Fofura no dos outros é refresco…

"I want a pocket Martin!" *

Se toda vez que você vê um gatinho, um cachorrinho, um bebezinho, ou – meu mais novo objeto de desejo – um porquinho-espinho pigmeu, você tem reações como “awwwwwwwwwwwwwwwnnnnn” ou “AIMEUDEOSDOCÉLQUECOISAMAISFOOOOOOFA!!!“, saiba que você não é esquisito, nem fresquinha, nem isso aí que está pensando no caso de você ser do gênero macholino. Óquei, pode ser que você seja um pouco chiliquento, mas a reação de certa adoração e vontade de apertar, agarrar e amar coisinhas que, mesmo remotamente, lembrem bebês humanos é um traço selecionado do repertório comportamental da nossa espécie.

Olhos grandes, cabeça desproporcional ao corpo, descoordenação motora e membros curtos são sinais encontrados em “bebês” de quase todas as espécies. Quando essas características são mantidas na fase adulta do organismo, chamamos esse fenômeno de neotenia.

Entre as vantagens evolutivas de se manter traços neotênicos durante a fase adulta estão: angariar maior atenção dos indivíduos “cuidadores” e evitar ações agressivas. Espécies consideradas “fofinhas” correm menor risco de extinção simplesmente porque nós, humanos, as transformamos em animaizinhos de estimação (gatos, cachorros, tartarugas, porquinhos da índia, hamsters, e por aí vai a coisa); ou porque tornam-se objeto de adoração, como no caso dos pandas, ursos polares e coalas.

Aaaawwwwwwwwwwwnnnnnm...

Mesmo que a gente ache bichinhos fofinhos a coisa mais atrativa do mundo, em alguns casos a neotenia – aka “cuteness” – pode ser contraprodutiva. No caso de seres humanos, pessoas com características neotênicas são percebidas como não confiáveis, submissas, imprevisíveis e sem prioridades. Porém, alguns pesquisadores indicam que a neotenia cognitiva e psicológica (aquilo que chamamos geralmente de “imaturidade”) pode ser vantajosa em determinadas profissões: capacidade de aprendizagem rápida, manter uma atitude aberta, buscar diferentes estimulações e experiências e compartilhar a atenção entre diferentes assuntos e objetos são características importantíssimas encontradas principalmente entre professores, acadêmicos e – pasmem! – cientistas!

So… Da próxima vez que sua Tia Marocas mandar você crescer, diga a ela que sua camiseta do Batman, seus action figures do X-Men e a TARDIS em cima da sua mesa são sinais de competência e não de imaturidade.

* Vou mandar um presente pro comentarista que pegar a referência na foto do porquinho-espinho.

Viciada, eu? (Ainda) não!

A despeito do vários recados que recebo por dia pra sair da internet e ir trabalhar, cá estou novamente estreando (mais) um blog. Dessa vez pelo menos o bichinho é relacionado ao trabalho, portanto espero que parem de me mandar ir fazer alguma coisa mais útil, isto é bastante útil. Aliás, estar na internet é bastante útil pra muita gente, na maior parte do tempo. Mas quando podemos dizer que uma pessoa está “viciada” em internet?

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De modo geral, o que se chama de “vício”, ou adição (tradução feia e porca da palavra em inglês para vício, addiction), de abuso, ou ainda comportamento compulsivo, é todo tipo de comportamento que se repete com uma frequência muito alta, causando problemas para a pessoa. O mais importante na definição de um comportamento abusivo não é a frequência, mas as consequências dessa frequência no funcionamento saudável e desejável e na qualidade de vida do cidadão. Veja a diferença:

  • Maria passa cerca de 12 horas por dia conectada à internet. Maria é consultora de mídias sociais, tem uma vida social saudável, namora, joga tênis nos fins de semana e é vegetariana. Conversa no MSN com a mãe que mora em outra cidade e tem dois blogs. Usa a internet fora do trabalho para ler jornal, comprar livros e DVDs, e algumas vezes sente que ficou tempo demais conectada.

 

  • João passa cerca de 12 horas por dia na internet. João trabalha num escritório de advocacia, liga o computador assim que chega ao trabalho, mas não consegue acessar muitos sites por causa do sistema de proteção da empresa, embora conheça várias maneiras de burlar o sistema. Por isso, quando chega em casa, João se tranca no quarto e fica na frente do computador até o dia seguinte amanhecer. João tem raros amigos, apenas os que conversam com ele no Skype, a namorada o largou, ele costuma comer na mesa do computador e aproveita os fins de semana para ficar ainda mais tempo online. João pensa que o tempo que passa conectado não interfere em sua produtividade.

Olhando assim, fica meio óbvio dizer qual dos dois poderia se encaixar num quadro de “internet addiction”. Ficou claro que o tempo que a pessoa passa engajada no comportamento em questão não é o ponto crítico para o diagnóstico, mas sim as conseqüências que esse comportamento causa na vida dela. Há algum tempo, psiquiatras e psicólogos vêm definido o vício em internet como uma desordem de controle de impulso, como o abuso de drogas e de álcool, mas que não envolve uma substância intoxicante a ser consumida. Além disso, o abuso da internet tem sido relacionado a fracasso escolar, divórcio, problemas de relacionamento familiar, isolamento social e desemprego. E como no caso de alcoólatras (me recuso a usar o termo “alcoólico”, que significa exatamente “aquilo que contém álcool”, e não uma pessoa dependente da substância), quem é adicto à internet não costuma perceber o quanto isso é ruim e está atrapalhando sua vida.

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Mas por que raios alguém poderia ficar viciado em internet? Internet não dá barato, não deixa o nêgo rico (esqueça o Steve Jobs e os caras do Google) e engorda. Mas provavelmente oferece uma boa fuga dos problemas cotidianos e é um lugar legal pra pegar umas minas. É o caso clássico do nerd barrigudinho e branquelo que finge ser o Brad Pitty no Orkut. A internet oferece ao usuário algo que o ambiente natural costuma distribuir muito mesquinhamente, que é o feedback imediato ao que você faz. Acontece que essa recompensa não vem toda hora, ninguém recebe milhares de comentários no blog toda vez que posta, nem é respondido no Twitter 100% das vezes. É como num jogo de apostas, o apostador costuma perder muito tempo e dinheiro para ter a possibilidade de ganhar alguma coisa de vez em quando. Acontece que, tanto o apostador quanto o internet freak não percebem que a quantidade de tempo, dinheiro e esforço gastos são maiores do que os ganhos. Isso, além de todos os ganhos secundários como que o ambiente virtual pode oferecer, como fazer sucesso no Facebook, ter um site bombado, ser o primeiro no ranking do jogo da moda. E todas aquelas chatices das quais a internet te livra, como ler um artigo chatérrimo pra aula de amanhã, tomar um toco do cara gostosão na festa e ter que falar com sua mãe sobre a receita que a Ana Maria Braga deu ontem de manhã no programa de TV. Dá pra entender um pouco porque só os nerds são felizes, heim?

Algumas boas fontes:

Abreu, C.N., Karam, R.G., Góes, D.S., Spritzer, D.T. (2008). Dependência de internet e de jogos eletrônicos: uma revisão. Revista Brasileira de Psiquiatria, 30 (2). [ISSN 1516-4446]

Young, K. (2008). Internet addiction: a new clinical phenomenon and its consequences. American Behavioral Scientist, 48 (4). [DOI: 10.1177/0002764204270278]

Leung, l. (2004). Net-generation attributes and seductive properties of the internet as predictors of online activities and internet addiction. CyberPsychology & Behavior, 7(3). [DOI:10.1089/1094931041291303]

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