Evolucionismo de Grande Alcance

Darwin anteviu que num futuro distante sua teoria iria transbordar do círculo da biologia e atingir outras esferas como a área de Humanidades. A cada dia estamos mais perto de concretizar essa revolução Darwinista e perceber que o evolucionismo, por ser um tema transversal integrador, permeia todos os assuntos. Um bom exemplo disso é o surgimento de uma revista online evolutivamente relevante chamada “Evolution:This View of Life Magazine”. Com o nome inspirado nas palavras de Darwin em que ao comentar sobre evolucionismo disse que há uma grandeza nessa visão da vida.

Criada em outubro de 2011, a revista online gera e agrega conteúdo evolucionista relacionado às seguintes áreas: Biologia, Palentologia, Cultura, Saúde, Artes, Tecnologia, Religião, Política, Mente, Economia e Educação. Mesmo com menos de um ano de existência essa revista já é um marco evolutivo na divulgação do evolucionismo em todo seu alcance interdisciplinar. Várias entrevistas foram filmadas via internet com pesquisadores de cada uma dessas área acima. A revista é fruto de uma parceria do The Evolution Institute com o Consórcio EvoS, com financiamento da National Scince Fundation.

Por trás da “Evolution:This View of Life Magazine” está David Sloan Wilson, professor de Biologia e Antropologia na Universidade de Binghamton no EUA. Ele tem se esforçado para expandir a influência da evolução em diversas áreas, como no ensino superior com o EvoS, nas políticas públicas com The Evolution Institute, nas cidades com o The Binghamton Neighborhood Project e na religião com o Evolutionary Religious Institute. É claro que como ele é fiel ao grupo dos selecionistas de grupo acaba usando a revista para se promover e promover sua área. Atualmente ela é o palco para discussões acadêmicas sobre o novo livro do Edward Wilson e a relevância da seleção de grupo. Felizmente cada uma das 11 áreas acima tem seu editor próprio o que garante uma certa pluralidade para a revista.

O surgimento da revista é mais inspirador. Um aluno da pós-graduação o EvoS na Universidade de Binghamton, chamado Robert Kadar, inspirado e motivado pelas leituras do Conciliência do Edward O. Wilson e do Evolution for Everyone do David S. Wilson vislumbrou a idéia dessa revista para catalizar a conciliência entre todas as áreas do conhecimento por meio do evolucionismo para todos.

Assim como a Evolution:This View of Life Magazine surgiu, uma nova geração de estudantes, vários biólogos, psicólogos e outros estão começando blogs de ciência engrossando o caldo da divulgação científica e evolucionista brasileira. Temos muito o que fazer num país com maioria religiosa e de pouca instrução. Ajude você também a promover a conciliação das áreas do saber.

Minha Defesa de Doutorado

 

Sei que muitos leitores estão aflitos com a falta de post dos últimos séculos aqui no MARCO EVOLUTIVO. Pois é logo isso vai mudar. Porque um evento único e evolutivo está por vir: minha defesa de doutorado.
Para aqueles que não sabem, depois de 4 anos (em média) de estudo da graduação ao se formar em uma universidade alguns percebem que gostam de fazer pesquisa, então fazem o mestrado que dura 2 anos (em média). Daí, alguns poucos decidem continuar a fazer ciência e entram no doutorado.
Muitos pensam que qualquer político ou alguém apenas formado em direito ou medicina é doutor!! Não, doutor é quem recebe o diploma de doutorado após cumprir créditos assistindo aulas de pós e pesquisar 4 anos (em média) algo inédito, qualificar para defender e defender a tese. Tudo isso matriculado em um programa de pós-graduação reconhecido pelo MEC. É como se fosse fazer uma nova graduação num tema só. Imagine um trabalho de final de
 semestre que demore 8 vezes mais para ser feito e escrito, essa é a tese.
Assim como o uso popular do termo Teoria é diferente do uso científico, o termo tese não se refere a um palpite ou opinião, mas sim ao mais profundo trabalho de investigação científica, seja no aspecto teórico quanto metodológico. Claro que no final tem-se um texto do tamanho de um livro.
Meu doutorado, assim como o mestrado, foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental da USP. Devo muito à minha orientadora, Vera Bussab, a mesma no mestrado e no doutorado, por todos esses anos juntos, ela sabe. Aprendi muito com ela.

