>Hamlet: Uma comédia de erros?

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Em 1889, Fredericka Raymond Beardsley Gilchrist propôs a teoria de que todo o sentido de Hamlet havia sido confundido por causa de um mero erro tipográfico. Na Cena V do Ato I, a sombra revela a Hamlet o adultério de sua mãe e o assassinato de seu pai. Então, Hamlet responde:
O all you host of heaven! O earth! what else?
And shall I couple hell? O fie!
[Ó legiões do céu! Ó terra! Que mais, ainda?
Invocarei o inferno?]
Mas Mrs. Gilchrist afirmava que o segundo verso deveria ser lido assim:


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O gatinho Hamlet — leva um tempão pra morrer.
Mrs. Gilchrist obviamente não queria um Hamlet encenado em forma de LOLcat. Desculpem a nossa falha. A redação proposta por ela é a seguinte:
And shall I couple? Hell! O fie!
[lit. E deverei eu formar um par? Para o Inferno!]
Ou, em bom português, “E eu ainda casar-me-ei? Não!” A autora de The True Story of Hamlet and Ophelia [A verdadeira história de Hamlet e Ofélia] argumenta que, no estado em que estava, após saber dos crimes em sua família, Hamlet não teria condições de parar e procurar algo para acrescentar a ‘céus!’ e ‘terra!’ em suas exclamações. 
Para ela, portanto, Hamlet se dá conta do risco de seu casamento com Ofélia. O príncipe da Dinamarca, então, desistiria de seu amor e o resto da peça é a história de um “amante infeliz”. Fredericka compara e apresenta diversas edições (como as de 1603, 1604 e 1623), mas reconhece que “Nenhures encontrei a leitura que eu procuro. Mas estou convencida de que a presente leitura não é a verdadeira.”
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“A Trágica História de Hamlet, príncipe da Dinamarca” (edição de 1605).
No entanto, ela insiste:  “A pontuação do Folio não foi feita por Shakespeare. Essa pontuação diferia da dos Quartos, elas divergiam entre si e todas são distintas da pontuação moderna: Acredito que todas são incorretas.” Ela segue argumetando sobre as confusões da pontuação do inglês da época de Shakespeare.
Entretanto, ela parece se esquecer de que Hamlet surgiu numa época em que tanto a língua inglesa quanto a imprensa já estavam bem estabelecidas. Embora um erro de pontuação na transcrição ou na tipografia seja perfeitamente possível, ela não apresenta nenhuma edição que comprove sua tese. Mas defende sua interpretação de forma tão peremptória e apaixonada que ela tenta contrabalançar com uma dose de humildade (bastante falsa, diga-se de passagem):
Por quase três séculos tem sido possível mal-entender, não apenas passagens específicas, mas a intenção fundamental da peça. Durante esse tempo nenhuma explicação satisfatória de todas as suas obscuridades foi apresentada. Eu acredito que essa teoria as explica. Contrariando a aparente vaidade e presunção da afirmação anterior, tal crença baseia-se em cuidadosos estudos e comparações. — Fredericka R. B. Gilchrist, The True Story of Hamlet and Ophelia [A verdadeira história de Hamlet e Ofélia], 1889

>Dramática Queima de Mostruário

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John Warburton (1682-1759) colecionava originais manuscritos de dramas logo após um dos períodos mais frutíferos do teatro inglês. Infelizmente, ele entrou para a história não por seu cuidado, mas por uma falha tão dramática quanto sua coleção. Ele deixou uma pilha com 50 manuscritos em sua cozinha e saiu para viajar. Meses depois, ao retornar, ele descobriu que a (analfabética) cozinheira havia destruído os originais de quase todas aquelas peças usando os papéis para acender o fogão a lenta lenha.
Entre os trabalhos perdidos (e, para nós, de autores desconhecidos) estavam peças de Philip Massinger (1583-1640), John Ford (1586-1637), Thomas Dekker (1572?-1632), Robert Greene (1558-1592), William Davenant (1606-1668), Cyril Tourneur (1575-1626), William Rowley (1585?-1626), George Chapman (1559?-1634), Henry Glapthorne (1610-1643?) e Thomas Middleton (1580-1627) — além, é claro, de três de William Shakespeare (1564-1616).
PS: a inexatidão nas datas de nascimento e até de morte de alguns dramaturgos deve-se justamente à bagunça dos séculos XVI e XVII na História Inglesa. No primeiro, houve a reforma da igreja; no último, duas guerras civis. Assim, em meio ao Renascimento Inglês, muitas informações históricas também se perderam.

