Nos Estados Unidos carros são coisas tão banais que chegam a ser praticamente descartáveis. Não é raro encontrar verdadeiros clássicos abandonados, muitas vezes após pouco tempo de uso, nas áreas rurais da “América”. Foi o que aconteceu com o autor do video a seguir, jermikey, que ao sair para um passeio de domingo com a família encontrou uma picape Kombi 1959 que estava abandonada perto de Idaho Falls desde 1967. Fã de VW ele decidiu resgatar o veículo com ajuda da família e de uma miniescavadeira que parece surgir do nada. O trabalho de exumação desse fóssil sobre rodas levou nove horas, mas foi resumido num vídeo de 15 minutos.
O estado da carroceria é relativamente bom, dadas as condições. Em um comentário no próprio vídeo jermikey diz que planeja “uma preservação em vez de uma restauração. Novo motor e transmissão, mantendo a pintura como está”. Pode parecer loucura mas o rusting, a falta (muitas vezes forçada) de pintura, é o equivalente automotivo da moda do jeans rasgado e manchado. Contanto que estejam vacinados contra o tétano, não deve haver riscos. Apesar dos investimentos necessários para por a Kombi em ordem, jermikey e família podem ter descoberto uma pequena fortuna.
Se você se acha o fodão só porque sabe fazer alguns truques com a sua bicicleta, lembre-se que esse esporte radical foi inventado no tempo do seu bisavô (ou tri, dependendo da tua idade). Se você não acredita, o tio Edison registrou alguns dos primeiros truques ciclísticos com seu kinetoscópio na virada do século XIX para XX — uma época em que tanto cinema quanto bicicletas eram o máximo da tecnologia em termos de entretenimento.
Os truques em si são um tanto toscos, mas é bom lembrar que aqueles ciclistas foram os pioneiros na arte de manobrar as magrelas. Ninguém sabia ainda muito bem o que fazer ou como fazer — afinal não havia nem rampas nem algo que se assemelhasse ao YouTube, onde é possível aprender alguns truques com gente que se dispõe a ensiná-los.
Destaque para o cavalheiro mané que tenta passar por um looping nos 30 segundos finais. O resultado é cômico e parece coisa de comédia pastelão, mas deve ter sido um tanto sério. É uma pena que, apesar do zumbido típico de um velho projetor, não haja nenhuma trilha sonora engraçadinha.
_________________________________________ [vi no bookofjoe, que viu no excelente Open Culture]
Às vezes, até um gênio como Michelangelo tem que lidar com a idiotice de um chefe:
Eu não posso omitir uma história um tanto infantil que Vasari conta sobre o David. Após ele ter sido colocado em seu pedestal diante do palácio, e enquanto o andaime ainda estava lá, Piero Soderini, que amava e admirava Michelangelo disse-lhe que achava que o nariz era muito largo. O escultor imediatamente correu escada acima até alcançar a altura dos ombros do gigante. Ele, então, pegou seu martelo, seu cinzel e, soprando um pouco de pó de mármore que levara na palma da mão, fingia trabalhar uma porção do nariz. Na verdade, ele o deixou como o havia encontrado. Mas Solderini, vendo o pó de mármore espalhado pelo ar, pensou que sua dica havia sido aceita. Assim, quando Michelangelo virou-se para ele lá de cima e disse “Veja só!”, Solderini respondeu gritando “Eu me sinto muito agradecido com isso. Você deu vida à estátua.” – John Addington Symonds, The Life of Michelangelo Buonarroti, 1893
E eu, da minha parte, não posso omitir um vídeo um tanto pitonesco, que talvez seja baseado nessa anedota:
Nesta era de globalização, quando os longos — e, vamos admitir, deliciosos — tentáculos da Coca-Cola ou da Pepsi alcançam até os lugares mais remotos do mundo, a Galco Soda Pop Stop é um lugar único. Nesse mercadinho cabe uma imensa variedade de marcas de refrigerante artesanais ou vintage, vindos de todos os cantos dos Estados Unidos e de lugares tão distantes quanto a Romênia.