Minha tese é intitulada
“Evolução da Musicalidade Humana: Seleção Sexual e Coesão de Grupo”.

 

Nela abordo e testo algumas explicações adaptativas para a existência das propensões musicais e artísticas em nossa espécie.
A defesa é um momento público em que o doutorando apresenta em meia hora o resumo da tese e uma banca de 5 doutores, dois internos aos programa da pós, 2 externos ao programa e o orientador fazem sua arguição, que inclui críticas, elogios, correções, comentários, colocações e sugestões futuras.
Se você se interessa pelo tema venha assistir minha defesa dia 25/08, na próxima quinta feira, às 14 horas na sala 36 do bloco F no Instituto de Psicologia da USP da São Paulo, Cidade Universitária.

Três Anos de MARCO EVOLUTIVO e Palestra de Martin Daly

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É com muito prazer que comemoramos não UM nem DOIS, mas TRÊS anos de MARCO EVOLUTIVO nesse último dia 28 de novembro. Foi um ano inteiro aqui no ScienceBlogs Brasil sem mudanças de endereço virtual, mas com mudança de endereço real. Nesse ano de 2010 estive aqui no Canadá fazendo meu doutorado sanduíche na McMaster University então não tive como me dedicar mais ao blog. Mesmo assim foi um ano de tópicos importantes e interessantes.

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A maioria dos 15 posts desse terceiro ano esteve relacionando música e dança com ciência e evolução das mais diferentes formas: do rap evolutivo e a música dos genes aos valores adaptativos da dança e da música. Outros temas como o da Medicina e Psiquiatria Darwinistas receberam grande destaque. Os cinco textos mais lidos do período (em ordem decrescente) foram: 1- Coevolução e Seleção Sexual no Caso da Vespa Tarada, 2- O sexo chimpanzé e o conflito de gerações, 3- Dicas de Livros em Psicologia Evolucionista, 4- Lamarck – A Verdadeira Idéia Errada, seguido de 5- Psicologia Evolucionista e Natureza Humana. Os destaques fora os textos: A Ciência do Sex Appeal e Eleição, Voz, Vitória e Pornografia que receberam altíssimas audiências por aparecerem do compilador de links UêBA.

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No período o blog teve mais de 33 mil visitas. Tivemos 31 mil visitas no Brasil e 1400 de Portugal, EUA e Canadá com mais de 200 visitas cada, e Angola, Espanha, Reino Unido, Japão, Irlanda com 50 ou mais visitas cada. Os países com mais de 10 acessos foram, em primeiro Portugal, EUA, Canadá, Angola, Espanha, Reino Unido, Japão, Irlanda, Moçanbique, França, Alemanha, Itália, México, Suíça, Argentina, Cabo Verde, Austrália, (um país não reconhecido pelo google analytics!) e Colômbia. As palavras mais usadas antes de encontrar o MARCO EVOLUTIVO foram: “Lamarck”, “Antropocentrismo”, “Período Fértil”, “Psicologia Evolucionista”, e “Seleção Sexual”.

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E como presente evolutivo nesse terceiro aniversário estou iniciando uma série de palestras internacionais de altíssimo nível sobre Psicologia Evolucionista e Biologia Evolutiva. Trarei uma compilação única de temas importantes e professores renomados para que juntos complementemos nossa formação acadêmica nacional (e nosso listening) conhecendo de perto autores internacionais e suas idéias. Inicio nossas palestras evolucionistas com um dos fundadores da Psicologia Evolucionista, Martin Daly e sua palestra de outubro de 2010 aqui na McMaster sobre Evolved Decision Processes and Rational Choice. Descubra de forma descontraida em 53 min que nossa racionalidade para algumas coisas e irracionalidade para outras, assim como a ilusão das decisões conscientes, são mais bem explicadas a luz da evolução.

A Evolução da Arte e dos Rituais

 A arte a o ritual são dificilmente separáveis. O que hoje vemos enquanto algo independente como a pintura, a moda, a dança, a música e as religiões não estavam tão claramente distintas em nosso ambiente ancestral. A perspectiva etológica busca em observações interculturais as constantes na manifestação da natureza humana. A arte e o rito, enquanto manifestações universais da natureza humana, podem ser foco de estudos etológicos sobre sua função evolutiva.

