NÃO, antibiótico NÃO é para tratar gripe!

Para muita gente isso pode estar bastante claro. Mas muita gente ainda acredita que os antibióticos servem para matar virus e podem ser utilizados no tratamento da gripe, por exemplo.

Aqui no Brasil, desde 28/11/2010, uma resolução da ANVISA restringe a venda de antibióticos com retenção da receita nas farmácias. O que acontece é que muitas vezes as normas não são seguidas… E sim, isso está preocupando os agentes de saúde de outros países, como, por exemplo, Portugal.

Eu sempre fui um defensor do uso racional dos antibióticos e uma amiga que está lá na terra dos nossos colonizadores acabou de me mandar uma foto da campanha que está acontecendo por lá!

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De acordo com uma reportagem do jornal português Público do dia 15/11/13:

– 69% dos entrevistados acreditam que os antibióticos servem para matar vírus

– 61% acreditam que antibióticos são eficazes no tratamento de constipações e gripes.

Esses dados foram compilados no “Eurobarómetro” sobre resistência antimicrobiana realizado pelo órgão estatístico da União Européia. Esses dados assustam pois estão acima da médica européia (49% e 41%, respectivamente, para os dois ítens já citados).

Assim como no Brasil, a venda de antibióticos em Portugal exige prescrição médica; mas dentre os entrevistados 2% assumiram terem feito uso de antibióticos que tinham em casa de vezes anteriores e 3% compraram os medicamentos sem receita.

Portugal não só está entre os 10 países europeus que mais utilizam antibióticos, mas também parece ter uma grande taxa de desinformação entre cidadãos acerca dos perigos do uso irresponsável dos antimicrobianos.

Procurei rapidamente sobre esses dados no portal da ANVISA… acabei não encontrando, mas me deparei com um outro dado muito, muito, MUITO preocupante:

“Mais de 50% destas prescrições são inadequadas quanto à via de administração, à dose e até mesmo quanto à indicação do antimicrobiano.” (FONTE: ANVISA)

Essa citação me respalda a fazer uma constatação que há algum tempo já se encontra meio que entalada na garganta…

Eu fiz um curso interativo sobre antimicrobianos na Associação Médica de Minas Gerais, há alguns anos. Era um curso direcionado para médicos, mas não era restritivo, e outros profissionais podiam participar. Esse curso consistiu em em apresentação de casos clínicos e posteriormente os participantes eram arguidos sobre qual antibiótico, qual a dose e qual o tempo de admistração. O resultado? Não diferiu muito do apresentado acima na citação da ANVISA.

As vezes me parece que é muito simples jogar a culpa toda na comunidade e em sua falta de conhecimento quando estamos falando do uso irracional dos antibióticos. Mas quando pensamos nos profissionais que mais deveriam estar aptos a orientar quanto ao uso desses medicamentos, o que vemos é uma situação, também, alarmante. Tudo bem que 50% dos médicos acertam a medicação, mas e os 50% que erram? Quais as consequências desse erro? Mas também é importante perguntar: Como fazer para que esses percentuais se reduzam a níveis menos preocupantes? Onde está a origem desses erros?

Eu não sei responder a essas perguntas e, sinceramente, não queria ter tido que levantá-las.

MICRO-OLIMPÍADAS 2012 – Corrida de revezamento

E este é mais um post da cobertura das micro-olimpíadas 2012!

Um dos fatores que temos que considerar quando falamos da patogenicidade dos microrganismos está relacionado ao equilíbrio que se estabelece entre o nível de virulência e a capacidade de transmissão. Isso significa que se o microrganismo for muito virulento ele pode diminuir muito a sua capacidade de transmissão ao matar o hospedeiro muito rapidamente, por exemplo!

Aqui o objetivo da prova era descobrir qual dos microrganismos possui a maior da capacidade de transmissão entre hospedeiros! Mas aqui, o jogo é um pouquinho diferente: quatro humanos, cada um em uma raia, e infectado por um microrganismos diferente (veja a lista abaixo). Dada a largada os humanos saem em disparada até chegarem ao ponto onde irão se encontrar com outro humano. Aí é a vez do microrganismo entrar em ação e garantir a passagem para o novo hospedeiro.

Então, a saber: Raia 1: Yersinia pestis, microrganismos responsável pela peste bubônica. Raia 2: Chlamydia trachomatis, causadora de DSTs. Raia 3: o vírus influenza H5N1 – da gripe aviária. Raia 4: rinovírus, o menor de todos e causador do resfriado comum.

