Evolutivamente Sexo Casual

Por Marco A. C. Varella e José H. B. P. Ferreira

José H. B. P. Ferreira é Biólogo Licenciado, Bacharel em Psicologia Experimental e mestrando em Psicologia Experimental no Instituto de Psicologia da USP.

Sexo casual, ou seja, o sexo sem envolvimento afetivo, tradicionalmente alvo das ciências humanas, recentemente passou a ser estudado com o enfoque evolutivo, pois dada a sua relevância direta na reprodução, espera-se que as características psicológicas envolvidas tenham sofrido pressões seletivas substanciais ao longo da evolução humana.

 

Nos seus famosos estudos sobre sexualidade da década de 50, Alfred Kinsey e colegas encontraram muitos praticantes, e grande variação individual quanto às motivações frente ao sexo casual. Eles nomearam essas motivações de “orientação sócio-sexual” ou “sócio-sexualidade”. Essa idéia ficou esquecida na Psicologia até que, nos anos 90, Simpson e Gangestad conceitualizaram a sócio-sexualidade como uma única dimensão contínua da personalidade com os pólos caracterizados como irrestritos e restritos.

 

Irrestritos são pessoas com atitudes, comportamentos, fantasias e opiniões mais permissivas do que a média populacional quanto ao sexo sem compromisso, já os restritos necessitam mais do que a média populacional de envolvimento afetivo e amoroso prévio ao ato sexual. No popular, irrestritos separam mais sexo de amor do que restritos.

 

Segundo a Teoria Evolucionista da História de Vida de Roff e Stearns (1992), os seres humanos enfrentaram um grande dilema evolutivo quanto à reprodução. Ou se alocava a maioria dos esforços (energia, tempo, recursos), que são finitos, em procurar o maior número possível de parceiros – conquistá-los e fazer sexo -, ou se investia mais em manter um parceiro, fazer amor, assegurar fidelidade e investir nos filhos.

 

A sócio-sexualidade descreve justamente a variação individual nas disposições, facilidades e propensões para solucionar esse dilema, demonstrando que cada indivíduo possui e pode utilizar toda uma gama de estratégias reprodutivas dependendo da oportunidade e das circunstâncias situacionais. Segundo a Teoria das Estratégias Sexuais (1993), a solução voltada para a conquista é a estratégia reprodutiva de curto prazo, e a voltada a assegurar um parceiro e investir nos filhos é a estratégia reprodutiva de longo prazo.

A primeira fonte de variação individual na sócio-sexualidade é a diferença entre homens e mulheres. Segundo a Teoria do Investimento Parental de Trivers (1972), o sexo que, fisiologicamente, tiver mais energia, tempo e recursos voltados para investir na prole terá sua solução do dilema reprodutivo mais voltado para a estratégia de longo prazo. Então, já que as mulheres a priori têm o alto custo com gametas maiores, gestação e lactação, elas serão, em média, mais restritas do que homens.

 

Outra fonte de variação individual é a variação genética, apontada em um estudo com 4.901 gêmeos australianos. Eles demonstraram maior igualdade na escolha da estratégia sócio-sexual, nos homozigóticos do que nos dizigóticos de mesmo sexo e de sexo diferente, controlando os que foram criados juntos e separados. Outra fonte de variação são os níveis de masculinização; argumenta-se que a variação na orientação sócio-sexual seja um subproduto do nível de andrógenos pré-natais, e que as pessoas mais masculinas (expostas a um maior nível de andrógenos), seriam mais irrestritas. E outra fonte é a do estilo de apego amoroso, onde o mediador da sócio-sexualidade seria o contexto de criação na infância, em que o estilo de apego inseguro à mãe levaria a uma pessoa ser irrestrita.

 

Em abril de 2005, publicou-se o maior estudo já feito sobre sócio-sexualidade. Ao todo, foram entrevistadas 14.059 pessoas, em seis continentes, dez ilhas, 26 línguas e 48 nações, inclusive no Brasil. As principais conclusões foram:

 

1- A variação na sócio-sexualidade entre as culturas parece ser adaptativamente ajustada a pelo menos dois aspectos da ecologia local, proporção homem/mulher e as condições para criação dos filhos: culturas com menos mulheres são mais restritas, e culturas com menos homens são mais irrestritas, pois o poder de escolha é do sexo mais raro; culturas com ambientes mais desfavoráveis reprodutivamente (altas taxas de mortalidade e desnutrição infantil) demandam um maior cuidado biparental, logo, são mais restritas.

 

2- A diferença prevista entre os sexos existe e é universal, em todo o mundo homens são em média mais voltados para o sexo casual do que mulheres.

 

3- Essa diferença entre os sexos foi maior nas culturas em que o ambiente reprodutivo era mais exigente, mas foi reduzida a níveis moderados nas culturas com mais igualdade política e econômica entre os sexos.

 

A abordagem evolutiva sobre a sexualidade humana tem vantagens por ter grande abrangência, constatação empírica inter-cultural, parcimônia e habilidade de gerar novas predições. A sócio-sexualidade é cada vez mais estudada e debatida, e está em franca ampliação teórica. Abordar o sexo casual em suas bases genéticas, filogenéticas e adaptativas, só traz explicações sobre o como as coisas “são”, não sobre como “devem ser”. O fato de homens serem mais propensos não diminui a culpa de nenhum homem que trai sua mulher, pois essas propensões não implicam em um fatalismo incontrolável. Assim, o objetivo dos cientistas é entender melhor nossa espécie e não dar diretrizes morais de conduta.

Adaptado da nossa publicação original na revista PSIQUE Ciência & Vida, ano I nº 9

Referências bibliográficas:

 

BAILEY, J. M., DUNNE, M. P., KIRK, K. M., ZHU, G. & MARTIN N. G. Do individual Differences in Sociosexuality Represent Genetic or Environmentally Contigent Strategies? Evidence From the Australian Twin Registry. Journal of Personality and Social Psychology, 2000, v. 78, n. 3, p. 537-545.

BELSKY, J., STEINBERG, L. & DRAPER, P. Childhood experience, interpersonal development, and reproductive strategy: an evolutionary theory of socialization. Child development, 1991, v. 62, p. 647-670.

BUSS D. M. Sexual strategies theory: Historical Origins and Current Status. The Journal of Sex Research, 1998, v. 35, p. 19-31.

MIKACH, S. M. & BAILEY, J. M. What distinguishes women with unusually high numbers of sex partners? Evolution and Human Behavior, 1999, v. 20, p. 141-150.

SCHMITT, D. P. et al. Sociosexuality from Argentina to Zimbabwe: a 48-nation study of sex, culture and strategies of human mating. Behavioral and Brain Sciences, 2005, v. 28, p. 247-275.

SIMPSON, J. A. & GANGESTAD, S. W. (1991). Individual differences in sociosexuality: evidence for convergent and discriminant validity. Journal of Personality and Social Psychology, v. 60, n 6, p. 870-883.

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