Nove passos para uma aprendizagem on-line de qualidade : Passo 1: Decida como você deseja ensinar online

Texto original publicado em ´Nine steps to quality online learning: Step 1: Decide how you want to teach online´. Tradução autorizada por Tony Bates.


Em um post anterior, eu resumi os nove passos no desenvolvimento de cursos online com qualidade. Neste texto, e nos seguintes, irei discutir com mais detalhes cada um desses passos.

Neste post, vou discutir o primeiro passo e, de longe, o mais importante: decidir como você deseja ensinar online.

Introdução

Este post é focado em guiar instrutores ou professores que são iniciantes no ensino online, ou que tiveram uma experiência precária no ensino online por não terem seguido o que chamos de boas práticas (que irei abordar com alguma profundidade neste texto). Estes textos são para você realmente iniciar.

Se você é um professor experiente e bem sucedido em assuntos online, então você talvez tenha que ver outro texto, ´Projetando a aprendizagem on-line para o século 21´, que pode ser considerado o próximo passo ou nível no design de um curso online. Contudo, neste post e nos seguintes, o foco é em iniciar ou verificar se as boas práticas estão sendo seguidas nos cursos mantidos por você.

O que você quer dizer com ´qualidade´ da aprendizagem online?

Esta questão poderia ser a base para um livro inteiro, quem diria para uma introdução de um post com 800 palavras. Contudo, para os propósitos deste exercício, vou definir uma aprendizagem de qualidade on-line de forma muito restrita. É baseada em resultados:

Por qualidade quero dizer “Alcançar com um curso online o mesmo nível, ou melhor, de um equivalente curso face-a-face.” Isso tem dois indicadores quantitativos críticos de desempenho:
– as taxas de conclusão serão pelo menos tão boas, se não melhores, para a versão online
– graus ou índices de aprendizagem serão tão bons, ou melhores, para a versão online

Em um nível qualitativo, vou sugerir um outro critério: qualidade da aprendizagem online levará a um novo, diferente e mais relevante resultado que são mais propícios pela aprendizagem online. Critério este que é melhor coberto pelo ´segundo nível´ do design de curso online discutido em ´Projetando a aprendizagem on-line para o século 21´.

Aqui, vamos apenas nos concentrar em garantir que o seu curso on-line será pelo menos tão bom como uma versão face-a-face com os critérios quantitativos sugeridos acima.

Porque você precisa mudar o modo como ensina quando você trabalha online?

Vou sugerir que você precisa repensar a forma como você ensina quando você trabalha online – não apenas deslocando o ensino face-a-face para uma versão online, mas re-projetando o ensino para se adequar às exigências dos alunos online.

Ensinar bem online tem quase os mesmos requisitos quanto ensinar bem face-a-face: por exemplo, resultados claros de aprendizagem, avaliações que teste os resultados de aprendizagem desejados e diferencie entre os diferentes níveis de sucesso, etc. Contudo, existem também diferentes necessidades, porque o contexto no qual os alunos (e você como instrutor) estão trabalhando será diferente.

Eu gosto de fazer a comparação entre dirigir um carro e pilotar um avião de pequeno porte. Ambos são meios de transporte, e ambos exigem uma série de habilidades semelhantes, tal como uma coordenação razoável de olho/mãos, um bom senso de direção, habilidade para ler mapas, e um entendimento básico sobre a tecnologia por trás de cada meio de transporte. Mas voar requer outras habilidades como dominar o subir e descer, e novas habilidades como pousar e decolar, bem como aprender uma série de regras e regulamentos. Você também precisa reagir de forma diferente em situações similares. Por exemplo quando dirige um carro você tende a desacelerar quando perceber uma situação de risco iminente; se diminuir a velocidade você para. Em voo, contudo, se você for muito lento vai estolar e cair. Não surpreendentemente, voar também precisa de mais treinamento do que dirigir.

Faço estas observações porque é tentador para instrutores face-a-face apenas moverem os métodos de ensino em sala para o online, tal como usar gravação para que os estudantes façam download em casa das palestras gravadas , ou então usar webconferência para ministrar palestras ao vivo pela internet. No entanto, há uma grande quantidade de evidências que sugerem que fazer isso não leva a bons resultados para os alunos on-line. (Ver, por exemplo, Figlio, Rush e Yin, 2010).

