Empréstimo Hereditário

Quem nunca devolveu um livro pra biblioteca da faculdade com semanas ou mesmo meses de atraso não sabe o que é ficar pobre pagar multa. Richard Dodd, de Winnimac, Indiana, que o diga. Em 7 de dezembro de 1968, ele notou que tinha um velho livro atrasado entre seus pertences e o devolveu à Biblioteca Médica da Universidade de Cincinnati.

E como estava atrasado! O livro — Medical Reports of Effects of Water – Cold and Warm – as a Remedy in Fever and Febrile Diseases, Whether Applied to the Surface of the Body or Used Internally [Relatórios Médicos do Efeito da Água (Fria e Quente) como Remédio para Febre e Doenças Febris, seja Aplicada à Superfície do Corpo ou Usada Internamente], escrito por James Currie — tinha um atraso tão grande quanto seu título. O exemplar de Medical Reports… havia sido emprestado, pelo bisavô de Dodd, em 1823 — e estava com meros 145 anos de atraso no momento da devolução.Medical Reports

Tanto o bisavô quanto o avô de Dodd haviam frequentado a Escola de Medicina de Cincinnati. Eles deviam ter devolvido o exemplar, mas o livro acabou chegando às mãos de Richard Dodd como herança de família. Felizmente, ao receber o livro, a bibliotecária Cathy Hufford resolveu não cobrar a multa. Até porque seria difícil receber o valor, então calculado em 22 646 dólares. Em valores atualizados pela inflação, segundo os cálculos do Wolfram | Alpha, seriam US$ 152 904,45 ou (de acordo com a cotação do Google) aproximadamente R$ 299 157,43.

A saga do III Prêmio "Bê Neviani"

“Era no tempo do Rei…” Ok, não faz taaaaanto tempo assim, mas parece.

Foi na noite do dia 22 de abril que o Samir Elian, vizinho bloguístico do Meio de Cultura, me avisou que eu havia sido o blogueiro premiado com o III Prêmio “Bê Neviani”. Eu estava sabendo da premiação através do MdC, mas não podia imaginar que acabaria agraciado. Pensei que fosse apenas uma promoção pros tuiteiros — pra quem não sabe, eu não tenho twitter. Aliás, gostaria de agradecer aqui, ainda que muito tardiamente, ao @hsegundo, por tuitar o post sobre Agatha Christie surfista. Continue lendo…

[Enigma] A mesa do professor universitário

Ao longo de 25 anos, o matemático Joe Konhauser, do Macalester College, propôs um “problema da semana” aos seus alunos. Eis um exemplo:

Quinze folhas de papel de vários tamanhos e formas estão sobre uma escrivaninha, cobrindo-a completamente. As folhas podem se sobrepor e até pairar à beira da mesa. Prove que é possível remover cinco dessas folhas de modo que as dez restantes cubram dois terços da superfície da escrivaninha.

Valendo!

Contraproposta

Em 1744, após fazer um convite para que os nativos americanos mandassem alguns jovens índios para estudar em suas faculdades numa espécie de intercâmbio, o College of William & Mary, da Colônia de Virgínia, recebeu a seguinte resposta:

Nós sabemos que vós estimais altamente o tipo de educação que ensinam nesses Colleges e que a Manutenção de nossos jovens Homens, junto a vós, vos seria bastante cara. Nós estamos convencidos, portanto, que vosso objetivo é fazer-nos o Bem com vossa Proposta e nós vos agradecemos ternamente. Mas vós, que sois sábios, deveis saber que diferentes Nações têm diferentes Concepções das Coisas. E vós não deveis, portanto, considerar erradas nossas Ideias desse tipo de Educação por não serem iguais às vossas. Nós já tivemos alguma Experiência com ela: Muitos de nossos jovens foram antigamente levados aos Colleges das Províncias Nortistas. Eles receberam instruções em todas as suas Ciências, mas quando retornaram a nós, eles eram maus Corredores, ignorantes de todos os meios de se viver nas Florestas, incapazes de suportar o Frio ou a Fome, nada sabiam sobre como construir uma Cabana ou capturar um Veado ou matar um Inimigo; falavam nossa língua imperfeitamente e, portanto, não estavam preparados para ser Caçadores, Guerreiros ou Conselheiros. Eles eram totalmente bons em nada. Nós, porém, agradecemos vossa gentil Oferta, apesar de não aceitarmo-na. E, para demonstrar nosso Senso de gratidão, se os Gentlemen de Virgínia nos mandarem uma Dúzia de seus Filhos, nós tomaremos grande Cuidado de sua Educação, instruindo-os todos em tudo que conhecemos e fazendo deles Homens.

Mais de dois séculos e meio (e três revoluções científicas) depois, ainda há americanos para os quais os universitários são “totalmente bons em nada”. E esses americanos críticos das universidades não são exatamente nativos — há até (pré-)candidato a presidente que considera os colleges inúteis.

