Que bonito este ratinho

Comecei finalmente a ler o livro “Além de Dawin”, do jornalista científico Reinaldo José Lopes. Logo no primeiro texto – muito bom, inclusive, no qual ele comenta sobre o imprinting sexual –  ele cita um experimento muito legal:

Os cientistas passaram essência de limão nas mamas e vaginas de “ratinhas” e depois analisaram como os ratinhos filhotes depois se comportavam sexualmente frente a fêmeas com ou sem o cheirinho de limão.

Nada contra o uso do termo ratinho (inclusive porque pode ser que sejam realmente RATOS)… Mas, sempre que eu escuto alguém falando neles, eu lembro dois casos que aconteceram no ICB da UFMG…

Vou começar pelo segundo… não presenciei, mas a pós-doutoranda que me orientava presenciou e me contou. A questão é quando você trabalha num laboratório você sempre aprende alguma coisa – seja você um professor, um estudante, um técnico ou uma faxineira. E foi numa dessas que a faxineira (que era – digo, é – muito falante) abre a porta do laboratório e se depara com uma estudante sacrificando alguns camundongos. Ela vira para a garota dizendo: “Nossa, hoje tem muito ratinho, heim? – Quer dizer, ratinho, não: comundongo!” [sic].

O primeiro aconteceu há (fazendo as contas…) quase 6 anos. Estava no 2° EM, quando vi na parede do corredor da sala, um cartaz “Projeto UFMG & Escolas – Educando para a Ciência”. Não tinha a menor ideia do que seria, mas fiz minha inscrição – e fui. Um dos grupos fez um experimento no qual eles tacaram um camundongo numa gaiola cheia de cigarros acesos. Ao final de cada dia tínhamos que apresentar nossos dados para todos os alunos. Quando a menina foi dizer seus dados ela sempre falava: “Colocamos o ratinho…” ou “o ratinho apresentou…”. A professora corrigiu dizendo “Ratinho, não(!), CAMUNDONGO. São duas espécies diferentes, da mesma forma que você não é um macaco!”.

Nossa! Pintou um climão na hora…

Mesmo assim, involuntariamente, sempre que ela ia falar dos experimentos ela sempre falava “o ratinho” isso/“o ratinho” aquilo e a professora sempre corrigindo.

Chegou uma hora que a sala inteira e a própria menina já falavam em coro:

– Ratinho, NÃÃÃÃÃO!!! CA-MUN-DON-GOOO!

Então a garota teve uma brilhante ideia que surgiu, mais ou menos, assim:

– Hoje o ratin

RATINHO, NÃÃÃÃO! CA-MUN-DON-GO!

– É que o nosso camundongo, tem o nome de Ratinho!

Rá! Rimos muito…

E só para terminar e ninguém falar que, no final das contas, eu não falei a diferença…

Os RATOS utilizados em laboratórios são da espécie Rattus norvegicus (e pesam cerca de 200g-400g)

Rato Wistar - repare na proporção entre o animal e a mão da pessoa que o está segurando

Os CAMUNDONGOS são Mus musculus (e pesam cerca de 20g).

Camundongo - olha como ele é pequenino

Agora, fotos dos camundongos que eu cuido no lab..

Camundongo com 21 dias no meu braço - repare no tamanho

Camundongos na gaiola

Mamãe camundonga e seus 20 filhotes recém nascidos

Mas convenhamos…

é tentador olhar para essas carinhas e chamá-los de ratinhos

é muito mais simpático, n’est pás?

Foto do rato, foi retirada daqui
Foto do camundongo nas mãos com luvas, foi retirada daqui

O tal “meio de cultura”

Corre por aí uma piadinha infame que diz que a única forma de cultura que os microbiologistas conhecem é a cultura de bactérias. ¬¬” Eu, geralmente, brinco dizendo que também existe cultura de fungos(!).

Mas o que é uma cultura de um microrganismo?

Isso aí em cima, é um exemplo de cultura bacteriana. Observe que só tem um tipo de bactéria (essa coisa meio nojenta amarelada). Ela começa como um aglomerado que vai ficando menos denso até formar pequenas colônias redondinhas. Essas colônias individuais são originadas, geralmente, de uma única bactéria que se multiplicou várias e várias vezes – e suas “filhas” também, e as filhas das filhas, também… e assim por diante. E por esse motivo é que nós conseguimos “ver as bactérias” – só porque ali não tem uma, mas várias (na verdade milhares de) bactérias amontoadas.

E como é que se faz para que essa bactéria cresça? Colocando-a num Meio de Cultura! Um “meio de cultura” é uma solução nutriente [com açúcares, vitaminas, aminoácidos, sais mineirais, dentre outros nutrientes] que os microbiologistas utilizam para crescer os microrganismos no laboratório. Ele pode ser líquido, semi sólido ou sólido – e seu uso depende do objetivo do pesquisador. O que garante a firmeza do meio é uma substância extraída de algas, chamada ágar-ágar ou, simplesmente, ágar.

As diferentes composições do meio, permitem inclusive, que o cientista diferencie bactérias de acordo com as característica do metabolismo de cada uma.

Um exemplo muito interessante é o da foto aí em cima! Este meio é o Ágar Hipertônico Manitol, que possui uma concentração muito elevada de sal, o que impede que a grande maioria das bactérias cresça. Ele é utilizado na diferenciação de bactérias do gênero Staphylococcus em dois grupos: 1) a espécie Staphylococcus aureus; e 2) o grupo das espécies de Staphylococcus que não são S. aureus. Isso é possível, pois somente os S. aureus fermenta o manitol, acidificando o meio que de rosa passa para amarelo.

Dois meios meios muito utilizados na prática da microbiologia são o “Ágar simples” e o “Ágar Sabouraud”. Em geral esses dois meios são usados para o crescimento diferenciado de bactérias e fungos. O primeiro, por ter pH neutro (7,0) e ser incubado em estufa a 37° C favoroce o crescimento de bactérias. Enquanto o segundo meio, por ter características mais ácidas (pH ~ 6,0) e ser incubado em temperatura ambiente favorece o crescimento de fungos filamentosos e leveduras.

Essa foto, tirada pela professora Vera Lúcia dos Santos (ICB/UFMG), foi de uma prática que realizamos utilizando duas espécies diferentes de fungos. Observe que quando comparamos as culturas de bactérias com as de fungos, vemos que as colônias de bactéria se apresentam como pequenas colônias de aspecto homogêneo. As colônias as colônias de fungos filamentosos, por outro lado, são grandes, de aspecto filamentoso e irregular.

Em uma disciplina fizemos uma prática com meios de cultura alternativos. Fizemos testes com diversos meios preparados com alimentos trazidos de casa e todos funcionaram muito bem. Foram utilizados frango, paçoca, massa de pão, frutas… Alguns meios favoreceram o crescimento de fungos, outros de bactérias, mas no geral, houve um crescimento dos dois grupos de microrganismos.

E para terminar, o site Microbial Art (em inglês) tem uma galeria de imagens (como a que pode ser vista abaixo) no qual diversos cientistas e/ou artistas utilizam microrganismos vivos [bacterias, fungos e protistas] para fazerem arte.

Foto do Dr. Roger Tsien (ganhador do prêmio Nobel). Foram utilizadas bactérias modificadas geneticamente para expressar proteínas fluorescentes.

[update, 22/01» agradeço ao amigo biólogo e microbiologista Rodrigo de Oliveira, pelo alerta: “Vamos incentivar a biosegurança. Coloca uma luva naquela mão segurando a cultura!”   =S   Pois é… #fail   Mas, como a foto não é minha, fica só o lembrete!]

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM