As “escravisauras” das minas britânicas

Colliery Reports Futility Closet 2012-09-17 23-17-55

Muito se fala de que a industrialização inglesa fez-se sem qualquer consideração pelas duríssimas condições de trabalho que criou para seus operários. Isso não é inteiramente correto. Em 1842, uma comissão parlamentar de inquérito (ou seja, uma CPI) debruçou-se sobre as condições de trabalhos das moças e rapazes empregados em minas de carvão. Algo semelhante hoje em dia seria veiculado pela imprensa como a CPI dos Meninos-Carvoeiros ou das Escravas Isauras. Não foi sob nenhum título vistoso que a Facts and Figures reproduziu, em sua edição de 2 de maio de 1842, o relatório final da comissão, do qual destacamos os seguintes trechos: Continue lendo…

Patentes Patéticas (nº. 65)

http://www.google.com/patents/US634887

No finzinho do século XIX, as bicicletas estavam em alta e Samuel G. Goss, de Chicago, achou que só faltava ter música para os passeios se tornarem mais agradáveis. Como ainda não havia rádio nem gramofones portáteis — muito menos mp3-players —, a única solução que Goss encontrou foi tranformar as próprias bikes em instrumentos musicais: Continue lendo…

>Patentes patéticas (nº. 34)

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Já em 1930 havia gente bastante preocupada com atropelamentos a ponto de pensar em soluções práticas (ou não). Heinrich Karl, de Jersey City, New Jersey, é um exemplo desse tipo de pessoa: ele inventou um complexo mecanismo para impedir ou minimizar os efeitos de um atropelamento. O sistema, totalmente mecânico, “sentiria” o choque com um pedestre, pararia o veículo e ainda teria a gentileza de lançar um lençol no solo para que “as roupas [da vítima] não sejam sujas.”

A geringonça anti-atropelo era tão imensamente complicada que a patente tinha oito páginas para descrever o sistema ilustrado em outras duas páginas — normalmente as patente têm só quatro ou cinco páginas. Até o título completo da patente nº. 1.865.014 é enorme: Dispositivo Automático para Veículos Sem-Cavalos para Proteção dos Pedestres e do Próprio Veículo. Um resumo simplificado é apresentado em partes do primeiro parágrafo (que soma quase 40 linhas) da patente, emitida em 28 de junho de 1932:

[...] Mais particularmente, este dispositivo inclui meios para prevenir o pedestre [...] de ser atropelado pelas rodas do dito automóvel ou caminhão, etc, [...] de tal maneira que a pessoa que for atingida não apenas cairá sobre o dito lençol [...] mas sua queda será amortecida pelo lençol, o qual não se apoiará diretamente no solo, previnindo assim ferimentos na dita pessoa. [...] Meios similares também são empregados na traseira do automóvel, etc, para proteger pessoas e o automóvel quando ele se move para trás. [...]

Entretanto, bem mais adiante, Mr. Karl via nessa complicação toda uma virtude e não um defeito:
O fato de que será necessária uma certa quantidade de trabalho e alguma perda de tempo para repor as diversas partes em suas posições normais após a ocorrência de uma colisão é uma razão para que o motorista do veículo seja mais cauteloso ao dirigir seu carro ou caminhão, etc, o que por sua vez diminuiria o alto número de acidentes decorrentes de colisões entre pessoas ou veículos.

Essa ideia pode parecer bastante lógica, mas é bom lembrarmos que um sistema de air-bag (que é muito mais simples) também demanda bastante perda de tempo e dinheiro após o uso — e mesmo assim, atropelamentos continuam ocorrendo. Pois na maior parte das vezes o defeito encontra-se entre o volante e o assento do banco dianteiro esquerdo (ou direito, em alguns casos).

