A Psicologia da UnB pede SOCORRO!!!

Nos últimos dias os alunos de graduação e de pós-graduação e os professores do Instituto de Psicologia da UnB têm travado uma ingrata batalha para fazer chegar aos olhos e ouvidos de todo o mundo o descaso com que a Educação e a Ciência são tratadas aqui pela Ilha de Vera Cruz. O caso é que os Laboratórios, salas de aulas práticas e salas dos docentes do Instituto de Psicologia da UnB e do Programa de Pós-graduação em Ciência do Comportamento passam por uma reforma no sistema de circulação de ar desde 2009, que custou já mais de meio milhão (MEIO MILHÃO!!!) e está paralisada por “falhas na execução do projeto”. Ou seja, nossa boa e velha conhecida: INCOMPETÊNCIA ADMINISTRATIVA.

Os próprios alunos gravaram a situação em que se encontram os Laboratórios de Pesquisa Psicológica Básica (PPB):

Recebi hoje do Gleiton Azevedo, aluno da pós-graduação, uma carta-aberta do Instituto de Psicologia da UnB. Reproduzo aqui, na íntegra:

“SOBRE O DESMONTE DOS LABORATÓRIOS DO IP: O PPB PEDE SOCORRO

Os Laboratórios de Psicobiologia e de Análise Experimental do Comportamento do Departamento de Processos Psicológicos Básicos (PPB) do Instituto de Psicologia da UnB estão desativados para reforma desde 20 de outubro de 2009.
Esse espaço inclui salas de aula e de coleta de dados de pesquisas, que atendem a 300 matrículas de alunos de graduação e 130 de alunos de mestrado e doutorado por semestre letivo, bem como as salas de 75% dos docentes do Departamento. Trata-se de uma reforma com o único objetivo de substituir o sistema de ventilação de ar, com previsão inicial de duração de três meses.
Após 19 meses do início da obra e quatro anos desde o início de seu projeto, as condições atuais do subsolo são piores do que antes da reforma, pois não há, nos biotérios, nas salas de coleta e nas salas de trabalho dos docentes nenhum sistema de ventilação natural ou artificial.
Em consequência desse transtorno:
(1) diversas pesquisas de docentes do PPB, com e sem financiamento formal, não estão sendo realizadas;
(2) as aulas práticas que ocorrem nesses locais estão sendo substituídas por outras atividades que não correspondem em conteúdo e eficácia às práticas planejadas para ocorrer nos laboratórios, com conteúdo insuficiente à formação básica de futuros psicólogos;
(3) os projetos de alunos de mestrado e doutorado não estão sendo desenvolvidos, levando muitos alunos a perderem os prazos de seus cursos ou pedirem prorrogação;
(4) em função da suspensão das pesquisas, a produção científica dos docentes e discentes do PPB diminuiu;
(5) em função da redução na produção, a avaliação do Programa de Pós-graduação do PPB teve seu conceito diminuído;
(6) em função da diminuição do conceito o programa terá prejuízos financeiros e no número de bolsas de pós-graduação;
(7) 75% dos docentes estão sem gabinete para trabalhar em ambiente salubre e alguns estão ocupando suas salas em condições insalubres, com prejuízos potenciais à sua saúde pessoal e de outras pessoas que frequentam tais ambientes;
(8) os servidores que trabalham nesses locais estão com suas atividades fins suspensas, mas continuam recebendo seus salários;
(9) equipamentos adquiridos para modernizar o laboratório estão envelhecendo e estragando nas caixas, sem uso; e
(10) o fechamento de laboratórios por tão longo período desmontou grupos de pesquisa e linhas de pesquisa construídas nas últimas décadas.
O Departamento e o Instituto de Psicologia têm apelado para todos os possíveis responsáveis, como Prefeitura da UnB, CME, CEPLAN, Decanato de Pesquisa e Pós-graduação, Vice-reitoria, sem cansaço, através de muitos telefonemas, mensagens eletrônicas, memorandos, reuniões e audiências, mas até o momento não existe qualquer previsão concreta de solução e término da obra. Iniciamos esta semana um movimento de conscientização do IP sobre os danos que esta demora está causando ao curso de Psicologia, para seremos ouvidos com a devida atenção e urgência que o caso requer.
Precisamos de ações URGENTES.
Cansamos de promessas! Nossos alunos de graduação e pós-graduação merecem a formação de qualidade que a UnB e o Reuni dizem ter como missão. Docentes e funcionários precisam dos seus espaços de trabalho e de pesquisa.Contamos com seu apoio.”

O assunto já deu uma rodada em alguns telejornais locais, mas é preciso MUITO mais barulho. Aqui, links para as notícias que saíram hoje:

http://g1.globo.com/videos/distrito-federal/v/alunos-da-unb-reclamam-da-falta-de-laboratorios/1523429/#/DFTV1/page/1

http://recordbrasilia.com/signet/site/videos/visualizar/551

E, para provar que a galera por lá está mesmo absolutamente desesperada, um vídeo-protesto com a paródia da música-chiclete “Oração”. Só tando muito no aqüenda pra cantar qualquer coisa parecida com aquele verme-de-ouvido, mas até que ficou bunitinhu

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Alguns limites. (Ou: como não explicar o massacre de Realengo.)

Dois dias ouvindo opiniões de psicólogos das mais diversas orientações, psiquiatras, psiquiatras forenses, representantes religiosos, profissionais de segurança, analistas diversos e opinadores-sobre-todos-os-assuntos. Além da óbvia indignação pela quantidade de bullshit dita na maioria dos telejornais, dos pseudo-noticiários e dos programas vespertinos… um monte de dúvidas.

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Todo mundo quer uma explicação, um motivo, uma causa certa e determinante para o comportamento do atirador que entrou na escola de Realengo e matou 12 crianças, feriu mais uma dezena delas e depois cometeu suicídio quando confrontado com um policial. O que ninguém quer ouvir é um claro e sonoro “não sei”. Como se, a um dito “especialista”, fosse vetada qualquer expressão de dúvida, de limitação das teorias explicativas. Um “psi” (ou “AS” psi) tem que ter uma explicação e uma solução.

Sinto informar: NÃO SEI. E digo mais: NÃO SABEMOS. E afirmo categoricamente: NINGUÉM SABE. Não mesmo. Nem os especialistas do Jornal Nacional, da Discovery, do Datena, e nem ninguém sabe, realmente, as razões que levaram à tragédia no Rio de Janeiro. Temos, no máximo, um levantamento de hipóteses explicativas, algumas mais palusíveis do que outras e diversas delas excludentes entre si.

Vejam, o assassino está morto. Ninguém mais pode examiná-lo, entrevistá-lo, observar seus comportamentos, avaliar suas funções cognitivas e sua saúde mental. Não há mais como levantar hipóteses funcionais testáveis para seu repertório comportamental, a não ser aquelas baseadas em relatos de outras pessoas, agora todos enviesados pelas informações da imprensa e pelas regras morais e religiosas de cada pessoa que foi, um dia, testemunha do comportamento do atirador.

Isso não quer dizer que a gente não deve procurar as possíveis causas do acontecido. Mas é um alerta para que não compremos qualquer discurso sobre o fato como verdadeiro, único, definitivo. Por exemplo, a explicação causal da “doença mental” do atirador. Sim, dado que seja confirmada a informação de que a mãe biológica sofria de esquizofrenia, há uma grande PROBABILIDADE de que ele também fosse portador desse transtorno. Quando um parente em primeiro grau (pais ou irmãos) apresenta o diagnóstico da doença, a probabilidade de que o indivíduo também seja suscetível à doença é cerca de 10% maior do que a probabilidade de uma pessoa sem histórico familiar ser suscetível à esquizofrenia (Kendler & Walsh, 1995).

Mas não há (pelo visto, nunca houve) o diagnóstico da doença. E ela não pode ser tomada como EXPLICAÇÃO do comportamento violento. A taxa de prevalência da esquizofrenia entre a população mundial é de 0,92% para homens e 0,9% para mulheres, segundo a OMS. (A prevalência é a medida da proporção de indivíduos que apresentam um determinado transtorno no momento da avaliação). E a incidência desta doença, ou seja, o número de novos casos que se verificam anualmente, oscila entre 7 e 14 em cada 100 mil habitantes, com idades compreendidas entre os 15 e os 54 anos (Mari & Leitão, 2000). Entre os sintomas marcantes da doença estão delírios de grandeza, delírios persecutórios e alucinações, além de retraimento social e o tal do “afeto embotado”, ou seja, a incapacidade de sentir afeto, ou seu oposto, a exacerbação dos sentimentos de afeto por uma ou algumas pessoas. Mas o que deve ser especialmente destacado é que, entre pessoas com doença mental como esquizofrenia, transtorno bipolar e outras psicoses, apenas 6,4% pode se tornar violenta e cometer crimes, principalmente quando a doença é associada ao uso de álcool e de drogas. Os outro 93% não se comportarão agressivamente. Só para ter uma comparação, entre as pessoas que fazem “apenas” uso abusivo de álcool, o nível de violência e agressividade é de 10% (Hodgins, Mednick & Brennan, 1996).

Além disso, o conteúdo das alucinações e delírios do doente será diferente em cada caso, a depender das experiências de vida, do ambiente em que a pessoa vive, da presença ou ausência de tratamento, de inúmeras variáveis que não estão mais ao alcance do conhecimento daqueles que se arvoram a “analisar” o criminoso. A história de interações do atirador com seu ambiente físico e social é mais determinante de seu comportamento do que o fato dele ser ou não doente mental, porque é dessa experiência que ele tira o repertório para constituir o delírio e as alucinações.

Então, ao invés de continuar procurando “motivos” na doença mental, que tal começar a verificar quais as condições de vida dessa pessoa? Como foi sua interação familiar? O que ele viveu quando estava na escola? Qual a rede de suporte social que estava presente durante sua vida? Havia uma rede de suporte social para esse indivíduo?

É, minha gente, o buraco é BEM mais embaixo.

Referências:

Mari, J.J.; & Leitão, R.J. (2000). A epidemiologia da esquizofrenia. Rev. Bras. Psiquiatr., 22 (1). ISSN 1516-4446.

Kendler, K.S.; & Walsh, D. (1995). Gender and Schizofrenia: Results of an epidemiological-based family study. The British journal of Psychiatry, 167, 184-192.

Hodgins, S.; Mednick, S.A.; Brennan, P.A. (1996). Mental disorder and crime. Evidence from a Danish birth cohort. Arch Gen Psychiatry 53, 489-496.

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