Lá onde o Sol não chega
Perdida nos Alpes italianos, a uns 120 km a nordeste de Turim, Viganella é uma pequena comuna italiana. Pequena mesmo: cerca de 200 habitantes vivem ali (menos do que muita gente tem de “amigos” em redes sociais). E perdida também: Viganella fica tão escondida numa encosta que não é iluminada pelo sol durante o inverno, entre novembro e fevereiro.
A falta de iluminação natural foi resolvida de forma engenhosa pelo prefeito Pierfranco Midali e pelo arquiteto Giacomo Bonzani. Desde 2006, o vilarejo é iluminado por um grande espelho de 8 metros de largura por 5 de altura, formado por 14 placas de aço. O projeto custou cerca de 100.000 euros, ou aproximadamente €540 por habitante.
O vídeo a seguir (em inglês) mostra como foi a construção do espelho.
Com movimentos controlados por computadores, o Espelho de Viganella foi montado numa encosta próxima, a cerca de 1.100 metros de altutude. Durante 83 dias, seis horas por dia, o equipamento reflete a luz do sol para iluminar os 250 m² da principal pracinha do lugarejo. As nonnas agradecem.
O rei do riso (e dos parênteses) francês
Não tem jeito: vez por outra alguém que lida com arte sofre com a falta de inspiração. Não deve haver escritor que não tenha escrito algo sobre a falta do que escrever. Mas em termos de falta de inspiração, ninguém supera Alphone Allais (1854-1905). Ele fez desse tema a sua obra.
Na falta de talento, Messier Allais foi um prolífico autor sobre o nada. Sua obra-prima, porém, é uma composição musical: a Marcha Fúnebre para as Exéquias de um Grande Homem Surdo (1897). Ouça:
Se você não ouviu nada, não se desespere: não foi por falha do Youtube nem do seu equipamento (eletrônico e/ou auricular). Como se trata de uma marcha fúnebre para surdos, o objetivo é justamente esse: ter dois minutos de silêncio.
Allais também atuou como pintor e participou das exposições de “Arte Incoerente” (dedicadas às obras de “gente que não sabe como desenhar”) organizadas por Jules Lévy (1838-1903). Ironicamente, Lévy também não sabia desenhar: ele era um grande cornetista e, apesar do nome, era britânico e não francês.
Uma das obras de Allais era um simples retângulo branco intitulado Primeira Comunhão de Mocinhas Anêmicas em uma Tempestade de Neve. Também expôs a Colheita de Tomates por Cardeais Apopléticos às Margens do Mar Vermelho (que nada mais era do que um retângulo inteiramente vermelho).
Allais também esculpiu. Uma de suas esculturas tinha o trocadilhesco título de Terre cuite (Pomme de). O trocadilho só faz sentido em francês: Terre cuite é terracota, mas ao lado do que está entre parênteses passa a significar algo como “Batata assada”. A escultura, evidentemente, parecia uma batata feita de terracota.
Mais humorista do que escritor, Allais foi considerado o cara mais engraçado da França no fin-de-siècle (ou, se preferir, uma espécie de Millôr da belle-époque). Como deu pra perceber, Allais também foi um precursor do surrealismo (e se auto-proclamou recordista mundial de abertura de parêntesis (ah, ele também pode ser considerado pioneiro do nadismo), lançando um desafio a quem tentasse quebrá-lo (estamos nos esforçando (deu pra perceber?) para quebrar tal recorde)).
Bob McCoy e seu Museu de Fraudes Médicas

Electro-metabograph: impressionante, mas inútil.
