Agrotóxicos podem deixar patógenos humanos mais resistentes a drogas

Agrotóxicos podem deixar patógenos humanos mais resistentes a drogas

Por Rafael W. Bastos*

ResearchBlogging.orgNas últimas semanas têm se discutido bastante a possibilidade e as implicações da mudança na lei envolvendo a produção e liberação de agrotóxicos no Brasil, que é o campeão mundial no uso dessas substâncias. Só na última década, o mercado de agrotóxicos no Brasil cresceu uma taxa de 190%, mais do que o dobro do apresentado pelo mercado mundial.

Os riscos e efeitos diretos que a exposição aos agrotóxicos causa sobre a saúde humana já são bem conhecidos. No entanto, pouco se sabe, ainda, sobre os efeitos indiretos que essas substâncias podem causar, como, por exemplo, quais seriam as influências de antifúngicos usados para tratar doenças de plantas nos fungos que causam doenças em humanos e que vivem no ambiente.

Doença fúngica não é apenas aquela “micose de pele”, em que se passa pomada, toma-se uns comprimidos e, em algumas semanas, a infecção se resolve. Na verdade, existem fungos que causam infecções gravíssimas, de difícil tratamento e que podem levar o paciente a morte. Estima-se que 300 milhões de pessoas sofrem de infecções sérias causadas por fungos, e 1,6 milhão não sobrevive a tais infecções anualmente. Um dos motivos do difícil tratamento e do número elevado de óbitos é a quantidade limitada de medicamentos disponíveis para tratar tais infecções. E se isso não bastasse, é crescente o isolamento de fungos resistentes às poucas drogas disponíveis.

Os cientistas tentam entender melhor o porquê e como os fungos podem se tornar resistentes aos antifúngicos, especialmente quando o fungo parece nunca ter entrado em contato com aquela droga. Uma das hipóteses é que esses micro-organismos poderiam adquirir resistência/tolerância a drogas ainda no ambiente e que isso poderia ser causado devido ao contato com agrotóxicos, já que muitos desses fungos vivem associados a plantas.

Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com o Instituto Pasteur (Paris-França), mostrou justamente isso. Os pesquisadores expuseram fungos que causam pneumonia e meningite (Cryptococcus gattii e C. neoformans) aos antifúngicos usados para tratar doenças de plantas (agrotóxicos) e, em seguida, avaliaram se esses fungos se tornavam mais tolerantes aos antifúngicos usados para tratar a doença em humanos. Os resultados mostraram que alguns fungos apresentavam o fenômeno conhecido como resistência cruzada, ou seja, ao entrarem em contato com concentrações crescentes do agrotóxico, os fungos adquiriam e/ou expressavam mecanismos que serviam tanto para tolerar o agrotóxico como o antifúngico clínico. Esse efeito também foi observado in vivo quando a principal droga usada para tratar a doença em humanos se mostrou menos eficaz, em camundongos, em inibir o crescimento dos fungos que foram previamente expostos aos agrotóxicos. Esse trabalho também mostrou que a maior tolerância ao antifúngico clínico permanece, em alguns casos, mesmo após o contato com o agrotóxico ter cessado, sugerindo que o agrotóxico pode ter induzido alguma mutação no DNA desses organismos.

Os antifúngicos ambientais também induzem mutações em outro tipo de fungo, o Aspergillus fumigatus. Esse fungo filamentoso é encontrado no ambiente e pode causar diferentes doenças, sendo a aspergilose invasiva (AI) a mais grave. Essa doença manifesta-se, principalmente, como pneumonia e pode ter taxa de letalidade de até 90%. Essa elevada taxa está associada, dentre outros motivos, à resistência a drogas antifúngicas – estima-se que mais de 30% dos isolados de A. fumigatus na Europa sejam resistentes a drogas clínicas.

Algumas pesquisas vêm mostrando que a exposição a agrotóxicos pode causar alterações genéticas em A. fumigatus, o que o torna mais resistente, também, às drogas usadas para tratar a infecção em humanos. Há relatos, inclusive, do aparecimento de linhagens resistentes a drogas clínicas, devido a alterações genéticas, com a época de liberação do uso de alguns agrotóxicos que induzem, em condições laboratoriais, as mesmas alterações genéticas.

Outro estudo com o mesmo fungo conseguiu isolar de casas de vegetação, onde se usava agrotóxicos, linhagens resistentes a antifúngicos clínicos e que apresentavam as mesmas mutações induzidas laboratorialmente após a exposição dos fungos aos agrotóxicos. Isso indica que o fenômeno de resistência cruzada acontece no ambiente.

Apesar dos benefícios de produtividade relacionados ao uso de agrotóxicos, é importante colocar na balança todos os efeitos diretos e indiretos que os mesmos podem trazer para a saúde humana. A boa notícia é que nem todos os antifúngicos usados para tratar doenças de plantas parecem induzir resistência cruzada a antifúngicos clínicos. Dessa forma, é importante avaliar se um determinado agrotóxico poderia ou não causar resistência cruzada a drogas clínicas, especialmente no contexto em que vivemos de expansão da resistência a antimicrobianos e de casos de doenças fúngicas cada vez mais fatais.


REFERÊNCIAS

1- Raquel Maria Rigotto, Dayse Paixão e Vasconcelos, & Mayara Melo Rocha (2014). Pesticide use in Brazil and problems for public health Cadernos de Saúde Pública, 30 (7) : http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XPE020714

2- Editorial (2017). Stop neglecting fungi Nature Microbiology volume, 2 Other: 17120 (2017)

3- Bastos RW, Carneiro HCS, Oliveira LVN, Rocha KM, Freitas GJC, Costa MC, Magalhães TFF, Carvalho VSD, Rocha CE, Ferreira GF, Paixão TA, Moyrand F, Janbon G, & Santos DA5. (2018). Environmental triazole induces crossresistance to clinical drugs and affects morphophysiology and virulence of Cryptococcus gattii and C. neoformans Antimicrobial Agents and Chemotherapy, 1 (62)

4- Bastos, RW. Influência de antifúngicos ambientais sobre a tolerabilidade aos antifúngicos clínicos, morfo-fisiologia e virulência em Cryptococcus gattii e C. neoformans. Tese (Doutorado em Ciências Biológicas-Microbiologia). Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte-MG, p. 104, 2018.

5- Snelders E, Camps SM, Karawajczyk A, Schaftenaar G, Kema GH, van der Lee HA, Klaassen CH, Melchers WJ, & Verweij PE (2012). Triazole fungicides can induce cross-resistance to medical triazoles in Aspergillus fumigatus. PLoS One, 3 (7)

6- Ren J, Jin X, Zhang Q, Zheng Y, Lin D, & Yu Y (2017). Fungicides induced triazole-resistance in Aspergillus fumigatus associated with mutations of TR46/Y121F/T289A and its appearance in agricultural fields. Journal of hazardous materials

 

IMG-20180711-WA0015*Rafael Wesley Bastos – Biólogo pela UFV. Mestre e Doutor em Microbiologia pela UFMG. Atualmente é residente de pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas-USP-Ribeirão Preto. Durante o doutoramento estudou a “influência de antifúngicos ambientais sobre a tolerabilidade aos antifúngicos clínicos em Cryptococcus” e realizou estágio sanduíche no Instituto Pasteur, na França, trabalhando com “Mecanismos moleculares envolvidos no aumento da resistência a antifúngicos clínicos em Cryptococcus expostos a agrotóxicos”.

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