Uma das visões clássicas sobre a evolução do comportamento artístico e ritualístico em nossa espécie aponta para a coesão grupal como um elemento chave na seleção dessas manifestações. Os grupos em que a arte e os rituais tornavam mais coesos e integrados tinha vantagens para seus membros frente a outros grupos. No vídeo abaixo (de 4 minutos e meio), Ellen Dissanayake explica de uma forma rica e tocante essa visão evolutiva sobre nossa arte e rituais.

Desejos por Variedade Sexual

A evolução diferenciada entre homens e mulheres

Idealmente, quantos parceiros sexuais você gostaria de ter no próximo mês? E daqui a cinco anos? Quantos parceiros você gostaria de ter daqui a 30 anos? E durante toda sua vida? Não é novidade que o desejo por variedade sexual, assim como o próprio desejo por sexo, está presente em maior ou menor grau na mente dos seres humanos. A novidade é que essas perguntas, quando feitas a 16 mil pessoas de 52 nações diferentes, podem ajudar a esclarecer as bases evolutivas do comportamento sexual. O desejo por variedade sexual é uma característica mental chave para testar diferentes teorias evolutivas sobre o acasalamento humano.
As diferentes abordagens evolucionistas divergem quanto à dimensão temporal típica dos relacionamentos amorosos. Existem teorias que dizem que nós somos naturalmente inclinados apenas para relacionamentos monogâmicos de longo prazo e que a promiscuidade é patológica, oriunda do ambiente moderno antinatural. Outras dizem que somos naturalmente inclinados apenas para relacionamentos promíscuos de curto prazo, dada nossa tamanha semelhança genética com os chimpanzés. A visão intermediária é a de que nós possuímos um repertório natural mais pluralista, que inclui relacionamentos tanto de longo quanto de curto prazos.
A questão é que, ao contrário das teorias pluralistas, as que admitem inclinações biológicas apenas para relacionamentos curtos ou longos não prevêem diferenças específicas entre homens e mulheres. As teorias pluralistas argumentam que ambos os sexos têm o mesmo repertório temporal flexível de estratégias sexuais. Homens e mulheres possuem adaptações mentais voltadas tanto para a adoção de estratégias de curto prazo em algumas ocasiões, quanto para adoção de estratégias de longo prazo em outras. Essa flexibilidade teria dado aos nossos ancestrais importantes benefícios reprodutivos por permitir que eles respondessem adaptativamente a uma grande variedade de contextos familiares, culturais e ecológicos. Entretanto, é previsto que homens e mulheres tenham inclinações e desejos diferentes para cada nível de relacionamento.
Amor e sexo
Segundo a Teoria das Estratégias Sexuais de David Buss e David Schmitt (1993), para relacionamentos de longo prazo – caracterizados por extenso flerte, elevado investimento, presença de amor, mútuo comprometimento e a dedicação de recursos ao relacionamento e aos possíveis filhos por um longo período – é esperado que as mulheres dêem mais importância do que os homens ao status, maturidade, recursos e ao comprometimento do parceiro a ela e aos filhos. Enquanto é previsto que homens valorizem mais do que mulheres pistas de valor reprodutivo (idade e aparência física) e fidelidade sexual.
Entretanto, para relacionamentos de longo prazo, ambos os sexos são bastante seletivos e valorizam igualmente várias qualidades internas como “doce e compreensível” e “inteligência”. Muitas das diferenças no critério de homens e mulheres são geradas por adaptações mentais especializadas em resolver diferentes problemas adaptativos que cada sexo enfrentou ao longo de nossa história evolutiva. Os problemas femininos eram mais relacionados ao caráter e à possibilidade de recursos para seus filhos e os problemas masculinos eram mais relacionados à certeza de fertilidade e da paternidade.
Por outro lado, para relacionamentos de curto prazo – caracterizado por curto flerte, baixo investimento e ausência de comprometimento e sentimentos amorosos – é previsto que as mulheres valorizem seletivamente mais do que homens qualidades genéticas (como beleza e simetria) e possibilidades de obtenção imediata de recursos. Já para os homens, é esperado que sejam bem menos seletivos do que mulheres e valorizem mais a variedade sexual. Biologicamente, as mulheres carregam todo o custo da gestação e lactação. Como a falta de comprometimento desse nível de relacionamento as deixa sozinhas com todo o custo da gravidez, houve uma pressão favorecendo aquelas bem seletivas quanto à obtenção imediata de vantagens materiais e/ou genéticas. Ao passo que os homens só precisavam achar um grande número de parceiras sexuais para ter vantagens evolutivas.