Em suas prateleiras, é possível encontrar tanto velhos e obscuros rótulos — o que sobrou de uma época em que quase todo condado americano tinha sua pequena fábrica de refrigerante e/ou cervejaria — quanto refris importados que só se encontram em poucos lugares do planeta. Entre 500 sabores disponíveis, dá pra escolher alguns tão estranhos quanto água de rosas (vindo da Índia), pepino (do Japão), banana (da América Central) ou café (dos EUA mesmo). Também é possível encontrar doces e balas oldschool. Será que a Galco tem ou conhece algum guaraná ou tubaína made in Brazil?
Nesbitt’s of California: refrigerante de pera pêssego
Mas o verdadeiro tesouro desse santuário refrigerântico é seu proprietário, John F. Nese, um homem que se considera o maior expert do mundo sobre o assunto. Ele sempre pode lhe explicar porque garrafas de vidro são melhores do que as de plástico (no que eu concordo) ou porque a Coca-Cola Kosher-para-a-Páscoa é melhor do que a versão comum (o que me parece absurdo). Ele também sempre pode sugerir uma nova marca ou sabor ao visitante de primeira viagem.
A seguir, o próprio Mr. Nese apresenta um pouco do seu tesouro para o CHOW, um programa de webTV sobre comes e bebes (em inglês, é claro):
A Galco Soda Pop Stop tem um site e faz vendas on-line, mas parece que não fazem entregas fora dos Estados Unidos.
Daisy, Daisy, give me your answer do, I’m half crazy, all for the love of you. It won’t be a stylish marriage– I can’t afford a carriage– But you’ll look sweet upon the seat Of a bicycle built for two.
De certo modo, isso é uma ironia poética. Durante uma visita ao Bell Labs em 1961, o autor de ficção científica Arthur C. Clarke (1917-2008) havia testemunhado uma apresentação do primeiro computador a cantar. O físico John Kelly (1923-1965) havia programado um IBM 704 para cantar através de um sintetizador de voz. O nome da canção era “Daisy Bell”.
Em 1805, o então futuro poeta romântico francês Émile Deschamps (1791-1871) recebeu um pudim de ameixas de um estranho, o Monsieur de Fontgibu.
Dez anos depois, Deschamps pediu um pudim de ameixas em um restaurante de Paris. Polidamente, o garçom lhe explicou que o último pudim já havia sido servido para outro freguês — ninguém menos que o M. de Fontgibu.
Dezessete anos mais tarde, em 1832, Deschamps novamente recebeu um pudim de ameixas de presente. Ele havia começado a contar aos seus amigos sobre estranhas coincidências que o prato lhe trazia quando, por engano, um homem entrou na sala onde estava… Sim, senhoras e senhores, era ele mesmo: M. de Fontgibu!
“Três vezes na minha vida eu comi pudim de ameixas e nas três vezes eu vi o M. de Fontgibu!”, exclamou Deschamps, irado (e esquecendo-se de que não comeu o segundo pudim). “Na quarta vez eu seria capaz de fazer qualquer coisa! ou de não fazer nada…”
Até hoje, ninguém sabe ao certo quem foi M. de Fontgibu. Mas a história já rendeu pelo menos um curta-metragem (rodado em inglês e holandês):
Eu realmente não queria deixar passar em branco uma data tão quadrática. Quatro anos em 4-D não se repetem. No entanto, eu não tenho muito a dizer (não precisam fugir, eu não sou como o Fidel Castro quando uso essa frase).
Sinto-me muito feliz por enfim poder saber não apenas que tenho leitores mas por poder conhecê-los. Apesar de já ter aparecido em grandes agregadores de conteúdo, como Ocioso e Uêba, não me importo muito com o número do leitores. O que me importa são os que ficam e acompanham ou os que, mesmo de passagem deixam algum comentário, qualquer que seja. No momento em que escrevo, a página do hypercubic no Facebook conta com 50 fãs e 4 me acompanham através do Google. Eu gostaria de dizer que vocês são muito importantes mesmo pra mim. São motivos para eu continuar aprofundando cada vez mais as dimensões deste espaço.
