Ou pelo menos é o que parece…

“Após vinte anos de luta encarniçada, os marcianos escravizaram a Terra, até o surgimento de um líder que leva os terráqueos à revolta…” Sob o título Planetas em Guerra, e com um enorme robô empunhando uma arma na capa, tem-se a impressão de que se trata de um livro com todos os clichês da Ficção Científica. Ou pelo menos é o que parece… Quando, porém, se nota quem é o autor – Poul Anderson –, é melhor esquecer os preconceitos e lembrar que não se julga um livro pela capa.

*** Esta resenha pode conter spoilers. Ou pelo menos é o que parece… *** Continue lendo…

A saga do III Prêmio "Bê Neviani"

“Era no tempo do Rei…” Ok, não faz taaaaanto tempo assim, mas parece.

Foi na noite do dia 22 de abril que o Samir Elian, vizinho bloguístico do Meio de Cultura, me avisou que eu havia sido o blogueiro premiado com o III Prêmio “Bê Neviani”. Eu estava sabendo da premiação através do MdC, mas não podia imaginar que acabaria agraciado. Pensei que fosse apenas uma promoção pros tuiteiros — pra quem não sabe, eu não tenho twitter. Aliás, gostaria de agradecer aqui, ainda que muito tardiamente, ao @hsegundo, por tuitar o post sobre Agatha Christie surfista. Continue lendo…

>Mundo sem Estrelas

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Você já precisou usar um GPS ou o Google Maps? Se sim, é bem provável que apesar — ou até por causa — disso, tenha se perdido. Uma falha nas coordenadas do GPS pode parecer um grande problema e pode até causar grandes acidentes. Agora imagine o erro de localização num sistema de teletransporte interestelar… E esse é só o primeiro dos problemas enfrentados pelos personagens em um Mundo sem Estrelas, de Poul Anderson.
Num futuro muito distante, devidamente não especificado pelo autor, a humanidade já se tornou imortal através de uma “vacina antitanática” e estabeleceu contatos com todas as inteligências da Via Láctea. A Terra não tem mais nações; no máximo há uniões continentais. Nosso planeta acaba por se tornar apenas a “Pátria do Homem”.
Grandes Navegações e um Trovador Interestelar
O comércio interestelar é um ótimo negócio, mas como todos os planetas com vida inteligente já são conhecidos, é hora de expandir as fronteiras — não em nome da ciência, mas das perspectivas de lucro. Tudo começa com o Capitão Felipe Argens à procura de uma boa tripulação para a primeira viagem intergaláctica. Argens vive em Landomar, um mundo que mais se parece com uma versão planetária da Londres do século XVIII: um porto importante, uma cidade cheia de viajantes e aventureiros. E é por acaso que ele descobre Hugh Valland.
Valland mais parece uma figura anacrônica. Embora esteja sempre com um omnisonar — um instrumento musical que parece algo entre um violão e um sintetizador — debaixo do braço, ele vive cantando velhas canções da era pré-estelar. De origem nórdica, tal como Poul Anderson, Valland é um trovador e um aventureiro, um homem ao mesmo tempo gentil e vigoroso — apesar de seus três mil anos. Ele está à procura de uma vaga como artilheiro em uma nave de comércio. É exatamente disso que o Capitão Argens precisa.
A “nau” capitaneada por Argens é a Meteor, que tem como destino não outra galáxia, mas um pequeno sistema perdido no espaço intergaláctico. Os habitantes desse sistema são muito curiosos: respiram hidrogênio, bebem amônia, são telepatas mas têm pouca resistência à radiação. Parecem, portanto, habitantes de um grande planeta gasoso, tal como Júpiter. Em busca de contato, eles mandam as coordenadas para chegar ao seu sistema planetário. Só que essas coordenadas, ao contrário do que a tripulação imagina, são para um planeta mais “terrestre”. Sem saber para onde rumava através do teletransporte, a Meteor espatifa-se ao chegar a esse pequeno mundo sem estrelas que dá título à obra.
Mundo Liso S/A
Com a nave destruída e sem comunicações, os nove tripulantes da Meteor — entre os quais há um novato de trinta anos e um sujeito bastante suspeito — se vêem em um mundo praticamente liso: há poucas montanhas e muitos pântanos. O céu — roxo — é dominado por um grande sol vermelho. Na verdade, uma anã vermelha menor que o sol, mas mais próxima do planeta. Isolado fora da galáxia, esse mundo tem uma noite dominada pela visão distante e difusa da Via Láctea. Chuvas são torrencialmente constantes e o planeta desconhecido parece ser muito antigo.  Por isso, pensam que não há sinal de vida. Mas há grama, algumas árvores — amarelas! —, atmosfera respirável e vultos misteriosos.
Ou nem tanto. Esses vultos têm a aparência de cangurus e são descritos como parte d’A Matilha. Mas eles não são os únicos, nem são a espécie dominante. Quem manda no pedaço são os Ai Chum, anfíbios (!!) telepatas, com uma cultura antiquíssima e, por isso mesmo, extremamente indolentes e conservadores. Os Ai Chum, também chamados de A Manada, escravizam a maioria da Matilha.

Ao saber de onde vêm os humanos, a Manada tenta exterminá-los. A presença de seres de outro mundo é uma séria ameaça ao que é mais caro aos membros da Manada: sua crença de que são criadores de tudo que existe no Universo (e sua conseqüente posição dominante).

Apesar de todo esse cenário exótico, o tema central de Mundo sem Estrelas é, sem dúvida, a variedade psicológica dos seres humanos e como isso pode ser uma fraqueza ou uma força em situações extremas. A obra é narrada em retrospectiva, como uma narrativa autobiográfica do Capitão Argens. Apesar disso, o personagem que mais se destaca é o velho Hugh Valland e seu amor transcendental por Mary O’Meara.
MUNDO_SEM_ESTRELASFicha Técnica
Título    Mundo sem Estrelas (World without Stars)
Autor/Tradutor    Poul Anderson/Agatha Maria Auesperberg
Editora    Nova Época Editorial
Publicação    1974
Páginas    181
Comentários    A edição que li — após encontrar na Biblioteca da faculdade — é interessante, apesar da capa não ser muito bonita. O papel um pouco grosso, a tipografia em negrito e os pequenos erros tipográficos aqui e acolá lembram as obras pulp fiction dos anos 30. Mesmo se existisse, uma edição novinha em folha não teria tanta graça…