Fisiologicamente, mesmo se uma mulher fizer sexo com 100 homens em um ano, ela poderá ter apenas uma gestação nesse período. Enquanto que se um homem fizer sexo com 100 mulheres ele terá a possibilidade de ter 100 descendentes no mesmo período. Essa diferença gerou pressões evolutivas diferenciadas para esse nível de relacionamento nas mentes de homens e mulheres do ambiente ancestral. Mulheres que valorizavam a qualidade em detrimento da quantidade eram selecionadas e homens que valorizavam a quantidade em detrimento da qualidade eram selecionados. Então, em média, é esperado que um forte desejo por variedade sexual seja característico de uma adaptação mental masculina.
Mal-entendido sobre adaptação
Essa forte pressão seletiva atuando ao longo de nossa história evolutiva caçador-coletora deixou marcas nas mentes masculinas atuais na forma de desejos e preferências ideais favoráveis à variedade sexual. Isso não implica que os homens desejem maior variedade sexual porque inconscientemente querem ter mais filhos, eles simplesmente acham a idéia de muitas parceiras mais atraente e prazerosa. Para uma característica ser selecionada, não é necessário que a evolução favoreça um conhecimento consciente ou inconsciente sobre a lógica dos processos evolutivos que geraram a adaptação. Basta que a característica seja prazerosa e recompensadora ao indivíduo. Por isso, o desejo sexual não é uma estratégia das pessoas para ter filhos e propagar seus genes, mas sim uma estratégia pessoal para alcançar os prazeres do sexo. E os prazeres e desejos sexuais conscientes e inconscientes são as estratégias dos genes para propagarem-se via filhos.