Ooops, parece que já estou me alongando… #fidelfeelings
O primeiro cabeçalho (2007-2008)
Agora, porém, um pouco de autocrítica. Originalmente, este espaço foi criado para expor minhas ideias e opiniões. Eventualmente, minha paixão por curiosidades, paradoxos, ciência e humor fino e irônico acabou se sobressaindo. Eu gostaria de poder opinar mais, mas isso nem sempre é possível. Em parte por que não gosto de textos opinativos curtos — para mim, são meros comentários — e em parte por que já há muito conteúdo desse tipo na rede. Também há muitas oddities, mas eu sempre procuro algo inédito.
Por outro lado, já há mais de um ano eu tenho conseguido manter um ritmo razoavelmente diário. Às vezes há até dois posts por dia. Tenho conseguido manter algumas séries, como Em uma palavra, Conflitos Esquecidos e, desde do começo do ano, O Peso do Nome e Patentes Patéticas (infelizmente, Cectic, a série de tirinhas sobre ceticismo que eu traduzia, acabou por que o original foi encerrado). Considerando que eu trabalho durante o dia e estudo em outra cidade durante a noite, me parece um feito do qual eu não esperava ser capaz quando abri este espaço.
O segundo cabeçalho (2009-2010)
Eu gostaria de poder presentear cada um ou, ao menos, poder sortear algum brinde para comemorar essa data. Por razões econônicas ainda não posso fazer tamanha festa. Por isso, há um ponto que gostaria de por em discussão. Este é — e sempre foi — um blog ads-free. Não apenas por que sempre me opus à publicidade meio sem-noção que o Google oferece, mas por que sempre me pareceu que com tão esporádicos leitores eu ganharia muito pouco. O que eu quero perguntar é: seria aceitável incluir alguma publicidade por aqui? Não tenho praticamente custo algum para manter este blog, nem pretendo viver exclusivamente disso. Mas a grana dos anúncios seria uma ajuda bem-vinda em alguns momentos. Eventualmente, poderia proporcionar brindes e sorteios. Sintam-se à vontade para se manifestarem.
Eu preciso por a legenda? Quarto e atual cabeçalho
Para quebrar um pouco esse clima, mas ainda sem sair do tema hipercúbico, lembrei-me de compartilhar a clássica explicação sobre a Quarta Dimensão feita por Carl Sagan na inesquecível série Cosmos:
O que fazer quando sua querida picape cabine-dupla te trai e capota logo em um lago congelado? Bem, primeiro o veículo não deve afundar. Caso contrário você morre e aí não dá pra salvar nada mesmo.
Se você sobreviver, seria melhor não se preocupar com mais nada: é melhor deixar estar até que as condições favoreçam um resgate (ou até que você consiga entender o que aconteceu). Mas se você for impaciente ou desesperado; se estiver com pressa ou não tiver seguro, tente ao menos procurar um operador de guincho que tenha um mínimo de bom-senso (ou não esteja bêbado). Caso contrário, quem morre é a picape:
Em todo caso, você sempre pode tentar juntar tudo antes de jogar fora…
Embora no começo do século XVII não existissem meios para gravar o áudio de peças de teatro, ainda hoje é possível ouvir as peças de Shakespeare tal e qual eram pronunciadas quando de sua estreia. A façanha é fruto de estudos do professor Paul Meier, da Universidade do Kansas, e seus alunos de artes cênicas.
Desde outubro, o Prof. Meier trabalha em parceria com o linguista David Crystal para reencenar as peças do bardo de Avon em OP (original pronounce, ou pronúncia original). Essa é a primeira montagem de Shakespeare em OP fora do Reino Unido.