>Um ‘Contato’ menos Imediato

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Como será o momento mais importante da História da Humanidade — O Contato? Muitos contos e romances de ficção científica já tentaram imaginar. Vez por outra, como agora, em Contatos Imediatos de 4º. Grau, Hollywood retoma o tema. Mas, geralmente, os filmes centram-se mais nos extraterrestres, nos efeitos especiais e em estereótipos: um disco voador, uma abdução, um “leve-me ao seu líder” ou uma invasão-e-destruição da raça humana ou até do planeta Terra.
contact_1Baseado no romance homônimo de Carl Sagan, Contato (Contact, EUA, 1997), apresenta um ponto de vista mais polêmico, mais científico e mais humano. Mesmo ofuscado pelo lançamento de MIB – Homens de Preto, Contato foi considerado um dos melhores filmes de FC de todos os tempos. O filme, dirigido por Robert Zemeckis (De Volta para o Futuro e Forrest Gump), inovou também no tratamento digital de imagens, na intertextualidade com a TV e com a “atuação” do presidente Bill Clinton. Ok, é claro que o presidente não atuou. Suas aparições são imagens digitalmente manipuladas.
No elenco pra valer, uma convincente Jodie Foster é Ellie Arroway, a cientista que faz o contato e Matthew McConaughey é Palmer Joss, um líder religioso descolado e um tanto irônico, que acaba virando conselheiro espiritual do presidente. A versão cinematográfica é bastante fiel ao livro, exceto talvez pelo final.
Ao longo do filme, que tem quase duas horas e meia de duração, algo pode frustrar os fãs de abduções e discos voadores: nada disso acontece, pelo menos a princípio. Contato começa com a infância de Arroway, volta para o presente, mostra o trabalho de uma radioastrônoma, ensaia um romance entre Ellie e Palmer Joss. O contato que dá título ao filme é feito e confirmado através de radiotelescópios e seguem-se todas as consequências e reações ao contato. Há intenso debate entre os descobridores, os céticos e os líderes religiosos, políticos e militares. Por fim, descobre-se que a mensagem recebida (com surpreendentes imagens de Hitler discursando) traz muitas informações ocultas, inclusive instruções para construir uma espécie de portal interplanetário.
saganNo final do filme, porém, uma suposta viagem interplanetária termina com elementos bastante comuns aos já tradicionais contatos ufológicos: uma experiência intensa, quase espiritual — e difícil de comprovar. Como um bom filme, Contato é menos imediato e mais instigante. O espectador  ganha o benefício da dúvida na escolha do final: houve ou não contato? Se sim, até que ponto o contato foi objetivo? Se não, o que aconteceu realmente? Uma fraude em escala planetária ou uma falha técnica causada por uma tecnologia alienígena e desconhecida?
O final é ambíguo e provocador graças ao autor. Carl Sagan, que ganhou fama mundial à frente dos Programas Viking e Voyager na NASA, era sobretudo um cientista cético, mas que não deixava de admitir possibilidades. Foi ele um dos primeiros a levar a sério o estudo dos fenômenos ufológicos. O filme não chega a ter bordões, mas uma frase recorrente sempre foi atribuída a Sagan: “Se não há vida lá fora, então o Universo é um tremendo desperdício de espaço.” 
Há também uma história por trás do filme, que custou a sair. Na verdade, como havia feito na série de documentários Cosmos (PBS TV, 1980), Sagan pretendia fazer um filme e depois um livro. A ideia de Contato surgiu no começo dos anos 80, mas após comprar o roteiro a Warner fez muitas exigências: incluir o Papa como personagem, dar um filho a Ellie Arroway, inserir mais cenas de efeitos especiais. Sagan, porém, bateu o pé. Ele não queria um blockbuster. Com o roteiro que tinha, lançou Contato, o livro, em 1985. Quatro anos mais tarde, ele começou a trabalhar novamente na versão cinematográfica. Mas a Warner, que só retomou o projeto em 1993, teve dificuldades em arranjar diretores e elenco e o filme só saiu em 1997, seis meses após a morte de Sagan.
Trailer (em inglês):

>A cegueira lúcida de Saramago

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Em seu Ensaio sobre a Cegueira (Companhia das Letras, 1995), José Saramago  vai fundo na análise do que está por trás dessas coisas que chamamos de “civilização” e “humanidade”. Cegueira nos mostra o  mundo cruel e violento que não vemos — e, pior, que nos negamos a ver. Essa é apenas uma das múltiplas faces da cegueira que o livro nos mostra.
Apesar do título, Ensaio sobre a Cegueira não é uma obra filosófica, embora também possa ser lida dessa forma. A obra trata das consequências de uma inédita epidemia de cegueira. Mas não é uma cegueira comum, ela é “branca”. Os cegos não ficam no escuro; têm a vista constantemente ofuscada, imersa num “mar leitoso”. Por isso, Ensaio também tem um quê de ficção científica, embora não haja  nenhuma explicação para a cegueira repentina e sem qualquer sinal de lesão. Pelo desenrolar da trama, Sobre a Cegueira é uma distopia sobre a condição humana.


Capa de Ensaio: versão para o cinema é fiel, mas não dispensa leitura
Tudo começa com um homem que cega repentinamente em meio ao trânsito de uma grande cidade que não é identificada. Apesar da correria urbana, há pessoas que acorrem a ajudá-lo. Mas quem o leva para casa é um homem que acabaria roubando-lhe o carro — e que logo que fica “às claras” também. Após perder tempo pensado tratar-se de casos coincidentes e temendo pelo pior, o governo começa a isolar os cegos. Apesar dos esforços das autoridades, a epidemia é implacável e todos acabam ficando cegos.
Todos, menos, misteriosamente, uma mulher, a mulher do médico que atendeu o primeiro cego. É através dela que nós e o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, o médico oftalmologista, a rapariga dos óculos escuros, o rapazinho estrábico e o velho da venda ficamos sabendo dos horrores cada vez piores de um mundo habitado por cegos. Nesse mundo — com o perdão do clichê — as máscaras de civilidade e humanidade caem por completo.
APOCALIPSE SOCIAL
Isolados do mundo num lugar desconhecido e dependentes de uma ajuda externa cada vez mais irregular, os cegos confinados num manicômio desativado caem em um estado cada vez mais animalesco e escatológico. Nessas condições é preciso voltar a lutar pela sobrevivência — e às vezes até matar e estuprar. Socialmente falando, é um completo apocalipse, pois até a autoridade imposta pela força perde seu sentido. Reina apenas o medo, a desconfiança mútua entre os grupos, o desespero e, em muitos casos, a indiferença e a inermia completas. E tudo acontece apenas por que não há mais preocupações com as aparências, pois não há olhos para ver.
Como era de se esperar num mundo cada vez mais cego pelo politicamente correto, o livro causou polêmica por apresentar os cegos como pessoas incapazes das ações mais simples como se limpar e se organizar socialmente. Para variar, os críticos talvez não tenham lido o livro. Senão uma dimensão do que seria um mundo cegado repentinamente.
O retrocesso comportamental do mundo de cegos se deve mais a um acúmulo insuportável de tensões psicológicas: convivência forçada com desconhecidos num ambiente que se mostra inadequado, onde se sente de perto a morte e a podridão;  inquietação constante de todos os indivíduos  frente a uma doença desconhecida e assustadora; sentimento de fragilidade e culpa; egoísmo vs. solidariedade (tipo “por que eu?” em vez de “o que podemos fazer?”) e condições de vida cada vez mais precárias.
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José Saramago: único autor de língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura tem obras longas e complexas
DIFÍCIL, MAS NÃO IMPOSSÍVEL
Ensaio sobre a Cegueira é uma leitura difícil e não só pela temática envolvida;  talvez ainda mais difícil do que o enredo seja a forma de apresentação, pois Saramago não abre mão de seu estilo, caracterizado por frases e parágrafos longos, entremeados de diálogos, divagações e aforismos, tanto dos personagens, anônimos, quanto do autor, separados do texto apenas por vírgulas, numa estrutura de capítulos sem títulos nem números, o que exige muita atenção de leitores acostumados com a limitação dos tweets e mensagens de texto.
Apesar das mais de 300 páginas com texto nesse estilo e em português europeu, o final parece repentino e adiantado, como se o autor tivesse se cansado do livro. Os seis personagens, assim como a cidade onde vivem, não têm nome, o que amplia a universalidade (e também a dificuldade) da obra. Em resumo, José Saramago nos faz fechar os olhos para ver que a linha que separa homem de animal e brutalidade de civilização é mais tênue do que se pensa — ou do que se quer admitir.

>"Dez dias que abalaram o mundo"

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10 diasO livro do jornalista norte-americano John Reed é considerado um dos primeiros livros-reportagem da história. Embora o título fale em Dez dias que abalaram o mundo (edição fac-similar da Record, 1967), o livro é uma cobertura das primeiras semanas da Revolução de Outubro de 1917, que acabaria implantando o regime soviético na Rússia.
Pelas páginas do livro desfilam Vladimir Ilyitch Ulianov, o Lênin, Leon Trotsky e, de maneira bastante discreta, Ióssif Vissariónovich Djugashvíli, o futuro Stálin. Os líderes do Governo Provisório, Alexander Kerensky, o premiê derrubado, e Levr Kornilov, um militar que tentara fortalecer o governo provisório com um golpe, são demonizados com a pecha de “anti-revolucionários”.

