Agrotóxicos podem deixar patógenos humanos mais resistentes a drogas

Agrotóxicos podem deixar patógenos humanos mais resistentes a drogas

Por Rafael W. Bastos*

ResearchBlogging.orgNas últimas semanas têm se discutido bastante a possibilidade e as implicações da mudança na lei envolvendo a produção e liberação de agrotóxicos no Brasil, que é o campeão mundial no uso dessas substâncias. Só na última década, o mercado de agrotóxicos no Brasil cresceu uma taxa de 190%, mais do que o dobro do apresentado pelo mercado mundial.

Os riscos e efeitos diretos que a exposição aos agrotóxicos causa sobre a saúde humana já são bem conhecidos. No entanto, pouco se sabe, ainda, sobre os efeitos indiretos que essas substâncias podem causar, como, por exemplo, quais seriam as influências de antifúngicos usados para tratar doenças de plantas nos fungos que causam doenças em humanos e que vivem no ambiente.

Doença fúngica não é apenas aquela “micose de pele”, em que se passa pomada, toma-se uns comprimidos e, em algumas semanas, a infecção se resolve. Na verdade, existem fungos que causam infecções gravíssimas, de difícil tratamento e que podem levar o paciente a morte. Estima-se que 300 milhões de pessoas sofrem de infecções sérias causadas por fungos, e 1,6 milhão não sobrevive a tais infecções anualmente. Um dos motivos do difícil tratamento e do número elevado de óbitos é a quantidade limitada de medicamentos disponíveis para tratar tais infecções. E se isso não bastasse, é crescente o isolamento de fungos resistentes às poucas drogas disponíveis.

Os cientistas tentam entender melhor o porquê e como os fungos podem se tornar resistentes aos antifúngicos, especialmente quando o fungo parece nunca ter entrado em contato com aquela droga. Uma das hipóteses é que esses micro-organismos poderiam adquirir resistência/tolerância a drogas ainda no ambiente e que isso poderia ser causado devido ao contato com agrotóxicos, já que muitos desses fungos vivem associados a plantas.

Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com o Instituto Pasteur (Paris-França), mostrou justamente isso. Os pesquisadores expuseram fungos que causam pneumonia e meningite (Cryptococcus gattii e C. neoformans) aos antifúngicos usados para tratar doenças de plantas (agrotóxicos) e, em seguida, avaliaram se esses fungos se tornavam mais tolerantes aos antifúngicos usados para tratar a doença em humanos. Os resultados mostraram que alguns fungos apresentavam o fenômeno conhecido como resistência cruzada, ou seja, ao entrarem em contato com concentrações crescentes do agrotóxico, os fungos adquiriam e/ou expressavam mecanismos que serviam tanto para tolerar o agrotóxico como o antifúngico clínico. Esse efeito também foi observado in vivo quando a principal droga usada para tratar a doença em humanos se mostrou menos eficaz, em camundongos, em inibir o crescimento dos fungos que foram previamente expostos aos agrotóxicos. Esse trabalho também mostrou que a maior tolerância ao antifúngico clínico permanece, em alguns casos, mesmo após o contato com o agrotóxico ter cessado, sugerindo que o agrotóxico pode ter induzido alguma mutação no DNA desses organismos.

Os antifúngicos ambientais também induzem mutações em outro tipo de fungo, o Aspergillus fumigatus. Esse fungo filamentoso é encontrado no ambiente e pode causar diferentes doenças, sendo a aspergilose invasiva (AI) a mais grave. Essa doença manifesta-se, principalmente, como pneumonia e pode ter taxa de letalidade de até 90%. Essa elevada taxa está associada, dentre outros motivos, à resistência a drogas antifúngicas – estima-se que mais de 30% dos isolados de A. fumigatus na Europa sejam resistentes a drogas clínicas.

Algumas pesquisas vêm mostrando que a exposição a agrotóxicos pode causar alterações genéticas em A. fumigatus, o que o torna mais resistente, também, às drogas usadas para tratar a infecção em humanos. Há relatos, inclusive, do aparecimento de linhagens resistentes a drogas clínicas, devido a alterações genéticas, com a época de liberação do uso de alguns agrotóxicos que induzem, em condições laboratoriais, as mesmas alterações genéticas.

Outro estudo com o mesmo fungo conseguiu isolar de casas de vegetação, onde se usava agrotóxicos, linhagens resistentes a antifúngicos clínicos e que apresentavam as mesmas mutações induzidas laboratorialmente após a exposição dos fungos aos agrotóxicos. Isso indica que o fenômeno de resistência cruzada acontece no ambiente.

Apesar dos benefícios de produtividade relacionados ao uso de agrotóxicos, é importante colocar na balança todos os efeitos diretos e indiretos que os mesmos podem trazer para a saúde humana. A boa notícia é que nem todos os antifúngicos usados para tratar doenças de plantas parecem induzir resistência cruzada a antifúngicos clínicos. Dessa forma, é importante avaliar se um determinado agrotóxico poderia ou não causar resistência cruzada a drogas clínicas, especialmente no contexto em que vivemos de expansão da resistência a antimicrobianos e de casos de doenças fúngicas cada vez mais fatais.