Estudo inicial
Em 2001, com uma amostra de mais de mil pessoas, David Schmitt e colaboradores encontraram diferenças significativas entre homens e mulheres para todas as magnitudes de tempo. Estudantes universitários masculinos desejaram em média 1,3 parceiras para um mês, 2,8 para um ano, 7 para cinco anos, 9,1 para dez anos, 12,4 para 30 anos e 14,2 para a vida toda. Já as universitárias desejaram em média um parceiro para um mês, 1,6 para um ano, 3 para cinco anos, 3,6 para dez anos, 3,8 para 30 anos e 4 para a vida toda. Eles obtiveram as mesmas diferenças para todas as unidades de tempo até investigando uma população mais madura (em média, 40 anos). Os homens desejaram 2,1 parceiras para um mês, 31 pra cinco anos e 74 para a vida toda, enquanto as mulheres desejaram 1,2 para um mês, 1,7 para cinco anos e 1,8 para a vida toda.
Schmitt e colaboradores cercaram melhor as causas dessa diferença controlando possíveis influências da metodologia do auto-relato e de indicadores de baixa saúde mental. Quando pediram a outra amostra de pessoas que respondesse sobre quantos parceiros sexuais a pessoa típica do sexo oposto desejaria para cada medida de tempo, eles também encontraram as mesmas diferenças. Mulheres disseram que o homem típico desejaria duas parceiras para um mês, 17,6 pra cinco anos e 27,7 para a vida toda, enquanto os homens disseram que a mulher típica desejaria 1,8 para um mês, 14,3 para cinco anos e 25,3 para a vida toda. Eles também obtiveram que o desejo por variedade sexual não está relacionado à baixa auto-estima, instabilidade emocional, baixa abertura a novas experiências, entre outros. Pelo contrário, o desejo por variedade sexual relacionou-se a características indicativas de saúde mental em homens, como elevada auto-estima. Entretanto, ainda não se sabia se esses resultados estavam restritos apenas aos americanos ou se eram extrapoláveis interculturalmente.
Estudo intercultural
Em 2003, iniciou-se o Projeto Internacional de Descrição da Sexualidade um inédito empenho colaborativo intercultural entre 119 cientistas comportamentais, sociais e biológicos, do qual o Brasil participou. Ele abrangeu 16.288 pessoas, em sua maioria universitários, de seis continentes, 13 ilhas, 52 nações e 27 línguas, incluindo a América do Sul e do Norte, Sul da Europa, Leste e Oeste Europeu, Oriente Médio, África, Oceania, Leste Asiático e Sul/Sudeste Asiático.
Pela primeira vez na história obteve-se que, interculturalmente, homens desejam maior variedade sexual do que mulheres. Os homens desejaram em média 1,87 parceiras pra um mês, 3,36 para um ano, 5,64 para cinco anos, 5,95 para dez anos e 6,62 para 30 anos; enquanto as mulheres desejaram, em média, 0,78 parceiros para um mês, 1,18 para um ano, 1,95 para cinco anos, 2,17 para dez anos e 2,47 para 30 anos.
O resultado se manteve independente do status de relacionamento. A porcentagem de homens desejando mais de uma parceira sexual para o próximo mês que são casados foi de 12,8% contra 3,5% das casadas, a porcentagem dos homens que moram junto e desejam mais de uma parceira foi de 18,2% contra 2,4% das mulheres, a dos que estão saindo com alguém exclusivamente e desejam mais de uma parceira sexual para o próximo mês foi de 19% contra 2,7% das mulheres e a porcentagem dos que estão solteiros foi de 28,6% contra 6,2%. Isso significa que, apesar do comprometimento em relação amorosa diminuir o desejo por variedade sexual em relação aos solteiros, a relação amorosa não foi capaz de igualar os desejos masculinos aos femininos.
Além disso, o resultado se manteve também independente da orientação sexual e do quanto a pessoa busca, ativamente, relacionamentos de curto prazo. A porcentagem de homens heterossexuais desejando mais de uma parceira para o próximo mês foi de 25% contra 4,4% das mulheres, a porcentagem de homens homossexuais desejando mais de um parceiro sexual foi de 29,1% contra 5,5 % de mulheres homossexuais, e a porcentagem de bissexuais masculinos foi de 30,1% contra 15,6% dos femininos. Similarmente, a porcentagem dos homens desejando mais de uma parceira para o próximo mês que estão fortemente procurando relacionamentos de curto prazo foi de 53,5% contra 18,7% das mulheres, e a porcentagem dos homens que não estão buscando o curto prazo foi de 10,5% contra 2% das mulheres.
Apesar da diferença entre homens e mulheres existir para todas as nações, as localidades geográficas em que os homens desejam mais variedade sexual não são exatamente as mesmas em que as mulheres desejam maior variedade sexual. As três regiões que tiveram as maiores porcentagem de homens desejando mais de uma parceira sexual para o próximo mês, em ordem crescente foram: o Sul/Sudeste Asiático, o Oriente Médio e a América do Sul com 35% dos homens, representada por Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e Peru. Já as três regiões que tiveram as maiores porcentagens de mulheres desejando mais de um parceiro para o próximo mês, foram: o Sul da Europa, seguido por América do Sul e em primeiro o Sul/Sudeste Asiático com 6,4% das mulheres, representado por Indonésia, Malásia e Filipinas. Isso indica que contextos familiares, culturais e ecológicos relevantes para o ajuste feminino no desejo por variedade sexual não são exatamente os mesmos relevantes para o ajuste masculino.
Inclinação universal
Esses dois estudos indicam que o maior desejo masculino por variedade sexual é universal e existe independente da idade da amostra, do modo de coleta de dados, de sinais de baixa saúde mental, do status de relacionamento, da orientação sexual e do buscar ativamente relacionamentos curtos, como previsto pela Teoria das Estratégias Sexuais. Essa conclusão em apoio às teorias pluralistas deixa as teorias que admitem inclinações naturais apenas para relacionamentos curtos ou longos em pior situação. É muito mais provável que o repertório em estratégias de acasalamento humano seja flexível e igualmente presente em ambos os sexos, porém, diferentemente esculpido por pressões seletivas distintas para cada o sexo.
Saúde Pública
Implicações práticas dessa conclusão recaem sobre a saúde pública. Dado que um potente fator de risco para se contrair AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis é ter múltiplos parceiros sexuais, estratégias mais efetivas de prevenção podem ser alcançadas considerando a diferença entre homens e mulheres no desejo por múltiplos parceiros. Negar que essa diferença exista pode minar os progressos tanto na investigação das circunstâncias em que o desejo por variedade sexual se traduz em comportamentos de risco, quanto no desenvolvimento de intervenções sexo-específicas, que reduzam mais efetivamente as conseqüências negativas do desejo por variedade sexual em cada sexo.
Adaptação mental não é desculpa
Está mais do que claro que os mesmos processos naturais que moldaram outras espécies também se aplicam ao ser humano. E que a Teoria da Evolução pode prever tanto adaptações anatômicas, como os diferentes modelos de nossos dentes incisivos e molares, quanto adaptações psicológicas, como o diferente design mental do desejo por variedade sexual. O que não implica em pessoas escravas das adaptações, pois a própria seleção por flexibilidade de repertório favorece um controle consciente dos impulsos naturais. Portanto, o discurso de que o desejo por múltiplos parceiros é natural não é justificativa para qualquer ato individual, por não isentar a culpabilidade daqueles que, ao satisfazerem seus desejos, expõem conscientemente parceiros a danos à saúde pelo sexo desprotegido e à confiança pelas traições.
Adaptado de minha publicação original na revista PSIQUE Ciência & Vida, ano II nº 18.
Referências

