Complexo de Édipo 2.0

Ao passear com seu cachorro por uma floresta Jocasta Jones descobre um congelador que contém um homem. Ela o reaquece, ele acorda e se apresenta como Dum. Depois, ele mostra a Jocasta um livro com instruções para construir uma máquina do tempo e um congelador.

Jocasta e Dum acabam se apaixonando e têm um filho, Dee. Após crescer, o menino descobre aquele manual de instruções. Dee, então, constroi uma máquina do tempo e entra dentro dela, acompanhado do pai e levando o livro. Por motivos imprevistos, a jornada para o passado leva um longo tempo e, na falta de provisões, o jovem Dee é forçado a matar seu pai para comê-lo e sobreviver.

Tomado pela culpa, Dee chega ao seu destino e destroi a máquina do tempo. Ele muda seu nome para Dum, constroi um congelador e, com o livro, se mete lá dentro até ser encontrado por Jocasta.

Parece o mito edipiano em forma de ficção científica, mas é um artigo de filosofia publicado na revista Analysis em 1979. Nele, o então professor de filosofia Jonathan Harrison, da Universidade de Nottingham, pergunta: “É logicamente possível que Jocasta cometa um crime?”

Do ponto de vista dela, Dum entra em sua vida, eles têm um filho e depois de alguns anos tanto o marido quanto o filho desaparecem. Mas, para Dee, Jocasta se casa com seu próprio filho e dá à luz uma criança — que é o próprio Dee. Isso seria incesto? Freud explica?

Harrison, J. “Jocasta’s crime” ["O crime de Jocasta"], Analysis (1979) 39 (2): 65-66. doi: 10.1093/analys/39.2.65. (Disponível apenas para assinantes, mas há um pdf com o conto-artigo original no site do prof. Harrison)

>Os EUA derrotariam Roma?

>

Essa boa pergunta começou como uma experiência de pensamento no Reddit.com quando um usuário chamado The_Quiet_Earth postou a seguinte questão: “Eu poderia destruir o Império Romano inteiro durante o reinado de Augusto [circa 23 A.E.C.] se eu viajasse no tempo com um moderno batalhão de infantaria da Marinha dos Estados Unidos ou uma MEU?” Pouco depois, o usuário fez alguns esclarecimentos e apresentou um cenário mais preciso:

Digamos que a gente volte no tempo com uma MEU [Marine Expeditionary Unit ou Unidade Expedicionária de Fuzileiros-Navais]… poderíamos destruir todas as legiões de Augusto?
Estaríamos contra mais ou menos 330.000 homens, uma vez que cada legião era composta por 11.000 homens. Esses homens eram tipicamente equipados com armaduras para os braços e o tronco, feitas de metal e como armas eles usavam espadas, lanças, arcos e outros implementos de apunhalamento. Nós também encontraríamos armas de cerco como catapultas e toscas armas incendiárias.
Nós teríamos um total de cerca de 2.000 membros, do qual metade participaria de operações de ataque terrestre. Nós poderíamos usar nossos veículos mecanizados (60 Humvees, 16 veículos blindados, etc), mas não poderíamos usar nosso reforço aéreo. Aeronaves seriam apenas para transporte.
Nós teríamos médicos conosco, além de moderno equipamento médico e drogas, mas não teríamos mais uma linha de suprimento mágica através do tempo (nós tínhamos, mas os timelords desprezaram-nas, infelizmente!) que nos alimentaria com toda a munição, equipamento e sustento que precisaríamos para sobreviver. Nós teríamos que prosseguir com as coisas que trouxemos conosco.
Assim, seríamos nós vitoriosos?
A pergunta, obviamente, causou um frenesi de discussões e argumentações. Outro usuário, James Erwin escreveu um conto, Rome Sweet Rome, imaginando como as batalhas se desenrolariam sob tais condições.  Não demorou muito para se formar uma comunidade em torno do conto, de onde surgiram diversos traillers no Youtube baseados na história de James Erwin. A coisa foi tão louca que a Warner Bros. já comprou os direitos cinematográficos sobre o conto (Erwin deve desenvolver o conto em um livro, a ser publicado até o fim do ano que vem). 
Agora, porém, são os historiadores profissionais que estão se debruçando sobre essa questão. Expert sobre o Exército Romano, o historiador Adrian Goldsworthy foi entrevistado pela Popular Mechanics. Eis o que ele pensa sobre esse cenário:

Obviamente, haveria uma diferença brutal de poder de fogo. A armadura romana seria não só inútil contra um rifle — muito menos contra um lança-granadas ou uma metralhadora .50 —, ela provavelmente distorceria os projéteis, tornando as feridas mais profundas.

Mas Mr. Goldsworthy lembra que há um porém:

No curto prazo e em campo aberto, a infantaria moderna poderia massacrar qualquer soldado da antiguidade com um risco mínimo  de baixas. Mas você não poderia sustentar essa infantaria moderna. Assim, com todas essas armas e veículos você poderia fazer uma aparição breve, dramática e até mesmo devastadora, mas que rapidamente se tornaria inútil. Provavelmente em questão de dias… Os marines são os melhores guerreiros já treinados. Mas eles não podem lutar contra uma onda interminável de soldados. Ninguém pode.

Essa limitação logístico-temporal acabaria com qualquer poder moderno. Os veículos não tardariam a ficar sem combustíveis (ainda mais sendo beberrões como são os veículos militares). As munições também se esgotariam rapidamente. Por outro lado, nossos soldados do século XXI certamente poderiam se virar em termos de alimentação. Só que, sem qualquer poder de fogo, nossos dois mil homens seriam inúteis contra as 30 legiões de Augusto, ainda que conseguissem destruir algumas delas enquanto tivessem poder de fogo. No entanto, todas essa legiões não estariam reunidas na Itália — ou, provavelmente, não deveriam estar —, o que obrigaria a uma caçada através de toda a Europa e Oriente Médio para aniquilá-las.

>O Incidente de Kersey

>

Kersey em 1957. Aquarela de Jack Merriot.
Pensando bem, aquele silêncio era mesmo uma coisa muito estranha: os sinos das igrejas pararam de tocar e até os patos se calaram e ficaram quietos no pequeno riacho no começo da rua principal enquanto o trio de cadetes navais se aproximava do vilarejo. Mais tarde, segundo a recordação dos garotos, até o canto outonal de um pássaro de desvaneceu à medida que eles se aproximavam das primeiras casas. Nenhuma folha se movia nas árvores que, aliás, pareciam não ter sombras. Até mesmo o vento parecia ter deixado de existir.

A rua em si estava bem deserta. Isso não seria surpresa numa manhã de domingo de 1957, ainda mais no coração rural da Inglaterra. No entanto, mesmo os mais remotos vilarejos britânicos já mostravam então sinais de modernidade — carros estacionados nas calçadas, linhas telefônicas suspensas ao lado das ruas e antenas espalhadas pelos tetos. Mas não havia nada disso naquela vila. De fato, todas as casas daquela rua pareciam antiquíssimas: eram grosseiras, com estruturas de madeira, e “quase medievais em aparência”, pensava um dos garotos.

Um incidente temporal?
Os três jovens, que eram cadetes da Royal Navy, aproximaram-se da construção mais próxima e meteram seus rostos nas janelas encardidas, esforçando-se para ver alguma coisa. O que dava para ver era algum tipo de açougue, mas o interior era ainda mais perturbador. Segundo um dos meninos, em depoimento ao escritor Andrew MacKenzie:
Não havia mesas ou balcões, apenas duas ou três carcaças interias de boi que haviam sido esfoladas e em alguns lugares já estavam esverdeadas de velhas. Havia uma porta pintada de verde e janelas com diminutos painéis de vidro, uma na frente e uma do lado, com um ar um tanto sujo. Eu me recordo que enquanto olhávamos incrédulos através daquela janela para as carcaças mofadas e emboloradas… o sentimento geral era um de descrença e irrealidade… Quem acreditaria que em 1957 as autoridades sanitárias permitiriam tais condições?

Eles espiaram em outra casa também. Que, também, tinha janelas esverdeadas e gordurosas e que parecia igualmente desabitada. As paredes pareciam ter sido toscamente caiadas, mas os cômodos estavam vazios. Os garotos não conseguiam ver nenhuma mobília ou objeto e pensavam que as salas em si “não seriam de qualidade moderna”. Assustados, os cadetes voltaram as costas de deram no pé para fora da estranha vila. A trilha que seguiram subia por uma pequena colina e eles não olharam para trás até alcançar o topo da pequena elevação. Daí, segundo um dos três se lembrou, “subitamente podíamos ouvir os sinos tocando novamente e vimos fumaça elevando-se das chaminés, embora nenhuma chaminé estivesse fumando quando estávamos no vilarejo… Nós corremos por uma centena de jardas como que para nos sacudir do sentimento de estranhamento.” [MacKenzie, pp. 6-9]