REFERÊNCIAS

1- Raquel Maria Rigotto, Dayse Paixão e Vasconcelos, & Mayara Melo Rocha (2014). Pesticide use in Brazil and problems for public health Cadernos de Saúde Pública, 30 (7) : http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XPE020714

2- Editorial (2017). Stop neglecting fungi Nature Microbiology volume, 2 Other: 17120 (2017)

3- Bastos RW, Carneiro HCS, Oliveira LVN, Rocha KM, Freitas GJC, Costa MC, Magalhães TFF, Carvalho VSD, Rocha CE, Ferreira GF, Paixão TA, Moyrand F, Janbon G, & Santos DA5. (2018). Environmental triazole induces crossresistance to clinical drugs and affects morphophysiology and virulence of Cryptococcus gattii and C. neoformans Antimicrobial Agents and Chemotherapy, 1 (62)

4- Bastos, RW. Influência de antifúngicos ambientais sobre a tolerabilidade aos antifúngicos clínicos, morfo-fisiologia e virulência em Cryptococcus gattii e C. neoformans. Tese (Doutorado em Ciências Biológicas-Microbiologia). Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte-MG, p. 104, 2018.

5- Snelders E, Camps SM, Karawajczyk A, Schaftenaar G, Kema GH, van der Lee HA, Klaassen CH, Melchers WJ, & Verweij PE (2012). Triazole fungicides can induce cross-resistance to medical triazoles in Aspergillus fumigatus. PLoS One, 3 (7)

6- Ren J, Jin X, Zhang Q, Zheng Y, Lin D, & Yu Y (2017). Fungicides induced triazole-resistance in Aspergillus fumigatus associated with mutations of TR46/Y121F/T289A and its appearance in agricultural fields. Journal of hazardous materials

 

IMG-20180711-WA0015*Rafael Wesley Bastos – Biólogo pela UFV. Mestre e Doutor em Microbiologia pela UFMG. Atualmente é residente de pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas-USP-Ribeirão Preto. Durante o doutoramento estudou a “influência de antifúngicos ambientais sobre a tolerabilidade aos antifúngicos clínicos em Cryptococcus” e realizou estágio sanduíche no Instituto Pasteur, na França, trabalhando com “Mecanismos moleculares envolvidos no aumento da resistência a antifúngicos clínicos em Cryptococcus expostos a agrotóxicos”.

Happy Halloween!… ou melhor seria, Feliz Dia do Saci!?

Beatrice é uma bióloga e foi convidada para uma festinha de Halloween… Como uma boa bióloga, ela não podia deixar de biologar…

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Beatrice faz tirinhas e as publica no “Beatrice, the biologist”. Veja seu Tumblr e sua página no Facebook! Não deixe de segui-la!

Ajude a salvar vidas… é simples: lave as mãos!

Hoje, dia 05 de Maio de 2014, a Organização Mundial da Saúde (OMS) celebra sua campanha para higienização das mãos.

Com o lema: “SALVE VIDAS: limpe suas mãos” (SAVE LIVES: clean your hands), a OMS propõe que que se não agirmos logo, e de forma simples, a disseminação de microrganismos resistentes pode chegar a ter consequências ainda mais graves no futuro (bem próximo)!

A campanha é voltada principalmente para profissionais da saúde, mas que também pode e deve ser levada em consideração por outros segmentos da sociedades como escolas, restaurantes – e todos nós, na verdade.

A ideia baseia-se na premissa simples de se evitar a contaminação cruzada que tanto ocorre no ambiente hospitalar e é responsável por ajudar a mantar os microrganismos em circulação naquele ambiente. Um esquema de rotas de transmissão cruzada está representado abaixo:

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Figura traduzida do artigo: Arias CA, Murray BE. (2012). The rise of the Enterococcus: beyond vancomycin resistance. Nature Reviews Microbiology, 10:266-278.

A proposta campanha propõe 5 pequenos passos para mudar o mudo
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Os cuidadores devem lavar as mãos:

1. Antes de tocar o paciente.

2. Antes de procedimentos de limpeza e assepsia do paciente.

3. Após a exposição a fluidos corporais do paciente.

4. Após tocar o paciente.

5. Após tocar os entornos do paciente.

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Sempre que cito esse assunto, gosto de falar de um post de o Karl (do blod Ecce Medicus, aqui do SbBr): “Infecções e seres humanos”. Ali ele apresenta as taxas de infecções de corrente sanguínea (ICS) que uma UTI de um hospital de São Paulo que apresentou um período no qual as taxas de ICS chegaram a zero. E o que causou essa redução!? A melhoria da higiene das mãos dos profissionais da saúde durante o surto de influenza A H1N1.