Uma razão é que isto falha em levar em conta um dos requisitos chave para a maioria dos estudantes online: a flexibilidade. Um webcast síncrono pode ser marcado no momento em que os alunos estão trabalhando, por exemplo, ou os estudantes frequentemente precisam trabalhar em pequenos intervalos de tempo, e não conseguem se concentrar bem por 50 a 60 minutos em uma palestra, mesmo quando gravada. Mais importante ainda, a aprendizagem on-line nos permite disponibilizar conteúdo ou informação de modos que levam a uma melhor aprendizagem do que através de uma palestra de uma hora.

Há também as diferentes necessidades dos alunos online. Há uma boa quantidade de pesquisa que demonstram que os alunos on-line precisam sentir que o instrutor está ‘presente’ online , ou seja, interagindo com os alunos em fóruns de discussão, encaminhando-os para artigos ou eventos recentes e relevantes, e respondendo prontamente à questionamentos (veja por exemplo, Richardson e Swan, 2003). Horas de atendimento restritas ou permanecer online após uma palestra online para responder perguntas não propicia a flexibilidade de contato online que os estudantes necessitam.

Assim, é importante projetar o ensino online de tal forma que melhor se adapte aos alunos online. Felizmente, existe muita experiência e pesquisa que identificam os princípios chave de design para o sucesso do ensino online. É disto que estes nove passos tratam.

Como você quer ensinar on-line?

Esta questão realmente pede-lhe para considerar a sua filosofia básica de ensino. Qual é meu papel como um instrutor? Tenho uma visão objetivista, que o conhecimento é finito e definido, que eu sou um especialista no assunto que sabe mais do que os alunos e, assim, meu trabalho é garantir que eu transfira o mais eficazmente possível a informação ou conhecimento para o estudante?

Ou vejo a aprendizagem como um desenvolvimento individual focado no desenvolvimento das habilidades dos alunos e na habilidade de questionar, analisar e aplicar a informação ou conhecimento? Me vejo mais como um guia ou facilitador da aprendizagem para os alunos?

Ou talvez você gostaria de ensinar de um modo mais moderno, mas enfrenta uma sala de aula com 200 alunos que o força a retornar a um ensino mais instrutivo. Ou talvez você gostaria de combinar ambas as abordagens, mas não pode por causa das restrições de horários e currículo.

Você pode criar cursos on-line para ensinar em qualquer uma dessas formas, mas mover uma disciplina para o modo online resulta em uma oportunidade para repensar seu ensino, talvez para ser capaz de resolver algumas das limitações do ensino em sala de aula, e para renovar a sua abordagem de ensino. Por exemplo, movendo uma grande parte do conteúdo online, talvez você pode liberar mais tempo para interação com os alunos, em grupos grandes ou pequenos, tanto em sala de aula ou online, e ao mesmo tempo reduzir o número de palestras para turmas grandes. Por exemplo, alguns instrutores têm redesenhado aulas teóricas grandes com 200 alunos, quebrando a turma em grupos de 10, colocando online o material das palestras, e então o professor passa pelo menos uma semana com cada um dos grupos em uma discussão online, com interação e atividades em grupo, obtendo assim uma maior interação com todos os alunos.

Ou talvez, colocando a teoria e leituras on-line, por meio de simulações simples e vídeos de experiências para melhor preparar os alunos para aulas de laboratório, e estimulando os alunos a escreverem experimentos online, talvez podendo reduzir a quantidade de tempo que os estudantes precisam gastar em um laboratório com experimentos simples, e assim liberar algum tempo para o trabalho deles em outro laboratório que realmente necessite a presença e uso direto de equipamentos, que antes era feito de forma apressada.

Mover um curso para ser online abre um leque de possibilidades de ensino que pode não ser possível nos limites de um semestre de três créditos semanais de palestras. Isto pode significar não ter que fazer tudo online, mas focar o que deve ser feito no campus em somente naquilo que precisa ser feito lá. Alternativamente, pode permitir-lhe repensar totalmente o currículo, para explorar alguns dos benefícios da aprendizagem on-line, tal como fazer com que os estudantes encontrem, analisem e apliquem informações eles próprios. Assim se você está pensando em atuar online, use a oportunidade antes de iniciar o curso ou programa para pensar sobre como você gostaria de ensinar, e se isso pode ser acomodado em um ambiente online. Esta não é uma decisão que você tenha que tomar imediatamente. Veremos que quando você atua segundo esses passos, será mais fácil tomar esta decisão. O ponto importante é estar aberto para fazer as coisas de forma diferente.