BUSS, D. M. Sexual Strategies Theory: Historical Origins and Current Status. The Jounal of Sex Reseach, 1998, v. 35, nº 1, p. 19-31.
BUSS D. M.; SCHMITT; D. P. Sexual strategies theory: an evolutionary perspective on human mating. Psychological Review, 1993, v. 100, p. 204-232.
SCHMITT, D. P. et al. Universal Sex Differences in the Desire for Sexual Variety: Tests From 52 Nations, 6 Continents, and 13 islands. Jounal of Personality and Social Psychology, 2003, v.85, nº. 1, p. 85-104.
SCHMITT, D. P; SHACKELFORD, T. K.; DUNTLEY, J.; TOOKE, W; BUSS, D. M. The desire for sexual variety as a key to understanding basic human mating strategies. Personal Relationships, 2001, v.8, p. 425-455.

Evolutivamente Sexo Casual

Por Marco A. C. Varella e José H. B. P. Ferreira

José H. B. P. Ferreira é Biólogo Licenciado, Bacharel em Psicologia Experimental e mestrando em Psicologia Experimental no Instituto de Psicologia da USP.

Sexo casual, ou seja, o sexo sem envolvimento afetivo, tradicionalmente alvo das ciências humanas, recentemente passou a ser estudado com o enfoque evolutivo, pois dada a sua relevância direta na reprodução, espera-se que as características psicológicas envolvidas tenham sofrido pressões seletivas substanciais ao longo da evolução humana.

 

Nos seus famosos estudos sobre sexualidade da década de 50, Alfred Kinsey e colegas encontraram muitos praticantes, e grande variação individual quanto às motivações frente ao sexo casual. Eles nomearam essas motivações de “orientação sócio-sexual” ou “sócio-sexualidade”. Essa idéia ficou esquecida na Psicologia até que, nos anos 90, Simpson e Gangestad conceitualizaram a sócio-sexualidade como uma única dimensão contínua da personalidade com os pólos caracterizados como irrestritos e restritos.

 

Irrestritos são pessoas com atitudes, comportamentos, fantasias e opiniões mais permissivas do que a média populacional quanto ao sexo sem compromisso, já os restritos necessitam mais do que a média populacional de envolvimento afetivo e amoroso prévio ao ato sexual. No popular, irrestritos separam mais sexo de amor do que restritos.

 

Segundo a Teoria Evolucionista da História de Vida de Roff e Stearns (1992), os seres humanos enfrentaram um grande dilema evolutivo quanto à reprodução. Ou se alocava a maioria dos esforços (energia, tempo, recursos), que são finitos, em procurar o maior número possível de parceiros – conquistá-los e fazer sexo -, ou se investia mais em manter um parceiro, fazer amor, assegurar fidelidade e investir nos filhos.

 

A sócio-sexualidade descreve justamente a variação individual nas disposições, facilidades e propensões para solucionar esse dilema, demonstrando que cada indivíduo possui e pode utilizar toda uma gama de estratégias reprodutivas dependendo da oportunidade e das circunstâncias situacionais. Segundo a Teoria das Estratégias Sexuais (1993), a solução voltada para a conquista é a estratégia reprodutiva de curto prazo, e a voltada a assegurar um parceiro e investir nos filhos é a estratégia reprodutiva de longo prazo.

