Bob McCoy e seu Museu de Fraudes Médicas

File:Electro-metabograph machine.jpg

Electro-metabograph: impressionante, mas inútil.

Allure Bust Developer, Battle Creek Vibratory Chair, Crystaldyne Pain Reliever, MacGregor Rejuvenator, Micro-Dynameter, Prostate Gland Warmer, Psychograph, Recto Rotor, Relaxacisor, Vibrometer… Parece uma série de produtos do Polishop. De certo modo, todos essas marcas foram mais ou menos isso em suas épocas. O que todas tiveram em comum? Elas eram vendidas em catálogos e prometiam alguma cura de forma completamente pseudocientífica. Continue lendo…

O matemático lunático

Sendo um dos mais famosos matemáticos franceses de sua época, era natural que Jacques Hadamard (1865-1963) recebesse várias correspondências de aspirantes a matemáticos cheias de dúvidas ou de teorias malucas. Boa parte daquelas cartas geralmente era ignorada por Hadamard, até que ele recebeu uma prova brilhante de um tal André Bloch. Hadamard ficou tão fascinado pela elegância da prova que decidiu conhecer aquele sujeito e convidá-lo para um jantar. Uma vez que eles só mantinham contato através de cartas, Hadamard escreveu de volta para o endereço do remetente: 57, Grand Rue, Saint-Maurice. Em resposta, Bloch só informou que estava impossibilitado de sair, mas convidou o grande matemático a lhe fazer uma visita.

Foi só ao chegar ao endereço que Jacques Hadamard descobriu porque o brilhante colega não poderia sair: o que ficava na 57, Grand Rue, Saint-Maurice não era uma casa, mas um hospital. Ou melhor, um hospício, o Asilo de Lunáticos de Charenton. Apesar da imensa surpresa, Hadamard foi ao encontro de Bloch e em meio a uma longa conversa sobre temas matemáticos, ele conheceu a história do matemático lunático. Continue lendo…

>Da arca do velho

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Os animais embarcam na arca, gravura do holandês Maerten van Heemskerck, c. 1560

As primeiras edições da Encyclopedia Britannica estavam tão certas da realidade da Arca de Noé que, dentro do respectivo verbete, chegavam ao ponto de especular como os animais poderiam ter sido alimentados e acomodados em tal embarcação:

[O] Bispo Wilkins calcula que todos os animais carnívoros equivalem, em termos de volume de seus corpos e à sua alimentação, a 27 lobos; e todos os que restam a 280 cabeças de gado. Para aqueles, ele provê 1825 ovelhas e para estas, 109.500 cúbitos de feno. Tudo isso poderia ser facilmente contido nos dois primeiros andares e ainda haveria bastante espaço livre.

Essa especulação — não muito diferente das abordagens “sob condições ideais de temperatura e pressão” de certos problemas de Física do Ensino Médio — é encontrada na edição de 1797 da Britannica. Nos anos 1860, quando se deram conta de que uma arca não seria capaz de acomodar todas as espécies do mundo, os editores passaram a sugerir que o dilúvio não teria sido assim tão universal: apenas as partes da Terra sob ocupação do homem teriam sido inundadas. 
Na edição de 1911, a história de Noé já era integralmente apresentada como um mito. Ironicamente, meio século mais tarde, a enciclopédia inglesa relatava até as “muitas engenhosas e curiosas teorias” que haviam sido publicadas a favor da Arca de Noé ao longo dos séculos.

>Os Vermes de Lawrence

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Você se lembra do filme O Óleo de Lorenzo, onde os pais, desesperados, começam a estudar e a pesquisar sozinhos uma cura para o filho? O filme era baseado em fatos reais, mas às vezes até a vida gosta de fazer um remake. E assim como em um remake, o final da história pode ser ao mesmo tempo surpreendente e repetitivo.
Conforme relatam em detalhes um artigo da The Scientist e Alyson Muotri em sua coluna no G1, em 2007 os pais de Lawrence, de 13 anos, resolveram procurar um tratamento mais efetivo para o autismo do garoto nova-iorquino. Diagnosticado aos dois anos, o menino tem um quadro grave de autismo. Ele mordia os poucos colegas que tinha e demonstrava muita ansiedade e agitação. Também havia episódios de autoagressividade: ele batia a própria cabeça na parede.

O pai dele, Stewart, procurou diversos tratamentos: terapia comportamental, alterações na alimentação e musicoterapia, além de diversas combinações de medicamentos. Apesar de alguns sucessos, a melhora era quase sempre temporária: os efeitos “evaporavam” e os sintomas voltavam, muitas vezes até piores. Como muitos pais, Stewart decidiu partir para a medicina alternativa.

Medicina Alternativa de Verdade
Mas diferente de muitos pais, Stewart não procurou alívio para o autismo de seu filho em práticas pseudocientíficas, como a homeopatia. O pai de Lawrence foi racional: pesquisou sobre os sintomas do filho em literatura especializada e em revistas científicas através de sites como o PubMed.
Enquanto pesquisava, ele descobriu uma terapia usada com sucesso em pacientes com a doença de Crohn, uma doença autoimune (em que o próprio organismo ataca células intestinais). Nessa terapia, os pesquisadores usaram vermes de porcos (Trichuris suis) para regular o sistema imunológico e diminuir a inflamação. Stewart também descobriu que alguns dos sintomas autistas podem ser causados por ataques do sistema imunológico às células da glia no cérebro.
Aí, juntou: ele percebeu um nexo que ninguém reparou e, como todo cientista, decidiu testar sua hipótese. Como não podia fazer nada sozinho, apresentou sua tese a um grupo de pesquisadores do Albert Einstein College of Medicine. Os médicos acharam a descoberta inusitada, mas decidiram ajudar. Stewart conseguiu comprar ovas de T. suis para o tratamento do filho. Isso mesmo, ele resolveu implantar vermes de porco no intestino de Lawrence para tentar controlar o autismo.

Surpresas e Reprises
Supreendentemente, esse tratamento com tricuríase induzida teve sucesso — depois de dez semanas, os sintomas desapareceram. Quinze meses se passaram tranquilamente desde o começo do tratamento. Como não dá pra tirar conclusões com apenas um caso, mais pesquisas estão em andamento.
Embora o tratamento de autismo com vermes de porcos seja uma novidade, ele reforça uma antiga teoria sobre o autismo. É a hipótese da higiene. Segundo essa hipótese, a falta de contato com elementos naturais causada pela limpeza e urbanização excessivas levariam a um desequilíbrio no sistema imunológico. Além de causar outras doenças autoimunes, um sistema imunológico descontrolado (para não dizer ocioso e paranoico feito o Exército americano em plena Guerra Fria) poderia começar a atacar o cérebro. Embora possa haver diversas outras causas — inclusive genéticas —, as hipóteses ambientais e sociais são as que parecem mais plausíveis.
Apesar de toda a cobertura da mídia e do consequente hype (principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos), não há qualquer correlação comprovada entre autismo e a vacina tríplice viral. Mas houve, isso sim, verdadeiros surtos (só que de sarampo) causados pelo descuido de pais excessivamente protetores e crédulos (e uma mídia conservadora bastante crédula também). Ironicamente, esses são os mesmos pais que podem causar autismo, ao manter a casa sempre impecavelmente limpa, servir água filtrada e alimentos preparados perfeitamente e ao jamais deixar as crianças brincarem lá fora, na “sujeira” (terra, areia, grama, lama, etc.).
Ou você já ouviu falar de moleques pobres com barriga d’água e autistas?

>O Problema de Molyneaux

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Em 1690, após publicar seu Ensaio acerca do Entendimento Humano, John Locke recebeu uma carta entusiasmada de um fã. Mas o autor da carta não era qualquer fã: seu nome era William Molyneux.
William_Molyneux
William Molyneaux (1656-1698): favor não confundir com Isaac Newton.
Apesar do sobrenome, Molyneaux era um renomado “filósofo natural” e político irlandês. Casado com uma mulher cega, o ilustre fã de Locke propôs em sua carta um curioso problema: um cego que recobresse a visão poderia diferenciar, visualmente, formas que só conhecia pelo tato? 

Eis o problema de Molyneaux em seus termos orginais:
Suponha um homem, nascido cego e agora adulto, que aprendeu pelo toque a distinguir entre um cubo e uma esfera do mesmo metal e do mesmo tamanho, de modo a dizer, quando ele sente uma ou outra, qual é o cubo e qual é a esfera. Suponha então que o cubo e a esfera sejam postos sobre uma mesa e o homem cego possa agora ver. Pergunta: Se apenas por sua vista, antes de tocá-las, ele poderia agora distingui-las e dizer qual é o globo e qual é o cubo?
Na própria carta, Molyneaux já apresentou sua resposta:
Não. Pelo pensamento ele obteve a experiência de como um globo ou como uma esfera afetam seu toque. Entretanto, ele não alcançou a experiência de saber que o que afeta seu toque assim ou assado deve afetar sua visão assim ou assado…
Intrigado pelo problema proposto pelo filósofo-mor da Irlanda, Locke incluiu a questão em uma edição posterior de seu Ensaio acerca do Entendimento Humano. O pai do empirismo inglês também acrescentou sua resposta:
Eu concordo com esse pensativo gentleman [Molyneaux], de quem tenho orgulho de chamar meu amigo, em sua resposta para esse problema. Eu sou da opinião de que o homem cego, à primeira vista, não seria capaz, com certeza, de dizer qual seria o globo e qual seria o cubo, se ele apenas olhasse para eles, mesmo que ele pudesse infalivelmente nomeá-los pelo toque e certamente distingui-los pela diferença sentida em suas formas.
Depois disso, o Problema de Molyneux teve grande repercursão no mundo filosófico. Em 1709, George Berkeley chegou às mesmas conclusões dos propositores. Quarenta anos mais tarde, motivado pela questão, Denis Diderot escreveu sua Carta sobre os cegos para benefício daqueles que veem como uma crítica ao nosso conhecimento da realidade última.
O Problema de Molyneaux ainda se mantém entre as questões não-resolvidas da filosofia. Apesar dos imensos avanços nos estudos neurológicos desde o fim do século XVII, não há como dar uma reposta certa por que é quase impossível resolvê-lo empiricamente por falta de cegos que recuperam a visão instantaneamente. Segundo a literatura médica, menos de duas dezenas de pessoas ganharam a visão após um longo período de cegueira congênita nos últimos 1000 anos.
O caso mais próximo do proposto por Molyneaux é o de uma garota que recuperou a visão aos 12 anos após ser operada de catarata bilateral congênita. Ostrovsky et al. estudaram o caso e informam que a menina só pôde reconhecer visualmente os membros da família seis meses após a operação, mas levou até um ano para reconhecer objetos familiares apenas com a visão.

REFERÊNCIAS
LOCKE, John An Essay Concerning Human Understanding, book II, chapter IX, 8. Disponível on-line em: http://www.gutenberg.org/cache/epub/10615/pg10615.html

OSTROVSKY, et al., “Vision following extended congenital blindness” [Visão após extensa cegueira congênita], Department of Brain and Cognitive Sciences Massachusetts Institute of Technology [s/d.]

>Montaigne e a força do hábito

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Roubemos espaço aqui para uma história. Um fidalgo francês sempre se assoava com a mão — coisa muito avessa ao nosso costume. Acerca disso, defendendo sua atitude (e era famoso pelos ditos espirituosos), ele perguntou-me que privilégio tinha aquela excreção para que lhe fôssemos preparando um belo lenço delicado a fim de recebê-la e depois, o que é pior, empacotá-la [no lenço] e guardá-la cuidadosamente em nós; que isso devia causar mais horror e náusea do que vê-la ser lançada fora de qualquer maneira, como fazemos com as outras excreções. Achei que ele não falava totalmente sem razão e que o costume me eliminara a percepção dessa extravagância, que no entanto consideramos tão horrível quando é narrada a propósito de um outro país.
— Michel de Montaigne, Do costume e de não mudar facilmente uma lei aceita. in: Ensaios, Livro I (1595)
Estou lendo, ainda que lentamente, Montaigne. À parte sua inevitável linguagem quinhentista e as diversas citações latinas e até gregas, achei Montaigne muito parecido com um blogueiro. Seus escritos foram originalmente criados apenas como uma espécie de diário, de auto-retrato de seu pensamento.
Com uma ampla gama de temas — do hábito de assoar o nariz aos índios da América e à educação das crianças — exemplificados por experiências do autor ou de conhecidos seus, os Ensaios de Michel de Montaigne (1533-1592) foram inovadores justamente por sua diversidade e sua brevidade (em relação aos outros textos filosóficos da época). 
Os ensaios começaram a ser escritos em 1572, mas foram publicados pela primeira vez em dois volumes em 1580. Na segunda edição, em 1588, foram feitos inúmeros acréscimos e saiu um terceiro volume. A terceira edição, de 1595, já póstuma foi baseada em rascunhos manuscritos feitos por Montaigne em um exemplar de 1588.
Quanto à filosofia, Montaigne não cria uma escola de pensamento pois não é um moralista ou um doutrinador. Como se nota em seus Ensaios, ele preocupa-se mais em levantar perguntas do que dar respostas ou apresentar as coisas como certas ou erradas. Embora seja cristão, mantém-se cético diante de relatos de milagres, de misticismos e crendices. Igualmente, mostra-se bastante indiferente às divisões religiosas de sua época. Assim, ele pode ser considerado o pai do livre-pensamento moderno.