>Correio Aéreo Subterrâneo

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Quando um jovem de Manhattan escreve uma carta para sua garota, que mora no Brooklyn, ele manda a carta para ela através de um tubo pneumático — pffft. — E.B. White, Here Is New York [Nova York é Aqui], 1949

O sistema de tubos pneumáticos já foi uma parte essencial da vida de Nova York. Cilindros contendo cartas, pacotes — e, em pelo menos uma oportunidade, um gatinho vivo — eram transportados através de tubos de ar comprimido, a uma velocidade de até 35 milhas [56km] por hora. Esses tubos cruzavam toda a cidade, do Harlem ao Lower East Side; da Canal Street ao Planetarium e até mesmo de Manhattan para o Brooklyn.
Posto em operação em 1897 pela American Pneumatic Service Company, o sistema tinha 27 milhas [43km] de extensão e ligava 22 agências do correio em Manhattan entre si e ao Correio Geral no Brooklyn. Os canos ficavam entre 1,20m e 3,60m abaixo do nível do solo. Em alguns pontos, feixes com 4, 5 ou até 6 linhas acompanhavam os túneis do metrô. No auge de sua operação, o sistema pneumático carregava cerca de 95.000 cartas por dia — o que representava 1/3 de toda a correspondência que circulava diariamente por Nova York.
“Eu ainda me lembro daquelas latas que saíam do tubo”, diz Natham Halpern, um funcionário veterano dos correios. “Eles chegavam a cada minuto mais ou menos e quando chagavam, estavam um pouco quentes e com uma leve camada de óleo.”

As latas poderiam ser largas o suficiente para transportar livros, pequenos pacotes e até gatinhos.

Em certa ocasião, os tubos transportaram não uma simples carta, mas um gato vivo. “Os funcionários dos correios pareciam tão fascinados com aquele mágico sistema de tubos quanto qualquer um. Certa vez eles até enviaram um pobre gato através dos tubos da cidade.” — conta Joseph H. Cohen, historiador do New York City Post Office. — “Ele chegou um pouco atordoado, mas chegou.”
Mas o sistema de correio a ar comprimido de Nova York não duraria para sempre. A manutenção dos tubos era cara e, apesar dos números, o serviço de entrega era bastante limitado. Após a virada do século outra maravilha apareceu para facilitar as entregas: o caminhão motorizado. Embora a maior parte das cidades tenha fechado seus sistemas pneumáticos por volta de 1918, Nova York continuou usando os seus tubos até 1º. de dezembro de 1953 (Praga foi uma exceção: inaugurado pouco depois dos tubos de NY, o sistema pneumático da capital tcheca continuou em funcionamento até 2002, quando foi seriamente danificado por uma inundação). Os tubos de Nova York resistiram em parte por causa da alta densidade populacional e em parte por causa do lobby das empresas envolvidas. Na verdade, o serviço só seria interrompido para uma revisão de contrato, mas acabou sendo abandonado mesmo.
Uma caixa de correio a ar: facilidade da entrega em edifícios era uma grande vantagem

O tubo pneumático que passava pela ponte do Brooklyn foi removido durante uma reforma ainda nos anos 1950. Desde então, os tubos sibilantes de toda a cidade caíram em silêncio. Até os edifícios que tinham seu próprio sistema, como o Waldorf Astoria, acabaram adotando substituindo-os em favor de novos meios de comunicação.

Mas há um lugar de Nova York onde esses maravilhosos tubos ainda são mais ágeis que seus sucessores eletrônicos: a seção de Humanidades e Ciências Sociais da Biblioteca de Nova York. Quando alguém entrega um pedido para o bibliotecário, ele é enviado por via pneumática e desce sete andares até o depósito de livros no subsolo. O pedido é recebido, o livro é localizado, retirado e enviado para cima por outro tubo.

Terminais pneumáticos da Biblioteca de Nova York

O velho sistema a ar comprimido da seção de Humanidades e Ciências Sociais sempre funcionou tão bem que um novo sistema foi instalado na Biblioteca de Negócios, Ciência e Indústria da Madison Avenue em 1998.
Mesmo em desuso, as tubulações pneumáticas de Nova York podem voltar à ativa e fazer um serviço muito similar ao do passado: transportar informação. O empresário Randolph Stark planeja passar linhas de fibra ótica por dentro dos tubos. “Mesmo que apenas uma pequena parte desses tubos ainda exista”, diz ele, “esse é um negócio muito valioso.”

