Quorum sensing: novas possibilidades
Não sei se fui infeliz na escolha da palestras que assisti no congresso de micro (em outubro do ano passado) ou se as palestras realmente não estavam muito boas…. Mas uma palestra que tinha tudo pra ser interessante (e que não ficou nem um pouco abaixo das expectativas) foi a sobre quorum sensing na área de alimentos.
Já falei de quorum sensing aqui no blog… mas acho que vale a pena demais falar de novo, acrescentando as novidades e possibilidades apresentadas na palestra.
Pra começar, o quorum sensing (QS) é a forma como os microrganismos conseguem identificar sua densidade populacional, algo como um censo do IBGE só que funciona de uma forma muito diferente… Enquanto usamos pessoas que passam de casa em casa perguntando quantas pessoas moram em cada casa, as bactérias liberam moléculas que são percebidas por outras bactérias da mesma espécie… A idéia é a seguinte: quanto mais bactérias, mais moléculas estão presentes no meio e, consequentemente, elas percebem se estão em grande ou em pequena quantidade. E qual a importância disso? Bom essas moléculas são capazes de iniciar uma cascata reações celulares que levam a expressão de diferentes genes, dependendo do contexto. É legal falar que tanto as bactéria Gram+ quanto as Gram- realizam QS, mas as moléculas envolvidas são bem diferentes.
Algo que eu ainda não sabia é que além dessa “comunicação” intraespecífica (dentro da mesma espécie), há também QS interespecífico (entre bactérias de espécies diferentes)! Não bastasse isso, ainda há relatos de QS em Candida albicans, um fungo!
Os genes regulado por QS também diferem em cada espécie, veja alguns exemplos de quando falamos em QS intra-específico:
- em Vibrio fisheri e em V. harvey o QS leva a ativação de genes de bioluminescência
- em Pseudomonas, uma bactéria que causa pneumonia em pacientes com fibrose cística, o QS ativa fatores de virulência e induz a formação de biofilme. Em espécies dos gêneros Staphylococcus (patógeno humano) e Erwinia (patógeno vegetal) genes de virulência também são ativados.
- curiosamente, na bactéria causadora do cólera (Vibrio cholerae) o grande número de indivíduos leva a uma redução na patogenicidade do microrganismo. Isso pode estar relacionado com a forma de dispersão do micróbio, que causa uma doença aguda.
- o Staphylococcus aureus, merece um destaque especial pois de acordo com a molécula que a bactéria produz, pode ser classificado em um dos quatro grupos. O mais curioso disso é que as bactérias de um determinado grupo só ativam bactérias do mesmo grupo, podendo inclusive chegar a inibir a produção das moléculas por bactérias de grupos diferentes
Nesse último exemplo vemos uma possibilidade de criar estratégias de combate a um microrganismo utilizando inibidores de QS… Mas porque essa poderia ser uma estratégia interessante, principalmente se considerarmos a preocupante situação da resistência aos antibióticos?
Os antibióticos agem inibindo o crescimento de microrganismos (ou mesmo levando a sua morte) e assim, as bactérias que não são inibidas são selecionadas e se tornam dominantes na população. Por outro lado, utilizando inibidores de QS não estaríamos, a princípio, promovendo uma seleção, pois as bactérias continuariam crescendo e se multiplicando, mas não perceberiam que estão em quantidades elevadas e assim não expressariam muitos dos fatores de virulência.
Apesar de bacteriocinas já serem utilizadas industrialmente, por exemplo a lisina no caso de alimentos processados, podemos persar em novas aplicações a partir dessas novas descobertas. Elas vão desde aplicações na indústria de alimentos, na qual poderia se utilizar de bacteriocinas nas embalagens de alimentos (batatas, por exemplo) visando um maior tempo de prateleira… Em estações de tratamento e empresas que utilizam tubulações, um problema muito comum é a formação de biofilmes que devem ser removidos… A idéia aqui seria associar as bactericinas a detergentes e, assim, facilitar a remoção dessa estrutura bacteriana!
Muita pesquisa ainda deve ser feita para se testar as possibilidades e segurança dessas técnicas… Vamos aguardando!
A química da cerveja [guest post]
Este post foi escrito pelo Anderson Arndt, doutorando em Química pelo IQ-USP.
“Cerveja, a causa e a solução de todos os nossos problemas”
Homer Simpson
Eu não nasci há 10.000 anos atrás, mas é provável que algumas pessoas daquela época já tomavam cerveja. Não era a mesma coisa do que conhecemos hoje, claro, mas sim uma bebida fermentada a partir de cereais.
Alguns estudos sugerem que a cerveja [consumida moderadamente] tem algumas propriedades nutricionais importantes, como a presença de vitaminas do complexo B, selênio e atividade antioxidante relativa aos compostos fenólicos presentes. [1].
O processo de fabricação de cerveja em si nem é tão complicado; você só precisa de: cereais pra fazer o malte, lúpulo, fermento e água [eventualmente, um pouquinho de açúcar]. Porém, por trás desse processo, existem diversas reações químicas envolvidas e, se uma delas não ocorrer corretamente, tudo estará perdido.*
O primeiro passo é tacar os grãos (de cevada, trigo ou o que você achar melhor) em água quente, pra “despertar” uma enzima chamada amilase, que quebrará a estrutura do amido – um polissacaríceo de glicose – transformando-o em maltose – um dissacarídeo de glicose. A solução resultante também é chamada de mosto.
A segunda etapa é ferver o mosto acrescentando o lúpulo (Humulus lupulus). Essa plantinha que fornecerá o amargor e aroma à sua cerveja. Durante a fervura, o lúpulo liberará uma “resina” constituída de ácidos do tipo alfa (responsável pelo amargor; quanto mais tempo a fervura, mais amarga a cerveja) e do tipo beta (esses contribuem para o aroma, porém, se oxidados, formarão compostos de enxofre que darão um gosto aparentando estragado à cerveja).* Após esse procedimento, deve-se filtrar, pra retirar o excesso de lúpulo. A reação do malte com o lúpulo, em temperaturas acima de 154ºC, é conhecida como Reação de Maillard.
Agora vem a parte que tem a ver com este blog e, talvez, a parte mais importante do processo: a fermentação. Após a mistura anterior ter esfriado, adiciona-se a tão famosa levedura Saccharomyces cerevisiae que, em um ambiente sem oxigênio, transformará os açúcares presentes em etanol e dióxido de carbono.
Se o processo de fermentação ocorrer entre 20 e 25ºC, teremos a cerveja do tipo Ale (Stout, Indian Pale, Irish Red, Weissbier, Belgian Golden Strong, …). Porém, se ocorrer entre 7 e 12ºC, teremos as cervejas Lager (a mais comum é a Pilsen, mundialmente a mais consumida).
Pronto, agora é só chamar os amigos, fritar umas calabresas com cebola, curtir sua cervejinha e contar essa história pra eles.
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Bônus: em 2011, na comemoração do Saint Patrick’s Day, a American Chemical Society divulgou um vídeo explicando rapidamente como acontecem essas coisas. Confiram em (vídeo em inglês)
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Texto baseado em: What Are The Chemical Reactions Involved In Beer Making?
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*atualizado às 14h, do dia 17/03/13
A capa da revista
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Então um dia você chega no lab e se depara com a seguinte cena:
Sim… você encontra uma capa de revista no quadro de avisos. Você faz o que? Vai olhar pra ver o que é, claro!
Então você olha de perto, abre a folha, olha a contra capa… E o que você descobre?
NADA!
Era só a capa da revista. Não tinha índice, não tinha nada que indicasse o motivo dela estar ali. Fui então perguntar para o pessoal do lab o que era aquilo: ninguém sabia…
Resolvi tirar a minha dúvida (e a de todo mundo que estava no laboratório naquela hora) e perguntei ao professor. Descoberto o motivo, escrevi um bilhetinho para avisar os desavisados. Ficou curioso? Olha o bilhetinho que eu!!!

Pessoal, este é o volume da revista na qual o artigo da Fabs foi publicado. Aí você deve estar se perguntando: por que colocar a capa da revista e não a primeira página do artigo? A resposta é simples: tá vendo estas fotos na capa? Então, são do artigo da Fabs! Legal, né!?
(E não, bilhetes de laboratório não precisam ser chatos e formais)
É claro que eu também não deixaria de comentar o que são as fotos. Dá só uma olhadinha…
As imagens são de microscopia eletrônica do intestino delgado de camundongos “germ-free” que:
A) foram desafiados com Salmonella. Repare como a bactéria está dispersa pela mucosa.
C) os animais foram tratados com um probiótico (Saccharomyces boulardii) comercial e desafiados com Samonella.Reparem que a bactéria tende a se ligar na levedeura ao invés de se ligar no intestino dos camundongos.
B) aqui, utilizamos uma linhagem da levedura S. cerevisiae isolada da produção de cachaça como probiótico. Os resultados com essa levedura foram semelhantes aos apresentados pelo probiótico comercial.
A ideia é conseguir no futuro transformar essa levedura em produto para que possamos ter aqui no Brasil um produto nacional tão eficiente quando o outro que já está estabelecido comercialmente, e que tenha um custo significativamente mais baixo!
Parede celular bacteriana: você realmente sabe sobre ela?
No ano passado, escrevi o post “Genoma bacteriano – por uma visão menos simplista…“, como resultado de um seminário que apresentei em uma disciplina de morfologia e fisiologia bacteriana…
Um outro tema muito curioso que me chamou a atenção nessa mesma disciplina foi um seminário sobre parede bacteriana… Sim, esta estrutura tão conhecida ainda tem coisas que podem nos surpreender.
Foi por isso, que pedi ao Rafael Bastos, que é biólogo pela UFV e está fazendo mestrado no meu lab, para escrever um pouquinho sobre esse tema, já que na disciplina desse ano o grupo dele foi responsável pelo tema!
Vamos quebrar mais um paradigma da microbiologia!?
Parede celular bacteriana: você realmente sabe sobre ela?
por Rafael Bastos
Acredito que a estrutura da parede celular seja um dos temas mais abordados em qualquer disciplina básica ou avançada de microbiologia. No entanto, será que realmente conhecemos a estrutura da parede celular bacteriana? E as diferenças entre Gram positiva e Gram negativa?
Todos os livros de microbiologia caracterizariam a parede celular bacteriana da seguinte maneira:
Composta por uma rede macromolecular de peptideoglicano, cuja parte sacarídica é constituída de dois açúcares, N-acetilglicosamina(NAG) e N-acetilmurâmico (NAM), ligados um ao outro e formando uma fileira de dissacarídeos repetidos. As fileiras adjacentes são ligadas por polipeptídeos e esses polipeptídeos, ainda, podem estar ligados a uma ponte interpeptídica em algumas espécies.
E as diferenças entre Gram positiva e Gram negativa?
As Gram positivas possuem ácidos teicóicos e muitas camadas de peptideoglicano, enquanto as Gram negativas não possuem ácidos teicóicos, possuem uma ou poucas camadas de peptideoglicano, além de possuírem a camada de lipopolissacarídeo (LPS) e o periplasma.
Comparação clássica das paredes de bactérias Gram-positivo e Gram-negativo, imagem do livro “Microbiologia de Brock” – clique para ampliar
Contudo, recentes publicações têm demonstrado que a estrutura pode ser muito mais complexa e diversificada do que nós imaginávamos e que ainda não conhecemos algo que parece tão trivial em um primeiro momento que é a parede celular bacteriana.
Na verdade, parecem existir dois principais modelos de parede celular:
O primeiro é conhecido como modelo em camadas e seria esse que nós estamos habituados, com a camada de dissacarídeos repetidos sendo paralela ao eixo principal da célula.
O outro modelo é conhecido como “Scaffold” (andaime). Nesse caso, a camada sacarídica seria perpendicular ao eixo principal da célula. Acredita-se que a parede celular do Staphylococcus aureus poderia ser assim, mas os estudos ainda não são totalmente conclusivos.
Modelo em camadas e em andaime. (Gan et al., 2008)
Além disso, outras novidades seriam a presença do periplasma (ou um espaço semelhante ao periplasma) em bactérias Gram positivas e o fato que a fileira formada pelos dissacarídeos repetidos não é contínua e sim interrompida. Essas fileiras, portanto, podem possuir diferentes tamanhos, o que pode indicar se a parede celular de uma determinada bactéria se encaixa em um modelo ou outro.
Outro fato que às vezes não está muito claro nos livros didáticos é que a camada mais externa de LPS praticamente não possui fosfolipídeo, ao contrário da camada mais interna e das membranas plasmáticas. Essa camada (camada externa da membrana externa) possui apenas lipopolissacarídeos.
Mas o mais interessante sobre esse assunto é o que descobriram sobre a parede de Bacillus subtilis. Os pesquisadores descobriram que as fileiras formadas pelos dissacarídeos nessa bactéria eram muito grandes, bem maior que o comprimento e a largura da célula. Dessa forma, ela não se encaixaria em nenhum dos dois modelos já citados ( camadas e andaime).
Através da microscopia de força atômica eles observaram e concluíram que o peptideoglicano de B. subtilis se enrola sobre ele mesmo e circunda toda a célula, semelhante a uma corda, por isso esse modelo ficou conhecido como “modelo em corda”.
Parede de B. subtilis: modelo em cordas. (Hayhurst et al., 2008)
Essas descobertas são interessantes por si só, contudo, elas também nos fazem pensar como a ciência é dinâmica e que nós ainda sabemos pouco sobre assuntos que muitas vezes podem parecer bem estabelecidos.
Gan, L. et al. (2008). Molecular organization of Gram-negative peptidoglycan Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.0808035105
Hayhurst, E.J. et al. (2008). Cell wall peptidoglycan architecture in Bacillus subtilis Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.0804138105
Menos… Bem menos… Quase nada!
Você já se perguntou quantos microrganismos existem no planeta Terra? Pode ser que você nunca tenha se feito esse questionamento, mas tem gente que já fez… E é sobre isso que vamos falar aqui hoje!
Já falei algumas vezes aqui mesmo no blog que temos cerca de 10 vezes mais bactérias no nosso corpo do que o número de células humanas! Isso só é possível porque esses microrganismos são muito menores que uma célula humana… Com isso, 10^14 células microbianas estão espalhadas por nosso corpo e pesam cerca de 1,5 kg. A interação entre o hospedeiro e sua microbiota associada é tão intensa que alguns autores sugerem o termo superorganismo para se referir a esse complexo biológico! Estamos agora numa fase de tentar descobrir quais são esses microrganismo que compõem essa microbiota para assim conseguirmos entender um pouco melhor essas relações – é o que chamamos de projeto microbioma humano. Esse nome provavelmente não deve soar muito estranho… Se você fez uma associação com o projeto genoma humano, a ideia é mais ou menos essa, mas ao invés dos genes humanos estamos falando de genes microbianos!
Pois bem… Imagine agora se os cientistas não satisfeitos em descobrir quais micróbios habitam nosso corpo resolvessem tentar descobrir a diversidade de microrganismos que habitam o nosso planeta… Pois então, eles estão fazendo isso!
Um grupo de geomicrobiologistas da Universidade de Potsdam (Alemanha), estudando a microbiota de sedimentos marinhos, desenvolveu um modelo acurado para verificar a distribuição desses microrganismos. O artigo foi publicado conceituada PNAS (27/08/12) e os resultados são bem surpreendentes.
Estimativas antigas, mas não tão antigas assim (Whitman et al, 1998) sugeriam que deveria haver cerca de 35.5×10^29 microrganismos no solo oceânico. Esses valores são incrivelmente contrastantes com os encontrados por Kallmeyer e colaboradores…
Quer saber quanto? Bem pense em menos… Bem menos… Quase nada!
Tudo bem, eu admito, 2.9×10^29 não é “quase nada”… Mas veja bem… Esse valor, apesar de gigantesco, representa apenas 8% da estimativa anterior! Mesmo assim, seriam cerca de 10 milhões de trilhões de micróbios para cada humano no planeta [e corresponderia a ~0,6% da biomassa total da Terra]. Pare e reflita sobre isso!
Projetando a nível global (não só os oceanos), eles sugerem que haveria uma redução de 50%-78% no número de microrganismos (de 41,8-64,3×10^29 para 9.2-21,7×10^29 células).