>O Paradoxo da Etiqueta

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Este paradoxo foi o @MolaMolera que me apresentou, logo após uma experiência que ele teve na cantina da Faculdade. A situação pela qual ele passou demonstra perfeitamente como as regras de etiqueta não respeitam nenhuma lógica e não são nem mesmo auto-consistentes. O problema é o seguinte: Se você está comendo enquanto o seu suco é servido, você deve agradecer?
Suponha que exatamente no momento em que seu suco é servido, você já está mastigando seu salgado. Nesse caso, como você pode manter a etiqueta? Se você quiser ser gentil, vai ter que dizer “Obrigado” de boca cheia; se quiser ser educado, vai passar por mal-educado, pois não vai abrir a boca para agradecer.
Ok, é uma situação um tanto improvável, já que na maioria dos casos ou o suco e a refeição chegam juntos ou o suco é servido primeiro. Mas ainda assim, é uma situação perfeitamente possível. O salgado já estava pronto e você pediu um suco natural, não um daqueles de garrafinha. A saída mais correta, do ponto de vista social, parece ser falar de boca cheia mesmo. De que adianta manter a pose se isso pode te fazer parecer o oposto do que você deseja?

>Orgulho Modesto

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Por que a modéstia é considerada uma virtude? Tradicionalmente, ser virtuoso é ser sábio, pensativo e prudente. Mas a modéstia parece estar baseada não nessas qualidades, mas na ignorância.
Ainda que seja um tipo especial de ignorância. Para uma pessoa ser modesta, ela deve ser ignorante com relação ao seu valor próprio. Ela deve se ver como alguém que merece menos, ou que vale menos, do que realmente deveria esperar.
Como a modéstia é geralmente considerada como uma virtude, conclui-se que essa virtude repousa sobre um defeito epistêmico fundamental — um paradoxo. O modesto não pode se considerar modesto por que, como a modéstia é uma qualidade, isso seria um sinal de vaidade, de orgulho.
Então, quando alguém diz “Eu não sou modesto” pode estar realmente sendo o oposto do que diz. O cara é tão modesto que nega sua própria modéstia. E é apenas assim que a modéstia funciona.
Ou, como disse Sherlock Holmes: “Subestimar-se é tão distante da verdade quanto exagerar o próprio poder.”