>Patentes Patéticas (nº. 23)

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Cansados de ter que fazer os trotes nos bixos todo começo de ano, os vóteranos senhores veteranos Edmund e Ulysses de Moulin resolveram automatizar o processo em 1900.
No “aparelho de iniciação” (fig. 1) inventado por eles, o novato é vendado, posicionado e recebe a ordem instrução de puxar as alças para testar sua força. Só que, ao fazer isso, o verme recém-chegado é atingido nas nádegas por um remo. Como bônus, um choque elétrico pode ser aplicado nos braços do bixo ao mesmo tempo em que ele puxa e apanha, “tornando essa sensação algo único”.
É possível trotar um bixo de cada vez ou — se você for um veterano que tem mais o que fazer — usar vários aparelhos para fazer uma linha de montagem e humilhar uma classe inteira do primeiro ano de uma só vez.

>Trollagem Psicológica

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Em uma universidade feminina, um psicólogo pediu aos membros de sua classe para cumprimentar qualquer garota vestida de vermelho. Em uma semana, a cafeteria ardia de tanto vermelho. Embora tenham notado que a atmosfera estava mais amigável, nenhuma das meninas sabia estar sendo influenciada. Diz-se que uma turma na Universidade de Minnesota teria condicionado seu professor de psicologia uma semana após ele ensinar sobre aprendizagem subconsciente. Toda vez que ele movia-se para o lado direito da sala, os alunos prestavam mais atenção e riam mais ruidosamente de suas piadas — e condicionaram-no tanto a ir para a direita que chegaram a fazê-lo sair da sala. — W. Lambert Gardiner, Psychology: a Story of a Search [Psicologia: relato de uma pesquisa], 1970

Fica a dica para os estudantes universitários trolls.

>O Paradoxo da Etiqueta

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Este paradoxo foi o @MolaMolera que me apresentou, logo após uma experiência que ele teve na cantina da Faculdade. A situação pela qual ele passou demonstra perfeitamente como as regras de etiqueta não respeitam nenhuma lógica e não são nem mesmo auto-consistentes. O problema é o seguinte: Se você está comendo enquanto o seu suco é servido, você deve agradecer?
Suponha que exatamente no momento em que seu suco é servido, você já está mastigando seu salgado. Nesse caso, como você pode manter a etiqueta? Se você quiser ser gentil, vai ter que dizer “Obrigado” de boca cheia; se quiser ser educado, vai passar por mal-educado, pois não vai abrir a boca para agradecer.
Ok, é uma situação um tanto improvável, já que na maioria dos casos ou o suco e a refeição chegam juntos ou o suco é servido primeiro. Mas ainda assim, é uma situação perfeitamente possível. O salgado já estava pronto e você pediu um suco natural, não um daqueles de garrafinha. A saída mais correta, do ponto de vista social, parece ser falar de boca cheia mesmo. De que adianta manter a pose se isso pode te fazer parecer o oposto do que você deseja?

>Multifuncional para a cozinha (1952)

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Anúncio encontrado na edição de setembro de 1952 da Collier’s Magazine (via Modern Mechanix):

general_fridge

Naquela época, os anúncios de eletrodomésticos se limitavam apenas a descrever o produto e nem de longe ofendiam sua inteligência com frases de efeito apelativas.
COZINHE e LAVE em seu REFRIGERADOR!
Cozinha completa em 5 pés quadrados [meio metro quadrado??]. Combina refrigerador, pia, três bocas de gás, e gaveta para panelas. Disponível com queimadores elétricos, 220 ou 110V. Também sem pia. 5 anos de garantia.
General Air Conditioning Corp.
Vendas e serviços para todo o país
Para detalhes, onde comprar, escreva: 4530 E. Dunham St. • Los Angeles 23, Calif. Escritório em Chicago: Dept. 6, 323 W. Polk Street
Estranho como algo tão genial simplesmente não pegou. O fato é que as cozinhas americanas sempre tiveram espaço de sobra e pouco depois o microondas e os restaurantes fast-food praticamente matariam o fogão em muitos lares — mas ainda não criaram um combo micro/pia/geladeira que sirva de brinde no McDonald’s…