E em primeiro lugar: Rhinovirus! Utilizando-se da estratégia que combina baixa virulência e alta taxa de transmissão, garante uma elevada taxa de transmissão e baixa mordidade em seus hospedeiros!

Em segundo lugar: Clamydia tracomatis. A sua baixa virulência, combinada com as dificuldades inerentes a uma baixa transmissão que dependente de relações sexuais entre os hospedeiros.

O bronze vai para a peste (Yersinia pestis), que devido a seu alto poder infectante e taxa de transmissão elevados, acaba deixando seus hospedeiros extremamentes doentes e incapazes de dispersar a doença. Na verdade ela teve sorte de chegar até a linha de chegada nessa corrida!

O H5N1 pede a corrida, por sua baixa capacidade de transmissão entre hospedeiros humanos. Mas em entrevista ele já anunciou que vai continuar seus treinos e espera melhorar sua transmissão a tempo das olimpíadas do Rio, em 2016!
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ResearchBlogging.org Merry Youle, Forest Rohwer, Apollo Stacy, Marvin Whiteley, Bradley C. Steel, Nicolas J. Delalez, Ashley L. Nord, Richard M. Berry, Judith P. Armitage, Sophien Kamoun, Saskia Hogenhout, Stephen P. Diggle, James Gurney, Eric J. G. Pollitt, Antje Boetius, & S. Craig Cary (2012). The Microbial Olympics Nature Reviews Microbiology, 10, 583-588

Se sujar faz bem?

A imunologia e a microbiologia são duas disciplinas que andam de mãos dadas. No início da década de 1990 começou-se a falar na “Hipótese da Higiene” (HH), que embasada por dados epidemiológicos indicava uma maior prevalência de doenças auto-imunes e inflamatórias nos países mais desenvolvidos, onde as taxas de sanitização são melhores… – a mesma relação estabelecida entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos pode ser observada quando consideramos áreas urbanizadas e rurais, e o motivo é o mesmo: na área rural o cuidado com a higiene costuma ser menor.

Então quer dizer que quanto mais anti-higiênico nós formos, melhor?

O Cascão está certo!?

Bem, não é bem assim… Porém, a importância de se entrar em contato com microrganismos desde a tenra idade (o que é uma das ideias centrais da HH) ganhou força com um estudo publicado na Science do dia 27 de abril de 2012.

Considerado como um “dos estudos sobre mecanismos mais rigorosos da área como há muito tempo não se via“, pelo microbiologista Sarkis Mazmanian, o paper consiste na comparação da susceptibilidade de camundongos isentos de germes (germ-free, GF) e livres de patógenos específicos (specific pathogen free, SPF) a duas doenças de caráter imunológico: colite e asma.

Os resultados mostraram uma maior susceptibilidade dos GF a essas doenças. Essa comparação não é completa e poderíamos pensar: mas será que se reestabelecermos a microbiota nesses animais GF conseguíamos reduzir o quadro citado anteriormente?

E foi isso que os autores fizeram, e de duas formas diferentes.

Na primeira, eles colonizaram GF recém-nascidos, e observaram redução no desenvolvimento das doenças (semelhante aos SPF). Na segunda forma de colonização, GF adultos foram colonizados e os animais continuaram a desenvolver as doenças com o mesmo perfil dos animais GF.

EXPLICAÇÃO IMUNOLÓGICA

Essas diferenças estão relacionadas a um tipo específico de células (invariant natural killer T cell, iNKT) que está aumentada no intestino e nos pulmões dos animais GF – e diminuída nos SPF e nos GF-colonizados precocemente; porém permanecem em quantidades elevadas mesmo quando os GF já adultos são colonizados. Os pesquisadores mostram, ainda, que o aumento dessas células está relacionado a um aumento na quimiocina pró-inflamatória CXCL16 (promove o acúmulo de células iNKT), que tem sua expressão aumentada na ausência da microbiota! O que exatamente leva a essa regulação ainda não é conhecido, podem ser microrganismos específicos ou moléculas produzidas por eles. E esse deverá ser o alvo dos próximos estudos: descobrir quais microrganismos seriam essenciais para uma correta maturação do sistema imunológico.