Allure Bust Developer, Battle Creek Vibratory Chair, Crystaldyne Pain Reliever, MacGregor Rejuvenator, Micro-Dynameter, Prostate Gland Warmer, Psychograph, Recto Rotor, Relaxacisor, Vibrometer… Parece uma série de produtos do Polishop. De certo modo, todos essas marcas foram mais ou menos isso em suas épocas. O que todas tiveram em comum? Elas eram vendidas em catálogos e prometiam alguma cura de forma completamente pseudocientífica. Continue lendo…
O elemento J
Um clássico tabu da tabela periódica está prestes a ser derrubado por uma equipe de pesquisadores japoneses. Após oito anos de tentativas, o Japão acaba de se tornar o primeiro país da Ásia a sintetizar um elemento — provisoriamente chamado de 113 ou ununtrium (Uut) —, o que lhe dará o direito de nomeá-lo. Apesar da esperança de finalmente termos um J na tabela periódica, a descoberta deve causar polêmica. Continue lendo…
Improviso Microbiano
Um dos grandes problemas científicos do século XXI é perceber os padrões que se escondem em quantidades de dados cada vez maiores. Peter Larsen, bioengenheiro do Argonne National Laboratory, era apenas mais um cientista às voltas com esse problema sério. Graças a sua paixão por jazz e por um empurrãozinho do colega Jack Gilbert, Larsen encontrou uma solução inusitada para a pesquisa que ambos conduzem sobre a diversidade microbial do Canal da Mancha Ocidental. Continue lendo…
Meet George Jetson

Carros voadores, casas aéreas, jetpacks, robôs domésticos, calçadas rolantes, elevadores pneumáticos. Tudo isso ainda parece estar no futuro, mas é provável que você conheça essas coisas desde a infância. Como isso é possível? Você se lembra de George Jetson e sua família? Há exatos 50 anos, os Jetsons abriam as portas do futuro na TV americana. Mas o que houve com aquele futuro? Continue lendo…
Femtofotografia: a luz como você nunca viu!
Congelar a própria luz em uma imagem parece uma loucura saída de um conto de ficção científica. Ou melhor, parecia, pois isso já existe. Nessa vídeoconferência para o TED, Ramesh Raskar apresenta a femtofotografia, técnica de filmagem em 1.000.000.000.000 de quadros por segundo.
Professor-Associado de Artes Midiáticas e Ciências do MIT e especialista em fotografia computacional, Raskar explica como é possível fotografar a própria luz em movimento e apresenta um impressionante exemplo prático: uma “bala” de laser atravessando uma garrafa de Coca-Cola (merchan não-intencional).
Segundo Raskar, essa super-hiper-mega-ultra-blaster-câmera-lenta é tão lenta, mas tão lenta, mas tãããããoooooo leeeeeentaaaaaa que, se filmasse algo fugaz e banal, como uma bala atravessando uma maçã, o filme teria não um dia ou uma semana de duração — mas um ano inteiro!
Para o professor e pesquisador indiano — que também coordena o grupo de pesquisas Camera Culture —, a femtofotografia será capaz de nos dar outro superpoder digno de super-heróis: olhar “além da esquina”. Futurismo à parte, o prof. Raskar prevê outros usos, do mais sério — como na medicina — ao mais lúdico — como na fotografia artística ou na visualização de fenômenos como a relatividade e natureza ondulatória da luz.
Não bastasse tudo isso, a câmera de Raskar não deve ser tão cara quanto parece pois o sistema todo está em código aberto.
Infelizmente, o vídeo está apenas em inglês, mas Raskar fala com um sotaque indiano que me parece bastante fácil de entender. Quem preferir, pode acompanhar as legendas (que eu deixei ativas por default, mas podem ser desativas no botão ‘legendas ocultas’, abaixo, à direita) ou ver o vídeo original no TED.
[Agradecimentos ao leitor André Gazoto por ter me mostrado o vídeo via Facebook. Aliás, você já curtiu a nossa página?]
Semáforo químico
Ao ser agitada, uma solução de glucose, hidróxido de sódio e carmim de índigo passa de amarelo para vermelho e chega até a ficar verde. Ao ser deixada em repouso, as mudanças de cor se revertem e o processo pode ser repetido. Veja:
O truque aqui está no carmim de índigo (ou melhor, um sal sódico do ácido 5,5′-indigodisulfônico), que é um corante e indicador de pH. Essa substância fica verde ao ser oxidada, amarela quando reduzida e vermelha no estado intermediário de semiquinona.
Os 10 Mandamentos do Papa-Léguas
- 1. O Papa-Léguas não pode ferir o Coyote, exceto pelo “beep-beep!”