Enfim, se o anúncio acima tivesse sido feito hoje, não seria difícil vê-lo insistentemente repetido nos canais Shoptime da vida. Realizem:
[Locutor em tom indignado. Imagens de uma quitinete minúscula] Você vive morrendo de fome numa quitinete tão apertada que faz seu mp3 parecer um jukebox?
[Imagens de um universiótario pobre] Você é um cara inteligente, mas que passa fome por que não consegue montar uma cozinha digna? Seus problemas acabaram! Apresentamos  [explosão de entusiasmo] a nossa sensacional Geladeira Multifuncional General 3000: para [demonstrações com as louras trigêmeas] refrigerar, cozinhar e lavar nos menores espaços!
É muito mais simples e mais segura que um forno de microondas  — sem radiação [imagem de um microondas sujo e “contaminado” atormentando a vida de uma loura], sem botões confusos [imagem da loura-burra perdida com os botões], e sem manuais de instrução que ninguém lê! [a outra loura rasgando alegremente os manuais de instrução].
Peça agora a sua Geladeira Multifuncional General 3000 [corta para a clássica tela azul com o telefone 0800 e preço, mas só com as parcelas e as bandeiras do cartão de crédito] Condições especiais para bixos burros e outros pé-rapados.
[Para convencer, nada melhor do que brindes apresentados entusiasticamente pelo locutor, mas com letrinhas minúsculas e velozes no rodapé da tela]
[Locutor, com imagens de um botijão simplesmente brilhante e que parece pequeno] E você ainda leva um compacto botijão de gás inteiramente de grátis! [Letreiro ilegível: “Inteiramente grátis e vazio, é claro.”]
[Imagens repetidas das louras trigêmeas] Peça agora e nós ainda vamos lhe enviar um maravilhoso kit de trigêmeas louras para fazer todo o serviço! [Letreiro ainda mais ilegível e fugaz: “devem ser usadas apenas para tarefas de culinários. Não nos responsabilizamos por eventuais defeitos estéticos. Não aceitamos devoluções”]

>O ‘bixo’ mais folgado da história

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Em 1939, um cara chamado George Bernard Dantzig (1914-2005) era candidato a doutorado em matemática na Universidade da Califórnia (UC) em Berkeley. Um dia, ele chegou atrasado para uma aula de estatística ministrada por Jerzy Neyman (1894-1981). Apressado por chegar tarde, ele copiou os dois problemas  que estavam no quadro-negro. Poucos dias depois, Dantzig devolveu os problemas. Novamente, ele pediu desculpas por demorar tanto para solucioná-los — mas ele também disse que achou-os anormalmente difíceis. O Prof. Neyman, distraído e ocupado, pediu apenas que o aspirante a doutor deixasse seu trabalho em cima da mesa.


George-Dantzig25
Dantzig: sua maior contribuição
acadêmica foi provar que não
existem problemas impossíveis
para quem chega atrasado
Seis semanas mais tarde, numa manhã de domingo, Neyman quase derrubou a porta de Dantzig de tanto bater nela. Os problemas que Dantzig pensou que fossem sua lição de casa eram na verdade teoremas estatísticos não-comprovados que Neyman discutira com a classe no começo da aula. Dantzig — sem saber ao certo com o que lidava — encontrou as soluções e provou ambos os teoremas. Mas ao serem publicadas, Dantzig não levou todo o crédito pelas soluções — foi apenas um co-autor.
“Quando eu comecei a me preocupar com o assunto de minha tese,” — relembrou Dantzig, anos mais tarde — “Neyman simplesmente deu de ombros e disse-me para juntar os dois problemas em um fichário e ele os aceitaria como minha tese.”
Nos anos 50, Dantzig seria um dos pioneiros da programação de computadores. Seus trabalhos mais conhecidos na área são a programação linear e o algoritmo simplex. Mais tarde, foi professor no Departamento de Engenharia Industrial da UC- Berkeley. No entanto, ele sempre foi lembrado como o cara sortudo que chegou atrasado no momento certo e resolveu um problema sem querer.
Assinale a moral correta para esse história universitária:
a) chegar atrasado à aula pode ser o momento mais importante de toda a sua carreira (mesmo que mais tarde você seja pioneiro em uma indústria futuramente importante)
b) encarar problemas difíceis como algo banal pode ser útil
c) preconceitos e medos diante de desafios intelectuais existem — e retardam a descoberta de muitas soluções
d) mesmo sem fazer nada, um professor universitário pode ser co-autor de uma tese importante
e) por isso mesmo, se seu professor aceitar uma aparente lição de casa como tese, recuse. Você pode ter encontrado a solução para um importante problema não-resolvido
f) todas as anteriores

>Lição de Casa

>

Shizuo_KakutaniUm dia, enquanto dava uma aula para uma classe na Universidade Yale, Shizuo  Kakutani (1911-2004) escreveu uma equação no quadro-negro e afirmou que a prova era óbvia. Timidamente, um estudante levantou a mão e disse que aquilo não era óbvio para ele. Kakutani olhou para a equação por um momento e percebeu que ele também não poderia prová-la sozinho. Ele pediu desculpas e prometeu trazer a resposta para a classe na próxima aula.
Após a aula ele foi direto para seu escritório e passou mais algum tempo trabalhando em busca da prova. Depois de não conseguir nenhum resultado, ele passou o horário de almoço na biblioteca, e achou o artigo onde a equação aparecia originalmente. A equação estava inteirinha lá, mas a prova era deixada como “um exercício para o leitor.”
O matemático que escreveu o artigo era o próprio Shizuo Kakutani.

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