OS ATORES POLÍTICOS
Diversas são as agremiações políticas. A esquerda russa tinha, além de bolcheviques e mencheviques, socialistas, socialistas revolucionários e socialistas revolucionários de esquerda (tipo um PC do B). A direita contava com militares de alta patente, kadets (republicanos liberais), líderes da Igreja Ortodoxa (evidentemente) e uma minoria monarquista. Havia ainda os anarquistas, que aparecem de vez em quando, e os ucranianos, que tentam proclamar sua independência em meio ao que parece uma desagregação russa.
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À esquerda, Trotsky, Lênin e Kamenev, líderes da revolução; À direita, Kerensky e Kornilov, os derrotados
A guerra começa, às vésperas da Assembleia Constituinte, com chuvas de panfletos, avisos e cartazes — muitos dos quais são transcritos por Reed em notas ao fim de cada capítulo — que cobrem São Petersburgo. Há relatos e descrições de muitas assembleias e muitos congressos, sempre lotados de homens que não param de discutir e de fumar.
Apesar do clima de intensa democracia direta — e dos apelos de ambos os lados pedindo que o conflito fosse evitado para não haver derramamento de sangue de irmãos russos —, o que ocorre na verdade é uma verdadeira luta pelo poder num país mergulhado pelo caos. Embora fosse uma grande força militar na Primeira Guerra, a força russa estava mais em seus recursos humanos do que em equipamentos, logística e táticas militares. Essa discrepância ente fatores humanos e técnicos foi o que impediu a Rússia de 1917 de derrotar a Alemanha. Graças a essas condições, o socialismo espalhou-se apenas pelas baixas patentes, as que sofriam mais.
AS CONDIÇÕES DOS ATORES
As insatisfações de operários e de soldados são compreensíveis dadas as condições da Rússia. Surpreendente, porém, é a resistência demonstrada pelos camponeses e pelos cossacos. Mesmo diante da promessa de coletivização da agricultura — uma reforma agrária na qual o Estado passa a ser o proprietário de todas as terras —, os camponeses demoram a se convencer e a apoiar aqueles relativamente poucos operários que viviam apenas em algumas cidades do leste russo.
Os camponeses russos haviam saído de um estado de servidão apenas meio século antes. Evidentemente que ainda havia muitos idosos que haviam sido servos e não entendiam aquele papo de reforma agrária. E, tradicionalmente, os mais velhos eram levados mais a sério do que jovens operários que viviam em cidades.
Já os cossacos, na verdade, foram os indecisos do jogo. A princípio eles apoiavam as tropas brancas que ameaçavam retomar São Petersburgo, mas foram convertidos com a promessa de que suas terras só seriam redistribuídas entre cossacos.
Também pode surpreender o fato de que alguns operários apoiaram os Brancos ou tentaram ficar neutros. Foi o caso dos ferroviários, dos carteiros, dos telegrafistas e das telefonistas.
“DISCIPLINA REVOLUCIONÁRIA” E UM POUCO DE LIRISMO
reed_johnEm meio ao caos dos conflitos em São Petersburgo, Reed (à direita) reitera muitas vezes  a chamada “disciplina revolucionária” que às vezes surge espontaneamente, como na invasão do Palácio de Inverno (logo alguns invasores começam a surrupiar as riquezas do Palácio para serem presos em seguida por outros revolucionários menos afoitos) e às vezes surge por decreto (como nas prisões dos ex-ministros depostos, em que a tortura é proibida após denúncias ou quando Trotsky baixa um decreto proibindo o consumo de vinho no Exército Vermelho).
Também em meio a enxurrada de documentos públicos sobre a nova ordem soviética, há descrições mais prosaicas sobre o clima (a revolução ocorreu em dias bastante escuros e nublados, que logo se transformaram nas primeiras nevascas do ano) ou mais líricas (como a descrição do enterro, na Praça Vermelha, em Moscou, dos primeiros “mártires” da revolução). Em certa altura, Reed conta também seus apuros, como a viagem a Moscou num país imenso, gelado e com ferroviários em greve. Ou quando ele quase foi executado por dois soldados analfabetos que ignoraram suas autorizações para visitar a frente de batalha como “correspondente da imprensa proletária americana”.
VEREDITO
Em termos de conteúdo, o livro — ou, pelo menos, a edição que eu li — tem dois pecados: primeiro, poucas são as referências visuais como fotos e mapas; segundo, há muito pouco sobre a repercussão da revolução no exterior, principalmente nos países beligerantes (Alemanha, Áustria-Hungria, França, Inglaterra e Estados Unidos). Reed também deixa essas e muitas outras informações em aberto, sempre sob a jsutificativa de que elas fariam parte de outro livro, De Kornilov a Brest-Litovsk, que o autor nunca concluiu.
Em resumo, Dez dias…, embora tenha grande valor histórico, não pode ser considerado uma grande obra jornalística pois trata de mostrar e explicar apenas um dos lados da história.  A obra de John Reed não deve ser levada tão a sério; ela é apenas a crônica de uma revolução feita mais por um simpatizante estrangeiro do que por um correspondente jornalístico imparcial.