>Em uma palavra [23]

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Decemnoverizar
[neolog., do latim, Decem, dez e Novem, nove]  v. 1.  vestir-se como uma pessoa do século XIX ou portar-se de forma vitoriana. 2. fazer cosplay (q.v.) de personagens de romances do século XIX ou de obras steampunk. Decemnoverizado, adj.

>A Incrível Memória do Pinóquio Mecânico

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Em 1928, o Instituto Franklin, na Filadélfia, recebeu uma curiosa doação. Era um autômato muito engenhoso, mas de origem e autoria desconhecidas. Movido por molas e guiado por uma série de engrenagens, o homenzinho mecânico era capaz de desenhar sete figuras diferentes e escrever versinhos em inglês e francês. Mas o pequeno menino de lata estava severamente danificado, pois fora encontrado entre os escombros de uma casa incendiada —  e impropriamente vestido como uma boneca.

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Meca-pinóquio
Quem havia criado uma máquina tão sofisticada? A resposta foi dada pelo próprio autômato. Por incrível que pareça, o ele havia sido construído em 1805 e seu inventor só foi descoberto por que teve o cuidado de ensinar sua criação a assinar em seu lugar. 
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Após ser restaurado, o mecanismo fez alguns desenhos, como o navio à esquerda. Depois de literalmente travar e ser “reiniciado”, ele escreveu uma quadrinha em francês (à direita) e assinou o seguinte: Ecrit par L’Automate de Maillardet. ["Escrito pelo Autômato de Maillardet"]. Estava descoberto o Gepeto: era o mecânico e relojoeiro suíço (perdoem a redundância) Henri Maillardet (1745-?). O “pinóquio mecânico” foi restaurado novamente em 2007 e, portanto, ainda funciona. E não mente:
Apesar de toda a possibilidade de posteriores desenvolvimentos tecnológicos que nos parecem óbvios hoje em dia, os autômatos mecânicos não passavam de curiosidades nos salões das cortes européias nos séculos XVIII e XIX. O autômato de Maillardet, por exemplo, com seus desenhos e seus versinhos ainda é considerado como o sistema mecânico de armazenamento de dados mais sofisticado que existe.
Se tal sistema de “memória” primitivo tivesse sido usado numa máquina de Babbage e programado por uma Ada Lovelace, onde é que a computação mecânica oitocentista chegaria? É difícil dizer, mas é uma possibilidade fascinante. De qualquer modo, parece improvável que qualquer computador moderno continue funcionando (quase) sem problemas daqui a dois séculos. Vamos ver se o Tio Gates ou o São Jobs serão lembrados por suas máquinas…

>O Homem a Vapor

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carregador a vapor 
Em 1868, Zadoc Dederick e Isaac Grass patentearam discretamente nos Estados Unidos a invenção acima, que foi descrita como um “aperfeiçoamento da carroça a vapor”. Os detalhes são sensacionais: trata-se de um homem mecânico com pernas articuladas que poderia puxar uma carroça, desviar obstáculos com as pernas e até correr de costas, tudo movido por um motor. Evidentemente, um motor a vapor cuja caldeira situava-se nas costas do mecanismo. Um verdadeiro robô steampunk!
1868-DederickSteamMan600 
O custo da construção do “primeiro homem” foi, na época, de US$ 2.000 — equivalente a mais de 25.000 dólares em valores atualizados. O homem a vapor de 1868 era um verdadeiro gigante: tinha 2,36 metros de altura e pesava 227kg. A potência era de assombrosos três cavalos-vapor. Curiosamente, o robô a vapor foi criado pouco depois da abolição da escravatura nos Estados Unidos. Teria sido uma proposta para substituir os antigos escravos carroceiros? Os traços negróides do projeto parecem indicar que sim.
A dupla de inventores ainda pretendia construir, com base nos mesmos princípios, outros homens mecanizados e até cavalos a vapor. Os animais motorizados seriam vendidos para puxar grandes carruagens nas cidades e arados no campo. Infelizmente, porém, pouco se sabe sobre o que aconteceu com Dederick, Grass e seus homens e animais mecânicos.

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