Resumindo…

Mas então isso significa que temos que deixar nossa higiene de lado? Não… dentre as principais causas de mortalidade infantil está a diarreia, que pode ser causada por muitas bactérias, dentre elas o Vibrio cholerae, a Shigella e a Salmonella (que também pode causar a febre tifoide). A transmissão desses patógenos é muito mais fácil em ambientes com baixa sanitização, e o que vemos é um elevado numero de mortes por esses patógenos nos países subdesenvolvidos.

E como fica a HH? Na verdade, aqui falamos da importância da aquisição de uma microbiota saudável… Essa aquisição ocorre a partir da hora do parto, e por meio do contato com os cuidadores (a mãe, por exemplo). Nos países desenvolvidos, porém, o excesso de higiene poderia estar provocando uma diminuição da diversidade dos microrganismos que são adquiridos pelo neonato e, como já foi dito, a presença de microrganismos específicos poderia estar relacionada à correta maturação do sistema imunológico.

Com a elucidação do microbioma humano estamos descobrindo nos grupos de bactéria que nem imaginávamos fazer parte desse ecossistema. Assim, não é de se estranhar, também que funções desconhecidas de microrganismos conhecidos ainda estejam por serem elucidadas.

A meu ver, a grande questão não é que se sujar faz bem (pode ser até perigoso), mas que o *excesso* de higiene pode fazer mal!

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ResearchBlogging.org Torsten Olszak, Dingding An, Sebastian Zeissig, Miguel Pinilla Vera, Julia Richter, Andre Franke, Jonathan N. Glickman, Reiner Siebert, Rebecca M. Baron, Dennis L. Kasper, & Richard S. Blumberg (2012). Microbial Exposure During Early Life Has Persistent Effects on Natural Killer T Cell Function Science, 336 (6080), 489-493 DOI: 10.1126/science.1219328

É o fim do mundo!!! (parte 2) — Ou: Como se preparar para o apocalípse zumbi

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Se ainda não leu a parte 1: “Sobreviveremos a uma epidemia zumbi?”, clique AQUI

Sobre o post anterior e algumas coisinhas que você [provavelmente] ainda não sabe

A ocorrência de um apocalipse zumbi é iminente. E quando ela ocorrer, a chance de sobrevivência é não é muito animadora, como eu já mostrei anteriormente. Só teremos chances se conseguirmos aplicar a tática do ataque impulsivo – apesar de eu ser um pouco pessimista em relação a conseguirmos aplicar a técnica, vou seguir o mote “a esperança é a última que morre”!

Eu ainda tenho algumas dúvidas que pretendo em breve achar a resposta — se você quiser ajudar, sinta-se a vontade:

  • Zumbis duram pra sempre ou tem “prazo de validade? Ou seja, se todos os seres humanos transformarem-se em zumbis, por quanto tempo eles ainda persistirão?
  • Um zumbi, que se alimentou, “sobrevive” por mais tempo do que um está fazendo regime de restrição alimentar? Em outras palavras: o tempo de persistência está relacionado à alimentação ou não?
  • Já que eles são corpos mortos, eles sofrem decomposição enquanto estão andando por aí? Caso negativo, o que permite que isso não ocorra?

Agora, se você não acredita nisso, eu diria que você deveria rever seus conceitos… Sim, a importância de estar preparado para essa epidemia é tão grande que, inclusive, o pessoal do CDC (Centros para Controle e Prevenção de Doenças, nos EUA) fizez um post sobre isso no seu blog. SIM, ONDE ESTÁ SEU DEUS AGORA?

Como utilidade pública, aqui vai a tradução/adaptação das partes essenciais dessa postagem! E não se esqueça, divulgue no twitter, facebook e por email… ajude seus amigos a se salvarem também!

PREPARANDO-SE PARA O APOCALÍPSE ZUMBI

Antes prevenir do que remediar…

Então, o que você precisa fazer antes que a epidemia zumbi realmente aconteça? Antes de tudo: tenha um kit de emergência em casa. Isso inclui coisas como comida, água e outros suprimentos para que você não passe necessidades enquanto tenta, rapidamente, localizar um abrigo livre dos mortos-vivos. [aqui vai um alerta… essas dicas além de valerem para esse caso específico, podem ser extrapoladas para alguma eventual fatalidade como um desastre natural: como furacões, ou alguma epidemia]. Abaixo, alguns itens que você DEVE incluir no seu kit [para uma lista completa visite a página para emergências do CDC].