A primeira fonte de variação individual na sócio-sexualidade é a diferença entre homens e mulheres. Segundo a Teoria do Investimento Parental de Trivers (1972), o sexo que, fisiologicamente, tiver mais energia, tempo e recursos voltados para investir na prole terá sua solução do dilema reprodutivo mais voltado para a estratégia de longo prazo. Então, já que as mulheres a priori têm o alto custo com gametas maiores, gestação e lactação, elas serão, em média, mais restritas do que homens.

 

Outra fonte de variação individual é a variação genética, apontada em um estudo com 4.901 gêmeos australianos. Eles demonstraram maior igualdade na escolha da estratégia sócio-sexual, nos homozigóticos do que nos dizigóticos de mesmo sexo e de sexo diferente, controlando os que foram criados juntos e separados. Outra fonte de variação são os níveis de masculinização; argumenta-se que a variação na orientação sócio-sexual seja um subproduto do nível de andrógenos pré-natais, e que as pessoas mais masculinas (expostas a um maior nível de andrógenos), seriam mais irrestritas. E outra fonte é a do estilo de apego amoroso, onde o mediador da sócio-sexualidade seria o contexto de criação na infância, em que o estilo de apego inseguro à mãe levaria a uma pessoa ser irrestrita.

 

Em abril de 2005, publicou-se o maior estudo já feito sobre sócio-sexualidade. Ao todo, foram entrevistadas 14.059 pessoas, em seis continentes, dez ilhas, 26 línguas e 48 nações, inclusive no Brasil. As principais conclusões foram:

 

1- A variação na sócio-sexualidade entre as culturas parece ser adaptativamente ajustada a pelo menos dois aspectos da ecologia local, proporção homem/mulher e as condições para criação dos filhos: culturas com menos mulheres são mais restritas, e culturas com menos homens são mais irrestritas, pois o poder de escolha é do sexo mais raro; culturas com ambientes mais desfavoráveis reprodutivamente (altas taxas de mortalidade e desnutrição infantil) demandam um maior cuidado biparental, logo, são mais restritas.

 

2- A diferença prevista entre os sexos existe e é universal, em todo o mundo homens são em média mais voltados para o sexo casual do que mulheres.

 

3- Essa diferença entre os sexos foi maior nas culturas em que o ambiente reprodutivo era mais exigente, mas foi reduzida a níveis moderados nas culturas com mais igualdade política e econômica entre os sexos.

 

A abordagem evolutiva sobre a sexualidade humana tem vantagens por ter grande abrangência, constatação empírica inter-cultural, parcimônia e habilidade de gerar novas predições. A sócio-sexualidade é cada vez mais estudada e debatida, e está em franca ampliação teórica. Abordar o sexo casual em suas bases genéticas, filogenéticas e adaptativas, só traz explicações sobre o como as coisas “são”, não sobre como “devem ser”. O fato de homens serem mais propensos não diminui a culpa de nenhum homem que trai sua mulher, pois essas propensões não implicam em um fatalismo incontrolável. Assim, o objetivo dos cientistas é entender melhor nossa espécie e não dar diretrizes morais de conduta.

Adaptado da nossa publicação original na revista PSIQUE Ciência & Vida, ano I nº 9

Referências bibliográficas:

 

BAILEY, J. M., DUNNE, M. P., KIRK, K. M., ZHU, G. & MARTIN N. G. Do individual Differences in Sociosexuality Represent Genetic or Environmentally Contigent Strategies? Evidence From the Australian Twin Registry. Journal of Personality and Social Psychology, 2000, v. 78, n. 3, p. 537-545.

BELSKY, J., STEINBERG, L. & DRAPER, P. Childhood experience, interpersonal development, and reproductive strategy: an evolutionary theory of socialization. Child development, 1991, v. 62, p. 647-670.

BUSS D. M. Sexual strategies theory: Historical Origins and Current Status. The Journal of Sex Research, 1998, v. 35, p. 19-31.

MIKACH, S. M. & BAILEY, J. M. What distinguishes women with unusually high numbers of sex partners? Evolution and Human Behavior, 1999, v. 20, p. 141-150.

SCHMITT, D. P. et al. Sociosexuality from Argentina to Zimbabwe: a 48-nation study of sex, culture and strategies of human mating. Behavioral and Brain Sciences, 2005, v. 28, p. 247-275.

SIMPSON, J. A. & GANGESTAD, S. W. (1991). Individual differences in sociosexuality: evidence for convergent and discriminant validity. Journal of Personality and Social Psychology, v. 60, n 6, p. 870-883.

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