E a moça autista da novela, heim???

Eis que, de repente, minha caixa de email começou a lotar com mensagens de gente perguntando qualé a da moça da novela…

“Mas uma pessoa autista é daquele jeito mesmo?”

“Um autista pode namorar?”

“Pode isso, Arnaldo?”

(Não exatamente assim, mas meio por aí…)

Vamos começar esclarecendo o seguinte:

1. A personagem da novela Amor à Vida, a Linda, NÃO É AUTISTA, ok? Apesar do autor “querer” retratar um indivíduo com Transtorno do Espectro Autista (TEA), as características demonstradas pela Linda no desenvolvimento da personagem são confusas e muitas vezes jamais se enquadrariam nas características de pessoas com TEA…

2. Pessoas autistas têm uma imensa variedade de características, diferentes de indivíduo para indivíduo. Cada uma terá determinadas características diferentes das outras. Principalmente, há GRAUS variados de comprometimento desde um autismo leve (que a gente chama de “alto funcionamento”, porque geralmente não impede que a pessoa tenha uma vida relativamente “normal” e produtiva) até graus bem severos, em que há muito comprometimento das funções cognitivas, da comunicação e dos comportamentos.

3. O tratamento psicológico da Linda, como foi mostrado na novela, dá vontade de chorar. Sério: quantas vezes mesmo a gente viu o Psicologuinho-da-Novela em sessão terapêutica com a Linda? Eu contei três. E em NENHUMA delas o que foi mostrado chega nem em sonho perto do que é realmente o tratamento adequado para autismo. Teve uma cena em que o Psicologuinho-da-Novela segurava um cartaz  e dizia pra Linda: “Olha aqui, é assim que arruma a cama. Hoje você vai arrumar a cama, tá?” E daí a Linda ia lá e arrumava a cama… Not even in your wildest dreams que uma pessoa com comprometimento cognitivo severo – como a personagem demonstrava naquele ponto da trama – ia adquirir uma habilidade tão complexa como arrumar a cama só de olhar pra um cartaz, ok??? ISSO NON ECXISTE!!!!

4. O desenvolvimento cognitivo, social e comunicativo da personagem deu um salto imenso desde que ela começou a ser tratada (em três sessões!) pelo Psicologuinho-da-Novela. Não é beeeeeeeeeeem assim que acontece… O tratamento do autismo é feito por diferentes profissionais: psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, T.O., neurologista, psiquiatra, e mais um monte de gente. E é um tratamento intensivo, todo dia, o dia inteiro, e envolve também os pais e os cuidadores da criança. Se iniciado precocemente, quando a criança é bem pequenininha, o desenvolvimento pode ser quase igual ao de uma criança típica em algumas áreas. Mas quanto mais tarde o tratamento é iniciado, mais lento é o resultado.

5. Aí o Adêvogado-Gato apareceu, deu um monte de tintas, pincéis e cartolinas pra ela, e OLHA-SÓ!, praticamente CUROU o TEA da Linda. Só pra deixar BEM claro: amor só cura dor-de-cotovelo e DPPnB (Depressão Pós Pé-na-Bunda), ok???

(Disclaimer: Arteterapia é uma tipo de terapia de suporte válida e embasada em evidências. Dar um monte de guache prum indivíduo autista e falar “pintaê, meu filho!” NÃO É ARTETERAPIA!!!!)

Mas… mas… mas…

Ora? Direis… Ouvir estrelas? Não, péra!

Mas afinal, O QUE É AUTISMO?

Bear with me.

O autismo é uma síndrome (aka, conjunto de sintomas) que compromete três áreas do desenvolvimento:

a. a comunicação/linguagem fica seriamente comprometida, com grandes atrasos na compreensão e na produção da fala. Alguns autistas têm falas inadequadas e repetitivas (ecolalia), fora de contexto e muitas vezes desconectadas da realidade.

b. a socialização: pessoas com TEA têm extrema dificuldade de manter contato social com outras pessoas. Bebês autistas não fazem contato visual e não conseguem manter atenção conjunta – se você apontar para um objeto, a criança vai olhar para a ponta do seu dedo e não para onde você está olhando e apontando. Muitas vezes os autistas relatam que não conseguem entender sinais de emoção nos outros, ou não conseguem entender e expressar suas próprias emoções e sentimentos. E a gente sabe que “são tantas emoções”… (Desculpa, não resisti.)

c. os comportamentos de pessoas autistas podem ser extremamente inadequados à situação e inapropriados. Não é incomum a presença de comportamentos abusivos ou auto-lesivos, em que a pessoa pode se machucar sério se não for contida. Também é comum que pessoas dentro do espectro autista tenham interesses restritos por algum tipo de objeto ou assunto, em alguns casos raros isso pode gerar uma “super-especialização” ou alta habilidade. Por exemplo, o cara se torna um virtuose do piano, ou é contratado pela CIA para descobrir códigos secretos. (Por favor, atenção ao adjetivo RARO. Obrigada.)

Então, de modo geral, o TEA (você vai achar por aí as nomenclaturas Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, Transtorno Global do Desenvolvimento ou Transtorno Global do Desenvolvimento Sem Outra Especificação, porque o nome varia de acordo com o manual que você usa, mas é tudo praticamente a mesma coisa) é uma condição que compromete todo o desenvolvimento do indivíduo. Seres humanos têm a incômoda mania de aprender coisas uns com os outros. Mas se o bebê já nasce com uma dificuldade de manter contato visual e atenção conjunta, fica difícil ensiná-lo a falar mamãe, a pegar o nariz do papai, a identificar quando a titia está sorrindo e sorrir de volta… e assim por diante, comprometendo todo o desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Provavelmente por isso – a gente ainda não sabe com certeza absoluta, mas a hipótese é boa – há uma grande comorbidade entre autismo e déficit cognitivo.

Well… Todo esse preâmbulo pra chegar no assunto da semana, que é: “Mas e aí, o que você acha da moça autista da novela namorar?”

Linda e o Adêvogado-Gato…

Eeeeeeeeeeeeerrr… Olha, é complexo.

DO JEITO QUE ESTÁ NA NOVELA, ou seja, uma MENINA com sério comprometimento cognitivo e de comunicação, se envolvendo com UM HOMEM adulto, com desenvolvimento típico, provavelmente bem mais velho, e sem o consentimento da família: NÃO.

Fácil assim.

[Que parte de "uma MENINA que não é capaz de tomar decisões plenas se relacionando com um HOMEM mais velho e em situação de poder privilegiada" você acha que pode ser discutida?]

Ok. Moving on.

Como o autismo (assim como a deficiência cognitiva) tem vários graus, e cada indivíduo se desenvolve de maneira única, as coisas têm que ser analisadas caso a caso com muito cuidado e bom senso. (I know. I know…)

Muitas coisas deviam ser levadas em consideração em casos como esse: qual o grau de comprometimento cognitivo dessa pessoa? Ela consegue tomar decisões sozinha? Ela tem habilidade para pesar todas as consequências de suas decisões? Qual o grau de desenvolvimento emocional dessa pessoa (ou das duas envolvidas)? Há uma relação de poder e de “capacidades” muito desequilibrada entre as pessoas envolvidas? Esse relacionamento deve ser constantemente monitorado pelos pais e cuidadores ou o casal pode ter certo grau de autonomia e “intimidade”? E mais um monte de coisas…

As pessoa com TEA não têm necessariamente o desenvolvimento emocional comprometido, é claro que elas podem se apaixonar e ter um relacionamento romântico e/ou sexual saudável com outra pessoa. Há várias pessoas autistas casadas, pais e mães de família, que se dão muito-bem-obrigada com ou sem apoio externo. Mas há sim, e muitos, casos em que o autista precisa de supervisão e apoio constante até na idade adulta, porque ele não tem habilidade de tomar decisões complexas sozinho, ou não consegue se comunicar com eficiência, ou mesmo porque seu grau de desenvolvimento cognitivo não permite que ele  seja considerado “legalmente capaz”.

Pois é, tem mais essa questão da “capacidade legal“: pessoas com comprometimento cognitivo são consideradas como crianças pela lei. É o tal do “incapaz”, ou seja, a pessoa é “incapaz” de consentir com o avanço romântico e sexual de outra pessoa. Essa lei foi feita para proteger crianças e pessoas que não têm habilidade cognitiva suficiente para tomar decisões adequadas. Por um lado ela ajuda, mas por outro, pode atrapalhar quando o indivíduo, apesar do déficit cognitivo, é sim capaz de tomar decisões, mesmo que ele precise de ajuda e suporte profissional ou da família. Então, tudo tem que ser analisado com cuidadinho… e cada caso é um caso.

É. Tudo depende. Bem vindo ao mundo real, em que as coisas têm vários tons de cinza (UÔU!) e não são só preto ou branco.

 

[Sugestão: leia esse post da Verinha da Silveira no blog "Feminismo Sem Demagogia"... Bacana, com muita informação e entrevistas com mães de pessoas com TEA.

Outra sugestão: esse outro post do Professor Celso Goyos no blog "Vamos falar sobre autismo" para esclarecer dúvidas sobre o diagnóstico e o tratamento do autismo. Sim, ele é meu supervisor de Pós-doutorado e esse é o blog do Lab onde eu trabalho. ]

interCiência: São Michael, padroeiro dos inventores

Entenda o que está acontecendo no ScienceBlogs Brasil!!! Conheça o interCiência aqui!!!

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NOTA DO AUTOR OCULTO: É com imensa satisfação que participo pela primeira vez do
InterCiência e maior ainda é escrever para uma das minhas ídolas, Ana
Arantes! Acompanho (ou tento, rs) todos os Tumblres dela (adoro o
Cumberbatch!) e espero que escrever para O Divã de Einstein a anime a
voltar a escrever com mais frequência.

O assunto que abordo pode até nem ter tanto a ver com ciência, mas se
trata um pouco de tecnologia e invenções e elucida um pouco da vida um
homem que já foi um exemplo de busca pela iluminação (de onde deriva a
própria palavra “ciência”, iluminação).

Espero que vocês gostem e que meu estilo seja descoberto. Tá fácil, hein?

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São Michael, padroeiro dos inventores

São Michael, antes de virar um homem santo foi uma criança prodígio
que demonstrou suas habilidades cantando hinos religiosos e começou
sua peregrinação muito cedo, por volta dos cinco ou seis anos,
ajudando seus irmãos a pregar a palavra. Ainda aos oito anos ele já
era o principal membro do grupo, após demonstrar seu talento recitando
de memória a canção “Escale Todas as Montanhas” (לטפס כל הר,
em Hebreu).

Sua reputação logo se espalhou por toda a terra e ele se tornou um dos
principais líderes carismáticos, participando ativamente do
revolucionário movimento de mudança e conversão que à época se dava,
até que aos 24 anos se tornou o incontestável líder daquela geração –
e, discutivelmente, de todas as gerações posteriores, chegando a ser
clamado como “o rei popular”, ou rex pop, em Latim.

Aos 33 anos, São Michael havia estabelecido sua
reputação como um artista itinerante, bastante conhecido e admirado
por plateias devido ao seu ofício e também por suas palavras. Ele era
também considerado por muitos de seus contemporâneos (segundo relatos
escritos que sobreviveram até os dias de hoje) como um dos melhores
oradores da região chegando, ainda em vida, a ter um vasto culto em
sua homenagem. Com sua alcunha de Rei do Povo cada vez mais solidificada, veio o
primeiro milagre: a levitação.

Diz-se, a partir de imagens do Santo, que ele tinha o poder de se
curvar até o solo e voltar à posição ereta sem jamais tirar os pés do
chão ou dobrar as pernas – tal poder era tanto que ainda permitia a
seus seguidores fazer o mesmo. Isso impressionou até os mais céticos e
dissidentes que o denunciavam como uma fraude. A partir daí, seu dom
não foi mais questionado.

Por sorte temos um documento completo de sua invenção, caracterizada
como milagrosa por muitos, como registrado no الولايات المتحدة
للبراءات والعلامات التجارية
, em Árabe (Escritório de Marcas e
Patentes dos Estados Unidos, em português).

Método e meios para criação de ilusão antigravidade
Patente número US 5255452, apresentada aos 29 de junho de
1992, concedida em 26 de outubro de 1993 – Michael J. Jackson et al

“Um sistema para permitir a um usuário de sapato se inclinar para
frente além de seu centro de gravidade por meio do uso de um par de
sapatos especialmente concebido que se encaixa a um membro de engate
projetavelmente movível através da superfície de um palco. Os sapatos
têm uma fenda no calcanhar especialmente projetada que pode ser
destacavelmente conectada com o membro do engate simplesmente
deslizando-se o pé do portador de sapatos para a frente, assim,
conectando com o membro de engate.”

É por esse feito, especificamente, que São Michael de Gary, ou São
Michael Jackson, foi denominado, por mim, o Santo Padroeiro dos
Inventores. (Sério, a vaga estava aberta esse tempo todo e ninguém se interessou.)

Mas este não foi o único milagre realizado por São Michael Jackson.
Apenas doze dias após sua morte, sua imagem e semelhança já estava
milagrosamente aparecendo em panelas, como no exemplo abaixo:

Se isso não for prova de santidade, eu não sei o que é.

 

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[Este texto é parte da primeira rodada do InterCiência, o intercâmbio
de divulgação científica. Saiba mais e participe em:
Interciência no Raio X]

Os Pastorzinhos e o Código de Ética: um a(u)to de homofobia

Os digníssimos deputados federais João Campos (Pastor, Delegado de Polícia, Técnico Contábil e presidente da Frente Parlamentar Evangélica) e Roberto de Lucena (Conferencista, Escritor, Pastor Evangélico e relator da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados) resolveram que, além de suas habilidades como legisladores, eles agora também têm estatura moral e repertório científico suficientes para legislar sobre a Ciência e a profissão dos outros. No caso, a minha. Então, segura Berenice…

Resumindo a ópera (ou, o Auto de Natal), os dois pastores apresentaram um projeto de decreto legislativo que “susta a aplicação do que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual.” Ou seja, eles pretendem tornar inválida a resolução do Conselho Federal de Psicologia que estabelece normas de atuação para os psicólogos sobre questões que envolvem a orientação sexual dos seus clientes. O nosso Código de Ética diz que:

RESOLUÇÃO CFP N° 001/99 DE 22 DE MARÇO DE 1999:

Art. 3° – Os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.

Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

Art. 4° – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.

 

Vai daí que, para qualquer leitor com um mínimo de boa vontade em interpretação de texto, em nenhum momento o CFP proíbe o psicólogo de intervir clinicamente se um cliente o procura porque não aceita ser gay, ou porque está em crise ou em sofrimento por algum motivo ligado à sua orientação sexual. O que o Conselho (e a APA, e a OMS) proíbem é que se dê status de doença e de transtorno mental a uma condição sexual normal do ser humano.

Entre outras atrocidades cometidas ao longo do texto dos pastorzinhos tanto contra o bom senso quanto contra as evidências científicas e as técnicas psicológicas (a definição deles de orientação sexual egodistônica é uma fofura), os legisladores-em-causa-própria gastaram várias páginas para defender o indefensável baseados em premissas completamente falsas. Por exemplo:

“O Conselho Federal de Psicologia, no intuito de se posicionar contra
uma visão da atração sexual por pessoas do mesmo sexo enquanto uma patologia, extrapolou seus poderes.”

 

O projeto TODO é baseado nesse argumento. Que está errado em vários sentidos. Primeiro, não é o CFP que se posiciona contra a patologização da homossexualidade, é a OMS. O Conselho segue a OMS, assim como todo o sistema de saúde pública do país. Depois, o CFP tem poderes de regular a profissão, e se resolverem que de hoje em diante todos os psicólogos têm que usar uma melancia no pescoço enquanto estiverem no exercício da profissão de psicólogo, eles têm esse poder e todo mundo vai ter que providenciar a melancia se quiser se identificar como “Psicólogo”.

O CFP não impede que ninguém seja imbecil, se o cara quiser ir na Igreja ou no Country Clube fazer palestra sobre como os gays vão queimar no inferno e/ou sobre como o casamento gay vai manchar a sagrada instituição da família e destruir as bases da sociedade civilizada, esse fulano pode fazer isso à vontade (infelizmente, no Brasil homofobia não é crime tipificado). O que ele NÃO pode fazer é usar o título de psicólogo para avalizar essas asneiras. Os profissionais de Psicologia deveriam saber (é, eu sei… eu sei…) a diferença entre suas convicções pessoais e aquilo que sua ciência estabelece, entre o que é opinião e o que é baseado em evidência.

Mais um, como bem lembrou a Pri Grisante, a queixa do cliente pode ser “eu não quero ser homossexual”, mas o trabalho do psicólogo é descobrir POR QUE o sujeito está em sofrimento e em que sua orientação sexual contribui para esse quadro. Não precisa nem ser um gênio pra descobrir isso… A intervenção deveria ser no sentido de aumentar o repertório do cliente para lidar com o ambiente aversivo, coisa que ele não só pode como deve ser capaz de fazer, e NÃO intervir para “mudar” a orientação sexual do cara, mesmo porque já está muito evidente que essa orientação, uma vez estabelecida, não vai mudar. Qual o problema em enxergar o óbvio? Oh, wait…

Há vários outros pontos do projeto que são facilmente rebatidos, mas essa gente me dá uma preguiça. Leia o texto dos pastores na íntegra e tire suas próprias conclusões. Sério, vale a pena, é uma obra de arte. Só que não.

Pensamento analítico e empatia podem ser mutuamente excludentes

Olhe para essa imagem:

 

Você pode ver o pato? Olhe de novo, você pode ver o coelho? Agora tente ver o pato E o coelho ao mesmo tempo.

É, você não pode.

Isso acontece porque seu cérebro não consegue codificar as duas imagens ao mesmo tempo, há uma inibição neural entre as duas representações. Esse processo é conhecido como “rivalidade perceptual”. A mesma lógica pode ser usada para entender as descobertas deste artigo publicado na edição de outubro da revista NeuroImage.

Os pesquisadores colocaram 42 sujeitos saudáveis, todos estudantes universitários, numa máquina de ressonância magnética funcional (fRMI) e pediram para que eles executassem diferentes tipos de tarefas de reconhecimento de expressões faciais e de resolução de problemas de matemática e física. O equipamento registrou a atividade das redes neurais do cérebro durante os diferentes tipos de tarefas e esses registros foram comparados.

Além de mostrar que a maior parte do córtex é dedicada à funções sociais, os resultados demonstraram o fenômeno de rivalidade neural em uma escala muito maior do que o da figura pato-coelho. Houve inibição de toda a rede neural do cérebro entre aquela usada para envolvimento social, emocional e moral com outras pessoas e a que usamos para raciocínio científico, lógico e matemático. Ou seja, ou bem a gente resolve um problema lógico, ou bem a gente se preocupa com o coleguinha. O cérebro, aparentemente, não consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Os autores apontam que os resultados podem explicar, por exemplo, o funcionamento neural de indivíduos com condições que impedem as funções sociais (como o autismo) ou aquelas que impedem as funções lógicas (como a síndrome de Williams). No autismo, a pessoa afetada não consegue se engajar em relacionamentos sociais, não demonstra empatia e tem a comunicação muito prejudicada, embora as funções lógicas possam estar presentes em grau muito mais elevado do que em indivíduos com desenvolvimento típico. Já na síndrome de Williams, as pessoas afetadas são super-sociais e têm uma empatia acima da normal, mas as funções cognitivas são muito comprometidas. Os cientistas sugerem que o tratamento para essas condições poderia focar em balancear o uso dessas duas redes neurais, de forma a equilibrar o funcionamento cerebral.

Fazendo um pouco de esforço interpretativo, podemos começar a entender porque alguns executivos bem sucedidos tendem a tomar decisões ignorando as consequências sociais e mantendo o sucesso nos negócios.

Primum Non Nocere

*Antes de tudo, não causar dano.

(Juramento de Hipócrates)

Um estudo de 2007, publicado na Perspectives on Psychological Science, lista vários tratamentos psicológicos e terapias que, além de não surtirem o efeito esperado, são potencialmente perigosas para aqueles que se submetem a elas. Além dos medalhões de sempre, como terapia de vidas passadas, terapia de renascimento, comunicação facilitada, terapia de conversão (a tal da “cura gay”, go figure) e toda a gama de pseudo-terapias sem validação científica que se vê por aí a torto e a direito, os autores indicam que alguns programas e terapias baseados em evidência podem ser potencialmente prejudiciais aos consumidores.

Programas de reabilitação intensiva de dependentes químicos (boot camps, algo similar às clínicas de rabilitação brasileiras), por exemplo, parecem não ajudar a eliminar a recaída e ainda podem causar um aumento na ansiedade dos dependentes quando eles saem da clínica e são obrigados e funcionar adequadamente nos mesmos ambientes que antes eram associados ao consumo de drogas e/ou álcool.

A terapia de casal, também, pode levar os clientes a um nível inicial de estresse e conflito tão grande que o os parceiros não resistem aos primeiros passos da terapia e acabam se separando, e consequentemente, abandonando o tratamento antes que ele possa alcançar o objetivo desejado a longo prazo. Esse mesmo efeito de deterioração pode acontecer em terapias de exposição, aquelas em que, para tratar uma fobia muito grave, o cliente é exposto ao estímulo que causa ansiedade. Embora a maioria das pessoas, em algum momento do processo terapêutico, possa sentir-se “pior” ou “mais infeliz” do que quando não faziam terapia, é importante ressaltar que a regra de senso comum “primeiro piora para depois melhorar” (ou, no pain no gain) não se aplica aqui. Se você sente que as sessões de terapia sempre te deixam ansioso, deprimido ou desconfortável, e que você não está aprendendo a lidar melhor com seus problemas, alguma coisa pode estar muito errada com a linha de ação perseguida pelo terapeuta. No mínimo, vale uma boa conversa com ele.

Outro problema que alguns tipos de terapias pode causar é a indução de sintomas que antes não estavam presentes. O caso clássico dos psicanalistas americanos processados por induzirem seus clientes a “lembrar” de abusos infantis que não haviam acontecido de verdade ilustra bem esse tópico. Mas não precisamos ir tão longe: oferecer aconselhamento psicológico a vítimas de catástrofes ou a pessoas em luto que não apresentam sintomas extremos de ansiedade e depressão, mas estão expressando um processo normal de reação à perdas e à dor, pode levar essas pessoas a ficarem super-conscientes de seus sentimentos, exacerbando a dor e procurando sintomas de depressão ou de estresse pós traumático onde de fato existe apenas a reação normal a determinados eventos.

A APA (Associação Americana de Psicologia) mantém uma lista atualizada de terapias potencialmente prejudiciais e faz revisões periódicas das evidências científicas que embasam as terapias praticadas nos EUA. No Brasil, o órgão que deveria fiscalizar a prática psicoterapêutica, o Conselho Federal de Psicologia, tem tido uma atuação bem pouco competente nesse sentido. Então, sobra para o cliente e consumidor de serviços de psicologia buscar informações sobre o tipo de terapia, seus prós e contras e, principalmente, quais os tipos de resultados que ele pode esperar.

 

Referências:

Lilienfeld, S.O. (2007). Psychological Treatments That Cause Harm. Perspectives on Psychological Science, 2(1), 53-70.

Spitzer, R.L. (2003). Can Some Gay Men and Lesbians Change Their Sexual Orientation? 200 Participants Reporting a Change from Homosexual to Heterosexual Orientation. Archives of Sexual Behavior, 32(5), 403-417.

Cesar Ades (1943 – 2012)

Pioneiro”, “entusiasta”, “eclético” e “apaixonado pela ciência e pela vida”. Essas foram algumas das palavras usadas por ex-alunos e orientandos de Cesar Ades ao lembrar-se do professor e amigo. Sempre sorridente e encantador, Ades – falecido esta semana em decorrência de um atropelamento – deixou marcas profundas tanto na História da Ciência no Brasil quanto na vida daqueles que o conheceram. Durante sua extensa carreira, formou 34 mestres, 22 doutores e uma imensidão de profissionais em etologia, psicologia e biologia.

 

 

Cesar Ades foi professor titular do Departamento de Psicologia Experimental da USP desde 1994 e foi um dos grande responsáveis pelo início e desenvolvimento dos estudos na área e comportamento animal no Brasil. Foi diretor do IP-USP de 2000 a 2004 e vice-diretor de 1998 a 2000. Em 2004 ingressou no Conselho Deliberativo do IEA. Também participou do Conselho Deliberativo do Hospital Universitário da USP e do Conselho Curador da Fuvest, além ser de membro do International Council of Ethologists, da International Society of Comparative Psychology e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Etologia, da qual foi fundador. Foi editor desde 1999 da Revista de Etologia e membro do conselho editorial dos periódicos Behavior and Philosophy e Acta Ethologica.

Foi responsável pela instauração da comissão de ética em pesquisa com seres humanos no IP/USP e pela criação da CEPA (Comissão de Ética em Pesquisas com Animais). “Defendi uma ética animal centrada no animal, isto é, que parta do conhecimento de como o animal é e de suas adaptações individuais e de espécie. Um exercício de respeito pela alteridade que também vale para o caso humano.” (Kinouchi & Ramos, 2011).

Em 2011, o Professor Cesar Ades participou do II Simpósio do INCT-ECCE na UFSCar, ministrando a conferência de abertura do evento, sobre Teoria da Mente em cães. Durante mais de uma hora, o auditório lotado com mais de 250 pessoas ouviu, aprendeu, riu e se emocionou tanto com a apresentação impecável de pesquisas e métodos científicos, quanto com a personalidade cativante do palestrante.

Mais do que uma longa lista de conquistas acadêmicas, Cesar Ades foi um mestre na arte de ensinar e cativar pessoas. O site Science Blogs Brasil fez uma série especial em homenagem a Cesar Ades, com relatos de alunos e ex-alunos que lembram com carinho do mestre:

“Um dia, enquanto contava animado sobre o que tinha aprendido no transcorrer do meu mestrado ao Cesar, ele me perguntou se eu não gostaria de apresentar aquilo tudo na forma de um mini-curso no encontro de etologia seguinte, em Brasília. Tremi de cima a baixo e argumentei que não tinha titulação ainda. E ele me convenceu de que idéias eram mais importantes do que títulos.” (Eduardo Bessa, zoólogo na Universidade do estado de Mato Grosso, especialista em comportamento animal.)1

 

“Em uma das últimas conversas que tive com ele, há apenas algumas semanas, ele folheava sua agenda a fim de encontrarmos uma data para a realização de mais um de seus projetos. Ele parou em determinada página, sobre a qual estava o ramo seco de uma planta. Ao ver minha curiosidade sobre que planta era aquela, ele perguntou: Você sabe o que é isso? Eu respondi que não. Então ele disse: Esfrega na mão… cheire. Abriu um sorriso ao ver que tinha me surpreendido com o aroma e disse: É lavanda! Então destacou uma folha do ramo e me deu (“Pega pra você!”). Desde então levo guardada a folha de lavanda na carteira e sempre levarei comigo para me lembrar do professor César e, quando que me sentir desorientado, lembrar porque sou também apaixonado pelo o que faço.” (Lucas Peternelli é doutorando do Dep. de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia – USP.)2

 

“César viveu por 69 anos como quis: intensamente e produzindo conhecimento!” (Francisco Dyonísio C. Mendes, mais conhecido como Dida, é atualmente professor de psicologia evolucionista na Universidade de Brasília – UnB.)3

 

Referências:

KINOUCHI, Renato Rodrigues and RAMOS, Maurício de Carvalho. Psicologia e biologia: entrevista com César Ades. Sci. Stud. [online]. 2011, vol.9, n.1, pp. 189-203. ISSN 1678-3166.

“Sobre o falecimento de Cesar Ades”, no RNAm (http://scienceblogs.com.br/rnam/2012/03/falecimento-cesar-ades/)

Citações em:

1. “Um memorial ao Cesar Ades”, no Ciência à Bessa (http://scienceblogs.com.br/bessa/2012/03/um-memorial-ao-cesar-ades/)
2. “Ao mestre, com carinho”, no RNAm (http://scienceblogs.com.br/rnam/2012/03/ao-mestre-com-carinho/)
3. “Uma homenagem ao mestre Cesar Ades”, no SocialMente (http://scienceblogs.com.br/socialmente/2012/03/uma-homenagem-ao-mestre-cesar-ades/)

Hipátia é que era mulher de verdade.

Hipátia de Alexandria (ou Hipácia, em algumas traduções) foi a primeira matemática de que se tem registro na História. Lá pelo ano 400 d.C., Hipátia era a mais importante filósofa da escola platônica em Alexandria, e os homens vinham de longe para aprender as coisas que ela manjava não só de filosofia e matemática, como também de ciências. Seguindo a tradição Lógica, Hipátia defendia que o universo é regido por leis e que estas leis podem ser descritas e demonstradas pela linguagem matemática. Reza a lenda que ela nunca se casou, alegava que “já era casada com a Verdade”.

 

Bettmann / Corbis

 

O destino de Hipátia, como você já devem imaginar, não foi dos mais felizes: ela foi despedaçada por uma horda de cristãos fanáticos religiosos, dentro de uma igreja. Quase 2000 anos depois de sua morte, muitas mulheres ainda sofrem perseguição pelos mesmos motivos daqueles que a assassinaram. No livro ‘Cosmos’, Carl Sagan conta um pouco da história de Hipátia:

 

“Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história, e sua base era em Alexandria. Apesar das grandes chances de florescer, ela decaiu. Sua última cientista foi uma mulher, considerada pagã. Seu nome era Hipátia. Com uma sociedade conservadora a respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto à ciências, e devido a Alexandria estar sob o domínio romano, após o assassinato de Hipátia, em 415, essa biblioteca foi destruída. Milhares dos preciosos documentos dessa biblioteca foram em grande parte queimados e perdidos para sempre, e com ela todo o progresso científico e filosófico da época.”

 

Mary Evans Picture Library / Alamy

 

Para informações mais detalhadas sobre a vida e obra de Hipátia, consulte o verbete da Wikipedia, que é bem completo. E também a página do Smithsonian sobre a vida de Hipátia em Alexandria.

Fofura no dos outros é refresco…

"I want a pocket Martin!" *

Se toda vez que você vê um gatinho, um cachorrinho, um bebezinho, ou – meu mais novo objeto de desejo – um porquinho-espinho pigmeu, você tem reações como “awwwwwwwwwwwwwwwnnnnn” ou “AIMEUDEOSDOCÉLQUECOISAMAISFOOOOOOFA!!!“, saiba que você não é esquisito, nem fresquinha, nem isso aí que está pensando no caso de você ser do gênero macholino. Óquei, pode ser que você seja um pouco chiliquento, mas a reação de certa adoração e vontade de apertar, agarrar e amar coisinhas que, mesmo remotamente, lembrem bebês humanos é um traço selecionado do repertório comportamental da nossa espécie.

Olhos grandes, cabeça desproporcional ao corpo, descoordenação motora e membros curtos são sinais encontrados em “bebês” de quase todas as espécies. Quando essas características são mantidas na fase adulta do organismo, chamamos esse fenômeno de neotenia.

Entre as vantagens evolutivas de se manter traços neotênicos durante a fase adulta estão: angariar maior atenção dos indivíduos “cuidadores” e evitar ações agressivas. Espécies consideradas “fofinhas” correm menor risco de extinção simplesmente porque nós, humanos, as transformamos em animaizinhos de estimação (gatos, cachorros, tartarugas, porquinhos da índia, hamsters, e por aí vai a coisa); ou porque tornam-se objeto de adoração, como no caso dos pandas, ursos polares e coalas.

Aaaawwwwwwwwwwwnnnnnm...

Mesmo que a gente ache bichinhos fofinhos a coisa mais atrativa do mundo, em alguns casos a neotenia – aka “cuteness” – pode ser contraprodutiva. No caso de seres humanos, pessoas com características neotênicas são percebidas como não confiáveis, submissas, imprevisíveis e sem prioridades. Porém, alguns pesquisadores indicam que a neotenia cognitiva e psicológica (aquilo que chamamos geralmente de “imaturidade”) pode ser vantajosa em determinadas profissões: capacidade de aprendizagem rápida, manter uma atitude aberta, buscar diferentes estimulações e experiências e compartilhar a atenção entre diferentes assuntos e objetos são características importantíssimas encontradas principalmente entre professores, acadêmicos e – pasmem! – cientistas!

So… Da próxima vez que sua Tia Marocas mandar você crescer, diga a ela que sua camiseta do Batman, seus action figures do X-Men e a TARDIS em cima da sua mesa são sinais de competência e não de imaturidade.

* Vou mandar um presente pro comentarista que pegar a referência na foto do porquinho-espinho.

Feliz Natal!

À todos os leitores, amigos e queridos…

O verdadeiro significado do Natal: voltar pro único lugar que realmente nos pertence.

Feliz Natal!!!

Um tapinha não dói?

Li hoje a notícia do lançamento de um livro sobre educação infantil que se diz “favorável à punição física” de crianças. O que me lembrou da tal da Lei da Palmada, proposta há algum tempo. Parece que o assunto esfriou, e eu não sei bem em que ponto está a lei, se foi arquivada ou ainda está em discussão.

Mas a pergunta continua: “palmadinhas educativas” são ou não boas para a educação de crianças?

Do ponto de vista jurídico, a lei está bem explicadinha aqui, no Consultor Jurídico. Do ponto de vista pessoal – meu, só meu e de mais ninguém – , é mais uma lei que “não vai pegar”, como tantas outras nesse país, como a Lei Maria da Penha, por exemplo. Necessária? Talvez. Mas há que lembrar que o Código Civil Brasileiro e a Constituição já proíbem a agressão, a violência e a punição física a todo e qualquer cidadão brasileiro. Só isso já devia ser suficiente, né?

Mas, eu queria falar é de outra coisa. O que eu vejo nos debates é que as pessoas colocam agressão física no mesmo saco de qualquer tipo de punição. Tecnicamente, a punição acontece sempre que você introduz alguma coisa aversiva (desde um jato de água fria no nariz, um quarto escuro, até uma palmada, uma chicotada, um espancamento); ou então que se retira alguma coisa prazerosa (sem TV por uma semana, sem videogame até a nota melhorar, sem sua liberdade por dois anos). O fato de se proibir que sejam aplicados castigos físicos (ou “corporais” como está na letra da lei) não quer dizer que não se podem usar métodos punitivos para educar. Só quer dizer, exatamente, que não se pode usar AGRESSÃO FÍSICA como medida educativa de crianças e adolescentes. Nesse ponto, particularmente eu acho que a lei está frouxa e mal escrita, e que deveria dar diretrizes mais objetivas, porque todo mundo sabe que cabeça de juiz é que nem bunda de nenê. (Ué? A juíza não negou o pedido de proteção de Eliza Samudio, com base na Lei Maria da Penha, com o argumento de que a lei só se aplicava à violência doméstica, e pra ela – a juíza – violência doméstica só acontece quando duas pessoas são casadas? Vai pensando…)

 

 

Mas, por que a “palmada” é tão difundida como meio de se educar crianças? Alguns tipos de punição são muito funcionais para quem pune. Eles fazem com que o comportamento de quem é punido desapareça imediatamente. E isso é muito reforçador para o punidor. E para o punido? Este aprende que emitir esse comportamento na presença do punidor vai gerar punição. Veja a sutileza: a punição não ensina o que deve ser feito, o que é adequado naquela ocasião, ensina apenas como SE LIVRAR da mesma punição. É assim que crianças aprendem que fazer birra com papai não funciona, mas com a mamãe dá mó certo! O uso da força física e da agressão, nesse sentido, é o mais eficiente de todos os tipos de punição, porque cessa imediatamente o comportamento inadequado. Mas não ensina o que é certo. Ensina apenas a não fazer aquilo de novo na frente de quem te bateu. Quem já foi criança sabe muito bem do que eu tô falando. A única maneira de ensinar comportamentos adequados é usando o reforçamento desses comportamentos. Só.

O problema da punição – de qualquer tipo – é que, além de não ensinar o comportamento correto, ela gera um monte de comportamentos de fuga e esquiva (aqueles que te livram da punição, como contar mentiras, fugir de casa, fazer coisas escondido dos pais, colocar a culpa no irmãozinho ou no coleguinha, encher a cara de vodka barata pra “esquecer” dos problemas, por exemplo) e comportamentos tecnicamente chamados de “contracontroles”, ou seja, coisas que fazemos para tentar controlar a fonte de punição, como desacreditá-la (“meu pai é um bêbado”, “feministas são mal amadas”), agredi-la de volta e até mesmo eliminá-la (Suzane Von Richthofen? Hum?).

 

 

E mais, como se só isso já não fosse ruim o suficiente: quanto maior o grau de violência da punição, maior a probabilidade de que ela gere, na pessoa punida, efeitos colaterais como ansiedade, depressão, baixa auto-estima e agressividade. Porque se há uma coisa que a gente aprende rapidamente, e através de exemplos e modelos, é que a violência é um meio legítimo de se livrar daquilo que nos incomoda. É isso que você ensina para seu filho quando bate nele. Só pra exemplificar: Flynn (1999) descobriu uma correlação altamente positiva entre crueldade infantil com animais e quantidade de punição corporal que os pais dessas crianças usavam com elas. E Straus & Mouradian (1998) dizem na conclusão de seu artigo que:

“Quanto mais punição corporal experienciou a criança, maior a tendência para ela engajar-se em comportamentos antissociais e atos impulsivos. A punição corporal doméstica está fortemente associada a problemas de comportamento da criança.”

Pior ainda: a punição física recorrente gera, com frequência, uma habituação ao estímulo aversivo punidor. Ou seja, com o tempo, uma palmadinha não dói tanto, e não causa mais efeito. Você vai ter que bater com o chinelo… que com o tempo também não vai ter muita importância e você vai ter que dar uma surra de cinto… e assim vai até o espancamento. Isso é o que se chama comumente de escalada de violência, e quando ela começa, se não for interrompida, acaba muito mal. Para Skinner – é, lá vem o bom velhinho denovo, get used to it – a punição não reduz a probabilidade de que o ato punido re-ocorra. Ele usava uma pancada na pata de ratos ou um choque elétrico como formas de punição corporal, denominadas estímulos aversivos, em experimentos de laboratório. A punição, para o rato, apesar de diminuir inicialmente a freqüência de respostas punidas, não levava à extinção do comportamento, e, após um período de sob condições aversivas, o número de respostas emitidas pelos ratos punidos era praticamente o mesmo dos ratos não punidos. Ou seja, apesar de inicialmente diminuir a quantidade de respostas, a punição não fazia o comportamento inadequado desaparecer, ela só causava tolerância. É quase como uma droga.

É claro que há outras variáveis que são também muito importantes para gerar adultos agressivos, e muitos vão dizer “mas eu sempre tomei umas palmadas quando criança e não sou uma pessoa agressiva!”. Mas imagine uma pessoa que, além de apanhar sempre que faz uma coisa errada, não tem exemplos adequados dos pais e familiares, não estuda em uma instituição que se preocupa com a formação global do cidadão, mora numa vizinhança violenta, vê todos os dias as notícias horrorosas do Datena e teve algumas experiências em que usar de violência e agressividade resolveram alguns problemas na sua vida. Junte isso tudo e com muita certeza você terá um adulto com grande probabilidade de ser violento, agressivo e ansioso. Se você acha que esse quadro é um exagero, coloque o nariz pra fora de casa por um dia e conheça as crianças que moram no seu prédio, na sua rua…

 

 

O que se ouve muito por aí (inclusive é defendido pela autora do livro citado no início deste post) é que “se a criança não toma umas palmadas, ela fica sem limites”. Sinceramente ainda não entendi o que são esses tais desses limites. Mas minha idéia é que o ser humano já desenvolveu uma técnica bem mais efetiva de estabelecer limites abstratos, e ela se chama “formulação de regras”. Uma regra adequada é aquela que descreve uma situação, o comportamento que deve ou não ser emitido e a consequência que esse comportamento terá. Nesse sentido, leis são regras, fazer ciência está baseado em regras, e educar uma criança é, praticamente, ensinar regras. “Quando estiver na mesa, não jogue a comida no chão, porque isso vai fazer você ficar de castigo, ok?” é prático, rápido, deve ser seguido tanto pelos pais quanto pelas crianças e o melhor, funciona. Pode não funcionar imediatamente, e provavelmente não funcionará até que a criança “teste” a regra, até que ela jogue a comida no chão e fique de castigo por causa disso. Mas quem disse que educar uma criança é fácil, rápido, indolor e certeiro? E se você acha que crianças pequenas não entendem regras é porque nunca conviveu com uma.

Essas informações não foram tiradas do ar e nem do pensamento lógico de ninguém: são dados experimentais muito bem estudados, replicados e confirmados. Segundo Longo (2001):

“Para se ter uma idéia de tamanho interesse e preocupação em estudar os efeitos da punição sobre o comportamento, existem, por exemplo, mais de 8250 artigos científicos publicados sobre Punição na base de dados eletrônica PsycoInfo, do período que vai de 1887 a abril de 2001. Esta base de dados internacional disponibiliza artigos de mais de 1.500 periódicos em Psicologia.”

Mas castigo não é punição? Elementar meu caro leitor: castigo é um tipo de punição que não envolve violência física. É uma maneira bem mais branda de punir, que ensina (além de fuga e esquiva e contracontrole muito mais brandos e até adequados) que alguns privilégios são diretamente ligados a determinados comportamentos que devem ser emitidos. Retirar a liberdade de um criminoso tem a função de fazer com que ele “aprenda” que conviver em sociedade requer o seguimento das leis. Do mesmo modo que ficar no cantinho por cinco minutos ensina uma criança pequena que brincar na sala requer que ela não quebre os vasos da mamãe. É um tipo de punição em que há maior probabilidade de o comportamento de fuga esquiva seja coincidente com o comportamento adequado. Além disso, o castigo tem a grande vantagem de impor o tal do “respeito e autoridade” dos pais, outro argumento muito usado pelos opinadores de plantão. A pessoa que tem a “autoridade” de ditar as regras é percebida, quando essas regras são justas, coerentes e objetivas, como aquele que detêm o poder e que deve ser respeitado. De novo, essa autoridade nunca será alcançada do-dia-pra-noite, e é óbvio que só dar regras coerentes não torna uma pessoa instantaneamente um boa fonte de regras. Mas se não suficiente, pelo menos é necessário. Pesquisas têm mostrado que, em se tratando de educação de crianças, a coerência e a constância entre comportamento inadequado e punição justa surte mais efeitos positivos e duradouros do que o tipo e o grau de violência da punição em si.

É claro que há também muitas pesquisas indicando que punições físicas funcionam e há muitas pessoas minimamente “estudadas” que apóiam a pedagogia da palmada (entre eles o Içami Tiba). Quem tiver curiosidade de conhecer estudos contra e à favor da punição física/corporal, dê uma olhada na (maravilhosa!) tese do Cristiano da Silveira Longo, disponível on line: “A Punição Corporal Doméstica De Crianças E Adolescentes: O Olhar De Autores De Livros Sobre Educação Familiar No Brasil (1981-2000)”. Infelizmente nenhum dos argumentos a favor da punição física me convenceu, porque eu não vi dados experimentais que digam que métodos de punição corporal sejam mais eficientes do que outros métodos de punição mais brandos e não físicos. E, principalmente, nenhum mostrou que NÃO há efeitos colaterais da punição física a longo prazo.

Em se tratando de formação de seres humanos, minha humilde opinião é de que É MELHOR NÃO ARRISCAR.

 

Referências:

Longo, C.S. (2005). Ética disciplinar e punições corporais na infância. Psicologia USP, 16(4), 99-119.

Do Carmo, P.H.B. (2009). Práticas Educativas Coercitivas E Crenças Sobre A Coerção Em Mães De Diferentes Níveis Socioeconômicos. Tese de Doutorado. Universidade Federal da Bahia.

FLYNN, C.P. (1999) “Exploring the link between corporal punishment and children’s cruelty to animals” In: Journal of Marriage and the Family. Nov; Vol 61(4): 971-981.

STRAUS, M.A., MOURADIAN, V.E. (1998) “Impulsive corporal punishment by mothers and antisocial behavior and impulsiveness of children” Behavioral Sciences and the Law. Sum; Vol 16(3): 353-374.

Outros artigos bacanas sobre o assunto:

Tapinhas Machucam Sim. (Lidia Natalia Dobrianskyj Weber – Universidade Federal do Paraná)

O Comportamento Violento Como Interação Social E Prática Cultural: Uma Análise Comportamental. (Silvia Helena Tomazella e Pedro Bordini Faleiros – Centro Universitário Hermínio Ometto/Uniararas)

Práticas educativas parentais: um estudo comparativo da interação familiar de dois adolescentes distintos. (Ana Paula Viezzer Salvador e Lidia Natalia Dobrianskyj Weber – Universidade Federal do Paraná, Curitiba)

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