Alguns itens do kit de sobrevivência

  • Água (1 galão por pessoa por dia)
  • Comida (faça um estoque com itens não perecíveis e que você coma regularmente)
  • Medicamentos (aqui, inclua remédios com e sem prescrição médica – consulte seu médico)
  • Ferramenta e acessórios (faca, fita adesiva, rádio a pilha, etc.)
  • Produtos de higiene (água sanitária, sabão, toalhas, etc)
  • Vestuário e roupa de cama (1 muda de roupa por pessoa e cobertores)
  • Documentos importantes (só para citar alguns: faça cópias de sua CNH, identidade, passaporte, certidão de nascimento – você nunca sabe do que poderá precisar)
  • Primeiros socorros (embora inútil em caso de uma mordida de zumbi, você poderá fazer curativos em eventuais cortes que podem ocorrer durante a fuga)
  • eu acrescentaria aqui um taco de baseball (pra dizer o mínimo) para ajudar na caçada!

Kit pronto!? Agora junte sua família e discutam o plano de emergência. Aqui vocês decidirão aonde vocês irão e como ocorrerá a comunicação entre vocês quando os zumbis começarem a aparecer! [novamente, isso também serve para outros tipos desastres].

  • Identifique os tipos de emergência que podem ocorrer na sua área. Além de um apocalipse zumbi, isso inclui inundações, tornados, terremotos…
  • Decidam por um local de encontro, onde a família se reunirá no caso de zumbis invadirem a casa. Escolham um lugar fora de casa para emergências repentinas, e um local mais afastado de seu bairro para o caso de você estar incapacitado de retornar rapidamente para casa.
  • Quem são seus contatos para caso de emergência? Faça uma lista de contatos como polícia, bombeiros e o responsável do time de combate aos zumbis. Inclua na lista alguns parentes que morem em outros locais para que você possa telefonar e deixar avisos para o restante da família caso seu telefone falhe/acabe a bateria.
  • Planeje a rota de evacuação. Quando zumbis estão com fome, eles não param até conseguir alimento (ou seja: cérebros!), o que significa: saia correndo da cidade [não literalmente, pode ser de carro]! Decidam para onde vocês irão, as múltiplas rotas que podem ser seguidas de forma rápida e sem que os comedores de carne consigam alcançá-los!

    2 meeting places: um perto e um afastado de casa!

[se você estiver nos EUA] Não tema – o CDC está preparado!

Aqui temos que considerar que é um trecho bem direcionado aos estadunidenses. Como você deve imaginar, não temos um CDC brasileiro, mas o órgão governamental brasileiro que mais se aproximaria, a Secretaria de Vigilância em Saúde, ainda não se manifestou sobre o assunto. Resta agora acreditarmos que os EUA vão nos avisar a tempo de tomarmos as providências [isso, é claro, se a epidemia não começar por aqui!].

Se as ruas forem tomadas por zumbis, o CDC conduzirá uma investigação muito parecida com a que acontece em qualquer outro surto de doença. O CDC prestará assistência técnica aos municípios, estados ou parceiros internacionais que estiverem lidando com uma infestação de zumbis. Aqui, incluímos consultas, testes de laborarório e análises, além de gestão e cuidado de pacientes, rastreamento de contatos e controle da infeção (como isolamento e quarentena). Num cenário como esse, pretendemos atingir vários objetivos: determinar a causa da doença, a fonte da infecção/vírus/toxina, aprender como ocorre a transmissão e quão rápido ocorre a propagação e, assim, tentar evitar novos casos e desenvolver possíveis tratamentos. Além dessas funções de laboratório, o CDC e outros órgãos do governo enviariam equipes médicas e socorristas para ajudar as pessoas em áreas afetadas.

Últimas considerações

A ideia é simples: Tenha um kit, Faça um plano e Esteja preparado!

E se topar com um zumbi, não se esqueça, da premissa básica de um contra-ataque aos zumbis:

 


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Blogagem coletiva Fim do Mundo

É o fim do mundo!!! (parte 1) — Ou: Sobreviveremos a uma epidemia zumbi?

O fim do mundo é tema recorrente… Em 2011, por exemplo, falaram que o mundo iria acabar duas vezes. Agora, andam falando que a 2013 não chegaremos. Mas uma coisa que sempre se esquecem de delimitar é o que seria esse “fim do mundo”. Nesse caso o “mundo” seria o planeta Terra? A vida na Terra? Ou estamos falando só da espécie humana? Outra coisa é como esse fim do mundo irá acontecer? É o Sol que vai virar uma gigante-vermelha e aumentar tanto de tamanho que vai acabar engolindo a Terra? É um asteroide imenso que vai se chocar com o nosso planeta? É uma doença infecciosa que vai se espalhar dizimando toda a população humana? São extraterrestres que estariam vindo destruir a Terra sob o pretexto de ser construída uma nova via hiperespacial?

E… por que não um belo final apocalíptico no qual a espécie humana sofre um ataque zumbi?

The Walking Dead: nosso futuro?

Bom, pelo menos foi isso que alguns matemáticos pensaram para propor um modelo epidemiológico de infecção… Para isso vamos estabelecer as regras para a nossa epidemia zumbi:

  1. Somente humanos são infectados depois do contato com um zumbi (por isso vamos desconsiderar outras formas de vida).
  2. Zumbis não matam outros zumbis.
  3. Zumbis só podem surgir de duas formas: pessoas que foram mordidas durante um ataque ou mortos que voltam “à vida”.
  4. Zumbis podem ser eliminados, mas isso só acontece se tiverem seu cérebro destruído.

Estabelecidas as regras, vamos considerar a nossa população. O primeiro passo é dividi-la em grupos. Aqui, vamos considerar 3 grupos: Susceptíveis (S), Zumbis (Z) e Removidos (R).

Vamos, agora, entender como se dá a dinâmica dessa população, para podemos estabelecer o nosso modelo epidemiológico.

O grupo de indivíduos susceptíveis (S) é incrementado por uma taxa de natalidade (a). Além disso, esses indivíduos podem morrer de causas naturais (b) – aqui, natural implica em não ser decorrente de um ataque zumbi. Pessoas da classe S tornam-se zumbis (Z) por meio da transmissão que ocorre decorrente de um ataque (c). Os removidos (R) consistem em indivíduos que morreram, seja por um ataque zumbi ou por causas naturais. Mortos da classe R podem sofrer reanimação, tornando-se zumbis (d), e estes, por sua vez, podem ser (novamente) mortos (e) passando a integrar o grupo dos removidos.

Eita… ficou confuso demais, né? A figura abaixo nos ajuda a simplificar isso!

Assim, esse modelo nos dá as seguintes equações:

S’ = a – bS – cSZ

Z’ = cSz + dR – eSZ

R’ = bS + aSZ – dR

Aqui começa a matemática do artigo, de onde eles derivam várias equações, fazem matrizes e estipulam uma séries de valores para os parâmetros – nada que iremos abordar aqui… Para os objetivos desse post, o que nos interessa são os resultados!

Bom… digamos que o resultado disso tudo não foi muito agradável… Dê uma olhadinha nesse primeiro gráfico feito para uma população de 500.000 pessoas.

Os autores decidem, então, testar outros modelos com mais grupos populacionais e mais parâmetros.

O primeiro deles envolve um modelo no qual a infecção zumbi tem um período de latência, ou seja, ela demora para se manifestar (e a zumbificação não é transmissível nesse tempo). Nesse caso, após a análise dos dados e construção do gráfico, a maior diferença foi no tempo gasto para que a população de zumbis ultrapassasse a de humanos: o dobro do tempo [poderemos observar isso no gráfico mais abaixo].

O modelo seguinte envolvia a possibilidade de isolar pessoas contaminadas, ou seja: quarentena. O resultado também não foi muito animador: atrasou um pouquinho a erradicação da espécie humana.

O último modelo já foi mais interessante: utilizaram o primeiro modelo alternativo (o de infecção latente) e adicionaram a possibilidade de um tratamento no qual zumbis tratados voltavam à condição inicial (ou humanos susceptíveis, ou mortos). Assim, com a possibilidade de tratamento, a quarentena deixa de ser necessária. Além disso, a cura da zumbificação não garantiria imunidade. Utilizando os mesmos valores dos parâmetros para construir o primeiro gráfico, o pessoal chegou à seguinte situação:

Mas aí vem aquele ponto desesperador: mas ainda não existe um medicamento para curar um zumbi!!! E a gente ainda pode se perguntar: é possível um cenário diferente? Ao invés de haver uma erradicação humana pelo mortos-vivos, seríamos nós capazes de reverter o caso levando a uma “erradicação zumbi”? Já posso ouvir os desejos inconscientes de vocês: “diz que sim! diz que sim!”

Felizmente, a resposta é sim! Mas não se alegre de cara, não é tão simples – como você já deve ter notado pelos gráficos acima. Para isso teríamos que utilizar a única estratégia disponível: a erradicação impulsiva.

E o que é que é isso mesmo?

Os ataques devem ser iniciados logo no início da epidemia e devem ser muito eficientes. Os autores sugerem que na medida em que a epidemia zumbi avança teríamos tempo de juntar armas para exterminar os mortos vivos e, dessa forma, realizar ataques cada vez mais efetivos! Mas repito: as chances de sobreviver, não são lá muito animadoras.

Então, no caso de uma “World War Z” você já sabe o que fazer, né? Se ainda não sabe, o Jovem Nerd ensina de forma bem didática:

Leia a parte 2: “Como se preparar para o apocalipse Zumbi“, clique AQUI.

 

Notinhas importantes:

    • Apesar de ser um post fictício ele ilustra como funciona o processo de criação de modelos epidemiológicos de doenças infecciosas. O modelo aqui apresentado, o “SZR” (Susceptível, Zumbi, Removido), é uma variação do conhecido “SIR’ (Susceptível, Infectado, Recuperado).
    • Acabei de ser questionado pelo @anderarndt sobre a escala de tempo dos gráficos. Em geral, no paper, só falam em “escala de tempo”, mas tem um momento lá que eles falam em dias… sim, DIAS!! — Fique preocupado com isso!
    • Esse post faz parte da blogagem coletiva sobre o fim do mundo promovida pelo ScienceBlogs Brasil. Gostou da ideia? Tem um blog? Quer participar? Saiba mais clicando no banner abaixo.

Blogagem coletiva Fim do Mundo
Referência:

Baixe o PDF clicando no título >>> “When Zombies Attack!: Mathematical Modelling of an Outbreak of Zombie Infection” by Philip Munz, Ioan Hudea, Joe Imad and Robert Smith?. In “Infectious Disease Modelling Research Progress,” eds. J.M. Tchuenche and C. Chiyaka, Nova Science Publishers, Inc. pp. 133-150, 2009.

Outras notinhas que podem interessar a você:

  • Descobri esse trabalho lendo o post “Modelling a werewolf epidemic” do “Lab Rat”, no Halloween de 2011!
  • Por meio do post “Mathematical model for surviving a zombie attack” do “Wired Science” descobri que um dos autores do trabalho, o prof. Robert Smith? (sim, a interrogação faz parte do nome) leciona/pesquisa na Universidade de Otawa. Seu objeto de estudo são modelos epidêmicos de diferentes doenças infeciosas (reais, como HIV, Malária e HPV). Lá, ele ministra a disciplina “Mathematical Modelling of Zombies” que utiliza como bibliografia básica o livro “Braaaiiinnnsss!: From Academics to Zombies“, de sua autoria. Além desse artigo sobre zumbis, o professor recém terminou um outro também muito curioso: “A mathematical model of Bieber Fever: the most infectious disease of our time?“.
  • Quem foi mesmo que disse que por ser matemática não pode ser divertido?

Está se instaurando o caos: a polêmica do influenza H5N1

Depois do porco, é a vez da galinha!

Uma notícia que há algumas semanas vem sendo debatida com fervores lá fora (leia-se nos Estados Unidos), mas que por aqui (e me parece que na Europa também) mal tem se falado, refere-se ao estado atual da pesquisa com o vírus da gripe aviária – o influenza H5N1. Vale a pena ressaltar que esse virus não é novo, em 2005 ele já havia dado o ar da sua graça e gerado uma onda de pânico (você deve se lembrar de galinhas sendo queimadas aos montes na Ásia).

O grande problema que desencadeou essa discussão acalourada deve-se ao resultado dos experimentos conduzidos por dois grupos independentes, um americano e outro holandês. O fato é que o H5N1 – ainda de baixa transmissão ave-humano – após uma combinação de poucas mutações induzidas pelos cientistas por meio da transmissão sucessiva forçada entre furões, passou a ser capaz de ser transmitido por via aérea entre esses animais.

Pode parecer bobagem num primeiro momento, mas várias etapas são necessárias para que o virus complete seu ciclo em um ser humano. Inicialmente o vírus que se multiplica apenas nas galinhas deve ser capaz de romper a barreira específica e ser capaz de ser transmitido para um ser humano – e, nele estabeler um nicho de infecção, ou seja, ele deve ser capaz de se reproduzir. Isso, contudo não garante que o vírus será capaz de ser transmitido entre dois seres humanos distintos.