>Fora do Tom

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Trechos de resenhas da obra de Beethoven feitas pela revista oitocentista inglesa Harmonicon:
Junho de 1823:
“As opiniões obre a sinfonia Pastoral de Beethoven estão muito divididas, mas poucos negam que ela é longa demais”
Abril de 1825:
“Nós sabemos agora que [a duração da Nona Sinfonia] é de precisamente uma hora e cinco minutos, um período assustador, que põe os músculos e pulmões dos músicos e a paciência do público sob severa prova.”
Julho de 1825:
“[A Sétima Sinfonia] é uma composição na qual o autor dá-se ao luxo de uma considerável excentricidade desagradável. Sempre que nós ouvimos sua execução, não podemos descobrir qualquer propósito nela, nem se pode traçar qualquer conexão entre suas partes. Parece, enfim, ter sido feita como um tipo de enigma — nós diríamos que é quase uma farsa.”
Junho de 1827:
“[A Oitava Sinfonia] depende completamente do seu último movimento para conseguir arrancar aplausos; o resto é excêntrico sem ser divertido e trabalhoso sem ter efeitos.”
É, parece que Beethoven foi mais um gênio incompreendido.

>Entre a Eternidade e a Infinidade

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Qual seria a sua escolha entre viver uma “vida longa e próspera”, com uma carreira brilhante numa organização política importantíssima e alcançar grande poder sobre a Humanidade ou viver o grande e único amor de sua vida?

Este é o dilema vivido por Andrew Harlan, personagem principal de O Fim da Eternidade (e-book disponível em pdf ou doc), obra clássica do mais prolífico autor do século 20, Isaac Asimov. Como a vasta maioria das obras de Asimov, O Fim da Eternidade é ficção científica, mas também é uma verdadeira novela, cheia de suspense, mistério, intrigas, inveja e muitas reviravoltas, capaz de fazer inveja a muitos romancistas “de verdade”.

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Capa da 1ª. Edição, lançada nos Estados Unidos em 1955.

Essa obra é única na bibliografia asimoviana, pois, em outros livros, os personagens femininos são secundários ou mesmo inexistentes. Aliás, esse padrão de ausência feminina se mantém durante boa parte do Fim da Eternidade. Considerada uma das melhores obras do autor, o Fim da Eternidade é uma ficção científica de boa qualidade e o assunto principal são as sempre fascinantes viagens no tempo – e os estranhos e surpreendentes paradoxos que elas podem criar.

Segundo notícias de abril deste ano, a obra estaria sendo adaptada para o cinema pelo diretor Kevin Macdonald.

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As edições mais recentes do livro: em inglês (esq.) e português (dir.). Preços variam de 29 a 38 reais na Internet.

A Eternidade

A Eternidade é uma espécie de organização política e comercial, um misto de império  e empresa transtemporal, situada fora dos limites  do tempo. Dentro da Eternidade vivem e trabalham os Eternos, que se consideram verdadeiros guardiões da raça humana. Os Eternos trabalham de acordo com uma rígida hierarquia, muito semelhante a um sistema de castas. Esses guardiões formados por homens jovens (de até 16 anos) recrutados através das mais diversas eras. Eles são treinados para viver de forma extremamente racional e não podem demonstrar emoções.