É aquele negócio… esses números são quase nada comparada aos valores de 1998, mas continuam sendo números exorbitantemente grandes!
Atualização (31/09): É claro que uma alteração tão drástica no número de células microbianas impactaria as estimativas da biomassa total da Terra. Os autores sugerem que haveria uma redução de 915-1.108 Pg de carbono, para 614-827 Pg de C [uma média de (713 Pg)]. Só pra constar, um petagrama (Pg) equivale a 10^15 g.
Jens Kallmeyer, Robert Pockalny, Rishi Ram Adhikari, David C. Smith, & Steven D’Hondt (2012). Global distribution of microbial abundance and
biomass in subseafloor sediment PNAS DOI: 10.1073/pnas.1203849109
A bactéria na alga no crustáceo
Esse GIF simplesmente fantástico é composto por imagens de microscopia eletrônica de varredura (MEV). De início vemos um anfípodo, um pequeno crustáceo… Então vamos nos aproximando mais… mais… mais… e temos uma diatomácea, um tipo de alga. E não paramos por aí! A aproximação continua mais… mais… mais.. mais… e mais um pouquinho e o que é aquilo na alga? Sim, meus queridos, uma bactéria!
The Best GIF ever, não é não!?
Onde você teria imaginado que um único GIF poderia conter um anfípodo, uma alga e uma bactéria juntos?
Ah!!! Reparou na escala que vai se ajustando no canto inferior direito? Ela vai de 1mm a 500nm!
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Foi uma dica do vizinho Carlos Hotta!
O GIF foi feito por James Tyrwhitt-Drake da University of Victoria.
O post original você vê aqui!
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MICRO-OLIMPÍADAS 2012: mergulho e olimpíadas de inverno
Chegamos ao fim das nossas postagens sobre as olimpíadas microbianas… Uma nota rápida para podermos falar quem levou o ouro para casa nas duas últimas provas.
MERGULHO
Nesta prova os competidores ganhavam pontos pela profundidade e beleza do mergulho. A bactéria que pendurou (oi?) a medalha de ouro foi a fluorescente Photobacterium phosphorium. Depois de treinarem muito para conseguir falar o nome da vencedora, os juízes explicaram os motivos da escolha: além de emitir brilho próprio, o que leva a um belíssimo espetáculo no fundo do oceano, o microrganismo ainda deixa iluminado seu hospedeiro, um peixe de águas profundas… Muito profundas! Aplausos para o vencedor!
OLIMPÍADAS DE INVERNO
Para nós que vivemos em um país tropical, as provas de inverno soam bastante curiosas. Nessa competição os microrganimos foram testados ao máximo – ou melhor, ao mínimo. Sim, queridos leitores, aqui o vencedor é aquela bactéria que conseguir demonstrar que merece, de verdade, o título de psicrófila. Os competidores vieram de pontos bem gelados, do gelo antártico e dos permafrosts siberianos. Após uma competição muito apertada, quem foi pra casa com uma medalha de ouro, digo, com três medalhas de ouro, foi a Colwellia psychrerythraea linhagem 34H. Por que ela venceu? Consegue se multiplicar a -12ºC, se mover a -10ºC e manter suas enzimas ativas a -20ºC. Tá bom ou quer menos?
PALAVRAS FINAIS
As olimpíadas de 2012 se despedem, mas deixam um gostinho de quero mais. Não podemos esquecer que em quatro anos as provas serão sediadas aqui em Brasil! Novos competidores? Novas provas? Vamos, gente, comecem a treinar seus microrganismo para não fazermos feio nas próximas olimpíadas!
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Merry Youle, Forest Rohwer, Apollo Stacy, Marvin Whiteley, Bradley C. Steel, Nicolas J. Delalez, Ashley L. Nord, Richard M. Berry, Judith P. Armitage, Sophien Kamoun, Saskia Hogenhout, Stephen P. Diggle, James Gurney, Eric J. G. Pollitt, Antje Boetius, & S. Craig Cary (2012). The Microbial Olympics Nature Reviews Microbiology, 10, 583-588
MICRO-OLIMPÍADAS 2012 – Corrida de revezamento
E este é mais um post da cobertura das micro-olimpíadas 2012!
Um dos fatores que temos que considerar quando falamos da patogenicidade dos microrganismos está relacionado ao equilíbrio que se estabelece entre o nível de virulência e a capacidade de transmissão. Isso significa que se o microrganismo for muito virulento ele pode diminuir muito a sua capacidade de transmissão ao matar o hospedeiro muito rapidamente, por exemplo!
Aqui o objetivo da prova era descobrir qual dos microrganismos possui a maior da capacidade de transmissão entre hospedeiros! Mas aqui, o jogo é um pouquinho diferente: quatro humanos, cada um em uma raia, e infectado por um microrganismos diferente (veja a lista abaixo). Dada a largada os humanos saem em disparada até chegarem ao ponto onde irão se encontrar com outro humano. Aí é a vez do microrganismo entrar em ação e garantir a passagem para o novo hospedeiro.
Então, a saber: Raia 1: Yersinia pestis, microrganismos responsável pela peste bubônica. Raia 2: Chlamydia trachomatis, causadora de DSTs. Raia 3: o vírus influenza H5N1 – da gripe aviária. Raia 4: rinovírus, o menor de todos e causador do resfriado comum.
E em primeiro lugar: Rhinovirus! Utilizando-se da estratégia que combina baixa virulência e alta taxa de transmissão, garante uma elevada taxa de transmissão e baixa mordidade em seus hospedeiros!
Em segundo lugar: Clamydia tracomatis. A sua baixa virulência, combinada com as dificuldades inerentes a uma baixa transmissão que dependente de relações sexuais entre os hospedeiros.
O bronze vai para a peste (Yersinia pestis), que devido a seu alto poder infectante e taxa de transmissão elevados, acaba deixando seus hospedeiros extremamentes doentes e incapazes de dispersar a doença. Na verdade ela teve sorte de chegar até a linha de chegada nessa corrida!
O H5N1 pede a corrida, por sua baixa capacidade de transmissão entre hospedeiros humanos. Mas em entrevista ele já anunciou que vai continuar seus treinos e espera melhorar sua transmissão a tempo das olimpíadas do Rio, em 2016!
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Merry Youle, Forest Rohwer, Apollo Stacy, Marvin Whiteley, Bradley C. Steel, Nicolas J. Delalez, Ashley L. Nord, Richard M. Berry, Judith P. Armitage, Sophien Kamoun, Saskia Hogenhout, Stephen P. Diggle, James Gurney, Eric J. G. Pollitt, Antje Boetius, & S. Craig Cary (2012). The Microbial Olympics Nature Reviews Microbiology, 10, 583-588
MICRO-OLIMPÍADAS 2012 – Lançamento de moléculas efetoras
E continuando a nossa cobertura das micro-olimpíadas 2012…
Microrganismos são capazes de liberar moléculas efetoras capazes de modular as respostas dos hospedeiros e, assim, facilitarem os processos de colonização e dispersão. Essas moléculas podem agir localmente ou bem distante da célula microbiana. Nesta competição, o vencedor será o patógeno animal ou vegetal que conseguir propelir mais longe seus efetores.
Apenas quatro competidores:
O primeiro competidor é Magnaporthe oryzae: fungo responsável por uma doença altamente destrutiva de plantações de arroz. Após penetrar no tecido vegetal, o fungo libera seus efetores que se movem pela planta via plasmodesmos.
Em seguida foi a vez de Haptoglossa mirabilis mostrar a que veio – mas esse fungo foi desclassificado por utilizar de uma arma para lançar seus efetores.
O terceiro competidor é a bactéria Gram-positivo e em forma de bastonete Clostridium botulinum. Secretando a poderosa toxina botulínica, uma neurotoxina que quando ingerida por humanos (e outros animais) causa um quadro de paralisia. A exposição pode tanto pela infecção bacteriana quanto pela ingestão de alimento contaminado. Assim, a toxina se move pelo corpo do hospedeiro e para longe da bactéria. A toxina é ainda utilizada para procedimentos médicos e estéticos (botox) – o que faz do clostrídio um forte candidato ao ouro.
Por fim, Puccina monoica, o fungo da ferrugem. Após a infecção, o fungo induz a produção de estruturas semelhantes a flores de Boechera e liberam uma substância odorífera. Esses efetores voláteis, são atrativos para insetos que possuem participação essencial no ciclo reprodutivo sexual do fungo. Esses efetores dispersam-se a longas distâncias, as distâncias mais longas da competição!
Assim, sem sombra de dúvidas e apesar da cor de ferrugem, quem leva o outro é o Puccina. O Clostridium fica com a prata e Magnaporthe fica com o bronze!
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Merry Youle, Forest Rohwer, Apollo Stacy, Marvin Whiteley, Bradley C. Steel, Nicolas J. Delalez, Ashley L. Nord, Richard M. Berry, Judith P. Armitage, Sophien Kamoun, Saskia Hogenhout, Stephen P. Diggle, James Gurney, Eric J. G. Pollitt, Antje Boetius, & S. Craig Cary (2012). The Microbial Olympics Nature Reviews Microbiology, 10, 583-588
MICRO-OLIMPÍADAS 2012 – Natação: 100 micrômetros estilo livre
E continuando a nossa cobertura das micro-olimpíadas 2012…
A final dos 100 um estilo livre ocorreu na piscina olímpica, digo, microscópica. Para uma competição mais justa, apenas bactérias com poucos micrômetros de tamanho e que nadam por rotação de flagelos participam da competição. A grande favorita da competição, a Bdellovibrio bacteriovorus, foi desclassificada ainda nas eliminatórias. Mais um caso de dopping? Não, não… ela foi eliminada por comer outro competidor.
Bactérias nadam com o objetivo de melhorarem o ambiente em que se encontram ou para fugirem de algum predador. E como o comprimento do seu corpo é bem pequeno, elas são capazes de perceber mínimas variações que ocorrem no meio onde se encontram. Isso faz com que, muitas vezes, os microrganismos locomovam-se de forma aleatória. Por esse motivo, metade dos 8 finalistas são geneticamente modificados para não responderem a variações sensoriais e, assim, nadarem em linha reta.
Confira agora a lista dos participantes (pela ordem da raia) desta competição:
1. Escherichia coli quimera – multiflagelada – Japão
2. Escherichia coli – multiflagelada – E.U.A.
3. Vibrio alginolyticus com flagelo puxador – uniflagelada – Japão
4. Vibrio alginolyticus com flagelo empurrador – uniflagelada – Japão
5. Pseudomonas aeruginosa – uniflagelada – Austrália
6. Rhodobacter sphaeroides – uniflagelada – E.U.A.
7. Rhodospirillum rubrum – multiflagelada – E.U.A.
8. Yersinia enterocolitica - multiflagelada – Bélgica
As canditadas 3 e 4 se diferem na forma como seus flagelos promovem a propulsão da bactéria. Em 3, o flagelo gira no sentido horário, e ao girar puxa o corpo da bacteria. Em 4, o sentido é anti-horário, e atua propulsionando o corpo da bactéria!
Foi uma corrida alucinante – veja o vídeo abaixo clicando AQUI!!!
Veja a foto que foi tirada ao final da competição para termos certeza de quem foi o grande campeão.
O grande campeão foi R. sphaeroides (raia 6) que gastou 2.2 segundos para percorrer os 100 um. Com 2.8 segundos, a E. coli (raia 1) ganhou a medalha de prata. E o bronze ficou para P. aeruginosa (que participou de sua segunda competição nos jogos micro-olímpicos). Na raia 7, R. rubrum fica em sétimo lugar gastando 15 segundos para percorrer os 100 um. Na raia 3, logo nos primeiros 10 um, V. alginolyticus começa a girar em círculos e, assim, fica incapaz de terminar a prova, sendo eliminada da competição.
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Merry Youle, Forest Rohwer, Apollo Stacy, Marvin Whiteley, Bradley C. Steel, Nicolas J. Delalez, Ashley L. Nord, Richard M. Berry, Judith P. Armitage, Sophien Kamoun, Saskia Hogenhout, Stephen P. Diggle, James Gurney, Eric J. G. Pollitt, Antje Boetius, & S. Craig Cary (2012). The Microbial Olympics Nature Reviews Microbiology, 10, 583-588


