O que aconteceu com esses três rapazes numa manhã de outubro há mais de meio século ainda permanece um tanto misterioso (ou não). Eles participavam de um exercício de leitura de mapa que deveria ser bastante simples. A ideia era fazê-los se orientar através de quatro ou cinco milhas de uma área rural até um ponto determinado. Depois, eles voltariam à base e relatariam o que encontrassem — o que, de acordo com o plano, seria a pitoresca vila de Kersey, no condado de Suffolk. Mas quanto mais pensavam no assunto, mas os cadetes se convenciam de que algo muito estranho havia ocorrido. Anos mais tarde, William Laing, o rapaz escocês que liderava o trio, colocou as coisas nestes termos: 

Era uma vila fantasma, por assim dizer. Era quase como se tivéssemos andado para trás no tempo… Eu experimentei uma sensação esmagadora de tristeza e depressão em Kersey, mas também uma sensação de hostilidade de observadores ocultos que dariam frio na espinha de qualquer um… Eu me perguntava que, se nós batessemos em uma porta para fazer uma pergunta, quem a teria respondido? Não suporto ter de pensar nisso.
Laing, que viera de Pertshire, nas Highlands da Escócia, era um estrangeiro para essas bandas do leste da Inglaterra. Assim também eram seus colegas Michael Crowley (de Worcestershire) e Ray Baker (londrino da gema). Esse era o problema. Os três tinham só 15 anos e haviam acabado de se alistar na Royal Navy. Isso os tornava facilmente enganáveis pelos oficiais responsáveis pelo treinamento. Seus superiores, segundo Laing, estavam “um tanto céticos” quando ouviram sobre aquela experiência, mas logo estavam “rindo bastante, concordando que havíamos visto Kersey corretamente.” [MacKenzie, pp. 8-9]

O incidente de Kersey ficou esquecido até meados da década de 1980, quando Laing e Crowley — que agora viviam na Austrália — conversaram por telefone e remoeram a história toda. Laing sempre foi perturbado pelo acontecimento. Crowley, por sua vez, não se lembrava com tantos detalhes quanto o colega, mas pensava que alguma coisa estranha havia mesmo ocorrido e recordava-se do quadro geral de silêncio, ausência de antenas e postes e especialmente do açougue bizarro. Isso foi o bastante para fazer Laing escrever ao autor de um livro que ele havia lido: Andrew MacKenzie, que era um dos líderes da Society for Psychical Research.

Retrocognição?

MacKenzie ficou intrigado com a carta de Laing e reconheceu um possível caso de retrocognição. Observando cuidadosamente os detalhes, ele pensou que os cadetes haviam visto Kersey não como era em 1957, mas como era séculos antes. MacKenzie e Laing trocariam correspondências por dois anos. Pesquisas em bibliotecas locais com auxílio de um historiador levaram MacKenzie a confirmar sua hipótese. Em 1990, o ex-cadete retornou à Inglaterra e visitou novamente o vilarejo, acompanhado do pesquisador.

O que torna esse caso particularmente interessante é que a retrocognição é o mais raro dos supostos fenômenos paranormais. O número de casos relatados não passa de uma mão cheia. Muitos fatores levaram MacKenzie a considerar como genuína a experiência dos garotos: a sinceridade óbvia de Laing e Crowley (Ray Baker foi procurado sobre o assunto, mas disse não se recordar da experiência); os detalhes de suas recordações; e algumas descobertas persuasivas. 

Entre os detalhes que mais impressionaram o investigador foi o fato de que a cada que Laing identificava como o açougue — que era uma residência particular tanto em 1957 quanto em 1990 — datava de cerca de 1350 e realmente havia sido um açougue até por volta de 1790. MacKenzie também se impressionou com uma sugestiva mudança de estação sentida pelos garotos ao entrar no vilarejo — dentro de Kersey, segundo Laing, “estava verdejante… as árvores estavam naquela cor verde magnífica que se encontra na primavera ou no começo do verão”. Intrigante também era a questão da igreja da vila. Laing notou como o grupo não a viu após entrar na vila sob um manto de silêncio. Aliás, ele lembra-se explicitamente de que “não havia sinal de uma igreja. Eu certamente deveria tê-la visto, já que tinha um campo de observação de 360 graus” no topo do morro. Crowley também se recorda de “nada de igreja ou pub.” [MacKenzie pp. 4, 6, 11]

Contradições Históricas

Tudo isso, porém, parece inexplicável. A Igreja de Santa Maria de Kersey data do século XIV e é o principal edifício do distrito, sendo bem visível a qualquer um que passe pela rua principal. No entanto, MacKenzie vê nisso uma evidência da data em que Laing e sua turma “visitou” o local. Segundo ele, a construção da torre do templo foi interrompida por um surto de Peste Negra (1348-9) que matou metade da população de Kersey. Para MacKenzie, os meninos viram o local como estava após a praga, quando a torre da igreja semiconstruída estava escondida em meio às árvores. Mas MacKenzie, contraditório como todo investigador de paranormalidade, também diz que a data mais provável seria por volta de 1420. Isso porque por essa época Kersey começava a enriquecer como comércio de lã [Kerridge p.5], o que permitiria o aparecimento das primeiras janelas de vidro.

