Contos Traduzidos — “Os Artefatos de Issahar”

Não deve ser difícil escrever uma história sobre um astronauta solitário e perdido ou criar um mistério arqueológico. Mas juntar os dois enredos banais em um conto com densidade psicológica é algo mais complicado. Um autor obscuro, Jesse Bone,  conseguiu o feito e o resultado é Os Artefatos de Issahar. Publicado originalmente em 1960 na Amazing Science Fiction Stories, esse conto é o que sobrou do diário de um biólogo-espaçonauta que acaba naufragando em um planeta desconhecido, porém surpreendentemente acolhedor e aparentemente sem vida.

Mas como era de se esperar em um planeta onde um ser humano pode sobreviver, a ausência de vida está apenas nas aparências. Ou será que o suposto ser vivo ameaçador não seria uma criação da mente de alguém “incomensuravelmente perdido”? O que quer que seja, aquilo que foi escrito na tentativa desesperada de aliviar uma paranoia crescente acaba se transformando na maior relíquia arqueológica para os seres daquele planeta misterioso. Sem saber, nosso anônimo astronauta acaba se tornando um deus.

>Soneto ao Nada

>Poema de Richard Porson, publicado na edição de 4 de março de 1814 do Morning Chronicle:

Misterioso Nada! Como hei-de mostrar
Vosso infome, infundado, ilocável vazio?
Nem forma, nem cor, nem som, nem tamanho traz.
Nem palavras ou dedos podem expressar vosso vozerio.

Mas embora não possamos vos comparar a algures,
Um milhar de coisas a vós podem se assemelhar.
E embora vós não estais com ninguém em nenhures,
Ainda assim, metade da Humanidade está a vos adorar.

Quantos volumes vossa história contém!
Quantas cabeças perseguem vossos poderosos ímpetos!
Quantas mãos laboriosas apenas uma porção de vós retém!
Quantos corpos se ocupam apenas com vossos projetos!

Os grandes, os orgulhosos, os vertiginosos, nada há-de dominar
E tudo — como meu soneto — em nada vai terminar.

>Literatura Médica

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Quando o médico escocês John Armstrong (1709-1779) disse aos amigos que tinha planos de escrever um livro sobre A Arte de Preservar a Saúde todos devem ter achado uma boa ideia. O que ninguém esperava é que ele o escrevesse em versos brancos (a divisão dos versos foi mantida tal qual o original):

O lânguido estômago amaldiçoa até mesmo
A deliciosa gordura e todas as raças de óleo
Pois quanto mais oleoso, o alimento relaxa
Seu débil tônus. E a voraz linfa
(Doida para se incorporar em tudo que encontra)
Recatadamente ele mistura. E evita com escorregadias artimanhas
O cortejado abraço. Esse insolúvel óleo
Tão gentil, lento e lisonjeiro, em fluxos
De bile rançosa se esparrama: Quanto tumulto causa,
Quantos horrores levanta são nauseante para relatar.
Escolhei mantimentos enxutos, ó vós de jovial feitio!

Publicado em 1744, o poema continua assim, nessa toada, por 128 páginas dividas em quatro livros. O resultado é floreado demais para ser útil e ao mesmo tempo nauseabundo demais para ser inspirador. O Dr. Armstrong ainda insistiu mais um pouco em sua poesia mediocremente médica, mas não teve sucesso. Mas para ganhar a vida, ele teve que voltar a escrever apenas receitas: em 1760 ele foi contratado como médico pelo exército britânico que estava na Alemanha.

>Dr. Filmer, o advogado das bruxas

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Tortura e execução de uma “bruxa”. Gravura de autoria desconhecida.
De um certo Filmer, advogado de defesa de bruxas na Inglaterra, diz-se que ele fez a engenhosa defesa que segue. Suas clientes foram acusadas, como de costume, de serem cúmplices [accessory] do demônio. Sob a commom law não pode haver cúmplice a não ser que haja um líder [principal] e nenhum cúmplice pode ser condenado a não ser que o líder seja condenado. Pois se o líder for absolvido, não há culpa principal [principal guilty] e assim não pode haver culpa por associação [accessory guilty]. Consequentemente, até que o líder seja condenado, os cúmplices não podem ser julgados.