Os seres humanos comuns, que vivem fora da Eternidade, na Terra, dentro dos limites do Tempo são chamados de Tempistas e não têm ideia do que é a verdadeira Eternidade. Os Tempistas acreditam que os Eternos são apenas seres humanos superiores, quase divinos, capazes de viver eternamente – o que não é verdade. Os Eternos vivem mais, mas também acabam morrendo porque o tempo biológico, medido em fisioanos, continua a passar dentro da Eternidade.

As raízes da Eternidade estão no início do século 23 [1] (2201-2300), quando um cientista  que vive nas montanhas da Califórnia –  e que aparentemente é sueco; Asimov sempre se esforça para criar nomes que pareçam neutros ou exóticos, mas isso nem sempre acontece –, Vikkor Malansohn descobre os mecanismos para enviar objetos para o futuro. A primeira experiência parece simples: enviar a cabeça de um palito de fósforo para dois segundos no futuro. Parece pouco, mas demandou 24h de toda a produção energética de uma usina nuclear. Durante os três séculos seguintes, a invenção de Malansohn é aperfeiçoada e surgem fórmulas matemáticas que explicam seu funcionamento. Durante o século 27 (2601-2700), é inventada  a Caldeira[2], capaz de enviar homens e grandes objetos através do tempo. É o início da Eternidade.

Em seus primeiros anos de existência, ainda na História Primitiva [3], a Eternidade apenas tratou de se expandir rapidamente em direção ao futuro e de começar a realizar comércio entre os séculos. A Eternidade estabeleceu entrepostos chamados setores ao longo dos séculos. Isso mesmo, comércio intertemporal. Se há excedentes de madeira (ou vacinas para o câncer) num determinado século e falta em outro, a Eternidade funcionava mais ou menos como uma transportadora, muitas vezes buscando matérias-primas no futuro e vendendo no passado – ou vice-versa.

Entretanto, os Eternos logo perceberam que, pelo bem da Humanidade – que, afinal, era seu mercado consumidor – era preciso retardar, evitar ou mesmo destruir novas tecnologias, especialmente as armas atômicas e os mais diversos sistemas que permitiriam as viagens espaciais. Para isso, a Eternidade passa a usar de seus poderes de viajar através do tempo para criar as Mínimas Mudanças Necessárias (MMN’s) para os Máximos Resultados Desejáveis (MRD’s). Essas mudanças são verdadeiros trabalhos de Engenharia Social e são feitas com o objetivo de manter as sociedades humanas sob uma relativa estabilidade social e política (ou para minimizar o sofrimento humano e garantir felicidade a toda a Humanidade, segundo a Eternidade).

As Mudanças de Realidade começam com observações feitas num determinado Tempo [4] pelos Observadores. Em seguida, Sociólogos  e Esboçadores de Vidas [5] planejam as Mudanças de Realidade necessárias de acordo com as observações feitas. Após isso, as Mudanças de Realidades são implementadas por Técnicos. Técnicos muito experientes podem ascender à posição de Computador Júnior. Os Computadores Sêniores são os Eternos mais experientes e são os detentores do poder político, pois formam um Conselho. Entretanto, alguns membros da Eternidade também podem ser rebaixados para funções de Manutenção: Recepcionistas, Secretários, Mecânicos de Caldeiras, etc.

Resumo da Ópera

Andrew Harlan é um homem de cerca de trinta anos nativo do século 95 (9401-9500). Sua nacionalidade e seu passado em seu século natal são totalmente desconhecidos. Durante seu treinamento, os Eternos perdem quase todas as suas memórias pessoais e jamais podem retornar ao século de que vieram – não podem nem mesmo passar muito tempo num século com características similares às de sua época na Terra.