- 2. Nenhuma força externa pode lesar o Coyote — apenas a sua própria inépcia ou os defeitos dos produtos Acme.
- 3. O Coyote poderia parar a qualquer momento — se ele não fosse um fanático. (Lembre-se: “Um fanático é alguém que redobra seu esforço quando se esquece de seu objetivo” — George Santayana)
- 4. Nunca, jamais diálogo algum, exceto “beep-beep!”
- 5. O Papa-Léguas deve ficar na estrada — de outro modo, logicamente, ele não poderia ser chamado de road runner.
- 6. Todas as ações devem ser confinadas ao ambiente natural dos dois personagens — o deserto do sudoeste americano.
- 7. Todos os materiais, ferramentas, armas ou utensílios mecânicos devem ser obtidos da Acme Corporation.
- 8. Sempre que possível, faça da gravidade o pior inimigo do Coyote.
- 9. O Coyote é sempre mais humilhado do que ferido por seus fracassos.
“Os cartoons Road Runner and Coyote são reconhecidos e aceitos por todo o mundo.” — escreve o diretor e criador de Wile E. Coyote, Chuck Jones em seu livro de memórias, Chuck Amuck (1999) — “Talvez a falta de diálogo seja uma razão. Se você quer rir, pode fazê-lo a qualquer tempo, seja em Dinamarquês, Francês, Japonês, Urdu, Navajo, Esquimó, Português ou Hindi. ‘Beep-Beep!’ é o Esperanto da comédia.”
O décimo mandamento, que Mr. Jones talvez tenha esquecido de citar, deve ser esse: “Ao introduzir a trama, não se esqueça de sempre (re)apresentar os personagens com os nomes populares acompanhados de uma pseudocientífica nomenclatura binomial em latim macarrônico.”
De Profundis II
Durante o clímax do filme The Black Cat [O Gato Preto] — clássico de terror de 1934 —, Hjalmar Poelzig (Boris Karloff) reza uma “missa negra” que antecede o sacrifício da pobre e desesperada Jacqueline Wells (Julia Bishop):
Cum grano salis. Fortis cadere cedere non potest. Humanum est errare. Lupis pilum mutat, non mentem. Magna est veritas et praevalebit. Acta exteriora indicant interiora secreta. Aequam memento rebus in arduis servare mentem. Amissum quod nescitur non amittitur. Brutum fulmen. Cum grano salis. Fortis cadere cedere non potest. Fructu, non foliis arborem aestima. Insanus omnes furere credit ceteros. Quem paenitet peccasse paene est innocens.
Tudo isso pode parecer assustador na voz grave de Karloff. Mas qualquer um com um conhecimento mínimo de latim nota que se trata apenas uma sucessão de lugares-comuns em linguagem clássica:
Com um grão de sal. Um forte pode cair, mas não pode ceder. Errar é humano. O lobo muda o pelo, não a índole. Poderosa é a verdade e prevalecerá. Ações externas indicam segredos internos. Lembra-te de quando a estrada da vida é dura para manter sua mente calma. A perda que não se conhece não é uma perda. Relâmpago brutal. Com um grão de sal. Um forte pode cair, mas não pode ceder. Julgai a árvore pelo fruto e não pelas folhas. Todo louco pensa que todo mundo é louco. Quem se arrepende de pecar é quase inocente.
E assim, Finis coronat opus — o fim coroa a obra.
Ironicamente, durante séculos a Igreja forçou o uso do latim em suas missas como forma de manter as coisas sob seu controle direto. Mas como habitus non facit monachum (o hábito não faz o monge), não seria difícil para qualquer um com um raso conhecimento de latim fazer-se passar por padre e “rezar” missas repetindo meia-dúzia de lugares-comuns salpicados com in nomine Patris, et Filii, et Spiritūs Sancti. Amém.



É um punhado de material cósmico, composto principalmente de carbono e hidrogênio, um animal, cordado, mamífero, primata, hominídeo pensante (cof,cof...) que não tem a mínima ideia do que está fazendo no mundo (ou do que é o mundo) e de quem é.