Tomando vantagem dessa situação legal, Filmer arguiu que suas clientes não poderiam ir a julgamento até que seu suposto líder fosse julgado e condenado. E como isso poderia ser feito? Somente de acordo com a lei do país. Em primeiro lugar, como o demônio poderia ser intimado? O oficial de justiça encarregado seria obrigado ou ir até o diabo e intimá-lo pessoalmente ou, se isso não for possível, a deixar uma cópia da intimação por escrito no local de residência do demandado. Embora os amigos e admiradores do oficial de justiça possam aconselhá-lo a cumprir sua obrigação de ambas as formas de vez em quando, a aplicação prática de tal conselho seria uma impossibilidade [neste caso]. Ainda assim, supondo que o demandado fosse adequadamente intimado, ele teria direito a um julgamento por um júri formado pelos seus pares [por seus iguais; peers no original]. Mas Sua Majestade Satânica não tem pares ou, mesmo que tivesse, eles certamente o julgariam de forma conivente e certamente acabariam por absolvê-lo. Portanto, quaisquer que sejam as condições, como poderiam ser julgadas as suas cúmplices? — H. C. Shurtleff, “The Grotesque in Law” [“O Grotesco no Direito”], artigo publicado na American Law Review [Revista Americana de Direito], Janeiro-Fevereiro de 1920

[Nota: Tive algumas dificuldades na tradução do relato “grotesco” acima. Não tanto pelo absurdo da situação em si, mas pelas diferenças — principalmente de jargão — entre o sistema legal britânico e o nosso. Por isso, deixei o original de alguns termos que me causaram dúvidas entre colchetes. Se alguém puder confirmar que essa tradução é adequada ou puder apontar alguma melhoria ou correção, por favor manifeste-se através de comentário. Grato.]

>Contos Traduzidos: “As duas faces de Hargraves”

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Todo mundo sabe que um ator pode ser alguém que tem duas caras ou até mesmo dois escrúpulos. A princípio, essa é a situação do desconhecido ator Henry Hopkings Hargraves diante de seus colegas de pensão em Washington. Quem mais desconfia dele, porém, é o Major Pendleton Talbot, a figura mais exótica da pensão de Ms. Vardeman. No entanto, Mr. Hargraves adora aquele velho senhor do Alabama, cheio de Anedotas e Reminiscências. Tanto que, no momento em que Talbot mais precisa de ajuda — embora seu orgulho sulista não o admita — é Hargraves quem lhe estende a mão. Nem que, para isso, ele tenha que mostrar sua outra face.
As duas faces de Hargraves é o retrato do confronto ente duas éticas conflitantes: a do jovem artista urbano e a do velho escravocrata rural. Este conto de O. Henry é o protótipo do estilo do autor. Trata-se de uma observação aguda da sociedade americana de sua época, com muita ironia, muito wit e, acima de tudo, cheia de reviravoltas. 
Esta tradução, enriquecida com notas e perfis biográficos do autor e deste tradutor, está disponível para leitura e download no Google Docs.

>A Rede Social (1982)

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Em maio de 1982, a CompuServe publicou o seguinte anúncio de seu “sistema de videotexto” na revista Inteface Age. Mensagens eletrônicas, murais e jogos em rede com amigos virtuais — muito do que hoje se considera características de redes sociais — já existiam naquela época.
A seguir, uma versão traduzida do anúncio acima e um pouco da história da CompuServe:
A CompuServe Information Service (a.k.a. Compu-Serve, CIS e Compuserve) foi realmente a provedora líder do serviço de videotexto, chegando a 380.000 assinantes em 1987. Dois anos depois, em 1989, foi a primeira provedora do mundo a oferecer acesso à internet.

Continuou a ser a líder do mercado norte-americano, chegando a ter cerca de 3 milhões de assinantes, até meados da década de 1990, quando sua cobrança por hora começou a ser detonada pelos pagamentos mensais (e os clássicos CDs de instalação) da America Online.

Ironicamente, a CIS foi adquirida em 1998 por sua maior concorrente, a própria AOL. Embora o serviço de acesso Compuserve Classic tenha sido descontinuado em 2009, ainda é possível ter um e-mail @compuserve.com ou @cs.com. Mais informações na página da própria  Compuserve, que ainda existe!

>99, 100 e contando…

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Nomes dos Elementos 99 e 100
Dois grandes cientistas que faleceram durante o último ano, Albert Einstein e Enrico Fermi, foram homenageados com o batismo dos elementos 99 einsteinium e 100 fermium. O símbolo para einstenium é um simples E e o do fermium, Fm. Agora todos os elementos descobertos foram nomeados, uma vez que o 101 já havia sido chamado mendelevium, em memória do russo D. Mendeleev, que anunciou o sistema periódico dos elementos em 1869. — Popular Mechanics, dezembro de 1955
Apenas uma correção. O símbolo do elemento que homenageia Einstein acabou sendo Es e não E. Por razões um tanto óbvias: E já é tradicionalmente usado para representar Energia em Física e Química, como na famosa equação da relatividade (E=mc²). 
Outras curiosidades sobre o Es: 1) junto com o Férmio, ele foi descoberto pela primeira vez na explosão da primeira bomba de hidrogênio, em 1952. Isso não deixa de ser um tanto irônico, já que Einstein se opôs ao uso de armas atômicas em seus últimos anos. 2) O einstênio foi o último elemento sintético a ser descoberto em quantidades macroscópicas, isto é, visíveis.
Ah, e se você anda meio por fora, atualmente a tabela periódica tem 118 elementos, dos quais 112 já foram nomeados. O último a receber um nome foi o Copernício.

>Problem?

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>Mini-Holmes

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Com apenas 503 palavras (em inglês e 469 nesta tradução que eu fiz), o conto a seguir é a mais curta história de Sherlock Holmes escrita por Arthur Conan Doyle (1859-1930). O miniconto foi feito para ser publicado em um minilivro de 1,5 polegada [3,81 cm] de altura e que seria parte da biblioteca de uma casa de bonecas da Rainha Mary (1867-1953), esposa de George V (1865-1936, regnabat 1910-1936):

Como Watson aprendeu o truque
Watson estava observando intensamente seu companheiro desde que ele havia se sentado à mesa do café-da-manhã. Casualmente, Holmes levantou seus olhos e viu-o:
— Bem, Watson, você está pensando no quê?
— Em você.
— Em mim?
— Sim, Holmes. Pensava em quão superficiais são esses seus truques e como é incrível que o público continue a mostrar interesse neles.
— Eu concordo deveras. De fato, me lembro de uma vez em que fiz uma observação similar.
— Seus métodos  disse Watson secamente  se adquirem com muita facilidade.
— Sem dúvida 
 Holmes respondeu com um sorriso . Talvez você mesmo queira dar um exemplo desse método de raciocínio.
— Com prazer. Eu sou capaz de dizer que você estava bastante preocupado quando acordou hoje cedo.
— Excelente!  exclamou Holmes  E como pôde saber disso?
— Porque você geralmente é um homem muito organizado, mas até agora se esqueceu de fazer a barba.
— Meu caro! Quanta sagacidade! Eu não tinha ideia, Watson, de que você seria tão bom aluno. Seus olhos de águia detectaram algo mais?
— Sim, Holmes. Você tem um cliente chamado Barlow e não tem sido bem-sucedido nesse caso.
— Meu caro, como você percebeu isso?
— Eu vi o nome fora do envelope. Quando você o abriu, soltou um gemido e guardou-o no bolso com o cenho franzido.
— Admirável! Você é mesmo um bom observador. Tem mais algum ponto?
— Eu receio, Holmes, que você esteja envolvido em alguma especulação financeira.
— Como pode afirmar isso, Watson?
— Você abriu o jornal, pulou para a página de finanças e soltou uma exclamação de interesse em voz alta.
— Bem, isso é muito sagaz de sua parte, Watson. Algo mais?
— Sim, Holmes. Você vestiu seu casaco preto e não o seu robe, o que significa que você está esperando alguma visita importante.
— Nada mais?
— Eu não tenho dúvida de que poderia apresentar outros pontos, Holmes. Mas só lhe dou esses poucos para mostrar-lhe que há outras pessoas no mundo que são tão espertas quanto você.
— E algumas nem tanto. Eu admito que são poucas, mas receio, meu caro Watson, que eu não devo contar você entre elas.
— O que quer dizer, Holmes?
— Bem, meu caro colega, receio que suas deduções não sejam tão felizes quanto eu gostaria.
— Quer dizer que estou enganado?
— É mais ou menos isso, eu acho. Vamos por as coisas em ordem: eu não fiz a barba porque mandei a lâmina para ser afiada; vesti meu casaco em lugar do robe porque, por azar, tenho um encontro matutino com o dentista. O nome dele é Barlow e a carta veio para confirmar o compromisso. A página de críquete fica bem ao lado da financeira e eu procurava saber se Surrey ainda está à frente de Kent. Mas vá em frente, Watson, vá em frente! É um truque bastante superficial e sem dúvida você irá adquiri-lo logo.

J.M. Barrie (1860-1937; autor de Peter Pan), Thomas Hardy (1840-1928; “o último dos grandes vitorianos”), Rudyard Kipling (1865-1936; Nobel de Literatura em 1907) e Somerset Maugham (1874-1965) também contribuíram com minivolumes para a minibiblioteca real, que ainda está em exposição no Castelo de Windsor. Socialista e irlandês, George Bernard Shaw (1856-1950) recusou o convite para participar dessa brincadeira lítero-real.

>Créditos Finais Sem Fim

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Certa vez, o matemático inglês John Edensor Littlewood (1885-1977) escreveu um artigo para o Comptes rendus de l’Académie des sciences, da França. Noves fora a matemática, a tradução do texto foi feita pelo Prof. Marcel Riesz (1886-1969). O trabalho nem era muito importante e passaria despercebido, não fossem essas três notas de rodapé no fim do artigo:

Devo muito ao Prof. Riesz pela tradução do presente trabalho.

Ainda devo ao Prof. Riesz pela tradução da nota anterior.
Ainda devo ao Prof. Riesz pela tradução da nota anterior.

A coisa poderia ter continuado indefinidamente (exceto talvez pela limitação de espaço). Mas não foi a isso que Littlewood se prendeu: “Eu parei legitimamente no número 3: não importa quão pouco eu saiba de Francês, eu sei que sou capaz de copiar uma sentença em Francês.”

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