O matemático lunático
Sendo um dos mais famosos matemáticos franceses de sua época, era natural que Jacques Hadamard (1865-1963) recebesse várias correspondências de aspirantes a matemáticos cheias de dúvidas ou de teorias malucas. Boa parte daquelas cartas geralmente era ignorada por Hadamard, até que ele recebeu uma prova brilhante de um tal André Bloch. Hadamard ficou tão fascinado pela elegância da prova que decidiu conhecer aquele sujeito e convidá-lo para um jantar. Uma vez que eles só mantinham contato através de cartas, Hadamard escreveu de volta para o endereço do remetente: 57, Grand Rue, Saint-Maurice. Em resposta, Bloch só informou que estava impossibilitado de sair, mas convidou o grande matemático a lhe fazer uma visita.
Foi só ao chegar ao endereço que Jacques Hadamard descobriu porque o brilhante colega não poderia sair: o que ficava na 57, Grand Rue, Saint-Maurice não era uma casa, mas um hospital. Ou melhor, um hospício, o Asilo de Lunáticos de Charenton. Apesar da imensa surpresa, Hadamard foi ao encontro de Bloch e em meio a uma longa conversa sobre temas matemáticos, ele conheceu a história do matemático lunático. Continue reading “O matemático lunático” »
>Da arca do velho
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| Os animais embarcam na arca, gravura do holandês Maerten van Heemskerck, c. 1560 |
[O] Bispo Wilkins calcula que todos os animais carnívoros equivalem, em termos de volume de seus corpos e à sua alimentação, a 27 lobos; e todos os que restam a 280 cabeças de gado. Para aqueles, ele provê 1825 ovelhas e para estas, 109.500 cúbitos de feno. Tudo isso poderia ser facilmente contido nos dois primeiros andares e ainda haveria bastante espaço livre.
>Os Vermes de Lawrence
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>O Problema de Molyneaux
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| William Molyneaux (1656-1698): favor não confundir com Isaac Newton. |
Suponha um homem, nascido cego e agora adulto, que aprendeu pelo toque a distinguir entre um cubo e uma esfera do mesmo metal e do mesmo tamanho, de modo a dizer, quando ele sente uma ou outra, qual é o cubo e qual é a esfera. Suponha então que o cubo e a esfera sejam postos sobre uma mesa e o homem cego possa agora ver. Pergunta: Se apenas por sua vista, antes de tocá-las, ele poderia agora distingui-las e dizer qual é o globo e qual é o cubo?
Não. Pelo pensamento ele obteve a experiência de como um globo ou como uma esfera afetam seu toque. Entretanto, ele não alcançou a experiência de saber que o que afeta seu toque assim ou assado deve afetar sua visão assim ou assado…
Eu concordo com esse pensativo gentleman [Molyneaux], de quem tenho orgulho de chamar meu amigo, em sua resposta para esse problema. Eu sou da opinião de que o homem cego, à primeira vista, não seria capaz, com certeza, de dizer qual seria o globo e qual seria o cubo, se ele apenas olhasse para eles, mesmo que ele pudesse infalivelmente nomeá-los pelo toque e certamente distingui-los pela diferença sentida em suas formas.
REFERÊNCIAS
LOCKE, John An Essay Concerning Human Understanding, book II, chapter IX, 8. Disponível on-line em: http://www.gutenberg.org/cache/epub/10615/pg10615.html
OSTROVSKY, et al., “Vision following extended congenital blindness” [Visão após extensa cegueira congênita], Department of Brain and Cognitive Sciences Massachusetts Institute of Technology [s/d.]
>Montaigne e a força do hábito
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Roubemos espaço aqui para uma história. Um fidalgo francês sempre se assoava com a mão — coisa muito avessa ao nosso costume. Acerca disso, defendendo sua atitude (e era famoso pelos ditos espirituosos), ele perguntou-me que privilégio tinha aquela excreção para que lhe fôssemos preparando um belo lenço delicado a fim de recebê-la e depois, o que é pior, empacotá-la [no lenço] e guardá-la cuidadosamente em nós; que isso devia causar mais horror e náusea do que vê-la ser lançada fora de qualquer maneira, como fazemos com as outras excreções. Achei que ele não falava totalmente sem razão e que o costume me eliminara a percepção dessa extravagância, que no entanto consideramos tão horrível quando é narrada a propósito de um outro país.— Michel de Montaigne, Do costume e de não mudar facilmente uma lei aceita. in: Ensaios, Livro I (1595)
>O Paradoxo da Etiqueta
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>Orgulho Modesto
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>Um ‘Contato’ menos Imediato
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>O último dia de Saramago
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| José Saramago foi o único autor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Saramago no documentário “Língua – Vidas em Português” (2004) |
“Não há uma língua portuguesa. Há línguas em português.”
“Os únicos interessados em mudar o mundo são os pessimistas, porque os otimistas estão encantados com o que há.”
“Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.”
“À igreja não importa nada as almas.”
“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.”
“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
‘Não há mais o que ver’, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”
“…é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-los, para congratular-nos, ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade que tanto se fala…”.
“Não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo; são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisto. Transportas todo o tempo de um lado para outro uma escuridão, e isso não te assusta…”
>Darwin apaixonado
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Casar Não Casar Filhos (se Deus quiser) – Companhia constante (& amigável na velhice) que sentirá interesse em um, – objeto de amor & diversão – melhor que um cachorro de qualquer modo – Casa, & cuidados da casa – Charmes da música e da fofoca feminina – Essas coisas podem ser boas para a saúde de alguém, mas são uma terrível perda de tempo – Meu Deus, é intolerável pensar em desperdiçar a vida inteira como uma abelha neutra, trabalhando, trabalhando & nada – Não, eu não vou – Imagine viver todos os dias solitário numa casa suja e fumacenta de Londres – Veja-se com uma boa esposa num sofá, uma boa lareira, & livros & música talvez – Compare essa visão com a realidade suja da Gr[ea]t. Marlb[o]ro[ugh]‘ St[reet]. Liberdade para ir onde quiser – escolha da Sociedade & um pouco disso – Conversas com homens sábios em clubes – Não ser forçado a visitar parente nem a ceder em cada discussão – não ter o custo & ansiedade com filhos – talvez debater – Perder tempo – Não posso ler à-noitinha – Gordura & preguiça – Ansiedade & responsabilidade – menos dinheiro para livros, etc. – muitos filhos forçam a ganhar o pão (mas aí é ruim para a saúde trabalhar demais) – Talvez minha esposa não goste de Londres; então a sentença é banimento & degradação em indolência, loucura idiota.







É um punhado de material cósmico, composto principalmente de carbono e hidrogênio, um animal, cordado, mamífero, primata, hominídio pensante (cof,cof...) que não tem a mínima ideia do que está fazendo no mundo (ou do que é o mundo) e de quem é.