensante (cof,cof...) que não tem a mínima ideia do que está fazendo no mundo (ou do que é o mundo) e de quem é.