A primeira vez que isso foi feito foi em Cambridge, nos anos 1950, em uma única e especial apresentação. Mais recentes são as duas montagens foram feitas pelo Globe Theather em Londres em 2005, também realizadas com consultoria de David Crystal, autor de Pronouncing Shakespeare.
A peça escolhida pelo professor Meier para ressuscitar o inglês seiscentista é A Midsummer’s Night Dream [Sonhos de uma noite de verão]. Um trecho da peça, em linguagem original e devidamente legendado em inglês, é apresentado no vídeo a seguir:
Como podem perceber, em OP as rimas de Shakespeare tornam-se claras. Mesmo quem pouco ouviu do inglês moderno nota a diferença na pronúncia. Notáveis são as mudanças em palavras simples como “my”, que passou de /mi/ para /mái/.
Também há mudanças mais sutis, como o –ear, de “bear” e “fear”, que era pronunciado como /ér/ e não /ir/. E em “ground” e “wound”, a vogal era /o/ em ambas e não /au/ na primeira e /ou/ na segunda.
Ah, sim, e para quem não sabe “thou” /tu/ e “thy” /tee/ são formas arcaicas de “you” e “yours” – um paralelo interessante com o português, onde também passamos de “tu” e “teu” para “você” e “seu”. De fato, thou e tu são cognatos e descendem da mesma raiz indo-europeia, *tu.
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PS: será que alguém já pensou em fazer a mesma coisa com as peças de Gil Vicente? Ou será que a diferença de pronúncia do português não é assim tão grande?
Achei o video no recém-descoberto Open Culture, que só apresenta bens culturais que não têm preço – tudo free.
Em 1928, o Instituto Franklin, na Filadélfia, recebeu uma curiosa doação. Era um autômato muito engenhoso, mas de origem e autoria desconhecidas. Movido por molas e guiado por uma série de engrenagens, o homenzinho mecânico era capaz de desenhar sete figuras diferentes e escrever versinhos em inglês e francês. Mas o pequeno menino de lata estava severamente danificado, pois fora encontrado entre os escombros de uma casa incendiada — e impropriamente vestido como uma boneca.
Meca-pinóquio
Quem havia criado uma máquina tão sofisticada? A resposta foi dada pelo próprio autômato. Por incrível que pareça, o ele havia sido construído em 1805 e seu inventor só foi descoberto por que teve o cuidado de ensinar sua criação a assinar em seu lugar.
Após ser restaurado, o mecanismo fez alguns desenhos, como o navio à esquerda. Depois de literalmente travar e ser “reiniciado”, ele escreveu uma quadrinha em francês (à direita) e assinou o seguinte: Ecrit par L’Automate de Maillardet. ["Escrito pelo Autômato de Maillardet"]. Estava descoberto o Gepeto: era o mecânico e relojoeiro suíço (perdoem a redundância) Henri Maillardet (1745-?). O “pinóquio mecânico” foi restaurado novamente em 2007 e, portanto, ainda funciona. E não mente:
Apesar de toda a possibilidade de posteriores desenvolvimentos tecnológicos que nos parecem óbvios hoje em dia, os autômatos mecânicos não passavam de curiosidades nos salões das cortes européias nos séculos XVIII e XIX. O autômato de Maillardet, por exemplo, com seus desenhos e seus versinhos ainda é considerado como o sistema mecânico de armazenamento de dados mais sofisticado que existe.
Se tal sistema de “memória” primitivo tivesse sido usado numa máquina de Babbage e programado por uma Ada Lovelace, onde é que a computação mecânica oitocentista chegaria? É difícil dizer, mas é uma possibilidade fascinante. De qualquer modo, parece improvável que qualquer computador moderno continue funcionando (quase) sem problemas daqui a dois séculos. Vamos ver se o Tio Gates ou o São Jobs serão lembrados por suas máquinas…
É um punhado de material cósmico, composto principalmente de carbono e hidrogênio, um animal, cordado, mamífero, primata, hominídio pensante (cof,cof...) que não tem a mínima ideia do que está fazendo no mundo (ou do que é o mundo) e de quem é.