>Um ‘Contato’ menos Imediato

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Como será o momento mais importante da História da Humanidade — O Contato? Muitos contos e romances de ficção científica já tentaram imaginar. Vez por outra, como agora, em Contatos Imediatos de 4º. Grau, Hollywood retoma o tema. Mas, geralmente, os filmes centram-se mais nos extraterrestres, nos efeitos especiais e em estereótipos: um disco voador, uma abdução, um “leve-me ao seu líder” ou uma invasão-e-destruição da raça humana ou até do planeta Terra.
contact_1Baseado no romance homônimo de Carl Sagan, Contato (Contact, EUA, 1997), apresenta um ponto de vista mais polêmico, mais científico e mais humano. Mesmo ofuscado pelo lançamento de MIB – Homens de Preto, Contato foi considerado um dos melhores filmes de FC de todos os tempos. O filme, dirigido por Robert Zemeckis (De Volta para o Futuro e Forrest Gump), inovou também no tratamento digital de imagens, na intertextualidade com a TV e com a “atuação” do presidente Bill Clinton. Ok, é claro que o presidente não atuou. Suas aparições são imagens digitalmente manipuladas.
No elenco pra valer, uma convincente Jodie Foster é Ellie Arroway, a cientista que faz o contato e Matthew McConaughey é Palmer Joss, um líder religioso descolado e um tanto irônico, que acaba virando conselheiro espiritual do presidente. A versão cinematográfica é bastante fiel ao livro, exceto talvez pelo final.
Ao longo do filme, que tem quase duas horas e meia de duração, algo pode frustrar os fãs de abduções e discos voadores: nada disso acontece, pelo menos a princípio. Contato começa com a infância de Arroway, volta para o presente, mostra o trabalho de uma radioastrônoma, ensaia um romance entre Ellie e Palmer Joss. O contato que dá título ao filme é feito e confirmado através de radiotelescópios e seguem-se todas as consequências e reações ao contato. Há intenso debate entre os descobridores, os céticos e os líderes religiosos, políticos e militares. Por fim, descobre-se que a mensagem recebida (com surpreendentes imagens de Hitler discursando) traz muitas informações ocultas, inclusive instruções para construir uma espécie de portal interplanetário.
saganNo final do filme, porém, uma suposta viagem interplanetária termina com elementos bastante comuns aos já tradicionais contatos ufológicos: uma experiência intensa, quase espiritual — e difícil de comprovar. Como um bom filme, Contato é menos imediato e mais instigante. O espectador  ganha o benefício da dúvida na escolha do final: houve ou não contato? Se sim, até que ponto o contato foi objetivo? Se não, o que aconteceu realmente? Uma fraude em escala planetária ou uma falha técnica causada por uma tecnologia alienígena e desconhecida?
O final é ambíguo e provocador graças ao autor. Carl Sagan, que ganhou fama mundial à frente dos Programas Viking e Voyager na NASA, era sobretudo um cientista cético, mas que não deixava de admitir possibilidades. Foi ele um dos primeiros a levar a sério o estudo dos fenômenos ufológicos. O filme não chega a ter bordões, mas uma frase recorrente sempre foi atribuída a Sagan: “Se não há vida lá fora, então o Universo é um tremendo desperdício de espaço.” 
Há também uma história por trás do filme, que custou a sair. Na verdade, como havia feito na série de documentários Cosmos (PBS TV, 1980), Sagan pretendia fazer um filme e depois um livro. A ideia de Contato surgiu no começo dos anos 80, mas após comprar o roteiro a Warner fez muitas exigências: incluir o Papa como personagem, dar um filho a Ellie Arroway, inserir mais cenas de efeitos especiais. Sagan, porém, bateu o pé. Ele não queria um blockbuster. Com o roteiro que tinha, lançou Contato, o livro, em 1985. Quatro anos mais tarde, ele começou a trabalhar novamente na versão cinematográfica. Mas a Warner, que só retomou o projeto em 1993, teve dificuldades em arranjar diretores e elenco e o filme só saiu em 1997, seis meses após a morte de Sagan.
Trailer (em inglês):

>O último dia de Saramago

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Saramago
José Saramago foi o único autor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.
Saramago no documentário “Língua – Vidas em Português” (2004)
 
José Saramago deixou de viver hoje, aos 87 anos de idade em sua casa, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Não é apenas a literatura portuguesa que perde um grande nome — o maior de nossa era. O mundo também perde um grande homem, um dos mais lúcidos pensadores dos séculos XX e XXI. Saramago não temia a morte; sabia que não há diferença substancial entre o nascimento e o falecimento. Antes do nascimento e depois da morte simplesmente não se existe. Certamente, ele não desejaria luto nem discursos como esse em seu funeral. Mas é impossível deixar passar a passagem de um homem tão importante, que teve uma obra que revela a humanidade em seu estado mais profundo e mais verdadeiro.
Saramago passa. Mas seus pensamentos vão ficar para sempre:

Sobre a língua:
“Não há uma língua portuguesa. Há línguas em português.”
Sobre a política:
“Os únicos interessados em mudar o mundo são os pessimistas, porque os otimistas estão encantados com o que há.”
Sobre religião:
“Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.”

“À igreja não importa nada as almas.”
Sobre a vida:
Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
‘Não há mais o que ver’, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

…é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-los, para congratular-nos, ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade que tanto se fala….
E sobre a morte:
Não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo; são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisto. Transportas todo o tempo de um lado para outro uma escuridão, e isso não te assusta…

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