Como falei no último post do blog, sobre o VRSA: “Ela está entre nós!” e nas edições 11 e 12 do #Scicast sobre superbactérias, não é para entrarmos em pânico. Mas o estado de alerta está aí e não pode ser ignorado. Eu não acredito que vamos vencer a luta se combatermos de frente com essas bactérias, mas se agirmos com cautela, podemos ter resultados a longo prazo mais positivos.

5maioCCartaz do CDC (orgão estadunidense semelhante à ANVISA) incentivando as pessoas a lavarem as mão após saírem do banheiro, afinal, “1 trilhão de germes podem viver em 1g de cocô”.

 

 

Ela está entre nós! Descrição brasileira de uma superbactéria rara

Palavrinhas iniciais…

Vamos falar de coisa boa!? Vamos falar de… ehhhr… Bem que eu gostaria de começar o post assim, mas infelizmente, depois de um tempinho parado, estou voltando para um noticia que não apenas é ruim, como é bastante preocupante.

Em janeiro, participei de um podcast sobre Superbactérias (que, não, não são de Kripton). Foram as edições 11 e 12 do #Scicast (que você pode ouvir aqui e aqui) e esses episódios são uma boa introdução para o que vamos falar hoje aqui… Além disso, já comentamos aqui várias vezes sobre bactérias resistentes a antibióticos e como elas adquirem e passam pra frente essa resistência.

 

Vamos começar…

ResearchBlogging.org Já se fala há algumas décadas do MRSA, siga em inglês para Staphylococcus aureus resistente à meticilina. A meticilina é um antibiótico e essa resistência torna o MRSA uma bactéria difícil de ser tratada, e uma das poucas opções para o tratamento de infecções pelo MRSA é o antibiótico vancomicina.

Acontece que existem bactérias resistentes à vancomicina, dentre elas, o VRE, sigla em inglês para Enterococcus resistente à vancomicina, merece destaque. Isso principalmente porque os enterococos tem uma grande facilidade para transmitir e receber genes de resistência.

Acho que a partir daí já começa a ficar claro o tema do post de hoje… A tranferência da resistência à vancomicina para estafilococos foi descrita pela primeira vez em 2002 nos Estados Unidos e, desde então, outros pouquíssimos casos por lá, além da Índia e do Iraque, foram descritos. A perda da vancomicina como possibilidade de tratamento dessas bactérias faz com que o tratamento do MRSA torne-se mais difícil e bm mais caro.

Na última quinta-feira (dia 17/04/14), a revista “The New England Journal of Medicine” publicou um artigo que relata o primeiro caso de um VRSA no Brasil. VRSA?! Sim, um Staphylococcus aureus resistente à vancomicina.

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Como tudo aconteceu?

Em Novembro de 2011, um paciente masculino de 35 anos foi admitido em um hospital paulistano, e apresentava micose fungoide (um tipo de lifoma de pele), vício em cocaína, diabete mellitus, além de depressão e recente tentativa de suicídio. Ele desenvolveu um quadro de celulite na perna e foi tratado com antibióticos, sendo liberado em Fevereiro de 2012.

Aqui precisamos abrir parênteses:
A celulite que estamos falando aqui é uma doença infecciosa bacteriana, que atinge a pele e os tecidos adjacentes e é causada por diferentes bactérias, sendo a mais comum o estreptococo – nesses casos, a bactéria produz enzimas que ajudam na sua disseminação pelo tecido. Ela também pode ser causado por estafilococos, mas apresenta área de extensão mais reduzida. A outra celulite é um acúmulo de gordura e tecido fibroso sobre a pele, e não tem nada a ver com esse post.
Aqui fechamos nossos parênteses.

Em Junho de 2012, foi readmitido no hospital. Ele apresentou uma piora no quadro psiquiátrico e, não bastasse isso, apresentou reincidência do quadro de infecções de pele e tecidos moles e foi novamente tratado com antibiótico. Um pouco do sangue foi coletado e plaqueado em meio de cultura para ver a presença de bactérias no sangue (chamamos isso de hemocultura), e não houve crescimento (hemocultura negativa). O paciente continuou internado, devido à quimioterapia para tratar do câncer de pele

Em Julho de 2012, o paciente começou a apresentar febre recorrente e foi tratado com antibiótico (dentre eles vancomicina). Dessa vez a hemocultura deu positiva para MRSA. A antibioticoterapia foi alterada (teicoplanina) e, em Agosto, quando o antibiótico foi retirado, a febre retornou. A hemocultura foi positiva para dois diferentes isolados de MRSA sendo, um deles, ainda, resistente à teicoplanina e à vancomicina (além de eritromicina, clindamicina, ciprofloxacina, gentamicina, trimetoprima-sulfametoxazole). O paciente foi então isolado, foi iniciado um tratamento com daptomicina e foi realizada uma cultura de swab retal, que deu positiva pra VRE. [swab ou zaragatoa é um instrumento estéril, semelhante a um cotonete, utilizado para a coleta de secreções e amostras]. Após algumas semanas, diversas complicações associadas a múltiplas infecções, o paciente veio a óbito.

A figura abaixo, retirada do artigo, resume e esquematiza curso clínico apresentado acima.

 

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O que os pesquisadores fizeram com esse VRSA?

A primeira coisa foi estabelecer a relação entre os dois isolados de MRSA, que vamos passar a chamar de S. aureus sensível (VSSA) e resiste (VRSA) à vancomicina. E eles observaram que eles possuem um perfil genético semelhante, sugerindo que a seleção ocorreu in vivo, durante a administração dos glicopeptideos (vancomicina e teicoplanina) e dos outros antibióticos.

O VRSA, porém, apresentou um plasmídio que VSSA não possuía. Esse plasmídio, foi denominado pBRZ01 e possui os genes que conferem a resistência à vancomicina (vanA e outros) e à gentamicina (acc(6’)-aph(2”)). O VRSA, porém, apresentou taxa de crescimento semelhante a do VSSA, sugerindo que o plasmídio não afeta o fitness da linhagem resistente.

A análise mais a fundo desse plasmídio mostrou que ele sofreu alterações genéticas importantes no transposon Tn1546 (que carreia os genes de resistência à vancomicina), além de que a comparação da seqüência desses genes indicam que a origem desses genes é enterocócica – sem, entretanto, terem sido originados do isolado de VRE do swab retal. Eles chegaram a essa conclusão por meio de experimentos que mostraram que o VRE era incapaz de transferir o plasmídio para outros enterococos ou estafilococos.

 

Precisamos entrar em pânico?

Pânico não… Mas ficar preocupados, sim!

Geralmente as linhagens multirresistentes são restritas a hospitais, principalmente, porque é comum terem uma taxa de replicação mais lenta, o que as deixam com vantagem competitiva apenas em situações que envolvem pacientes com saúde comprometida e que estão sob terapia antimicrobiana.

Essa linhagem brasileira de MRSA, porém, além de ter origem na comunidade, não ficou em desvantagem após a aquisição do plasmídio… É aqui que está o ponto que merece atenção! Uma bactéria dessas tem um elevado poder de disseminação, pois tem capacidade comoetitiva com outras bactérias da comunidade, não precisando do ambiente hospitalar e de um paciente com saúde comprometida para poder colonizá-lo.

Nesse caso que apresentamos aqui, o paciente foi identificado e isolado como medida de segurança para evitar a disseminação da bactéria pelo ambiente hospitalar e, consequentemente para a comunidade.

Apesar de serem raros e restritos os casos descritos, isso não é motivo para descuidar. Muito pelo contrário, deve servir de alerta para o uso incorreto de antibióticos e para o cuidado da equipe médica para evitar a transmissão interna e para fora do hospital.

 

Referência

Rossi, F., Diaz, L., Wollam, A., Panesso, D., Zhou, Y., Rincon, S., Narechania, A., Xing, G., Di Gioia, T., Doi, A., Tran, T., Reyes, J., Munita, J., Carvajal, L., Hernandez-Roldan, A., Brandão, D., van der Heijden, I., Murray, B., Planet, P., Weinstock, G., & Arias, C. (2014). Transferable Vancomycin Resistance in a Community-Associated MRSA Lineage New England Journal of Medicine, 370 (16), 1524-1531 DOI: 10.1056/NEJMoa1303359

NÃO, antibiótico NÃO é para tratar gripe!

Para muita gente isso pode estar bastante claro. Mas muita gente ainda acredita que os antibióticos servem para matar virus e podem ser utilizados no tratamento da gripe, por exemplo.

Aqui no Brasil, desde 28/11/2010, uma resolução da ANVISA restringe a venda de antibióticos com retenção da receita nas farmácias. O que acontece é que muitas vezes as normas não são seguidas… E sim, isso está preocupando os agentes de saúde de outros países, como, por exemplo, Portugal.

Eu sempre fui um defensor do uso racional dos antibióticos e uma amiga que está lá na terra dos nossos colonizadores acabou de me mandar uma foto da campanha que está acontecendo por lá!

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De acordo com uma reportagem do jornal português Público do dia 15/11/13:

– 69% dos entrevistados acreditam que os antibióticos servem para matar vírus

– 61% acreditam que antibióticos são eficazes no tratamento de constipações e gripes.

Esses dados foram compilados no “Eurobarómetro” sobre resistência antimicrobiana realizado pelo órgão estatístico da União Européia. Esses dados assustam pois estão acima da médica européia (49% e 41%, respectivamente, para os dois ítens já citados).

Assim como no Brasil, a venda de antibióticos em Portugal exige prescrição médica; mas dentre os entrevistados 2% assumiram terem feito uso de antibióticos que tinham em casa de vezes anteriores e 3% compraram os medicamentos sem receita.

Portugal não só está entre os 10 países europeus que mais utilizam antibióticos, mas também parece ter uma grande taxa de desinformação entre cidadãos acerca dos perigos do uso irresponsável dos antimicrobianos.