No entanto, essa simples contradição de datas joga por terra a hipótese de que os garotos tenham se perdido no tempo. Kersey é exatamente o tipo de lugar que poderia causar confusões em visitantes novatos e estrangeiros. Quanto à falta de postes e antenas, há uma explicação bastante racional para isso. No começo dos anos 1950 a Suffolk Preservation Society lutou pela preservação da paisagem local [Electrical Review p.414; Electrical Times p.300]. O resultado dos protestos a favor da preservação histórica de Kersey podem ser encontrados em relatórios do Parlamento Britânico da época, que falam de “negociações que resultaram na transferência das linhas aéreas para o fundo das casas de cada lado da rua ou o enterro do cabo no subsolo no ponto onde a rua precisa ser cruzada.” [Command Papers p.96] Ou seja, havia sim linhas elétricas. Elas apenas estavam escondidas por motivos turísticos.

E quanto aos outros detalhes? Janelas de vidro, mesmo que toscas, eram bastante caras e portanto raras nos séculos XIV e XV [Cantor p.139]. Mesmo que a Kersey supostamente visitada fosse rica, porque suas casas estariam abandonadas e sem móveis? Se o local houvesse sido repentinamente abandonado por causa de uma praga, ninguém teria tempo de levar sua mobília.

O açougue bizarro

Quanto ao açougue, esse é um ponto crucial e demonstra a superficialidade das pesquisas históricas de MacKenzie. A questão é: um vilarejo medieval teria um açougue? Isso não quer dizer que tais estabelecimentos não existissem. Mas eles normalmente ficavam em cidades maiores, onde havia mais demanda. Isso porque a carne, nessa época, era um alimento bem caro. A maioria dos camponeses (e vilões) tinha uma dieta quase exclusivamente vegetariana. Quando se abatia um animal numa vila, o consumo deveria ser imediato, já que não havia muitos métodos de armazenar carne. [Mortimer pp.10-13, 93-4] 
O consumo de carne pode até ter aumentado bastante no século XIV (passando de “um décimo ou menos do orçamento alimentar para um quarto ou um terço do total”), mas há evidências de que tal consumo era ocasional: em Norfolk, não muito longe de Suffolk, apenas três cabeças de gado foram abatidas em um ano por volta daquela época. [Dyer pp.85-6] Portanto, parece absurdo supor que um lugar tão pequeno quanto Kersey tivesse não apenas um açougue, mas um açougue com duas ou talvez três carcaças inteiras por volta de 1420. Nessa época Kersey já tinha uma feira semanal onde seria muito mais fácil encontrar carne fresca em pequenas quantidades.

Confusão mental

Portanto, tudo parece indicar que os cadetes tiveram sim uma experiência excepcional — mas uma experiência puramente psicológica, a derrealização. A derrealização é uma condição psicológica na qual o mundo real subitamente aparenta ser irreal. A favor dessa hipótese há os elementos-chave do incidente: o silêncio, a ausência de vida, as “árvores sem sombra” relatados pelos garotos são comuns em casos de derrealização. As causas podem ser diversas, mas nesse caso tudo não passaria de uma forte impressão de irrealidade causada talvez pelo estresse a que os cadetes haviam sido submetidos durante seu exercício de localização. Assustados por estarem em um local desconhecido no espaço, ele teriam tido a impressão de estarem perdidos no tempo — o que só foi reforçado pela quietude de uma manhã de domingo em um vilarejo pacato do interior da Inglaterra.
Referências
  • Andrew Mackenzie. Adventures in Time. London: Athlone Press, 1997
  • Eric Kerridge. Textile Manufactures in Early Modern England. Manchester: MUP, 1988
  • Electrical Review vol. 145 (1949); Electrical Times vol.116 (1949)
  • Command papers. Great Britain: Parliament: House of Commons. London: HMSO, 1951. Vol. XX
  • Leonard Cantor. The Changing English Countryside, 1400-1700. London: RKP, 1987
  • Ian Mortimer. The Time Traveller’s Guide to Medieval England. London: Vintage, 2009
  • Christopher Dyer. Everyday Life in Medieval England. London: Vantage, 2000

Categorias

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM