amigos ou inimigos…

AMIGOS OU INIMIGOS

papel da microbiota nas doenças inflamatórias intestinais

Existe uma classe de doenças que são denominadas Doenças Inflamatórias Intestinais (DII – ou IBDs, do inglês Inflammatory Bowel Diseases), que são marcadas por quadros de melhoras (remissões) e pioras (recidivas) e que, apesar de serem conhecidas e estudadas há bastante tempo, ainda possuem dúvidas a cerca de sua origem. As duas formas de DII são a Doença de Crohn e a Colite Ulcerativa – que apresentam muitas similaridades, mas ao mesmo tempo muitas diferenças (não só de intensidade e local das lesões, mas também na fisiologia da inflamação). Existe, inclusive, algumas hipóteses que propõem que o Crohn e a Colite não seriam doenças distintas, mas estágios diferentes de uma mesma doença.

 

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Figura 1: Aspectos observados da Doença de Crohn (preto) e na colite ulcerativa (verde). Em azul estão pontos de semelhanças entre as duas doenças.

 

A grande questão aqui, é que apesar de não sabermos a etiologia (o que causa, desencadeia) essas doenças, temos fortes evidências de fatores de contribuem para a cronificação desses quadros patológicos. De forma bastante simplificada, podemos dizer que as DII derivam de uma resposta desregulada do sistema imunológico do paciente contra componentes da microbiota intestinal, contando ainda com fatores predisponentes do hospedeiro (susceptibilidade genética) e do ambiente (alimentação, hipótese da higiene).

 

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Figura 2: Diversos fatores influenciam a cronificação das IBDs.

 

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Figura 3: Dstribuição mundial da incidência de colite ulcerativa. Observe: a) os maiores índices estão nos países desenvolvidos e ocidentais (América do Norte e Europa Ocidental). Atribui-se a isso dois principais fatores. O primeiro seria a dieta ocidental, muito rica em gordura e pobre em fibras. O segundo seria a hipótese da higiene, que propõe que o excesso de higiene na infância contribuiria para uma má maturação do sistema imunológico da criança, que tenderia a desenvolver doenças imunológicas no futuro, como asma e as doenças inflamatórias intestinais. b) os baixos indices apontados no Brasil, acreditamos que se deve ao fato de os casos serem subnotificados.

 

Durante o mestrado trabalhei com colite ulcerativa, com o propósito de propor uma terapia com a utilização de um microrganismo para reduzir o quadro inflamatório observado nos momentos de recidiva da doença.

Mas como assim!? Um microrganismo pra reduzir uma inflamação!?

Sim, é isso, mesmo… E não é uma ideia tão estranha quanto parece… Acompanha o raciocínio.

Não existe cura para as DII, os tratamentos envolvem terapias anti-inflamatórias. Essas drogas, porém, possuem efeitos sistêmicos, e muitas vezes os pacientes desenvolvem resistência. Além disso, o uso de antibióticos em quadros graves mostra eficácia na melhora do quadro (esse é um dos fatores que justificam uma participação da microbiota na origem e agravamento das DII). Considerando o que falei e o fato de que nos últimos anos existe uma tentativa crescente no incentivo ao uso de micro-organismos probióticos (como lactobacilos e bifidobactérias) para tratarem desordens intestinais, dentre eles quadros de infeção e inflamação, não é de se estranhar a proposta do meu projeto.

E como é possível que isso aconteça?!

Para isso temos que entender um pouquinho da fisiologia e da imunologia da mucosa intestinal.

Se esticados completamente, os intestinos humanos possuem uma área de aproximadamente 100-300mˆ2. Isso só é possível pois eles apresentam uma série de estruturas (dobras, viosidades e microvilosidades) que ampliam a superfície para a absorção dos nutrientes. As células epiteliais que delimitam essa área, estão fortemente unidas entre si e formam uma barreira física, que impede o fluxo aleatório de molécula ou de microrganismos do lúmen intestinal.

Associada a essa superfície, existe um muco que é secretado, formando proximalmente uma camada estéril, e externamente uma camada mais frouxa que é habitada por microrganismos mucolíticos. Esse muco não só protege as células da mucosa contra danos mecânicos do processo de digestão, como tem papel dificultando a chegada de microrganismos patogênicos..

Além disso, existe um sistema imune associado a essa mucosa, que é muito bem regulado de forma a interagir com uma gama gigantesca de moléculas exógenas e ao mesmo tempo não desencadear resposta contra elas. Como isso acontece ainda não se sabe completamente, mas essa tolerância e a supressão ativa são extremamente importantes para uma resposta rápida em quadros de necessidade.

Nos pacientes com colite ulcerativa, a susceptibilidade genética pode influenciar tanto na regulação do sistema imunolégico, quando na camada de muco, quando das junções das células da mucosa… Ou seja: nos três pontos de barreira contra a invasão de patógenos. O que acontece no final das contas é que, assim, a microbiota acaba entrando em contado com a mucosa e, assim, há uma forte resposta imunológica e um quadro inflamatório crônico se instala. Ocorre a liberação de anticorpos e moléculas antimicrobianas e ocorre alteração no perfil da microbiota intestinal.

Probióticos por sua vez atuam por meio de diferentes mecanismos:

  1. como barreira, colonizando o epitelio e atuando como barreira (por inibição competitiva por nichos) impedindo a colonização por patógenos
  2. promovem o aumento da produção e alteram a consistência da camada de muco, protegendo o hospedeiro contra bactérias invasivas
  3. Induzem uma maior secreção, no hospedeiro, de defensinas (moléculas antimicrobianas) e imunoglobulinas (anticorpos)
  4. produzem eles mesmos substâncias inibitórias como ácidos orgânicos e bacteriocinas
  5. regulam funções do sistema imune de mucosa, tornando-o mais anti-inflamatório e menos pró-inflamatório, por meio de estimulação de células específicas do sistema imune

A lista mostra os mecanismos de ação de diferentes probióticos. Cada um age de uma forma distinta, inclusive linhagens diferentes de uma mesma espécie podem ter ações opostas. Dois probióticos já são bastante utilizados no tratamento da colite. Um é a Escherichia coli linhagem Nissle 1917 e o outro é o VSL#3, uma preparação que contem 8 espécies de probióticos.

Só pra finalizar, por motivos obvios (os dados não foram publicados ainda) não vou falar dos meus resultados aqui além do fato de que tivemos dados muito interessantes.

Se sujar faz bem?

A imunologia e a microbiologia são duas disciplinas que andam de mãos dadas. No início da década de 1990 começou-se a falar na “Hipótese da Higiene” (HH), que embasada por dados epidemiológicos indicava uma maior prevalência de doenças auto-imunes e inflamatórias nos países mais desenvolvidos, onde as taxas de sanitização são melhores… – a mesma relação estabelecida entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos pode ser observada quando consideramos áreas urbanizadas e rurais, e o motivo é o mesmo: na área rural o cuidado com a higiene costuma ser menor.

Então quer dizer que quanto mais anti-higiênico nós formos, melhor?

O Cascão está certo!?

Bem, não é bem assim… Porém, a importância de se entrar em contato com microrganismos desde a tenra idade (o que é uma das ideias centrais da HH) ganhou força com um estudo publicado na Science do dia 27 de abril de 2012.

Considerado como um “dos estudos sobre mecanismos mais rigorosos da área como há muito tempo não se via“, pelo microbiologista Sarkis Mazmanian, o paper consiste na comparação da susceptibilidade de camundongos isentos de germes (germ-free, GF) e livres de patógenos específicos (specific pathogen free, SPF) a duas doenças de caráter imunológico: colite e asma.

Os resultados mostraram uma maior susceptibilidade dos GF a essas doenças. Essa comparação não é completa e poderíamos pensar: mas será que se reestabelecermos a microbiota nesses animais GF conseguíamos reduzir o quadro citado anteriormente?

E foi isso que os autores fizeram, e de duas formas diferentes.

Na primeira, eles colonizaram GF recém-nascidos, e observaram redução no desenvolvimento das doenças (semelhante aos SPF). Na segunda forma de colonização, GF adultos foram colonizados e os animais continuaram a desenvolver as doenças com o mesmo perfil dos animais GF.

EXPLICAÇÃO IMUNOLÓGICA

Essas diferenças estão relacionadas a um tipo específico de células (invariant natural killer T cell, iNKT) que está aumentada no intestino e nos pulmões dos animais GF – e diminuída nos SPF e nos GF-colonizados precocemente; porém permanecem em quantidades elevadas mesmo quando os GF já adultos são colonizados. Os pesquisadores mostram, ainda, que o aumento dessas células está relacionado a um aumento na quimiocina pró-inflamatória CXCL16 (promove o acúmulo de células iNKT), que tem sua expressão aumentada na ausência da microbiota! O que exatamente leva a essa regulação ainda não é conhecido, podem ser microrganismos específicos ou moléculas produzidas por eles. E esse deverá ser o alvo dos próximos estudos: descobrir quais microrganismos seriam essenciais para uma correta maturação do sistema imunológico.

Resumindo…

Mas então isso significa que temos que deixar nossa higiene de lado? Não… dentre as principais causas de mortalidade infantil está a diarreia, que pode ser causada por muitas bactérias, dentre elas o Vibrio cholerae, a Shigella e a Salmonella (que também pode causar a febre tifoide). A transmissão desses patógenos é muito mais fácil em ambientes com baixa sanitização, e o que vemos é um elevado numero de mortes por esses patógenos nos países subdesenvolvidos.

E como fica a HH? Na verdade, aqui falamos da importância da aquisição de uma microbiota saudável… Essa aquisição ocorre a partir da hora do parto, e por meio do contato com os cuidadores (a mãe, por exemplo). Nos países desenvolvidos, porém, o excesso de higiene poderia estar provocando uma diminuição da diversidade dos microrganismos que são adquiridos pelo neonato e, como já foi dito, a presença de microrganismos específicos poderia estar relacionada à correta maturação do sistema imunológico.

Com a elucidação do microbioma humano estamos descobrindo nos grupos de bactéria que nem imaginávamos fazer parte desse ecossistema. Assim, não é de se estranhar, também que funções desconhecidas de microrganismos conhecidos ainda estejam por serem elucidadas.

A meu ver, a grande questão não é que se sujar faz bem (pode ser até perigoso), mas que o *excesso* de higiene pode fazer mal!

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ResearchBlogging.org Torsten Olszak, Dingding An, Sebastian Zeissig, Miguel Pinilla Vera, Julia Richter, Andre Franke, Jonathan N. Glickman, Reiner Siebert, Rebecca M. Baron, Dennis L. Kasper, & Richard S. Blumberg (2012). Microbial Exposure During Early Life Has Persistent Effects on Natural Killer T Cell Function Science, 336 (6080), 489-493 DOI: 10.1126/science.1219328

“Bactéria atacando os seios (assunto sério)” – mas que não procede

A Ísis compartilhou [intencionalmente e de forma crítica, que fique bem claro] um email-SPAM e eu resolvi postá-lo aqui no blog. Optei por manter todas as frases em caixa baixa, e utilizar só uma cor no corpo do texto para não destacar coisas desnecessárias. O texto original está em cinza, e os meus comentários em azul…

Bactéria atacando o seio – alerta para as mulheres – urgente.

O título do email já aparece com um tom apelativo e o urgente ali no finalzinho já dá a dica: “abre o olho que é SPAM”

Para conhecimento.

Bora dar um tom de seriedade e deixar esse email com cara de comunicado oficial?

Favor repasse para todas as mulheres (e também homens) de sua lista… É muito forte! As imagens são mesmo impressionantes!… Pessoal é muito importante, por favor, divulguem. O médico já testou que ela pegou uma bactéria que se encontra em tecido novo. (sem ser lavado)

Agora vamos indicar a quem esse email deve ser reencaminhado: às mulheres. Mas também os homens (ou seja: o viral quer atingir todo mundo). Além disso, vamos fazer um drama e implorar para que essa mensagem seja repassada. Mas claro! Vamos usar as palavras: “forte”, “chocante”… E, é lógico, “médico” – afinal precisamos de um respaldo científico!

Leia o texto primeiro. Sómente depois veja as fotos.

Ignorando o acento agudo no somente, o que talvez seja uma mensagem subliminar, me responda: você conseguiria continuar a ler o texto sabendo que tem imagens clamando para serem vistas? Eu acho que não!!

As fotos são realmente impressionantes, causam profundo impacto. Por favor, repasse para todas as pessoas de sua lista, para que elas também as envie e possamos alcançar o maior número possível de mulheres… Ao abri-las, compartilhe-as com outras pessoas, esposas, filhas, irmãs, sobrinhas, primas, mães, avós, amigas.

Ressaltar como as imagens são fortes (e realmente são)… O mesmo comentário feito um pouco mais acima… Enfim: vamos fazer o viral se espalhar, galera, “por favor”!!

O texto fala da importância de lavar as roupas íntimas recém compradas antes de usá-las. Explica que as roupas são feitas em diferentes partes do mundo, transportadas em sacos, caixas, sendo manipuladas por grande quantidade de mãos antes de serem acondicionadas para transporte. Além de estarem expostas a excrementos de animais transmissores de doenças. Esclarece ainda que durante o amaciamento do tecido e, segundo as condições climáticas, as caixas ou embalagens geram umidade, ambientes propícios para a proliferação de germes, parasitas e bactérias.

Quando pensamos na pele, ela é muito mais do que uma simples capa que separa o nosso interior do meio externo. A pele íntegra é uma estrutura que forma nossa primeira forma de barreira contra possíveis patógenos. Somos capazes, inclusive, de produzir substâncias antimicrobianas e secretá-las sobre a pele. Assim, infecções de pele, geralmente, ocorrem apenas quando há presença de lesão no local – assim, os micro-organismos encontram uma porta de entrada para o nosso corpo. Quando a gente pensa nos riscos de contaminação a partir de uma roupa, elas seriam provavelmente algo como uma conjuntivite ou uma diarreia decorrente do transmissão de bactérias pela rota fecal-oral/ocular pelo manuseio das costureiras, empacotadores, vendedores e clientes (nada muito diferente dos riscos que você poderia ter se não lavasse as mãos ao sair de um ônibus – você lava, né?).

Por favor, lavem bem as roupas novas, antes de usá-las, já que não se conhece o causador destas anormalidades, mas sabe-se que eles estão nas roupas novas. Favor lavá-las em água fervente.

Isso aqui não seria tão difícil de descobrir: tentar fazer um isolamento da bactéria. Mas lavar a roupa antes de usar é uma questão mais de higiene e bom senso, existem algumas doenças que podem sim, ser transmitidas por roupas (principalmente DSTs), mas também expandir isso para uma epidemia de ulcerações é exagero. O que manda é o bom senso, você não vai querer usar uma roupa com manchas estranhas, sujas ou fedorenta… ou vai?

Vamos, agora,  finalizar nosso SPAM, citando o nome de algum médico ou de algum funcionário  importante de algum hospital !! – afinal de contas, esse email “tem” credibilidade! – só que não.

Agradecida,
Lúcia Quintão
Secretária, TFD e diretoria clínica – Hospital Yutaka Takeda

Uma coisa que eu gosto de fazer quando recebo esses SPAMS é checar se pelo menos essas pessoas existem . Foi só jogar no Google que eu descobri que essa mulher realmente existe, porém, não trabalha mais nesse hospital – provavelmente ela foi apenas uma vítima escolhida pelo autor do SPAM – confira aqui o link de uma reportagem publicada há poucos dias sobre esse SPAM.

Ah, um lembrete final (só faltou o peloamordedeus):

repassem para todas as mulheres e homens também.

Gente, mas como eu poderia me esquecer das imagens!!! Sério, elas são fortes, então se você quiser realmente vê-las, só clicar aqui embaixo que você será redirecionado – é o MdC respeitando o leitor =D

Pedi ajuda a uma médica para analisar essas fotos.

Algumas, sim, parecem com infecções bacterianas, como as de número #1, #2, #3, #4 e 5. Mas aqui ressalvamos a necessidade da porta de entrada que pode ser um arranhão ou uma picada de inseto. O quadro apresentado em #4 pode ocorrer, por exemplo, devido à infecções causadas por mordedura (seja pelo bebê durante a amamentação, ou pelo parceiro no ato sexual) – a boca tem uma quantidade enorme de bactérias que ali estão em equilíbrio, mas quando são introduzidas em uma outra região do corpo podem causar um “belo” estrago.

Na foto #6 vemos uma mastectomia (retirada da mama) e a queimadura causada pela radioterapia. Já a foto #7 nos mostra um estágio avançado de câncer de mama. A foto  #8 parece ser de um granuloma e a #9 de um câncer de mama ulcerado.

Por fim, repare que em todas as fotos há uma tarja preta – nela está escrito “ogrish.com”. Esse era um site de depósito de vídeos e imagens chocantes que está fora do ar desde 2006. Me diz, se esse é um email sério, porque as fotos não são do próprio hospital, mas de um site grotesco?

Então fica aqui a análise desse SPAM, e o recado/alerta para que você não acredite em tudo que você lê na internet. Procure se informar pelo menos se há uma lógica no email que você recebeu antes de passá-lo para frente (não custa nada abrir o Google e fazer uma pesquisa rápida!). Esse email, por exemplo, parece que já está circulando desde 2009! Fique atento e uso o bom senso sempre!

HP: sobrevivendo mesmo quando parece impossível

Pouco mais de 30 anos. É esse o tempo que decorreu desde a descoberta dessa bactéria chata pra caramba para crescer em laboratório fastidiosa. Foi em 1979 que Robin Warren e Barry Marshall conseguiram identificar a presença de uma bacteria em biópsia de pacientes com gastrite crônica e úlcera péptica, e mais: hipotetizaram que a causa dessas doenças seria essa bactéria e não os fatores (como pimenta e estresse) até então tidos como causa.

A comunidade médica da época se recusou a ceder a esse estudo. Somente após Marshall ingerir uma cultura dessa bactéria (vindo a desenvolver um quadro de gastrite aguda) e novos estudos serem realizados o repúdio a essa nova ideia foi se diluindo. O impacto desse trabalho foi tão grande para a medicina, que esses pesquisadores foram laureados com um Nobel em 2005.

Ah, sim… E que bactéria é essa? Essa aqui embaixo (Fig 1)

Helicobacter pylori

Fig 1. Helicobacter pylori (HP) – a bactéria que sobreviveu

A infeção por H. pylori leva a um quadro de gastrite crônica em seus hospedeiros. A gastrite atinge cerca de 80% dos portadores da bactéria e é, na maioria dos casos, um quadro assintomático. Cerca de 10-15% dos portadores desenvolvem quadros de úlcera péptica e 1-3% carcinoma gástrico. O curioso desses dados é que pacientes com úlcera geralmente não desenvolver câncem gástrico, como muita gente pensa. Ao que parece, essas duas manifestação são excludentes. A razão para essas diferenças estão envolvidas na susceptibilidade genética do hospedeiro, fatores ambientais e diversidade genética da própria bactéria. [atualização 17/01/12: para saber um pouquinho mais sobre a bactéria, dê uma conferida nos comentários!]

Dois pontos curiosos sobre a infeção pela H. pylori que eu gostaria de ressaltar, dizem respeito 1) à sua epidemiologia e 2) ao seu nicho ecológico.

Cerca de 50% da população mundial tem essa bactéria, e sua prevalência é inversamente proporcional ao nível sócio-econômico da população – ou seja, países pobres apresentam prevalência maior do que em países ricos (Fig. 2).


Fig 2. Esse mapa da Helicobacter Foundation mostra que em países como o Brasil e os localizados no norte da África a taxa de prevalência de H. pylori chegam a 90%, enquanto em países como EUA e Canadá essas taxas atingem marca de apenas 30-40% da população.

H. pylori é uma bacteria exclusivamente humana e habita nosso estômago – um ambiente muito ácido (pH~2). Um pH tão baixo torna esse ambiente inóspito à vida, mas a HP consegue sobreviver ali pois consegue produzir e liberar uma enzima chamada urease. Então, a enzima quebra a ureia presente no suco gástrico em amônia (Fig 3A) que vai neutralizar o ambiente ácido que mantido pelo HCl (ácido clorídrico) do suco gástrico (Fig 3B).

Fig 3. Em “A” vemos a reação promovida pela urease, na qual a ureia é quebrada em amônia. Em “B” vemos a reação de neutralização do ácido clorídrico do suco gástrico pela amônia. Essas reações não ocorrem em todo o estômago, mas nas regiões próximas às bactérias, criando, assim, um nicho com pH próximo ao neutro, que permite a sobrevivência da bactéria. 

ResearchBlogging.orgDiversas enzimas são produzidas na sua forma inativa e precisam sofrer alterações em sua estrutura. A urease também é assim, ela precisa receber dois íons de níquel e um de seus aminoácidos (a lisina 219) deve ser carboxilado. Esse processo é realizado pelas proteínas UreF, UreG e UreH que interagem entre si, formando um complexo heterotrimérico. Esse complexo, por sua vez, interage com a urease, promovendo alterações espaciais de forma a permitir que os íons de níquel e o dióxido de carbono interajam com a enzima, ativando-a.

Em um artigo publicado em dezembro do ano passado, Fong e colaboradores investigaram como ocorre a formação do complexo UreF-G-H. Eles viram que a UreH e UreF interagem fomando um complexo binário. Nessa interação UreF sofre uma alteração conformacional, que permitirá o recrutamento e a ligação com UreG (Fig 4). Os autores mostraram, ainda, que alterações nas proteínas auxiliares, impedem a formação do complexo e, assim, impedem a ativação da urease.

Fig 4. Nesta figura, retirada do próprio artigo, vemos a formação do complexo UreF-UreH induz a alteção conformacional de UreF. Essa alteração permite que UreF-UreH ligue-se a Ure G para formar o complexo heterotrimérico UreG-UreF-UreH.

A grande importância desse tipo de estudo vai além da compreensão da biologia do micro-organismo. Ela também abre portas para a pesquisa de formas de impedir a interação entre essas unidades e, assim, a formação do complexo UreF-G-H. Consequentemente, a ativação da Urease também seria prejudicada, impedindo a sobrevivência desse micro-organismo no estômago. Ou seja: um novo antimicrobiano contra H. pylori pode ser desenvolvido!
Bibliografia
Fong, Y., Wong, H., Chuck, C., Chen, Y., Sun, H., & Wong, K. (2011). Assembly of Preactivation Complex for Urease Maturation in Helicobacter pylori: CRYSTAL STRUCTURE OF UreF-UreH PROTEIN COMPLEX Journal of Biological Chemistry, 286 (50), 43241-43249 DOI: 10.1074/jbc.M111.296830

Salmonella, sua danadinha!

Na série “Superorganismo: acredite, você é!”, eu fiz um post comentando que consideramos um micro-organismo como patogênico não apenas por suas estruturas, mas também pelo seu comportamento – o que, em momentos específicos, nos permite incluir alguns membros da microbiota nessa classificação. Acontece, porém, que alguns micro-organismos são classicamente considerados patógenos, a Salmonella (Fig 1) é um exemplo.

Fig 1. Salmonella, essa danadinha…

Pra início de conversa, essa bactéria é um patógeno intracelular facultativo, o que significa que ele é capaz de invadir e multiplicar em células animais (podem ser células epiteliais do intestino ou mesmo células do sistema imunólogico – como macrófagos ou netrófilos). E, para entrar nessas células, a salmonela induz modificações na membrana da célula hospedeira, promovendo seu próprio engolfamento (Fig. 2). Depois de estar dentro da célula, a bactéria permite a restauração da membrana da célula hospedeira e impede a sua própria destruição pelas enzimas da célula.

Fig 2. Salmonella induzindo a própria fagocitose em célula intestinal

Não vou entrar em detalhes, mas uma cascata de enventos é ativada pela presença de Salmonella, e isso leva a um quadro inflamatório. O mais curioso de tudo isso é que a bactéria não se intimida com a tentativa do corpo em eliminá-la e, inclusive, se beneficia da inflamação para sua sobrevivência e multiplicação. Difícil de acreditar, não é? Mas não duvide, vou citar dois exemplos (Fig 3):

1. Salmonella produz seu próprio e exclusivo sideróforo. Bactérias precisam de ferro para alguns de seus processos metabólicos vitais e, para capturá-lo, utilizam sideróforos (quelantes de ferro). Um desses quelantes, bastante difundidos entre as bactérias da microbiota intestinal é chamado “enterobactina” ou “enteroquelina”. As células do epitélio intestinal, quando ativadas pela cascata pró-inflamatória, liberam uma proteína chamada “lipocalina”. Essa, por sua vez, liga-se à enterobactina, impedindo que as bactérias que estão no lúmem intestinal absorvam o ferro e se multipliquem (aqui incluímos as bactérias simbionticas da microbiota e também a Salmonella). Acontece que a Salmonella é capaz de produzir um sideróforo denominado “salmoquelina”, que não se liga à lipocalina, garantindo, assim, uma grande vantagem à multiplicação do patógeno.

Achou pouco? Olha só esse segundo exemplo:

2. Salmonella aproveita produtos metabólicos gerados durante a inflamação como nutrientes. O ambiente intestinal é anaeróbico e o metabolismo das bactérias que vivem ali é baseado em fermentação. Durante esse processo, a microbiota libera sufeto de hidrogênio (H2S) – um composto citotóxico que é convertido pelas células do epitélio intestinal em tiosulfato (S2O32-). Neutrófilos migram para o lúmen intestinal durante a inflamação, e ali liberam espécies reativas de oxigênio (ROS, reactive oxygen species) que oxidam o tiosulfato em tetrationato (S4O62-). Salmonella, por sua vez, é capaz de usar o tetrationato como aceptor final de elétron em um processo de respiração anaeróbia – que é muito mais eficiente que a fermentação, garantindo ao patógeno maior quantidade de energia para sua multiplicação!

Fig 3. Salmonella utiliza seus fatores de virulência para invadir e sobreviver no interior das células do hospedeiro.A emergência da resposta inflamatória leva a liberação de lipocalina que sequestra os quelantes de ferro (enterobactina) produzidos pela microbiota, mas não o quelante produzido pela Salmonella (salmoquelina). Espécies reativas de oxigênio geradas por neutrófilos que migram para o lúmen intestinal oxidam compostos de enxofre produzindo um aceptor de elétrons para a respiração anaeróbia de Salmonella, garantindo ao patógeno vantagens para multiplicação e transmismissão.

Utilizando-se dessas duas estratégias, a Salmonella garante vantagem competitiva em relação a outros membros da microbiota, multiplica-se e aumenta suas chances de transmissão pela via fecal-oral.

Ficou impressionado? Isso é evolução, bebê!

Referência

Figuras 1 e 2: Sadava et al. (2009) Vida. 8 ed. Porto Alegre: Artmed.

Figura 3:

ResearchBlogging.orgThiennimitr, P., Winter, S., & Bäumler, A. (2011). Salmonella, the host and its microbiota Current Opinion in Microbiology DOI: 10.1016/j.mib.2011.10.002

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