Minhas Impressões: “O livro dos milagres”

Resenha ou não, prefiro chamar esses meus texto de “minhas impressões”… E hoje, vou falar um pouquinho do livro-reportagem que acabei de ler: “O livro dos milagres: a ciência por trás das curas pela fé, das relíquias sagradas e dos exorcismos“, de Carlos Orsi, publicado pela editora Vieira & Lent.

Vou, de cara, falar rapidamente sobre a estrutura do livro. A capa não tem nada a não ser uma vela em um ambiente escuro… Essa imagem faz alusão tanto ao livro de Carl Sagan: “O mundo assombrado pelos demônios – a ciência vista como uma vela no escuro”, como à fragilidade desses milagres, que com um pequeno sopro de ciência e pensamento crítico pode se apagar. O título do livro só está impresso na lombada e na quarta capa! – bem diferente do que estamos acostumados, né? Eu, particularmente, gostei bastante dessa capa. O texto é dividido em duas colunas. É um tanto estranho no inicio [várias vezes eu pulei do final da primeira coluna da página da esquerda para o inicio da primeira coluna da página da direita], mas depois a gente vai se acostumando. Fiquei pensando se essa diagramação seria uma alusão à bíblia… O livro é curtinho, tem apenas 144 páginas e as letras são grandes, o que permite uma leitura rápida e agradável, sem contudo ser superficial.

Não conhecia o trabalho do autor, o jornalista Carlos Orsi (twitter / blog), e tomei conhecimento sobre o livro por meio do Twitter. À medida em que via o nome pipocando na minha timeline fui ficando curioso e adicionei o livro aos meus desejados no Skoob. Até que no dia 06 de janeiro, chegando em casa dei de cara com um tweet-promoção do Takata, valendo um exemplar do livro: “Se a contaminação por bactérias fosse a responsável pela idade mais nova do Santo Sudário, qtas delas seriam necessárias?” Mais que depressa procurei algumas pistas para tentar responder a essa pergunta… 5 dias depois, estava de posse do meu exemplar autografado:

Carlos já começa seu livro de forma provocativa. A introdução, logo de início, já despeja os mitos que serão discutidos no livro e deixa bem claro o objetivo do autor ao escrever e publicar seu texto: “facilitar o acesso do público às conclusões científicas acerca dos eventos tidos como milagrosos – explicando-os e contextualizando-os”.

Em seguida, Orsi utiliza da definição do dicionário Houaiss para questionar quão vago é o conceito de “milagre” – que, em várias acepções requer que a ciência seja algo fixo e do qual devemos ter pleno conhecimento, afinal o milagre traspões a barreira das leis naturais. E cita a lei de Hume que pressupõe que as explicações para um milagre devem ser mais convincentes do que qualquer outra explicação racional/natural – inclusive a de o milagre ser, na verdade, uma fraude. É a partir daí que seguem os capítulos que exploram diferentes “milagres”.

No início achei que seria um texto enfadonho, bem chato de ler. Mas fui me surpreendendo durante a leitura que é bastante fluida. O autor apodera-se de diferentes fontes, para mostrar que aqueles milagres cujas explicações transcendem as leis naturais, na verdade tem explicações muito plausíveis e suportadas pelo conhecimento científico. Além disso, para os não conhecedores do eventos descritos no livro, o autor tem o cuidado de contextualizar historicamente e biblicamente (quando o caso) o milagre analisado.

Cito abaixo, alguns rápidos pontos que me chamaram a atenção durante a leitura:

No capítulo sobre a abertura do Mar Vermelho por Moisés, Orsi questiona, por exemplo, a única referência da existência dos hebreus no território egípcio ser a bíblia. Se realmente aconteceu tudo aquilo (as pragas, a abertura o mar vermelho, a morte do exército egípcio pelo fechamento do mar), porque não há nenhum outro registro sobre isso, nem mesmo entre os textos egípcios?

Há algum tempo li uma frase em que o autor falava que todas as histórias que se contam hoje e que se contarão no futuro são reinvenções/variações de histórias que já existem… Essa ideia retomada de mitos já existentes aparece muito no livro. Exemplos? Um rei manda matar crianças por causa de profecia; uma mãe para não sacrificar seu filho, abandona-o e este sobrevive, retornando mais tarde para dar vasão à profecia inicial. Outro exemplo? O filho que nasceu de um deus e uma mulher terrena.

Quadros de epilepsia e enxaqueca estariam ligados a visões e êxtase religiosos, como o de Maomé e do apóstolo Paulo.

A maior crítica que esse livro faz, parece-me estar relacionada não simplesmente aos milagres em si, mas à crença cega a essas, ditas, verdades inquestionáveis. Assim, um leitor religioso, não deveria encarar esse livro como um rompimento de sua fé. A religião como apoio, palavras de conforto, momentos de reflexão e valores morais ainda continua tendo seu valor… e pode servir de pilar para muitas pessoas. O que não se deve fazer é apoiar a fé em milagres, que como Orsi demonstra muito bem nesse livro, parecem não serem tão milagrosos assim!

Mas como assim “parecem”? Hoje mais cedo, enquanto conversava com uma amiga sobre esse livro, levantamos essa questão. Tirando alguns casos bem explícitos no livro (o Santo Sudário é o que ganha maior destaque) onde se mostra que há realmente fraude ou uma explicação real para o milagre, os demais milagres, por diversas limitações, como por exemplo o fato de os envolvidos estarem mortos, restringem-se a tentativas de explicações baseadas no conhecimento científico que dispomos hoje. O próprio Orsi reconhece essa limitação na conclusão do texto – por outro lado, isso por si só não reduz a importância desse livro.

Talvez esteja na hora de você também vestir a carapuça de São Tomé…

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Gostei tanto do livro e da temática, que assim que terminei este, já emendei o livro: “Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas” – que já foi resenhado pelo Igor no blog 42, e pelo Kentaro no Ceticismo Aberto. Confere lá! [Ah, só um alerta: a promoção no blog do Kentaro já acabou ;) ]

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Discussão - 4 comentários

  1. Sibele disse:

    A pergunta sobre quantas bactérias seriam necessárias para alguma coisa é para um microbiologista mesmo né, Sam?

    Tanto que garfou o livro! Parabéns!

    E obrigada por suas impressões! Adoro resenhas! :)

  2. André Rabelo disse:

    Samir,

    legal conhecer suas impressões, me senti mais entusiasmado para ler o livro! O Carlos Orsi é um jornalista muito competente na divulgação científica, coisa que sabemos ser rara e valiosa. Fiquei feliz quando ouvi falar do pré-lançamento deste livro, mas ainda não comprei ele. Vou providenciar logo!

    Abraço!

  3. […] que é um milagre?”, Dawkins apresenta para seus leitores a Lei de Hume que (como disse nas minhas impressões do “Livro dos Milagres“) pressupõe que as explicações para um milagre devem ser mais convincentes do que […]

  4. […] que é um milagre?”, Dawkins apresenta para seus leitores a Lei de Hume que (como disse nas minhas impressões do “Livro dos Milagres“) pressupõe que as explicações para um milagre devem ser mais convincentes do que […]

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