Harlan começa sua carreira na Eternidade como Observador do setor da Eternidade no século 575 (57.401-57.500), mas acaba se revelando tão hábil que logo chama a atenção do poderoso Computador Sênior Twissel – um homem idoso, de aparência gnômica, quase mágica – e acaba sendo promovido ao posto de Técnico. Harlan passa a ser protegido por Twissel e dele recebe a importante missão de ensinar História Primitiva a um jovem recém-recrutado do século 78 (7701-7800), Brinsley Sheridan Cooper.

A promoção desperta a ira do Computador Júnior que era o chefe de Harlan no século 575  e rival político de Twissel dentro da Eternidade. O Computador Júnior sabe que Harlan tem uma fraqueza: ele é emotivo demais para os padrões da Eternidade. Uma armadilha é armada para o Técnico Harlan durante uma missão para implementar uma Mudança de Realidade no século 482 (48.101-48.200). Esse século apresenta características curiosas: sua sociedade é martriacal, sua cultura é muito similar ao Barroco, mas os costumes são bastante liberais.

É durante essa missão como Técnico que Andrew Harlan conhece a bela, rica e misteriosa Noys Lambert. Ao conhecer Noys no século 482, ele se apaoixona intensamente por ela e comete vários “crimes”: ele se relaciona intimamente com ela, e depois tenta evitar a que ela seja afetada pela Mudança de Realidade que vai implementar. Após consultar, secretamente, um Esboçador de Vida, Harlan descobre que Noys simplesmente não vai existir na Nova Realidade. Ele corre para salvá-la e a esconde  numa seção vazia do século 111.273 (11.127.201-11.127.300)  – um dos quase inacessíveis Séculos Obscuros, situados num futuro (muito) distante, além dos séculos 70.000.

Após seus crimes, Harlan passa a considerar a Eternidade nociva à Humanidade e vai tentar destruí-la. Antes disso, porém, ele precisa resgatar Noys Lambert  do futuro longínquo que ainda é desconhecido pela própria Eternidade.

Twissell sabia desde o começo que a Eternidade corria risco e por isso tenta enviar  Sheridan Cooper para o primitivo século 23.

Mas então tudo dá errado e somente Andrew Harlan tem em suas mãos o destino da Eternidade e de sua própria vida. É preciso escolher entre um dos dois: eis o dilema entre a Eternidade e a Infinidade.

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NOTAS:

[1] Para dar uma noção dos largos intervalos de tempo do livro e para situar o leitor, vamos indicar todos os séculos entre parênteses. Para determinar qualquer século, basta fazer alguns truques simples com uma calculadora (ou mesmo usar a cabeça): multiplique o número do século por 100. Por exemplo: 15×100 = 1500. Esse será o último ano do século 15. O primeiro ano será formado por dígitos que somam 15: 1401, pois 14 + 01 = 15. Em séculos mais distantes, é melhor usar uma calculadora mesmo, pois as coisas se complicam.

[2] Uma Caldeira (Kettle, no original em inglês) se parece muito com uma bolha, de acordo com a descrição do livro. Pode ser uma espécie de campo energético capaz de subir e descer pela escala temporal como um elevador. No livro, os séculos são comparáveis aos andares de um imenso prédio.

[3] História Primitiva é todo o período anteríor ao século 27, época da descoberta da energia nuclear e do surgimento da Eternidade. A realidade da História Primitiva é estática e só muda com a ocorrência de grandes fatos com profundas repercurssões, como guerras e revoluções. Após o surgimento da Eternidade a realidade e a própria História se tornam muito instáveis e maleáveis devido às Mudanças de Realidade implantadas pelos Eternos.

[4] As escalas de tempo da trama são tão longas que só se fala em séculos. Quando é necessário determinar um ano, fala-se em centiséculo. Assim, 2009 seria o centiséculo 20,09, situado dentro do século 21 (2001-2100).

[5] Sociólogos e Esboçadores de Vida são técnicos da hierarquia da Eternidade que estudam as sociedades e os indivíduos de forma racional e sistemática. A Sociologia da Eternidade é praticamente uma ciência exata, pois lida com equações aparentemente complexas para prever ou explicar o comportamento de determinada sociedade (ou de um indivíduo) numa dada época.

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