Procurei rapidamente sobre esses dados no portal da ANVISA… acabei não encontrando, mas me deparei com um outro dado muito, muito, MUITO preocupante:

“Mais de 50% destas prescrições são inadequadas quanto à via de administração, à dose e até mesmo quanto à indicação do antimicrobiano.” (FONTE: ANVISA)

Essa citação me respalda a fazer uma constatação que há algum tempo já se encontra meio que entalada na garganta…

Eu fiz um curso interativo sobre antimicrobianos na Associação Médica de Minas Gerais, há alguns anos. Era um curso direcionado para médicos, mas não era restritivo, e outros profissionais podiam participar. Esse curso consistiu em em apresentação de casos clínicos e posteriormente os participantes eram arguidos sobre qual antibiótico, qual a dose e qual o tempo de admistração. O resultado? Não diferiu muito do apresentado acima na citação da ANVISA.

As vezes me parece que é muito simples jogar a culpa toda na comunidade e em sua falta de conhecimento quando estamos falando do uso irracional dos antibióticos. Mas quando pensamos nos profissionais que mais deveriam estar aptos a orientar quanto ao uso desses medicamentos, o que vemos é uma situação, também, alarmante. Tudo bem que 50% dos médicos acertam a medicação, mas e os 50% que erram? Quais as consequências desse erro? Mas também é importante perguntar: Como fazer para que esses percentuais se reduzam a níveis menos preocupantes? Onde está a origem desses erros?

Eu não sei responder a essas perguntas e, sinceramente, não queria ter tido que levantá-las.

MICRO-OLIMPÍADAS 2012 – Vale (quase) tudo para sobreviver

Olá, leitor! Como você deve estar sabendo, estamos fazendo a cobertuda das micro-olimpíadas 2012!

A nota de hoje chega com um pouco de atraso. Alguns problemas foram observados durante a realização do vale-tudo que pelo jeito não vale tudo como muitos pensam.

Hoje aconteceram as semi-finais e a final da vale tudo. Quatro bactérias dignas do título vão disputar qual é a mais resistente e sobrevive por mais tempo.

A primeira semi-final ocorreu entre Deinococcus radiodurans e Pseudomonas aeruginosa. O deinicoco é uma bactéria capaz de sobreviver a doses elevadíssimas de radiação, mas na hora do “vamo vê”, ali no ringue, ele não era o competidor mais agressivo, meus queridos leitores… não, ele não é capaz de causar doenças em humanos, enquanto a Pseudomonas sim – e, sendo um patógeno oportunista, ela buscou explorar todas as fraquezas do seu adversário. A luta começou, Deinococcus não se mexe (gente, ele é imóvel!). Pseudomonas apesar de ter flagelos não consegue se mover pelo ringue até que seu treinador lhe envia um sinal (um auto-indutor) e a bacteria começa a produzir um surfactante que se espalha pelo chão. Ali, consegue se mover em direção ao deinococo. Pseudomonas se aproxima da bacteria que resiste à radiações mas não a toxinas. E, utilizando seu sistema secretor tipo IV, Pseudomonas vence a partida.

A segunda semi-final ocorreu entre Neisseria gonorrhoeae e Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA).Uma das disputas mais aguardadas da competição: de um lado, vestido todo de dourado pela produção do antioxidante estafiloxantina, o MRSA conhecido por ser praticamente impossível de ser nocauteado! Do outro lado a Neisseria que sendo capaz de sofrer variações antigênicas, torna-se dificílima de ser reconhecida e evade facilmente do sistema imunológico humano. Mal a luta começa, Neisseira dá um ganho de direta em MRSA, mas o pilus atingiu uma região “abaixo da cintura” do estafilococco. Neisseria acaba sendo desclassificada.

É meus amigos, a disputa pelo ouro acabou acontecendo entre os grandes rivais Pseudomonas e Staphylococcus. Os dois são conhecidos por serem arqui-inimigos em infecções crônicas! A luta começa e MRSA lança mão de um super-antígeno para recrutar o sistema imunológico contra Pseudomonas. A bacteria atacada não faz por menos e forma um biofilme! Ao invés de se abater Pseudomonas vai ficando cada vez mais forte – um exemplo de sinergia microbiana, meus caros! MRSA está em maus lençóis, e leva uma surra do coquetel de antimicrobianos que Pseudomonas lançou mão. Apesar de sua capacidade elevadíssima em adquirir resistência a antibióticos, o MRSA não foi páreo para Pseudomonas, que leva o ouro.

Se enganou quem pensa que foi assim que tudo terminou.

Entraram com recurso contra a Pseudomonas pelo uso dos auto-indutores. O comitê olímpico microbiano julgou como procedente a acusação e revogou a madelha de ouro conferida à Pseudômonas. O dopping por aqui não passa barato, pessoal!

Assim, a classificação final:

1º lugar – MRSA

2º lugar – Deinococcus

Desclassificados: Pseudomonas e Neisseria.

Lastimável ter que acompanhar essa baixaria que aconteceu hoje, né…?
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ResearchBlogging.org Merry Youle, Forest Rohwer, Apollo Stacy, Marvin Whiteley, Bradley C. Steel, Nicolas J. Delalez, Ashley L. Nord, Richard M. Berry, Judith P. Armitage, Sophien Kamoun, Saskia Hogenhout, Stephen P. Diggle, James Gurney, Eric J. G. Pollitt, Antje Boetius, & S. Craig Cary (2012). The Microbial Olympics Nature Reviews Microbiology, 10, 583-588

1 em cada 6 casos de câncer são causados por infecções e poderiam ser prevenidos

Dentre dos fatores de risco para o desenvolvimento de cânceres estão as infecções por microrganismos e parasitas. Na revista “The Lancet Oncology” de hoje (09/05/12), um grupo de cientistas franceses faz uma revisão e analisa os casos de câncer que poderiam ser atribuídos a infecções. O estudo foi baseado em publicações de casos ocorridos em 2008 e foram considerados os agentes infecciosos classificados como carcinogênicos pela “International Agency for Research on Cancer”.

Dos 12,7 milhões de novos casos de câncer que ocorreram em 2008, cerca de 2 milhões (16,1% – ou 1/6 dos casos) são atribuídos a infecções; destes, 1,6 milhão (80%) ocorrem em regiões sub-desenvolvidas.

Como disse logo acima ~16% dos cânceres ocorrem devido a infecções, mas as taxas são diferentes quando considera-se países desenvolvidos (7,4%) ou subdesenvolvidos (22,9%), variando de 3,3% na Austrália e Nova Zelândia, a 32,7% na África Sub-saariana. Os dados mostram, ainda, que 30% dos casos ocorrem em pessoas com menos de 50 anos.

A grande maioria dos casos — 1,9 milhão — é representada pelos cânceres gástrico (bactéria Helicobacter pylori), hepático (vírus das hepatites B e C) e cervical (ou de colo do útero, causado pelo HPV – papilomavirus). O que todos esses quadros têm em comum é que todos requerem uma infecção crônica e demoram anos para progredir. Em mulheres, cerca de 50% dos casos de cânceres associados a infecções dizem respeito ao câncer cervical; e em homens, os cânceres gástrico e hepático são contabilizados como 80% dos casos associados a infecções. Apesar dessas diferenças, o número total de casos atribuídos a infecções é praticamente o mesmo em homens e mulheres.

Neste gráfico podemos ver que, proporcionalmente, a contribuição do HPV para o desenvolvimento de câncer é similar em regiões mais ou menos desenvolvidas. O mesmo não ocorre com o H. pylori, que apresenta-se com uma participação maior para o desenvolvimento de câncer em países menos desenvoldos, enquando os vírus das hepatites B e C contribuem mais nos países desenvolvidos.

O que dizer de tudo isso?

A clássica relação entre higiene e desenvolvimento mais uma vez dá o ar de sua graça… e assim, reforça-se a necessidade políticas públicas de saneamento básico. Além disso, a importância e o desenvolvimento de práticas de saúde pública para prevenção de infecções (saneamento, distribuição de preservativos, cuidado em processos como transfusão de sangue) e, também, o controle de infecções com o uso de antimicrobianos e vacinação ganha mais força para ser um tratamento contra tipos específicos de câncer. O câncer por HPV, por exemplo, pode ser prevenido por meio de vacinação profilática (com eficácia de quase 100% para os sorotipos 16 e 18 – existem outros sorotipos de HPV – 31, 33, 45 e 58 – cuja vacinação não é eficaz*). A infecção por H. pylori é tratável com o uso de antibióticos. A contra o vírus da hepatite B também temos vacina, mas apesar de isso não ocorrer para a hepatite C, existem meios de se evitar o contágio. Se considerarmos tudo isso e somarmos a todo o sofrimento (pessoal e financeiro) que o câncer causa, pense em quantos casos poderiam ser evitados, e de forma relativamente simples!

Algo que ainda me chamou muita atenção diz respeito ao câncer de colo uterino (que apesar de óbvio, vale ressaltar, ocorre somente em mulheres), que responde por metade dos cânceres infecciosos nas mulheres. Resolvi dar uma olhadinha no site no Instituto nacional do Câncer (INCA), e reproduzo aqui o texto sobre o câncer cervical:

É o segundo tumor mais frequente na população feminina, atrás apenas do câncer de mama, e a quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil. Por ano, faz 4.800 vítimas fatais e apresenta 18.430 novos casos. Prova de que o país avançou na sua capacidade de realizar diagnóstico precoce é que na década de 1990, 70% dos casos diagnosticados eram da doença invasiva. Ou seja: o estágio mais agressivo da doença. Atualmente 44% dos casos são de lesão precursora do câncer, chamada in situ. Esse tipo de lesão é localizada. Mulheres diagnosticadas precocemente, se tratadas adequadamente, têm praticamente 100% de chance de cura. FONTE

 

ResearchBlogging.orgde Martel, C., Ferlay, J., Franceschi, S., Vignat, J., Bray, F., Forman, D., & Plummer, M. (2012). Global burden of cancers attributable to infections in 2008: a review and synthetic analysis The Lancet Oncology DOI: 10.1016/S1470-2045(12)70137-7

 

 

* atualização em 10/05 – 21h11 – após comentário do Rodrigo

Forever Alone…

Na onda dos memes da internet, encontrei essa imagem aqui:

O antibiótico não funcionou? Que tal tentar o plasma frio!?

Os infectologistas vêm encotrando grandes desafios no dia a dia da prática médica… são as bactérias multi-drogas resistentes. Muitas dessas bactérias recebem uma sigla como identificação. Temos, como exemplo: 1) o Staphylococcus aureus resistente à meticilina, o MRSA (Methicilin Resistent S. aureus); 2) Enterococcus faecalis resistente à vancomicina, o VRE (Vancomicin Resistent E. faecalis); e mais recentemente 3) a Klebsiella pneumoniae produtora de KPC (KPC é uma enzima inativadora de antibióticos do tipo carbapenemase). Além de diferentes mecanismos para que essa resistência seja efetiva, muitas dessas bactérias crescem em biofilmes, o que dificulta a chegada do antibiótico à células bacterianas, sendo um outro mecanismo de patogenicidade relacionado à resistencia aos antibioticos.

Uma das grandes apostas nas pesquisas em microbiologia é a busca de novas formas de controle de microrganismos. Essas pesquisas variam de métodos químicos como a busca por novos fármacos, a métodos microbiológicos, como, por exemplo, os probióticos. Nesse contexto de busca de novos tratamentos, uma equipe de colaboradores russos e germânicos propuseram uma técnica física muito curiosa que envolve a utilização de plasma frio.

Primeiro, observe a imagem abaixo. A placa da direita (“original”) é uma placa de ágar Sangue, mostrada na foto em seu aspecto original e está sendo utilizada como um controle. A placa da esquerda (“plasma-treated”), mostra uma placa de ágar Sangue, na qual foi feita uma cultura de Staphylococcus aureus e posteriormente um tratamento com o plasma frio.

Observe que na região onde houve contato com o jato de plasma a baixas temperaturas, houve a formação de uma área onde 99% das bactérias foram mortas (indicado por um circulo na figura da esquerda). As áreas mais claras ao redor das colônias bacterianas, indicam que a bactéria é produtora de uma enzima que provoca hemólise, ou seja, destroem as hemáceas do sangue.

Dois outros pontos que chamam muito a atenção são;

1) Esse tratamento parece ser capaz de matar as bactérias que formam biofilmes. Biofilmes mais espessos ainda apresentam algum nível de resistência. Biofilmes são aglomerados polimicrobianos, envoltos em uma matriz gelatinosa que podem aumentar a resistencia das bactérias à antibióticos em até 1000 vezes quando comparadas às bactérias livres.

2) Quando foram realizados testes em animais, nos quais foram feitas feridas e, posteriormente, infecção com Pseudomonas aeruginosa ou Staphylococcus aureus, após um tratamento de 5 minutos, até 90% das bactérias foram mortas. Isso, sem denos aos tecidos animais e, ainda, aumentando a taxa de cicatrização dessas feridas. O que indicaria que o efeito bacteridida do plasma interfere apenas no DNA e nas estruturas de superfície bacterianas.

Mas o que seria esse plama frio?

O plasma é considerado o quarto estado da matéria… Ele é obtido ao aquecermos um gás a elevadas temperaturas. Mas são temperaturas tão elevadas, acima de 10.000 °C, que a estrutura atômica é desfeita.  Leia com mais detalhes aqui e aqui.

Mas como aplicar um plasma em um tecido humano? O plasma aplicado pelos cientistas possuia um fração pequena de partículas ionizadas. Assim, o calor é distribuído entre as moléculas ionizadas e não-ionizadas, permitindo aos cientistas manter o plasma à temperatura de aproximadamente 35-40 °C (o chamado plasma frio) para realizar o tratamento.

A grande aposta dos cientistas nesse tratamento, seria a possibilidade da utilização desta abordagem terapêutica, que é muito específica, no caso de os outros métodos falharem e pelo fato de se tratar de uma metodologia cujo desenvolvimento de uma resistência microbiana seria muito difícil. Além de ser um tratamento que não envolve contato, que é indolor e não contribui com a contaminação química do ambiente.

O artigo original é este:

  • S. Ermolaeva, et al. Bactericidal effects of nonthermal argon plasma in vitro, in biofilms and in the animal model of infected wounds. Journal of Medical Microbiology, 2010; DOI: 10.1099/jmm.0.020263-0

Mas como não consegui o acesso, o post foi escrito com as informações contidas nestes links:

Vilões da resistência: antibióticos e antissépticos [do Gene Repórter]

Essa é uma repostagem integral do post homônimo do blogue “Gene Repórter” do Roberto Takata!

Esta postagem é um adendo à excelente feita por Karl do Ecce Medicus: KPC, sabonetes e bactérias irresistíveis.

Uma diferença prática entre antibióticos e antissépticos é que os primeiros têm uso sistêmico (são ingeridos, injetados, administrados de modo que sejam absorvidos e atuem *dentro* do nosso organismo – ou de animais que queremos tratar) e os segundos, uso tópico (são aplicados na parte externa do corpo – mucosa da boca, ferimentos, pele…). (Há antibióticos tópicos, mas são usados em casos bem específicos, como em certos curativos de queimaduras, tratamento de conjuntivite purulenta ou eczema superinfectado.) Ambos têm ação restrita a micro-organismos – não têm a função de combater vírus.

Muitas vezes os antibióticos atuam sobre a maquinaria celular básica – e como há similaridades com a nossa própria maquinaria celular, os antibióticos podem ter ação sobre nós também. Então, procura-se utilizar compostos que tenham efeitos sobre os micro-organismos em pequenas doses.

Nosso corpo apresenta uma barreira natural – como a nossa pele – contra a invasão de agentes externos. Essa barreira faz com que os antissépticos tenham uma ação limitada sobre nosso organismo, de modo que muitas vezes são usados em concentrações muito maiores.

P.e., a penicilina administrada para um humano adulto é algo em torno de 0,93 g. Espalhando-se pelo organismo dá uma concentração de cerca de 1,3.10-2 g/kg (0,0013% em massa).

Sabonetes com triclosano (composto antisséptico usado desde os anos 1970, mas cujo mecanismo de ação molecular sócomeçou a ser desvendado em 1999) podem ter concentração de até 1% (g/ml) – sabonete cirúrgico -, sabonetes antissépticos mais comuns têm concentração de 0,5%. Em desodorantes, o triclosano é usando em concentrações de 0,1%.

Há registros de linhagens resistentes ao triclosano. Mas não há tantos problemas como em relação às linhagens resistentes aos antibióticos. Por quê? Por vários motivos.

Como dito sobre antissépticos, seu uso é *externo*. Ou seja, esses micro-organismos resistentes estão *fora* do corpo. O grande problema é quando micro-organismos resistentes a tratamento estão *dentro*. Como no caso de micro-organismos resistentes a antibióticos, em condições normais, as linhagens resistentes a antissépticos são *menos* bem adaptados do que linhagens não-resistentes em um ambiente sem o agente seletivo (o antisséptico ou o antibiótico) – isso porque o antisséptico ou o antibiótico muitas vezes atua sobre o metabolismo ou estrutura do micro-organismo, e a resistência ocorre normalmente pela alteração no metabolismo ou estrutura. Quando o agente seletivo não está presente, temos a situação anterior – para as quais as linhagens não-resistentes já estavam adaptadas; quase sempre a alteração presente nas linhagens resistentes não trabalha bem nessas condições sem o agente seletivo – até por isso estão presentes em muito menor número (se estão). (Não é exatamente correto falar em “sem agente seletivo”, o que ocorre é que a situação de seleção se altera.)

Pensemos, então, no caso dos antibióticos. A infecção se instala, é administrado o antibiótico. Linhagens resistentes proliferam. Quando se para de administrar o antibiótico, leva um tempo até que ele seja eliminado. A linhagem resistente continua a proliferar. Assim que o antibiótico é eliminado pelo organismo (é metabolizado e/ou eliminado pelas excreções), as linhagens não-resistentes passam a proliferar. Ou seja, o paciente fica em um quadro permanente de infecção. Esse é o problema.

Analisemos o caso dos antissépticos. Na nossa vida cotidiana, sem trabalhar em ambiente hospitalar ou em laboratórios de microbiologia, estamos em contato permanente com micro-organismos. Na maior parte do tempo, eles não fazem mal. Ou porque sua biologia não é patogênica, ou porque as nossas defesas dão conta. O uso de antissépticos apenas diminui – por um momento – a quantidade deles em partes (externas) de nosso corpo: diminuindo – por um momento – a probabilidade de infecções oportunistas. Na verdade, apenas o uso de sabonetes comuns já remove – por um momento – uma boa quantidade de micro-organismos do local lavado; sabonetes antissépticos apenas aumentam um pouco mais a quantidade removida. Mas o que acontece com as linhagens resistentes? Bem, o contato com antissépticos é apenas momentâneo – lavamos, a maior parte dos micro-organismos é removida, restando os poucos resistentes. Só que nosso corpo está em permanente contato com o ambiente, linhagens não-resistentes voltam e, normalmente, superam as linhagens resistentes. Na próxima lavagem, a maior parte das linhagens não-resistentes é removida, restando os poucos resistentes. As linhagens resistentes não levam muita vantagem nessa situação.

Não há motivo, portanto, de paranoia com os produtos de higiente que contêm antissépticos. (E como alerta Karl no Ecce Medicus, produtos de higiene com antibióticos são proibidos.)

Eu apenas acho que é desperdício de dinheiro comprar sabonetes antissépticos salvo em condições muito especiais – como recomendação médica (por exemplo, a pessoa tiver feridas na pele).

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