De todas as nove etapas, este é definitivamente o mais importante. No entanto, você pode ter certeza de uma coisa. Se você simplesmente colocar as anotações das palestras na internet, ou gravar as palestras de 50 minutos para disponibilizar para download, então quase que certamente você terá uma menor taxa de conclusão da disciplina e notas piores do que em uma aula face-a-face.

Atividade sugerida

1. Você consegue escrever sua filosofia de ensino – como você realmente gostaria de ensinar a matéria, se não tivesse limitações?

2. Quais são os principais problemas que enfrenta no momento do ensino em sala de aula?

3. Agora pense se, movendo um curso para a internet, com a maior flexibilidade de acesso para os alunos, e os recursos disponíveis através da Internet, você poderia ensinar de novas formas que melhor se encaixem em sua filosofia de ensino. Como isso seria?

Próximo passo

No próximo passo (passo 2) irei discutir a questão de que tipo de curso online você deve ministar, e como melhor decidir isto. E também em algum dos últimos passos, irei sugerir em como você consegue ajuda na decisão de como você quer ensinar online.

Referências

Figlio, D., Rush, N. and Yin, L. (2010) Is it Live or is it Internet? Experimental Estimates of the Effects of Online Instruction on Student Learning Cambridge MA: National Bureau of Economic Research

Richardson, J. C., & Swan, K. (2003). Examining social presence in online courses in relation to students’ perceived learning and satisfaction. Journal of Asynchronous Learning Networks, 7 (1), 68-8 8.

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Discussão - 5 comentários

  1. Claudir Busnelo disse:

    Há muita discussão acerca do que vem a ser qualidade em EAD. Parece interessante e simples usar dois parâmetros do ensino presencial para avaliar a qualidade, como sugere o artigo: – as taxas de conclusão serão pelo menos tão boas, se não melhores, para a versão online;
    – graus ou índices de aprendizagem serão tão bons, ou melhores, para a versão online.
    Creio mesmo que os indíces de aprendizagem devam ser melhores, já que sabemos eles são infimos no ensino brasileiro. Quanto às taxas de conclusão é esmo um desafio e um parâmetro de resultados: sabemos que a evasão é enorme no ensino EAD. Assim, eis uma boa meta para os gestores e educadores EAD.

  2. massacritica disse:

    Deixo na Inbox com alguns filtros. Não consigo organizar filtro para tudo. Sim, é confuso. Mas pelo menos é centralizador. 🙂
    O mail que me deram na Universidade é muito complicado para lembrar.

  3. Usa o sistema de rótulos e pastas do Gmail? Ou deixa tudo no inbox?

    []s,

    Roberto Takata

  4. massacritica disse:

    Takata, mais uma excelente colocação.
    Estar online demanda um belo dum ´tempo extra´.
    Gosto de solicitar para que meus alunos enviem as solicitações por e-mail. Pq costumo esquecer de coisas que são pedidas ´no corredor´. Tendo o contato centralizado no mail posso gerenciar melhor o que tenho que responder.

  5. Aqui mais um problema para o professor online: o tempo em que ele precisa estar disponível é bastante ampliado. Como os alunos não irão todos acessar o material à mesma hora e como todos desejam e necessitam de respostas prontas no momento em que as apresentam, como resultado o professor precisa monitorar os fóruns e outros sistemas de encaminhamento de dúvidas quase que o dia inteiro.

    A ideia de horário de expediente praticamente vai pro espaço nesse sistema.

    Claro, a presença de uma equipe de “plantão de dúvida” facilita um pouco essa ampliação do horário de trabalho, mas surgem questões como uniformização do atendimento: um plantonista pode acabar dando mais do que dicas para a resolução dos exercícios, enquanto outro pode ser bem pouco prestativo, o entendimento a respeito de um tópico pode também variar de um plantonista para o outro.

    []s,

    Roberto Takata

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