>A Voz de Shakespeare

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Embora no começo do século XVII não existissem meios para gravar o áudio de peças de teatro, ainda hoje é possível ouvir as peças de Shakespeare tal e qual eram pronunciadas quando de sua estreia. A façanha é fruto de estudos do professor Paul Meier, da Universidade do Kansas, e seus alunos de artes cênicas.
Desde outubro, o Prof. Meier trabalha em parceria com o linguista David Crystal para reencenar as peças do bardo de Avon em OP (original pronounce, ou pronúncia original). Essa é a primeira montagem de Shakespeare em OP fora do Reino Unido.
A primeira vez que isso foi feito foi em Cambridge, nos anos 1950, em uma única e especial apresentação. Mais recentes são as duas montagens foram feitas pelo Globe Theather em Londres em 2005, também realizadas com consultoria de David Crystal, autor de Pronouncing Shakespeare.
A peça escolhida pelo professor Meier para ressuscitar o inglês seiscentista é A Midsummer’s Night Dream [Sonhos de uma noite de verão]. Um trecho da peça, em linguagem original e devidamente legendado em inglês, é apresentado no vídeo a seguir:

Como podem perceber, em OP as rimas de Shakespeare tornam-se claras. Mesmo quem pouco ouviu do inglês moderno nota a diferença na pronúncia. Notáveis são as mudanças em palavras simples como “my”, que passou de /mi/ para /mái/.
Também há mudanças mais sutis, como o –ear, de “bear” e “fear”, que era pronunciado como /ér/ e não /ir/. E em “ground” e “wound”, a vogal era /o/ em ambas e não /au/ na primeira e /ou/ na segunda.
Ah, sim, e para quem não sabe “thou” /tu/ e “thy” /tee/ são formas arcaicas de “you” e “yours” – um paralelo interessante com o português, onde também passamos de “tu” e “teu” para “você” e “seu”. De fato, thou e tu são cognatos e descendem da mesma raiz indo-europeia, *tu.
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PS: será que alguém já pensou em fazer a mesma coisa com as peças de Gil Vicente? Ou será que a diferença de pronúncia do português não é assim tão grande?
Achei o video no recém-descoberto Open Culture, que só apresenta bens culturais que não têm preço – tudo free.

>Aquela peça, a “escocesa”…

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Montagem daquela peça escocesa feita em 1855
Num teatro, os atores não costumam se referir à Macbeth diretamente. Em vez do título, referem-se à obra de Shakespeare como “a peça escocesa”. É uma tradicional superstição teatral, baseada na crença de que, se os atores disserem Macbeth nos bastidores, as bruxas amaldiçoariam as montagens da peça com acidentes fatais. A tradição da “peça escocesa” começou logo após a primeira montagem, quando um ator teria sido esfaqueado com uma adaga de verdade confundida com uma cenográfica.
Para evitar possíveis desastres, qualquer um que diga o verdadeiro nome da peça num teatro deve sair, cuspir ou rodar três vezes, gritar um palavrão e ser convidado antes de entrar novamente.

>Teatro do Futuro

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Imagine o teatro do futuro. [...] As massas sem dúvida vão frequentar os teatros tanto quanto hoje. Mas em vez de ver uma companhia de atores e atrizes mais ou menos medíocres, engajados na degradante tarefa de repetir, vez após vez as mesmas palavras, os mesmos gestos, as mesmas ações, eles vão ver a apresentação de uma completa companhia de “estrelas”, encenada em seu melhor desempenho, reproduzida tantas vezes quanto se queira. O perfeito kinetoscópio exibirá o espetáculo do palco, a máquina de falar e o fonógrafo ([que serão] sem dúvida muito diferentes) reproduzirão perfeitamente as vozes dos atores e as músicas da orquestra. Não haverá necessidade de empregar atores inferiores em pequenas partes. Como a produção de qualquer peça vai exigir somente que seja trabalhada até o ponto da perfeição e depois encenada apenas uma vez, não haverá dificuldade em assegurar o mais perfeito espetáculo possível.
— T. Baron Russell, A Hundred Years Hence [Daqui a Cem Anos], 1906.
Mais uma previsão que se cumpriu, pelo menos em parte. Sim, mas por que essa era óbvia. O “teatro do futuro” de cem anos atrás era apenas aquela novidade que na Europa se chamava de Cinema e na América era conhecida como Kinetoscópio. Os filmes ainda eram mudos, e ninguém era capaz de pensar numa forma de fazê-los falar; pensava-se que em vez de contratar pianistas, as produtoras deveriam gravar as falas em um disco, a música em outro e os cinemas deveriam trocar pianistas por vitrolas. Mais sofisticado que isso, impossível.
Perto do cinema daquela época, os filmes de hoje seriam considerados perfeitos, ou até mais do que perfeitos. Pelo menos nos aspectos técnicos, pois as várias revoluções tecnológicas do cinema não impediram o uso de figurantes nem o surgimento de novos atores “medíocres” ou de péssimos roteiros. E ainda hoje, mais de dois milênios e meio após sua invenção, o teatro continua firme e forte.

>Teatro Twitter

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Até onde se sabe, a peça teatral mais curta do mundo é The Exile [O Exilado], de Tristan Bernard. Eis o roteiro completo do ato único:

(A cortina abre-se para um cenário com um montanhista numa cabana remota. Um exilado bate à porta)

EXILADO: Quem quer que esteja aí, tenha pena de um homem caçado. Minha cabeça está a prêmio.

MONTANHISTA: Quanto custa?

Pano ultra-rápido. A peça é tão curta que as duas únicas falas caberiam numa twittada!

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