OK. E o que a transmissão entre os furões tem a ver com a transmissão entre pessoas. Na verdade esse é o grande “X” da questão. Os cientistas demonstraram que é relativamente fácil (apenas 5 mutações) para que o vírus seja capaz de ser transmitido por via aérea entre os mustelídeos, e agora há a grande dúvida se esse mesmo vírus seria capaz de também infectar os seres humanos.

Como não custa repetir, vou ressaltar que os resultados desse experimentos não mostram que as mesmas mutações teriam o mesmo efeito em seres humanos – eles somente nos mostram que a obtenção de transmissibilidade por aerossol nesse modelo animal é relativamente fácil.

O NSABB (órgão estadunidense de biosegurança), a ONU e diversos cientistas que temem possíveis desencadeamentos indesejáveis dessas pesquisas utilizam como argumento não só o risco de um vazamento do vírus e a possível emergência de uma nova epidemia global, como também a possibilidade de bioterroristas utilizarem os dados das pesquisas e promoverem um ataque rápido e muito eficaz.

Por outro, o lado que defende a continuidade da pesquisa utiliza argumentos muito parecidos, mas o utilizam o viés de que devemos compreender a biologia desse vírus para que possamos evitar uma possível epidemia natural que venha a surgir – e que já é temida há certo tempo.

Entendendo a figura: O vírus Influenza H5N1 é capaz de ser transmitido de ave para ave. Alguns casos de transmissão ave-ser humano já foram descritos — porém não há, ainda, relato de transmissão humano-humano. Os polêmicos experimentos consistiram na transmissão do virus de ave para os furões. De início a transmissão furão-furão só ocorria de forma forçada, até que após algumas mutações o vírus foi capaz de infectar outros furões por via aérea e de forma expontânea. As setas em verde mostram as rotas de transmissão já estabelecidas (sejam elas artificiais ou naturais), as setas em vermelho mostram as possíveis vias de trasmissão que são temidas para o desencadeamento de uma epidemia — o texto na figura mostra os agurmentos a favor ou contra a continuidade dos estudos com o H5N1.

Em meio a tanta discussão, os cientistas decidiram por uma trégua nas pesquisas por 60 dias. O virologista argentino Daniel Perez, em entrevista à Ciência Hoje, mostra-se favorável à publicação integral dos dados, e justifica-se: “Não podemos dar oportunidade ao vírus para mudar sem que estejamos preparados”. O pesquisador ainda completa dizendo que “A pesquisa, no entanto, deve ser norteada pelos fatos, não pelo medo”. – Confira a reportagem de Marcelo Garcia, na íntegra, no site da Ciência Hoje.

O grande temor em relação à esse vírus está no fato de que mais da metade das as pessoas que foram internadas por causa dessa gripe morreram. O problema é que esse dado não nos mostra o real poder de letalidade do vírus – considerado em cerca de 60%, mas que está, aparentemente, superestimado. Isso ocorre porque essa taxa foi considerada apenas as pessoas internadas. Assim, quando olhamos dessa forma, estamos considerando que qualquer pessoa que foi infectada pelo vírus, vai desenvolver um quadro grave, indo parar num hospital. Acontece porém que o número de pessoas infectadas pode ser bem maior. Dados epidemiológicos, por exemplo, sugerem que até 6% da população rural asiática possa ter se infectado com alguma cepa do vírus de forma assintomática – o que faria essa essa taxa de mortalidade >50% cair drasticamente.

O sensacionalismo midiático mostrou claramente sua cara no editorial do The New York Times, no dia 8 de janeiro de 2012 que teve como título “An Engineered Doomsday” [Um Apocalipse Projetado]. Uma análise desse texto pode ser vista no blog do professor Racaniello (em inglês).

Estamos de olho para acompanhar os rumos que essa discussão está tomando…

Apesar de todo o bafafá que está rolando, o conselho que eu daria a você é:

...pelo menos por enquanto!

Alguns textos recomendados:

Perda estratégica (Ciência Hoje)

Ferreting out influenza H5N1 (Virology Blog)

Should we fear avian H5N1 influenza? (Virology Blog)

H5N1 facts, not fear (Virology Blog)

N.Y. Times: H5N1 ferret research should not have been done (Virology Blog)

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